MÓDULO II – DISCERNIMENTO
Textos para a Oficina de 20 de fevereiro 2010
SABER ESCOLHER A ARTE DO DISCERNIMENTO*
São as decisões que fazem o homem. Formam sua
personalidade,
definem seu caráter e integram sua vida. Idéias, estudos, leituras, afeições também influenciam e exprimem
até certo ponto o que a pessoa
é; mas a base da pessoa são
suas decisões, suas determinações, o que
faz com sua vida ao escolher o caminho dia após dia, ao
rejeitar alternativas e avançar na rota. Escolher é viver e decidir-se é
definir-se. Em
última instância, sou o que são as minhas decisões, e por isso quero
saber detalhadamente quais são e como as tomo; quero saber se minhas
decisões são realmente minhas ou se são puro arremedo e imitação
daquilo que os outros fazem, ou submissão ao que os outros me
disseram que faça. O importante
na vida é o ato humano,
a entrega pessoal, a livre
eleição. Nunca sou mais eu do que quando me ergo
sereno no meio da vida, avaliando
o horizonte em volta com o olhar,
examinando cada verdade e esquadrinhando cada paragem. Dessa forma, sinto em meu rosto o chamado dos ventos e em
meus olhos o
desafio das cores, deixo surgir dentro
de meu ser pacificado e alerta a
opção que minha alma, meu corpo e tudo o que sou construíram na
democracia espontânea de minhas entranhas, e ponho-me a
andar com
passo firme e coração alegre na direção inédita do
momento presente,
seguro de mim mesmo e atento aos ruídos da selva diária e
as mudanças
de direção que irão surgindo durante a jornada. Saber a cada momento
o que quero, e fazê-lo, é a essência da vida. O caminho se define
por suas curvas, e o
homem por suas decisões. Elas marcam
a meta.
No vasto terreno da ação moral, sei muito bem o que
espera de mim,
e me esforço por fazê-lo. Mas afora esses
imperativos morais, para além do
permitido e do proibido, acima de castigos e recompensas, fica um
terreno imenso de opções neutras de mil decisões diárias grandes e
pequenas em que ambas as alternativas são válidas e legais,
e eu tenho de escolher uma e
deixar
outra Qual das duas? Quem me
guia ali? Como
decido
entre ler um
livro, empreender uma viagem
ou aceitar um
convite?
Para apreciar mais
o caminho autêntico e a validade essencial
dos verdadeiros caminhos do
discernimento, basta fixar-se
por um momento em outros caminhos mais ou menos
desviados, mas não
menos freqüentados pela
humanidade desejosa de saber o que
é
que
deve fazer e o que é que vai acontecer.
Mesmo a predição do futuro, ocupação
tão ancestral quanto moderna na cândida lentidão de dados, cartas búzios e
entranhas de pássaros, é uma
tentativa mais do que grotesca de
saber
de antemão
o que vai acontecer, isto é, o
que vai
fazer com o mundo, e comigo que estou nele, e como
conseqüência adaptar sabiamente
minha conduta à corrente dos fatos
antecipados. As pessoas querem
saber o futuro para pôr em ordem seu presente,
querem saber o curso dos astros
para ajustar o de suas próprias vidas.
Saber o que vai acontecer, saber o que devo fazer, saber, adivinhar,
antecipar... esse é o desejo inato, a necessidade radical do ser
consciente que sofre ao se decidir e quer que lhe facilitem as opções. Os
astrólogos podem permitir-se o luxo de cobrar honorários bem altos.
Na Índia, é crença popular que as suturas em forma de crista de
cordilheira entre os ossos do crânio são a escritura hieroglífica que
contém em chave a história cifrada do dono do crânio desde seu nascimento até sua morte. Claro
que ninguém tem a chave para
decifrar
a mensagem e, de todo modo, o escrito original permanece sabiamente oculto até a
decomposição da tumba, quando o interessado já está bem morto e o futuro se tornou inevitavelmente passado. É assim que astrólogos e adivinhos se protegem dos
fatos e evitam críticas, enterrando evidências. O negócio tem
de continuar. As linhas da palma da
mão (a esquerda ou a direita, segundo diferentes
especialistas) são mais fáceis de observar,
e conseqüentemente geraram uma copiosa bibliografia e proporcionaram meio de
vida a comerciantes decididos, em todas
as épocas e lugares, desde o cigano
que tira a sorte até o quiromante
profissional em seu escritório
esotérico. A linha da vida na minha mão direita diz que vou viver 92 anos, com uma crise de saúde aos 79, e o ponto alto de minha existência
aos 74..., isto segundo um amigo meu que entende de
mãos e se prestou a
interpretar a minha sem cobrar nada. Pelo contrário,
segundo outro, que também entende
e que insistiu em examinar
várias vezes minha mão com uma expressão de surpresa no rosto, eu
deveria ter morrido há muito tempo. Explicou-me, um tanto embaraçado,
que havia dois sistemas de interpretar as linhas da mão, com
resultados às vezes opostos. Outra
escapatória. O curioso é que, apesar
de um conflito tão evidente, de minha própria tendência racionalista
e de meu total ceticismo em matéria
de astrologia, futurologia, quiromancia e
magia negra, cheguei a dar como certo que vou viver 92 anos, como se fosse um artigo de fé em revelação privada e
imutável.
É possível que isso seja projeção de meu desejo de viver muito, e talvez
seja também um resquício irracional da tendência latente que todos
temos de acreditar nas ciências ocultas. Tenho amigos religiosos que
não deixam
de ler todas as semanas seu horóscopo e, o que é pior, os
dos outros, e
de brincadeira ou a sério interpretam os acontecimentos da semana à luz dos
astros. É um tema divertido para
conversas... e um resquício para entrever o fundo de superstição que se
aninha na alma humana por baixo
da lógica, da razão, da convicção e da fé.
Somos
todos mais profundos do que parecemos.
Há um método bem conhecido, primitivo e universal
no tempo e no espaço, que o homem em sua ingenuidade usou tradicionalmente
para averiguar a verdade na hora ou momento de dúvida, tirar a sorte.
Nós nos tornamos indignos quando pretendemos que
outros tomem em nosso nome decisões vitais que nós mesmos deveríamos tomar.
* Recortes do livro de Carlos G. Vallés, Saber escolher a arte do discernimento. São Paulo : Ed. Loyola, 1992, realizado por Jair José Schuh.