Projeto Político
Pedagógico do Centro Burnier
1.
Introdução
O Projeto Político Pedagógico (PPP) é
concebido de forma participativa e coletiva. Graças a participação e contribuição de todas as pessoas que atuam
direta e indiretamente no Centro Burnier, podemos chegar a esta versão do nosso Projeto Político e Pedagógico. O
PPP é entendido aqui como um instrumento de trabalho que guiará nossas ações. Pois, ele estabelece os princípios
fundamentais que inspiram a práxis e as relações sociais, culturais e políticas do Centro Burnier. Ele é o sonho
concebido no presente e encarnado na realidade, que nos mobiliza e orienta nossas ações para o futuro. Futuro
que queremos construir e antecipar no presente. Nesse sentido, o PPP é um projeto inacabado, que estará
continuamente sendo refeito no campo da práxis cotidiana. É um caminho a ser percorrido. Um caminho aberto ao
futuro rico em possibilidades.
O PPP é instrumento de trabalho idealizado
para inspirar a práxis do Centro Burnier. Práxis que parte do presente e se orienta para o futuro sonhado, a ser
construído.
A espiritualidade inaciana é baseada na
experiência pessoal, ou seja, na busca e no encontro pessoal com Deus. Resulta desse encontro o desejo de servir
a Deus e ao outro. Porém, esse desejo de servir não se realiza somente na consciência da pessoa isolada do
mundo, porque, assim, seria pura idealização, senão na sua práxis dentro da história. Nesse sentido, a
espiritualidade inaciana caracteriza-se por ser uma espiritualidade apostólica, situada historicamente, e aberta
para o futuro. O futuro inaciano é uma realidade a ser construída já e a partir do presente. Significa lançar-se
para frente em busca do “ser mais” freireano ou do “magis” inaciano. Contudo, a busca do “ser mais” não se
realiza ao acaso, mas acontece, como real possibilidade, a partir da experiência pessoal ou coletiva do
discernimento.
Discernir, portanto, é uma expressão da espiritualidade inaciana. Um instrumento pedagógico que
entrelaça num ato único o presente e o futuro. “Presente, por saber que o passado não esgota as possibilidades
de Deus [e do ser humano], nem os limita e muito menos os determina, de modo que o presente pode ser a
confirmação, ruptura ou novidade. Futuro porque ele se orienta à ação a ser posta, a uma história a ser criada”
(Revista Magis, no 06-1999).
Dessa forma, PPP e espiritualidade
inaciana se articulam na e pela possibilidade de oferecer meios que irão inspirar a práxis do Centro
Burnier.
Concebemos a pessoa, criada no amor, como
um ser de relações. Ela está no mundo, com o mundo. Enquanto ser no mundo, a pessoa tem suas raízes num
determinado lugar e num tempo específico. No entanto, ela não se reduz aos limites do tempo e do espaço. Ela tem
a capacidade de tomar consciência de sua condição humana, de sua finitude aberta ao contingente e ao
incomensurável e, assim, construir sua própria história.
A possibilidade de construir sua própria
história significa que a pessoa é um projeto divino e humano inacabado, aberta para o futuro, imbuída de valores
e sonhos, com uma história, com uma cultura em diálogo com outras tradições e culturas. Nesta perspectiva, homem
e mulher não nascem prontos. Seu maior desafio, no horizonte histórico-espiritual do mundo, consiste em
tornarem-se humanos.
Dessa forma, a mulher e o homem, seres de
relações no e com o mundo, historicamente situados, por serem inacabados e conscientes de sua inconclusão estão
em constante fazer-se. Esse constante fazer-se necessita de condições psicossociais, pedagógicas e culturais que
possibilitem a autonomia, o comprometimento com o outro, a liberdade, a solidariedade, a capacidade de amar e de
ser amado, de transformar a realidade e de se deixar transformar. Todavia, essas condições não são dadas, mas
devem ser construídas social e historicamente.
Por outro lado, mulher e homem também têm
a capacidade de destruir o mundo e se autodestruir, criando, desse modo, situações históricas que desumanizam
milhões de pessoas no mundo todo. Diante das realidades opressoras que desumanizam homens e mulheres, o que
devemos fazer é lutar de forma esperançosa e crítica pela transformação das estruturas sócio-culturais e
econômicas que geram a opressão e, conseqüentemente, a desumanização.
Para isso, é fundamental a criação de
processos formativos que possibilitem pessoas conscientes de sua condição sócio-histórica, capazes de se abrirem
aos outros e de lutar em favor da justiça e da defesa dos direitos dos mais pobres e manipulados, capazes de se
indignar e de analisar as causas profundas da exclusão e enfrentar de forma criativa as forças que subjugam a
vida. Pessoas dispostas a participar com seu tempo, dons e capacidades, na elaboração e implementação de
projetos que promovam a vida e a humanização.
Vivemos em um momento histórico de
profundas mudanças sociais e culturais, impulsionadas pelas novas tecnologias de informação e reprodução da vida
em sociedade. Paradigmas clássicos que concebiam a pessoa como fim e não meio são substituídos por sistemas
econômicos e políticos que priorizam o acúmulo de capital em detrimento da vida humana, acentuando
dramaticamente as desigualdades sociais e o abismo entre as classes privilegiadas e os empobrecidos. Esta “ordem
das coisas” desfigura e desumaniza o ser humano,
rouba a sua vida e a sua existência, o seu ter e
o seu ser, alienando-o do seu mundo, “tornando-o estranho na sua própria vida”.
A sociedade almejada é aquela capaz de
transcender essa realidade desumanizante e promover novas formas de relação do ser humano consigo mesmo, com os
outros, com o meio ambiente e com o Transcendente.
Nesse sentido, queremos colaborar na
construção de uma sociedade inclusiva, solidária e soberana. Uma sociedade que haja um lugar digno para todos e
todas, sem discriminação de classe social, origem étnica, gênero, religião, idade, condição física ou mental;
uma sociedade que estimula a participação e o protagonismo popular; que fomenta processos emancipatórios e
transformadores; que seja profundamente democrática, respeitosa e incentivadora do exercício da cidadania; uma
sociedade que acolhe e aprecia a diversidade da experiência humana; uma sociedade que possibilite a
democratização e controle social e comunitário dos meios de comunicação social e o protagonismo das comunidades
na produção de sua linguagem, simbologia e comunicação; uma sociedade cuja meta principal é oferecer
oportunidades iguais para todos e todas realizarem sua vocação a ser mais humano, na perspectiva da organização
solidária da economia e da sociedade, que não permita a concentração de riqueza e dos meios de produção e
conhecimento nas mãos de um grupo social.
Queremos, portanto, uma sociedade ética e
responsável, inspirada entre outros pelo ethos cristão, economicamente justa, socialmente eqüitativa e
solidária, politicamente democrática, ecologicamente sustentável, culturalmente plural.
O processo pedagógico não pode ser
reduzido a algumas práticas metodológicas. Deve incluir uma perspectiva de mundo e uma visão de pessoa humana,
uma intencionalidade a se realizar concretamente através de um projeto histórico-político. Dessa forma, a
concepção pedagógica do Centro Burnier elege os empobrecidos como sujeitos históricos abertos à possibilidade de
cultivar a sabedoria popular acumulada secularmente e, ao mesmo tempo, construir novos saberes, base para a
sociedade que almejamos. Denominamos essa concepção pedagógica com o adjetivo popular, nomeando-a como pedagogia
popular.
A Pedagogia Popular é concebida a partir
da articulação de dois paradigmas pedagógicos: o Paradigma Pedagógico Inaciano e a concepção pedagógica de Paulo
Freire.
Entende-se por Paradigma Pedagógico
Inaciano (PPI)o conjunto de valores,
princípios e modos de proceder, inspirados no itinerário espiritual de Santo Inácio, e que hoje se realiza
particularmente no serviço à fé e a promoção da justiça, no diálogo inter-religioso e na atenção à diversidade
cultural (Congregação Geral 34, d.2, nos 18-19). O princípio inspirador do paradigma pedagógico do Centro Burnier é o MAIS
(MAGIS) que busca o desenvolvimento global da pessoa, o ser humano em sua totalidade, conduzindo-o para a
realização do melhor serviço aos outros e outras, na prática do discernimento.
A concepção pedagógica de Paulo Freire
traz presente a preocupação com a existência do ser humano no mundo e a sua vocação de se tornar mais humano.
Desse modo, a ação educativa libertadora deve possibilitar a humanização do ser humano e do mundo. Assim, a
permanente busca pela humanização é a grande tarefa que a sua pedagogia propõe aos seres
humanos.
Destacamos duas características que
articulam a pedagogia inaciana e pedagogia freireana: conceito de pessoa humana e o ponto de partida. Ambos
entendem que a pessoa deve ser sujeito de sua história e de sua vida, criando, no processo educativo, a
humanização.
O ponto de partida do processo pedagógico
é a vida da pessoa e o contexto sócio-histórico em que ela se encontra. A partir do reconhecimento consciente do
contexto em que vive, a pessoa deve agir no sentido de transformar a realidade que a envolve. Para Freire, o
processo educativo deve ser humanizador e libertador. Para Inácio, igualmente, o processo pedagógico intrínseco
aos Exercícios Espirituais deve levar o exercitante a libertar-se de afetos desordenados que o aprisiona e
limita sua vida e suas relações com o outro.
As duas propostas pedagógicas, portanto,
destacam a centralidade da pessoa humana no processo educativo. Freire crê firmemente numa vocação ontológica do
ser humano a ser mais; Inácio, por sua vez, procura o magis. O “mais e melhor em todas as coisas”, segundo Inácio, considera também a
possibilidade de se conter no mínimo - nas pequenas coisas da vida cotidiana - e não apenas a possibilidade
do máximo idealizado. Ser mais na perspectiva itinerante e contingente da vida. Nesse caso, o Magis e o sonho
de humanização não podem ser confundidos com o desejo capitalista de consumo.
1) Atitude
dialógica
Princípio
O fundamento do processo pedagógico é
uma atitude dialógica que é, antes de tudo, uma atitude de amor e de aposta no ser humano, no seu potencial e
poder de fazer e de refazer, de criar e de recriar, de humanizar e de se humanizar. Pressupõe “estar mais pronto
a salvar a afirmação do seu próximo do que a condená-la” (EE 22).
Diretriz
Trabalhar em parceria com instituições
afins, estabelecendo uma nova articulação em rede, para a transformação mais ampla da
sociedade.
Articular e construir processos formativos
que contribuam para explicitar as diferentes visões de mundo e de ser humano.
2) Aprender a discernir
Princípio
Discernir é a capacidade de tomar decisões
e assumir atitudes diante de todas as situações da vida do sujeito e dos grupos participantes. Nas decisões o
ser humano se constitui como pessoa humana e os grupos definem sua identidade coletiva no decurso histórico. O
discernimento é um instrumento iluminador do processo, pois pelo discernimento se saberá das verdadeiras moções
que movem uma decisão e as respectivas atitudes a serem tomadas.
Diretriz
Criar um ambiente e um processo formativo
que favoreça o protagonismo das pessoas, tornando-as capazes de discernir, de se autodeterminar, de amar e tomar
decisões com liberdade, de dar o melhor de si na criação de um mundo mais humano e humanizador para si e para os
outros. Tal processo formativo deve pautar-se pelo discernimento, reflexão e pela avaliação pessoal e coletiva
da práxis.
3) Aprender a conhecer
Princípio
O conhecimento deve ser visto como algo
multidisciplinar, transversal, aberto e global, a ser construído e reconstruído, vivenciado e amado. Conhecer é
mais do que adquirir conhecimentos e domínio técnico. Conhece-se na medida em que este conhecimento se torna
vivencial e se traduz em humanidades.
Diretriz
Promover processos formativos que
favoreçam o respeito e o contato com diversos saberes, a mútua criação, vivência, socialização e partilha, a
libertação integral e a realização das potencialidades da pessoa.
Assegurar, nos diversos processos
formativos, uma metodologia que faça o movimento de partir do local, relacionando-o aos níveis macros de
compreensão da realidade, articulando estudo da realidade, aprofundamento teórico, aplicação do
conhecimento.
4) Aprender a fazer
Princípio:
O processo de formação deve desenvolver a
capacidade de articular dialeticamente conhecimento e prática, saber e agir. Nesse processo, a pessoa não é
objeto, mas o sujeito.
Diretriz:
Criar dinâmicas metodológicas que
favoreçam o aprender fazendo, ajudando a pessoa a verbalizar e socializar seu conhecimento.
5) Aprender a conviver
Princípio
O processo de formação supõe a atitude de
diálogo e de abertura para inspirar uma convivência respeitosa com o diferente em todas as relações. O lugar de
aprender a viver junto e com os outros é o contexto histórico no qual estamos inseridos.
Diretriz
Vivenciar novas práticas, posturas e
valores nas relações de poder, de gênero e de etnias, favorecendo o crescimento personalizado, aberto para o
coletivo e ao Transcendente.
Comprometer-se com as discussões e articulações que contribuam para a construção do poder
popular.
6) Aprender a ser
Princípio
O ser humano é ontologicamente vocacionado
a ser mais (magis inaciano). Ou seja, a ser mais humano. A permanente busca pela humanização do ser humano e do
mundo é a grande tarefa que propõe o processo pedagógico do Centro Burnier.
Diretriz
Criar um ambiente humano e humanizador,
promotor da vida, da cidadania e da justiça. Um lugar de mulheres e homens que se reconhecem “amigas e amigos no
Senhor”, capazes de partilhar seus dons, dispondo-os a serviço do crescimento coletivo e
participativo.
Criar condições e contribuir com a
formação de sujeitos comprometidos, coerentes, éticos, ativos no processo de transformação da
realidade.
7) Em tudo amar e servir
Princípio
Não são as nossas palavras que demonstram
amor e sim as nossas ações. Todo processo pedagógico, bem como os serviços e relações que dali decorrem devem
estar orientadas pelo amor. Pois queremos amar o Senhor em todas as situações e em todas as situações amar o
Senhor.
Diretriz: Vivenciar a espiritualidade inaciana, pois ela nos impulsiona e
nos dá identidade.
A ação pedagógica é compreendida a partir
de “Momentos”
[1] que articulam e
integram um processo pedagógico e epistemológico
[2] que parte da vida
e contexto sócio-histórico do ser humano:
a. Olhar o contextoonde as pessoas vivem e como se relacionam;
b. Viver neste contexto proporciona experiênciasas quais provocam reações que marcam as relações e a convivência
entre as pessoas.
c. Pela reflexãosobre o contexto busca-se compreender as razões que causam as
experiências e apontar um plano de ação.
d. A partir de um plano de
ação, concebido à luz da reflexão, propõe-se intervir na reconstrução do
contexto.
e. Pela avaliação verifica-se a eficácia do processo e abre-se para um novo processo
de ação (novo contexto, nova experiência, nova reflexão, nova ação e nova avaliação...).
Seguimento de Jesus Cristo, em seus gestos, palavras e ações.
Sensibilidade para as necessidades das pessoas.
Respeito e acolhida às diferenças culturais das pessoas e grupos com os quais nos
relacionamos.
Abertura para o diálogo intercultural e inter-religioso.
Discernimento pessoal e coletivo.
Co-responsabilidade.
Atitude de escuta ativa.
Transparência.
Reconhecimento e apoio às iniciativas e lutas populares.
Relação de respeito e valorização do meio ambiente.
Aprender com o outro, na partilha de vida e no serviço.
Valorização da dimensão mística e celebrativa da vida.
Os princípios orientadores de nossas
relações, opções e ações são a pedagogia popular e a espiritualidade inaciana, o serviço da fé e a promoção da
justiça. A partir desta identidade própria nos relacionamos e nos articulamos com outras instituições da
sociedade civil e organizações religiosas que partilham também o sonho de construir um projeto de sociedade com
a participação efetiva do povo brasileiro, justo, solidário, democrático, plural, ecologicamente sustentável,
inspirado entre outros no ethos cristão.
Coerentes com o princípio da
co-responsabilidade, o nosso modelo de organização quer favorecer a participação efetiva das equipes e dos
colaboradores na gestão do Centro.
O trabalho em equipe e o discernimento
orientam nossas ações.
O diálogo, a capacidade de viver juntos, a
atenção e o cuidado do outro, nas suas diferenças e riquezas, como companheiros e companheiras de Jesus,
inspiram nossas relações interpessoais.
A relação entre as duas áreas de
intervenção – Espiritualidade Inaciana, Cidadania e Assistência Social - e seus respectivos programas de ação,
sejam complementares, favorecendo o intercâmbio de experiências e a ajuda mútua. Desse modo, podemos partilhar
as conquistas e as dificuldades, fortalecendo-nos mutuamente.
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