MÓDULO I – Espiritualidade
Textos para a Oficina de 07 de novembro de 2009
SÍNTESE DA
HISTÓRIA DA
ESPIRITUALIDADE CRISTÃ
MATIZAÇÕES DA EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL
MONDONI, Danilo. Teologia da Espiritualidade Cristã. São Paulo :
Loyola, 2000.
Espiritualidade cristã indica vida no Espírito Santo. Alguns
a consideram como tentação, como evasão, pois o cristão de
hoje está mais preocupado com a encarnação no mundo, com
o
compromisso de tornar a sociedade mais justa e humana. No
entanto, a história da espiritualidade
cristã demonstra que tais atitudes sempre estiveram presentes na vida
cristã.
O testemunho dos
cristãos não se esgota nos grandes santos, mas abarca todo o povo de Deus.
As fontes da espiritualidade — experiências íntimas e manifestações
religiosas — são múltiplas: tratados, sermões, homilias, catequeses,
comentários à Escritura, vida cotidiana do povo — crenças e práticas
religiosas.
A) ESPIRITUALIDADE BÍBLICA: EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL
DO
ANTIGO E DO NOVO TESTAMENTO
A Escritura, contrariamente à imposição de uma leitura espiritual do texto bíblico, projeta e promove uma experiência
vital e espiritual: a Palavra de Deus tem a autoconsciência de ser produtora de espiritualidade, de existência, de interioridade. Ela se apresenta como texto espiritual, gerador e guia da experiência espiritual.
Para a Escritura a experiência espiritual não é uma experiência
sobre Deus, mas de Deus: há um a priori absoluto e gratuito de Deus,
uma irrupção e ação eficaz que parte da
transcendência divina e penetra na trama histórica; Deus é o
primeiro e o último de toda espiritualidade.
À epifania de Deus corresponde a acolhida do ser humano, e nesta relação
entre graça e fé, transcendência e finitude, eterno
e tempo, floresce o diálogo místico.
A experiência espiritual é dinâmica e envolve o ser humano
todo; a espiritualidade gerada pela graça e pela fé abre-se à
moral, às leis, às obras, e ao culto, pois não é intimista, mas
nutre-se da vida
cotidiana e se expande nas direções teológicas vertical e horizontal.
a.1)
Espiritualidade do Antigo Testamento: as espiritualidades da Torah,
profética, dos Salmos, e sapiencial
O Deus transcendente, embora permanecendo o Outro, revela-se na
variabilidade do devir histórico e é intuído ao
interno de
determinadas realidades histórico-cósmicas.
Espiritualidade da
Torah
A Torah é a forma concreta da salvação, sua materialização,
sua imersão na consistência do tecido social; é o contramundo de Deus que se
eleva ante as sociedades do mundo estruturado a partir do pecado.
Determinadas particularidades da forma da
Torah foram repensadas com o passar do tempo, para que a
vontade social de Deus em relação a seu povo mantivesse sua identidade.
A tradição javista (Gn 2-11) exalta a função decisiva da graça
e a liberdade do ser humano diante do conhecimento do bem e
do mal. A eloísta (Gn 15,1-6 e sobretudo a partir do cap. 20) é
sensível à dialética da fé, que procede oscilando entre luzes e
sombras, e dá relevo ao tema do temor de Deus. A sacerdotal
delineia um quadro rigoroso do hebraísmo, ancorando-o na terra prometida, à
qual deve retornar e viver, insistindo nos temas da observância das normas
litúrgicas e sociais da Torah.
No Tetrateuco encontra-se uma estrutura dialógica expressa
pela categoria bent (aliança): primado divino e obediência do
ser humano; este responde com a fé, com o diálogo — que é
empenho existencial — e com a adesão cúltica da circuncisão
e da liturgia.
A sacralidade litúrgica permanece como fonte viva de espiritualidade, sendo
celebração simbólica da transcendência de Deus e também de seu comunicar-se.
A área espacial sacral é tenda da aliança, isto é, lugar do encontro livre
entre duas vontades, e não
espaço sacro
mágico. Deus, ser humano e mundo se encontram
sem que nenhum vértice seja absorvido ou anulado.
A espiritualidade deuteronomista é histórica e narrativa: Deus e o ser
humano se encontram vivendo a mesma existência;
à presença espacial Deus opõe o tempo como lugar privilegiado
para sua epifania.
Espiritualidade profética
O profeta exalta a
fidelidade à revelação intra-histórica de
Deus. Sua missão consiste em comunicar a palavra de Deus
para coordenadas históricas bem precisas. Reage contra as
degenerações sacrais, objetivando a recuperação da dimensão
ética do culto.
A espiritualidade profética une intimamente céu e terra,
Deus e ser humano,
fé e vida, mística e justiça social.
Espiritualidade
dos Salmos
Os Salmos são a oração de Israel. Uma corrente anônima
de poetas é a imagem mais realista sobre os autores de tais
peças. As várias circunstâncias da vida e da história explicam a variedade
de suas formas: hinos de ação de graças, súplicas,
ato de confiança, salmos régios, penitenciais, meditações.
O Deus que aparece nos salmos é um Deus pessoal. A
relação interpessoal é expressa por símbolos — sede e fome
exprimem os desejos da alma em relação a Deus; rocha e fortaleza
significam a proteção divina. O tempo é posto sob o
signo de Deus, a história invade a oração, e as súplicas traduzem
a espiritualidade do sofrimento, do silêncio, do mal. O
criado se transforma em palavra de Deus, o espaço cósmico e
a história são celebrados como áreas nas quais Deus se revela.
Espiritualidade sapiencial
A espiritualidade se desloca para novas direções, atentas
não mais aos grandes eventos salvíficos, mas às epifanias divinas
secretas no cotidiano e na natureza.
A trama das relações Deus-ser humano, ser humano-próximo,
ser humano-mundo, é o âmbito no qual atua o projeto da
sabedoria. O ser
humano infringe-a e constrói um projeto de anti-sabedoria.
É um convite a não cair na loucura do pecado (retribuição
imanente) e um apelo a valorizar toda realidade humana e
terrestre numa perspectiva encarnacionista.
a.2) Espiritualidade do Novo Testamento: as espiritualidades de
Jesus (sinóticos)
e da comunidade cristã, paulina, joanina, de Hebreus e do Apocalipse
As raízes da espiritualidade cristã fundam-se no AT — continuidade —, mas
também configuram uma descontinuidade.
Não foram os cristãos que criaram o conceito de nova aliança,
mas o profeta
Jeremias (Jr 31,31-34), ou um dos redatores
deuteronomistas desse livro homônimo.
Segundo a interpretação desses
redatores, Israel já recebe o dom da nova aliança em
sua história pós-exílica, e, desde que
não volte a pecar, já está na
nova aliança; para os autores do NT essa promessa, em toda
sua profundidade e radicalismo, somente
encontra cumprimento no messias Jesus e nos que crêem nele. Para o NT o
sermão da montanha pretende ser
a interpretação escatológica e a radicalização da Torah.
Espiritualidade de
Jesus (sinóticos) e da comunidade cristã
Temas capitais da pregação de Jesus e da Igreja primitiva: o
Reino de Deus (iniciativa de Deus e colaboração humana) ou
projeto salvífico; a ressurreição de Cristo (evento pascal) ou
horizonte escatológico, como negação das tendências materialista
e espiritualista (dizer que Jesus ressuscitou é afirmar que um ato
escatológico meta-histórico foi posto no tempo); a oração.
Programa espiritual de Atos 2,42: catequese (didaché) ou
formação cristológica, koinonia ou concórdia, fração do pão ou
elo entre liturgia
e vida, e oração.
Espiritualidade
paulina
O ponto de partida é a revelação do amor de Deus
À iniciativa de Cristo corresponde uma transformação do
sujeito (nova criatura): torna-se filho, no Filho; o "em Cristo" é
o âmbito vital do cristão. A relação com Cristo produz uma
ética nova regida pela lei do Espírito. O crescimento pessoal a
que Deus chama o ser humano se obtém pelo uso responsável
da liberdade, guiada pelo amor. A ascética é importante para
renovar o ser humano. O resultado da renovação efetuada por Cristo é a nova
qualidade das relações humanas: o desaparecimento
das barreiras entre os seres humanos.
Espiritualidade joanina
Espiritualidade trinitária, que tem como ponto de chegada
a participação do fiel à vida divina.
A encarnação é o fundamento constitutivo da salvação e da
experiência espiritual. Deus manifestou seu amor ao ser humano
em Jesus, e por ele tornou possível o amor entre os humanos.
O Espírito Santo é o agente do nascimento do ser humano à vida divina. O
Espírito da verdade é o princípio revelador e
vital da Igreja.
O "ver" é símbolo da graduação da experiência espiritual: uma descoberta
guiada e progressiva, inserida na história, que
é o lugar privilegiado da epifania de Deus.
Hebreus e
Apocalipse
O autor da epístola aos Hebreus utiliza o sistema simbólico
do
sacrifício-sacerdócio para expressar uma realidade existencial:
Jesus morreu como criminoso político, e
nisto não havia idéia de
oferenda a Deus; o sacrifício antigo era uma ação circunscrita ao
templo, e nada disto se verifica na morte de Jesus. Porisso
o autor mostra que o culto a Deus é a própria vida; que
todo esforço religioso da humanidade
era inútil, pois não conseguia limpar o ser humano de seus pecados; e
que o modo de agradar a Deus não são os
ritos religiosos, mas a obediência à
sua vontade, que se manifesta na
entrega por amor até a morte, a exemplo de Jesus (Hb 10,1-10).
Para o livro do Apocalipse há um combate em curso entre o poder político (a
besta, a fera, a capital) e a Igreja cristã. O
drama
contemporâneo não é mais que um episódio da luta mais
vasta
e duradoura entre Deus e Satanás. O autor não pretende
apresentar a sucessão dos fatos até o fim dos tempos, mas dar
uma visão da história. Diante dos acontecimentos de sua época, descobre o
pano de fundo da luta histórica contemporânea e proporciona uma chave de
interpretação para a história em seu
conjunto. A oposição sangrenta do império contra os fiéis de
Cristo não é mais que um episódio da luta mais duradoura que
Deus conduz contra o poder humano orgulhoso. Quer expressar
a vitória de Cristo sobre as potências deste mundo.
a.3) Visão sincrônica da espiritualidade bíblica: lugares, modelos
e figuras da
experiência espiritual
A espiritualidade bíblica integra fundamentalmente quatro dimensões: graça,
fé, moral e louvor.
Uma epifania de Deus está no princípio da experiência
espiritual: há um a priori absoluto de Deus em relação à procura
do ser humano ("Cogitor ergo sum"
de Karl Barth: porque sou
pensado, buscado e amado, posso pensar, buscar e amar: Gl
4,9). A Bíblia é o anúncio contínuo do primado da auto-revelação
sobre a busca, da graça sobre o mérito, do Reino que
acontece por si.
A experiência bíblica parte de uma epifania divina na história
humana. Isto faz com que a história não seja uma nomenclatura
de eventos neutros, mas torne-se história da salvação
escatológica, e que o ser humano seja
sede de uma ação da glória de
Deus. A experiência espiritual bíblica recusa o dualismo platônico e
mantém-se distante do sincretismo gnóstico.
O acontecer da Palavra divina — epifania da Palavra — está na raiz da
experiência espiritual bíblica: palavra-ato que
nos precede e nos transforma; palavra cósmica que chama ao
ser as coisas; palavra profética que interpela o ser humano,
revelando o projeto divino; palavra
ética que provoca a existência humana à verdade e à justiça; palavra pessoal
que aparece no horizonte de uma existência.
A Bíblia também oferece uma reflexão sobre a epifania de
Deus no espaço: é a sabedoria que está
atenta a desenhar o cosmo como lugar da revelação de Deus e da
experiência do divino.
A experiência espiritual também é busca e conhecimento de
Deus por parte do ser humano. O conhecimento bíblico é adesão total,
compreensão e amor, fé e vida — como o traço fundamental do Deus da Bíblia é
o amor, o conhecimento perfeito
consiste em amar —; produz comunhão com Deus, mas também é um ato que
o ser humano pode deformar e desviar. O falso conhecimento de Deus radica na
decisão do ser humano; a idolatria é autolatria, ou seja, o ser humano se
põe como juiz dos valores e constrói um projeto alternativo ao divino.
A liturgia bíblica é celebração não de momentos cíclicos estacionais, mas da
surpresa que a irrupção de Deus gera na história. O templo é a tenda do
encontro entre Deus e o ser humano, é o
lugar de uma experiência espiritual; de sua transcendência Deus se
comunica e se revela no espaço imanente ao ser humano; o espaço não é prisão
de Deus, mas é intimamente pervadido. A
falsa experiência espiritual da idolatria, que dissocia a alteridade
transcendente de Deus, pode também revestir o manto do sacralismo exasperado
(impassibilidade e indiferença da
transcendência). O Outro não pode ser aprisionado nas áreas sacras e
puras do templo celeste ou terrestre, entregue somenteà experiência
privilegiada de profissionais do sagrado. O excesso
de sacralismo torna-se ateísmo, isto é, negação do Deus vivo e
atuante da Bíblia.
A experiência espiritual bíblica funde fé e vida, liturgia e
justiça; não se separa do profano, nem o
elimina, mas fecunda-o e
santifica-o.
B) LINHAS MESTRAS
DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ NOS TRÊS
PRIMEIROS SÉCULOS: AS ESPIRITUALIDADES DO MARTÍRIO, DA VIRGINDADE E
DA ESCOLA DE ALEXANDRIA
Nos três primeiros séculos de sua história, a Igreja desenvolve sua
estrutura e doutrina, e se defende contra as forças adversas do império.
Em termos religiosos, o cristianismo apresenta-se como a revolução mais
radical realizada pela humanidade. Os traços
principais da novidade cristã residem na
concepção do Deus uno e trino e na consciência histórica. Para os
cristãos, Deus faz-se presente e atuante na história humana, suscitando vida
nova entre os seres humanos e atraindo-os à plenitude de sua
própria vida; nesta perspectiva
escatológica, as relações entre os humanos devem ser assinaladas pela
solidariedade.
Os cristãos têm um sentido muito vivo do ser humano,
concebido como filho de Deus e
incorporado a Cristo mediante o
batismo. Todos devem estar dispostos ao testemunho de Cristo mediante
sua existência e, se necessário, também mediante o
próprio sangue. O mundo deve ser
conquistado e transformado por
meio de uma vida santa, assinalada pelo amor e pela pureza: o
martírio e a virgindade são as manifestações mais esplêndidas dessa vida de
santidade.
A fé é o primeiro passo para que uma pessoa se torne cristã. A aceitação do cristianismo é pessoal e consiste em entregar a vida à pessoa e mensagem de Jesus Cristo, em viver em comunidade e participar da liturgia da Igreja. A conversão é o
processo final de uma experiência de fé; geralmente é apresentada como um processo de busca: lendo a Escritura ou vendo a vida dos cristãos, chega-se à fé cristã. Fé e conversão atuam paralelamente à iluminação doutrinal e culminam nos ritos de iniciação (batismo, crisma e eucaristia).
Os escritores aplicam ao batismo termos como regeneração, iluminação,
santificação, segunda criação, novo nascimento, renovação; vêem seu caráter
trinitário e eclesial e falam dele como uma força germinal, um princípio de
vida para a existência.
A iniciação cristã culmina na celebração e recepção da
eucaristia. Para a Didaché a eucaristia é uma comida de ação de
graças, uma oração de petição e louvor, uma comida especial
reservada aos iniciados e uma expressão de fraternidade. Lembrança,
sinal e causa de unidade entre os fiéis, a celebração
eucarística cria Igreja. Para Justino, na celebração Cristo se faz
realmente presente no pão e no vinho pela oração consecratória.
Para Inácio de Antioquia, a eucaristia é remédio de imortalidade,
antídoto contra a morte e alimento para que vivamos sempre
Outra força da espiritualidade cristã é a penitência: desde os
primeiros tempos da Igreja se encontra o costume de jejuar;
penitências públicas são impostas em casos de pecados graves (apostasia,
homicídio e adultério); para o eremita as práticas ascéticas
e o trabalho manual, juntamente com a leitura da Escritura
e a recitação de jaculatórias, são meios primordiais para cultivar
a pureza de coração e para se libertar das afeições desordenadas.
A conversão pós-batismal não é um ato, mas um processo que
passa
pelo coração do cristão arrependido e pela atividade da
Igreja; o gesto de solidariedade do grupo crente com o pecador
penitente é um aspecto valioso para a vivência espiritual do rito
de perdão e penitência; o pecador sente-se excomungado pelo
próprio fato de pecar; a penitência não é um castigo, mas um
caminho para a reconciliação com Deus mediante a Igreja.
A oração é o elemento essencial da vida cristã, tanto na
modalidade litúrgica como na forma privada. A oração principal da comunidade cristã é a celebração eucarística. Os orantes e escritores desses séculos também dedicam algumas de suas páginas à oração e seus métodos: quando possível, a oração é feita olhando-se para o oriente, porque daí vem a luz (Cristo), ou diante da cruz; Clemente de Alexandria define a oração como trato ou conversa com Deus: os mestres alexandrinos falam de oração mental e vocal, mas dão preferência à primeira, pois, como oração espiritual e interior, é o pórtico para a contemplação mística, na qual o orante saboreia a sabedoria divina (a gnose). Em princípios do século III, os salmos se cristianizam: são lidos na perspectiva neotestamentária como profecias messiânicas cumpridas
Espiritualidade do martírio
Ao difundir-se pelo império romano, o cristianismo, como
novidade absoluta, inevitavelmente tinha de se chocar com a
cultura ambiente.
O ataque mais fanático contra o paganismo é o Discurso
contra os gregos,
de Taciano (século II): funda-se na maior antiguidade
das doutrinas "bárbaras" sobre as gregas. Na mesma
linha vão Teófilo de Antioquia, Hermas e Hipólito. Justino é o exemplo de
compromisso e compreensão em relação à cultura
greco-romana: para
ele, nos filósofos pagãos existem sementes
do Logos divino. Na mesma linha estão Clemente (fé e saber
profano não se opõem, mas se complementam), Orígenes e
Lactâncio.
O martírio é o testemunho sangrento ante os poderes imperiais;
é o testemunho da fé defendida com a entrega da própria
vida, a afirmação absoluta de que o único verdadeiramente importante é
Cristo. As fontes históricas são as Acta dos mártires e os tratados
de Inácio de Antioquia, Cipriano, Orígenes e
Tertuliano. Em tais escritos, a espiritualidade centra-se na cruz gloriosa,
considerada epifania do amor extremo de Deus pelos seres humanos: o martírio
é considerado o ápice da perfeição
cristã: a morte não é mais uma negatividade trágica, uma derrota, mas um dom
aceito livremente e um modo de assimilar-se ao Cristo vencedor; o
mártir cristão não é um simples herói (exemplar humano dotado de fortaleza
para assumir seu trágico destino), pois
não busca a própria glória, mas o triunfo de Cristo nele.
O mártir cristão não procura o perigo, mas, o quanto possível,
o evita (o redator do martírio de Policarpo, a propósito do apóstata Quinto,
que se entregara espontaneamente, afirma que o evangelho não ensina
tal atitude); enfrenta a morte não como cortejo triunfal, mas numa via
solitária e em pleno abandono (como
delinqüente comum); o caso de ser jogado às feras é raro (a maior parte é
decapitada); sua fortaleza aparece não do desejo do sofrimento e da
morte, mas da serenidade com que vai ao
encontro do fim inevitável, confiando na graça divina, e não nas
próprias forças. A experiência martirial conecta-se com a eucaristia: às
vezes a fortaleza do mártir nasce da recepção do sacramento levado
clandestinamente aos cárceres (Cipriano); o corpo do mártir é carne de
sacrifício (Inácio).
O mártir é um lugar teológico para a Igreja, um lugar
epifânico de Deus. Por conseguinte, o culto dos mártires exprime
a piedade cristã que se organiza em torno da cruz gloriosa.
Os primeiros santos do calendário
litúrgico foram os mártires, e os primeiros altares e igrejas foram
construídos sobre seus sepulcros; exemplo e capacidade intercessora foram os
motivos que levaram a fé da comunidade a recordá-los.
Espiritualidade da
virgindade
No NT (Mt 19,3-12; 1Cor 7 etc.); a vida celibatária aparece como uma opção
livre: sua escolha não é motivada pela impotência
física ou psíquica, mas é vista como eleição-vocação do Pai e vivida como um
dom. Para Clemente Romano, o casto, em sua carne, não se jacta de
sê-lo, sabendo, como deve saber, ser outro que lhe outorga o dom da
continência.
Os continentes emergem em meio a uma sociedade
paganizante e distinguem-se no interior da comunidade cristã pela profissão
de castidade (exige-se que as virgens apareçam socialmente como casadas;
isso é expresso pelo uso do véu,
imposto liturgicamente), pelo estilo de vida, pelo zelo concernente
às práticas litúrgicas, e pela prática da caridade.
Os escritores não exaltam o dado físico-biológico da virgindade,
mas explicitam sua motivação última: consagração a Cristo
(para Atenágoras, muitos chegaram
celibatários à velhice com a esperança de um trato mais íntimo com
Deus); uma entrega amorosa a Cristo (Tertuliano fala do matrimônio místico
de Cristo com as almas).
A práxis da virgindade é utilizada contra os escritores pagãos
como prova da dignidade e pureza da nova religião cristã: as virgens são
exaltadas pelos Padres, que as consideram sinal apodítico da excelência e
superioridade do cristianismo sobre o paganismo (Tertuliano, Cipriano,
Clemente); por isso, são o orgulho da Igreja.
Espiritualidade da
escola de Alexandria
Em Alexandria, o cristianismo despojou-se de suas vestes judaicas e assumiu
o melhor do humanismo grego e da filosofia
antiga. Na escola de Alexandria, o centro mais antigo do ensino
teológico, onde os
mestres cristãos ensinavam a catequese e aprofundavam os dados da fé,
elaborou-se o helenismo cristão.
Para Clemente (150-212), a gnose cristã (conhecimento do mistério) conduz à meta da santidade. O caminho da gnose inicia-se com a fé e a iluminação. Tal conhecimento não é um mero discorrer, mas penetração contemplativa e afetiva do Fi
lho de Deus; conhecer para fazer, porque não se pode deixar de fazer o que se conhece e ama. A gnose é o desenvolvimento da fé que penetra o mistério e leva ao compromisso. O conhecimento de Deus convoca o gnóstico ao amor do próximo, para que este também seja gnóstico (Stromata VII,12,68-70). Neste caminho da gnose existe um guia, que é, ao mesmo tempo, meta e caminho: o Logos, que é protreptikós (exortador, introdutor), paidagogos (condutor) e didaskalo (mestre).
O caminho da gnose inclui a oração, que é uma conversa
com Deus (Stromata VII,7,39-40). A gnose está ligada à oração, e
não é apenas conhecimento especulativo de Deus; o ápice da
oração é a contemplação, e seu último grau é a apatheia, o
controle das paixões e desejos (Stromata 2,7).
Para Clemente, a
verdadeira filosofia é a religião cristã. Na
obra Pedagogo convida todos os que a adotaram a entrar na
escola do divino pedagogo, Jesus Cristo, para viver como filhos
de Deus; a imagem do pedagogo faz pensar o cristão como
uma criança a ser
ensinada (criança pela submissão e confiança
em Deus e seu Verbo); em vez de estimular os cristãos à ascese e
à renúncia ao mundo, prefere que transformem o espírito da
cidade pelo exemplo de uma vida guiada pelo amor de Deus e
do
próximo, e pelo testemunho de um coração livre da escravidão dos bens.
Como para Orígenes (185-252) a Bíblia é a fonte da verdade,
a maior parte de suas obras são dedicadas à exegese
bíblica. Assume a terminologia da antropologia neoplatônica
(carne, alma e espírito) e aplica-a aos sentidos da Escritura
(material, literal ou histórico; moral ou tropológico; místico,
espiritual ou anagógico). Para ele, os seres humanos, dependendo
do grau de perfeição, alimentam-se de um ou outro
sentido da Escritura: os simples ou principiantes, do corpo da
Escritura, os proficientes, avançados ou psíquicos bebem da
alma da Escritura, e os perfeitos ou gnósticos, de seu espírito.
O caminho cristão é percorrido gradualmente: para explicar a graduação da
vida espiritual — sua meta final é a união mística
com Cristo, esposo
da Igreja e da alma —, a gnose se converte
em experiência mística.
A escola alexandrina forjou os primeiros elementos de elaboração
de uma teoria do êxtase, visto como experiência inefável
do divino, após um processo catártico realizado pela ascese
e pela graça.
Clemente e Orígenes podem ser considerados os iniciadores
de uma espiritualidade especulativa. A filosofia neo-platônica
constituiu o núcleo inicial ou o ponto
de partida da reflexão cristã sobre a experiência mística. Esta primeira
tentativa de teorizar a vida espiritual foi prosseguida por Evágrio
Pôntico, Gregório de Nissa e o Pseudo-Dionísio.
C) A
ESPIRITUALIDADE CRISTÃ NOS SÉCULOS IV-VI: AS ESPIRITUALIDADE BASILIANA,
AGOSTINIANA, BENEDITINA, DE DIONISIO AREOPAGITA OU PSEUDO-DIONISIO E DE
GREGÓRIO MAGNO
O império fragmentou-se e o ocidente foi subdividido em
reinos germânicos. Foram séculos de evangelização, de
expansionismo proselitista e da Grande Igreja: de perseguida,
a Igreja passou a ser tolerada, preferida e, em fins do século IV,
tornou-se a Igreja
única e perseguidora do paganismo (a massa
era obrigada a ser cristã).
Em fins do século IV, se por uma parte a Igreja estava
solidamente
instalada nas cidades, por outra não atingira ainda
o campo. As invasões germânicas de fins deste século e princípios
do século V engrossaram o número de pagãos que, ademais,
eram considerados inimigos de Roma: conviria voltar-se para eles? não seria
melhor acastelar-se no patriotismo? A resposta
consistiu na afirmação de que não se tinha o direito de
abandonar os gentios à sua idolatria.
No século IV o catecumenato começou a decair até deteriorar-se
definitivamente no século VI, quando se generaliza o batismo de crianças e a
conversão em massa.
O monge ocupou o lugar do mártir como testemunha da fé
e das realidades sobrenaturais, mediante a renúncia à vontade
própria. A vida
religiosa passou a ser uma forma peculiar de ser
cristão e durante séculos a
espiritualidade leiga foi uma transposição
ou cópia do modelo monástico. A vida monástica é o
cerne da literatura ascética e mística,
ressaltando a beleza da perfeição e os meios para atingi-la.
Os pastores e escritores transformaram-se em mestres por
sua ciência e santidade: surgiram as grandes sínteses do caminho
espiritual (Basilio, Agostinho, Bento).
Espiritualidade
basiliana
O episcopado de
Basílio em Cesaréia, na Asia Menor, foi
marcado por uma tríplice preocupação: organização da caridade
num período de fomes freqüentes, organização da vida
monástica comunitária, e a ortodoxia e
unidade da Igreja durante o período das querelas arianas.
Suas cartas revelam a preocupação de combater os excessos
de um regime
ditatorial e cruel, o sistema fiscal e as injustiças
decorrentes do acúmulo de riquezas.
Numa sociedade sem piedade para
com os fracos, assumiu o papel de mediação e suplência:
fustigou os ricos, viu na grande propriedade o açambarcamento dos
bens destinados a todos, e denunciou os usurários.
Promoveu uma organização de ação social
em nível de província e criou um
estabelecimento central às portas de Cesaréia (organizou
o bairro da caridade, uma nova cidade que o povo se
habituou a chamar de Basilíade; havia
um albergue para estrangeiros e pessoas em trânsito, um abrigo para
pessoas idosas, um hospital com uma ala
para as doenças contagiosas, estabelecimentos para os médicos,
empregados e operários; servia-se até a sopa popular; no meio das
construções havia uma igreja).
Basilio
recusou a vida solitária pelo fato de ela apresentar
perigos e não dar
espaço ao amor. Como para ele o mongedevia ser um cristão autêntico e
generoso, estabeleceu seus mosteiros
não longe dos cristãos que viviam nas cidades, de modo que estes se
beneficiassem da presença dos monges.
Numa Igreja dividida, Basilio foi um homem de reconciliação,
contribuindo para "refazer a unidade das Igrejas de Deus"
em torno da fé de
Nicéia.
Basílio foi um dos
primeiros a organizar a oração salmódica: para ele, cada um encontra nos
salmos a cura de que necessita. Comungava quatro vezes por semana, e
conotava a comunhão cotidiana como algo belo e útil.
O Grande Ascetikon tornou-se o código monástico do oriente bizantino.
A tradução latina de Rufino estendeu sua influência até o ocidente,
particularmente sobre Cassiano e Bento.
Elementos principais (Regras Morais, Pequeno e Grande Ascetikon):
·
Deus é a medida do
bem e da felicidade do ser humano.
·
a perfeição cristã
refere-se a todos; o característico do
verdadeiro cristão é a fé que opera mediante o amor; a vida eterna é
obtida pela prática dos mandamentos;
·
a todos os seus seguidores Cristo impõe a renúncia total,
a cruz e o seguimento confiante. Etapas da renúncia
total: ao diabo, às paixões da carne, aos parentes carnais
e às amizades humanas (os verdadeiros genitores são os
que nos geraram em
Cristo, e os irmãos, os que receberam o
Espírito Santo). Isto significa transferir o coração à vida da cidade
celeste;
·
tal renúncia implica a prática da temperança, estendida a tudo o que impede
a vida segundo a piedade; a temperança
é a mãe da castidade (na legislação monástica basiliana
o celibato não
recebe nenhum relevo particular);
·
a religiosidade
nada vale sem o amor: Basilio fustigou a avareza e insensibilidade dos ricos
diante da miséria e sofrimento do próximo;
·
para o alimento se deve considerar as necessidades de
cada um: a norma comum é simplicidade e frugalidade;
é conveniente que
os cristãos se distingam no vestir-se;
·
a profissão de
vida comum é feita uma vez para sempre;
·
deploração das lacerações infligidas à Igreja pelas correntes
heréticas, conflitos pessoais e prepotência humana: é
necessário que a Igreja guarde com
solicitude a unidade do Espírito com o vínculo da paz, e retorne ao
modelo primitivo, quando ninguém impunha sua vontade.
Espiritualidade
agostiniana
O amor de Agostinho pela Escritura e pela Igreja e sua
consciência do caminho histórico da Igreja — que o levava a
valorizar a
tradição e a prestar atenção às novas sensibilidades culturais — fizeram
dele um mestre dos cristãos e de toda humanidade.
Como Agostinho converteu-se numa comunidade de amigos,
a amizade é um leitmotiv em sua obra.
Como bispo de Hipona fundou um mosteiro e submeteu o
clero à "regra dos apóstolos". Em 397 codificou o modo de
vida de seus
monges (Praeceptum): oração, trabalho intelectual,
atividade pastoral ou manual; união de
coração e de alma (partilha) e
práticas religiosas. O amor é a razão de ser do mosteiro,
e este deve testemunhá-lo. Os mosteiros
são ancoradouros do amor, onde a
cidade de Deus tende a visibilizar-se entre os seres humanos; são
sinais de unidade na Igreja una.
No início Agostinho entendeu a vida no mosteiro como
busca comum de Deus, mas posteriormente finalizou-a como
um serviço à Igreja (missão de doar Cristo a cada geração).
Para ele, no
mosteiro vive-se como spirituales amatores, e a vida
celibatária associada é a vida social
por excelência, pois renuncia-se
ao próprio para se viver da caridade; no monaquismo urbano não se tratava
mais de fugir da cidade dos humanos, mas de não contaminar-se com as
seduções do mundo.
Para Agostinho a Trindade é a meta da experiência cristã,
Cristo, o caminho, e a Igreja, como fraternidade universal, o
lugar de sua
realização.
Elementos fundamentais
·
Deus está na raiz de toda existência humana: todo ser
humano é impelido pela força de seu amor ("...oh Deus
que sois amado por
todo ser que pode amar, quer seja consciente ou não...",
Soliloquia);
·
a vida do ser humano se desenvolve numa busca perene
de Deus e de si mesmo. Sua existência é percebida como
um paradoxo que se move entre um desejo infinito e
uma capacidade real de extrema indigência. O ser humano
é imagem de Deus, no interior, e semelhança, no exterior. A fé, a esperança
e a caridade reconstroem no humano a imagem trinitária;
·
o amor é o
princípio de todo agir (de Deus e dos seres humanos). O amor social prefere
as coisas que se podem desfrutar em comum às coisas próprias e entende-se
como amor a Deus e ao próximo, e como
amor ordenado de si; os outros
são amados não como bens próprios, mas porque estão destinados à cidade de
Deus. O amor privado é tudo aquilo que está fechado em nosso
interesse pessoal, amor por aquilo que é
contingente, amor desordenado de si; gera a soberba que está na raiz
de toda frustração e agressividade. "Todos os nossos trabalhos tendam ao bem
comum... Medireis o avanço na vida
espiritual pelo cuidado que poreis nas coisas comuns" (Regra
5,31);
·
a vida espiritual de cada um move-se no âmbito do caminho
do homem carnal ao homem espiritual ou inteligente,
passando
pela fé. Todo ser humano está envolvido na herança de Adão pecador:
este provocou uma situação de morte
espiritual, um enfraquecimento da liberdade, e levou o composto
humano a um estado beligerante entre as
aspirações da alma e o sentir corpóreo; o ser humano
histórico é uma imagem deformada,
estimulado ao amor de si; sair
deste estado significa dar novamente ao humano
sua imagem primigênia, criar nele um contínuo processo de
assemelhar-se ao Deus uno e trino;
·
a vida cristã é uma tensão contínua para o amor de caridade:
a piedade consiste no amor. A via que conduz à
caridade é a humildade: esta é a principal lição de Jesus
Cristo e a medida do progresso espiritual (como Deus,
Jesus Cristo é o
termo, como humano, a via);
·
para se atingir a caridade necessita-se da oração: o desejo
de Deus é a
oração. A oração é sentida como experiência humana do amor de Deus que se
faz presente, como luz interior,
gratidão, petição, e como comunhão humana
universal (podendo chegar até onde não
se dá a concórdia entre os
fiéis); consiste num trato amoroso com Deus;
o amor é a via obrigatória para o
conhecimento interpessoal:
faltando a comunhão, a confiança recíproca, resta
apenas a idéia da pessoa. A amizade é a
condição normativa para se viver a vida humana em nível pessoal;
fundamenta-se na natureza do ser
humano, cujo grande desejo é
amar e sentir-se amado; somente em Cristo é fiel, e somente nele pode
ser feliz e eterna;
·
educar para a liberdade é educar para a relação com
Deus, para perceber e desfrutar a graça de Cristo, para
a oração, para
agir no âmbito do bem.
·
os bens não podem constituir a felicidade do homem,
mas devem servir
às necessidades da vida;
·
por meio da cidade
terrena e suas estruturas destinadas a passar,
o Arquiteto edifica a casa que permanecerá; os deuses nunca asseguram a
felicidade dos humanos. As duas cidades, que representam os dois
movimentos da humanidade, são ao mesmo
tempo parceiras e adversárias; a história culminará com o triunfo da
cidade celeste. Sublinha a caducidade de toda civilização ante a vocação
sobrenatural da humanidade. A Igreja é aproximativamente
a porção terrestre da cidade de Deus,
mas nem todos os seus membros
pertencem à comunidade dos santos: há eleitos que vivem à margem da
sociedade visível dos cristãos. A
partilha entre amor sui e amor Dei se dá no fundo do
coração, no segredo de Deus;
·
amor à Igreja, pois esta é a mãe espiritual comum a
todos. Aos donatistas afirma que há uma Igreja invisivelmente
santa no seio da Igreja visível, mas o julgamento
compete somente a Deus;
·
a caridade é a regra hermenêutica da Escritura: "Conhece
a Deus quem o ama,
não quem o estuda" (Confissões).
Espiritualidade
beneditina
Bento foi o verdadeiro fundador do monaquismo ocidental
(antes dele foram fundadas ermidas e comunidades monásticas).
Ele aperfeiçoou, com certa independência, as regras de
Pacômio e Basílio. A união de trabalho e oração constituiu o
aspecto novo do monaquismo beneditino (no oriente o trabalho
apenas preenchia os momentos livres do monge).
Os principais componentes da espiritualidade monástica que
emergem da Regra e da vida de Bento
podem ser reunidos em torno da escuta, da oração, da humildade e da
figura do abade:
·
o monge é
caracterizado como um homem
·
a oração é a opus Dei, a ocupação principal do monge;
na opus divinum a mente deve concordar com os lábios.
Para a oração, Bento se concentra na liturgia das horas,
mas também dá espaço à oração silenciosa. A familiaridade
com Deus é favorecida pela assiduidade da lectio
divina
(leitura da
Escritura ou de obras de espiritualidade monástica e de edificação);
·
a humildade é o
fundamento e o sustentáculo da vida
monástica. Bento traça uma escala de perfeição, fundada
no exercício da humildade, como ascensão
à plenitude do amor. Ser flexível aos irmãos, dobrar-se às suas
justas exigências, sem fazer das idéias
próprias medidas absolutas, é
sinal, condição e conseqüência da humildade. Seu grau mais alto é a
obediência sem hesitação, pois
isto é próprio daqueles que não amam nada nem ninguém acima de
Cristo;
·
o abade faz as
vezes de Cristo (o serviço abacial obtém
sua qualificação a partir da
conformidade com Cristo): é pai, imita o bom pastor, é juiz, quer
ajudar mais do que manobrar, é doutor, é
mestre da comunidade, e deve ser mais amado do que temido;
·
a comunidade
monástica, sob a direção do abade, é pensada como uma família em Cristo;
·
o dia se alterna
entre o ofício divino, o trabalho manual e a formação espiritual.
Dionísio
Areopagita ou Pseudo-Dionísio
Até o Renascimento pensava-se que o Areopagita fosse o
personagem de Atos 17,34. No entanto, mais do que uma pessoa,
trata-se de uma obra: o Corpus Dyonisiacum. Sua divulgação
no ocidente ocorreu a partir do século VII.
Obras do Corpus Dyonisiacum: Os nomes divinos (análise dos
nomes ou atributos dados a Deus pela Escritura e pela Tradição;
os nomes não encerram a perfeição de Deus, são meras
aproximações, porque Deus transcende o ser e os seres); Teologia
mística
(estudo da união da alma com Deus, insistindo-se na
teologia negativa, ou sobre a incapacidade de se conhecer a
Deus);
Hierarquia celeste (o mundo angélico); Hierarquia eclesiástica
(a Igreja e seus sacramentos) e 10 cartas.
Provavelmente o
Corpus Dyonisiacum foi escrito em ambiente
sírio por volta de 500: cita-se Proclo, morto em 485, e suasobras
já são conhecidas em 533, citadas pelos monofisitas no
sínodo de Constantinopla.
No âmbito da filosofia religiosa e do conhecimento espiritual,
o Pseudo-Dionísio foi quem mais acolheu o platonismo e
melhor o cristianizou. Sua originalidade consistiu na elaboração
de uma espécie de metafísica cristã e de uma espiritualidade
bem peculiar.
O Pseudo-Dionísio utilizou uma nova terminologia para
exprimir o inefável, o absoluto do Deus incognoscível. O conhecimento de
Deus pode ser expresso de modo afirmativo (conhecimento catafático) e
negativo (apofático; união supramental). No
entanto, Deus é
transcendente: nem positiva, nem negativamente
podemos conhecer e expressar o que Ele é; o conhecimento apofático é o menos
imperfeito (teologia apofática, sem conceitos
nem imagens, uma negação que purifica o afirmativo aplicado a Deus e que, em
relação à transcendência divina, mais sugere do
que afirma), e conclui-se no êxtase. A teologia mística transcende as
teologias catafática e apofática: é a união com o Uno.
"Abandona os sentidos e as operações intelectuais, todo
o sensível e o
inteligível, tudo o que não é o que é, e,
na medida do possível,
por via da negação, estende-te
até a união com aquele
que está acima de toda substância
e conhecimento. Com a saída absoluta e livre de ti
mesmo e de todas as
coisas, tendo deixado tudo e
desvinculado de tudo,
serás elevado ao raio sobrenatural da
treva divina" (Teologia mística I,1).
O Pseudo-Dionísio interessa-se pelas realidades inteligíveis,
que culminam no Uno. Este é atingido por um caminho negativo
de purificação e iluminação: Deus, que é ser, bem, inteligência e vida, sai
de si mesmo, por amor, e de sua generosidade procede, sem se degradar, a
multiplicidade das realidades;
tais realidades participam e revelam a presença divina; as criaturas
tendem a voltar para o Uno; o universo é hierarquizado
em tríades:
angélica, eclesiástica (bispos, padres e ministros) e iniciada (monges,
fiéis contemplativos) e ordens imperfeitas (catecúmenos, possessos e
penitentes).
Para o Pseudo-Dionísio, o ser humano vive num mundo de
sinais, num mundo que é reflexo de Deus (a Escritura, os nomes e
os sacramentos também são sinais). O ser humano pode perder-se
e dispersar-se na leitura estética, apegando-se ao material.
Mas
pode também, na contemplação (theoria), pela dialética
negativa e purificadora, passar do estado profano à união mística.
Respondendo à "saída" do Uno, o ser humano também sai de
si mesmo, por
amor, desapega-se da matéria, transfigura-se em
sua inteligência e em todo seu ser, iluminado pela ação divina,
para atingir a perfeição de "filho da ressurreição" e
deificar-se,
unindo-se ao Deus vivo e uno. A contemplação atinge a perfeição
da união, no êxtase, e a plenitude da revelação, na treva; aí
se desvanecem as imagens e as idéias. Tal ascensão é atribuída
ao Espírito e inscreve-se na vida da Igreja (os sacramentos são o
meio ideal). O conhecimento e o amor são mediações para o
encontro com Deus; tal conhecimento diviniza o ser humano.
Desde Orígenes falava-se da divisão da vida espiritual em
vias ou graus, porém o Areopagita ia ser o ponto de referência
obrigatório a partir da Idade Média. As vias purgativa, iluminativa
e unitiva têm seu paradigma na hierarquia celeste (purificados,
iluminados e aperfeiçoados). Para estabelecer tal divisão,
o Areopagita parte do princípio eclesiológico das três ordens
e suas funções: os diáconos purificam os penitentes-catecúmenos,
os sacerdotes iluminam o povo de fiéis mediante o
batismo, e os bispos aperfeiçoam (unem à divindade) os
monges com a
confirmação e a eucaristia.
Gregório Magno
(540-604)
Em 572 era pretor de Roma. Em 575 converteu sua casa
em mosteiro e
abrigou os beneditinos de Monte Cassino. De578-586
foi apocrisiário
Gregório foi um pastoralista, um moralista, um pedagogo
das massas, tanto pelas homilias como pelos escritos exegéticos
(é um bom testemunho para o estudo da religiosidade popular).
O tema de fundo de suas exposições doutrinais é o caminho
espiritual como retorno ao paraíso. Tal caminho compreende
o exercício das virtudes na luta contra os vícios, a compunção,
e a contemplação. O desejo de Deus é a ânsia do
retorno à paz serena da eternidade (há um refrão permanente
em seu coração: "Quero ver Deus"). Na ascensão espiritual,
prevista em sete graus, influi o Espírito Santo e seus sete dons.
Dentre os meios de
perfeição acessíveis a todos, Gregório insiste no martírio espiritual: a
castidade e a vida monástica, animadas
pelo amor, e a paciência.
A tradição de figurar a vida ativa por Lia e Marta, e a
contemplativa por Raquel e Maria, partiu de Orígenes, Agostinho
e Cassiano. Para Gregório, os binômios ação-contemplação,
oração-apostolado remetem aos dois aspectos do amor de
Deus e do próximo, e por isso ambos são necessários:
"Vida
contemplativa é manter toda a alma na caridade
de Deus e do próximo,
sem porém abster-se de todo
ato externo, com o
único desejo de aderir ao criador,
de modo que já não
façamos nada, mas que, superando
todos os cuidados, a
alma arda em desejos de ver a face de
seu criador" (Hom. in Ez II,2,8).
Graus da
contemplação: ato de recolhimento da alma, consideração
de si mesma como imagem pura de Deus, e penetração no mistério de Deus,
mesmo que não se consiga totalmente, pois nisto consiste o limite da
contemplação e da própria fé.
D) A ESPIRITUALIDADE CRISTA NOS SÉCULOS VI-XIV:
A ESPIRITUALIDADE ORTODOXA
A Idade Média foi um tempo de hibernação ativa das culturas,
línguas, raças, religiões, sob a direção da Igreja e dos
poderes civis — a cristandade medieval.
Séculos VI-VIII
Os mosteiros se desenvolveram como centros de vida
litúrgica e educação cultural, e suas maiores produções consistiram
em orações e cânticos. As pessoas cultas limitaram-se a
salvar a antiga cultura clássica e religiosa.
Como meio para a evangelização, a Igreja contou com os missionários (grupos
de monges enviados oficialmente pelo papa); dentre esses destacaram-se
Agostinho, Columbano e Bonifácio.
No início deste
período a ignorância afeta mais o povo que
os pastores, bispos e abades. O baixo clero reside quase todo no mundo
rural, sob as ordens do senhor feudal, para servir a
uma igreja fundada por ele, e assemelha-se aos demais servos e colonos que
trabalham nos campos. O alto clero rende tributo
ao sistema feudal e constitui-se em grande senhor, ao mesmo tempo servidor
do rei e do imperador.
A ignorância e a passividade conduzem ao individualismo
da piedade. Na celebração, o clero separa-se cada vez mais do
povo. Os ritos não são celebrados pela comunidade, mas pelo
sacerdote em favor da comunidade.
Há uma invasão da mentalidade do AT, provocada sobretudo
pelas cristandades celta e anglo-saxã (descanso no domingo, coroações de
reis, submissão do povo ao sacerdote, pureza legal).
O Deus dos povos cristão-germânicos é um senhor terrível,
juiz dos humanos, protetor contra as forças do mal — quando
se cumpre o dever
— e castigador — quando se rompe o pacto
de fidelidade —; é o garantidor da verdade, o defensor dos
inocentes [juízos de Deus (ordálios), prova do fogo, da água, do ataúde, e o
duelo]. A fé significa fidelidade mútua (vassalagem):
Deus tem de ajudar o fiel, e a graça é algo a que se tem direito
como mérito pelas boas obras. O pecado é a ruptura do pacto de fidelidade;
por isso Deus tem de castigá-lo socialmente, e
tem de ser
aplacado com o sacrifício (esmola, jejum, peregrinação,
oração).
As orações passam a ser dirigidas a Cristo. Há o florescimento
de mediadores e da devoção aos anjos protetores dos
seres humanos e das cidades. Os santos interessam enquanto mediadores,
intercessores e protetores das cidades (as litanias dos
santos foram introduzidas por Alcuíno). Incrementa-se o culto
das
relíquias, as visitas a santuários e as trasladações de corpos.
Povos analfabetos criam uma simbiose entre cristianismo e práxis pagãs
sincretistas e supersticiosas.
No século VII, aparecem as missas privadas, que se popularizam
no século seguinte. Multiplicam-se as missas votivas e
os altares (altaristas). Modifica-se a prática penitencial: confissão
e penitência privadas tornam-se habituais.
Séculos IX-X
Com o império carolíngio, o norte da Europa substituiu o
sul como centro político e literário. A história religiosa do ocidente
conheceu um momento de florescimento, mas depois, no
século X, precipitou-se no caos.
O renascimento cultural e espiritual acastelava-se nas catedrais
e abadias, que se constituíram como centros de piedade, estudo e arte, e,
após a decadência do império, permaneceram
como únicas luzes
na noite profunda dos séculos IX e X.
A política nutriu-se da Bíblia e de Santo Agostinho: Carlos Magno intende
encaminhar à Jerusalém celeste o povo que a
Providência lhe confiou, ou construir com ele a cidade da paz
e da justiça.
Nas letras as melhores
produções foram peças litúrgicas.
Nesse catolicismo prevaleceu a ética: os escritores reduziram ao máximo as
exposições doutrinais e insistiram sobre as
regras de comportamento. Apenas instruída, a massa recaía no
formalismo e na superstição (identificação entre santo e fazedor
de prodígios; relíquias e amuletos).
No início do
século X, em Cluny, Gorge e alhures, os monges
lançaram uma reforma: para reerguer a Igreja e seus membros
é necessário reconduzi-los às origens; a reforma se resume
em viver integralmente o evangelho.
Séculos XI-XIV
Para pôr remédio à decadência e anarquia do século X, o
ideal era remodelar a criação, desfigurada pelo pecado, à imagem
e segundo a visão de Deus, e de instaurar desde já o reino
de Cristo. Para a sociedade civil isto significava unidade, paz e justiça;
para os eclesiásticos, fidelidade à vocação; para a Igreja,
liberdade, primado e controle do estado; e para seus ministros,
vida comunitária e despojada.
Desde o século XI, o crescimento demográfico e o êxodo
rural geraram uma nova economia fundada no comércio e na
indústria, e proporcionaram uma nova classe social: a burguesia.
Nascem as cidades (vilas novas e livres), independentes dos
poderes civil e
eclesiástico. Ares democráticos, nova economia
e cultura, ânsia de viver e desfrutar dos bens temporais que
circulam em abundância, criam uma nova mentalidade. As universidades
se originam como necessidade de ampliar os estreitos
redutos das escolas monásticas e episcopais. A cultura se
universaliza e se torna mais leiga. Simultaneamente, e como
protesto contra o enriquecimento da Igreja e dos burgueses,
surgem os movimentos pauperísticos e anticlericais: leigos começaram
a ensinar e soerguer os costumes; sem mandato oficial,
revoltam-se quando as autoridades religiosas querem controlar
seu comportamento; impõem-se às multidões pelo ardor, ascetismo e caridade
(cátaros ou albigenses, e valdenses).
No século XI, muitos cônegos passaram a viver em comum
e submeteram-se à regra de Santo Agostinho. Um grande número
de monges retornou aos ancestrais: uns decidiram-se pela observância literal
da regra beneditina (cistercienses), outros
remontaram aos padres do deserto e, às
vezes, ao eremitismo
(cartuxos).
A partir do século XI, as obras de caridade tornam-se a
razão de ser de uma série de grupos religiosos e leigos. Numa
época em que as estradas são ruins e a segurança precária,
alguns pensaram em ajudar os viajantes, peregrinos e mercadores:
surgem hospedarias, instalam-se congregações hospitaleiras.
Os novos institutos acolhem os necessitados.
O renascimento da literatura espiritual começou nos séculos XI e XII. As
virtudes recomendadas nestes séculos procediam
de uma mesma disposição fundamental: o despojar-se de
si e das coisas.
Reformadores e místicos são tocados pela humildade
e pobreza de Cristo: humildade significa renúncia ao juízo
pessoal, submissão da vontade própria;
o despojamento efetivo das
riquezas aparece cada vez mais como a condição sine qua non
da salvação.
Na literatura
religiosa dos séculos XI e XII, os exercícios
espirituais ocupam mais lugar do que as
virtudes. Uma dupla missão os assinalava: nutrir as virtudes, e manter e
estreitar a união com Deus. A
análise da técnica da vida espiritual depende do temperamento do
escritor: uns, como Bernardo, são mais práticos; outros, como os vitorinos,
apegam-se mais à teoria.
Das leituras, meditações e orações há um tríplice objeto: a
criação, Cristo e a Virgem. O mundo aparece como uma
teofania. Há uma predileção crescente pelo Cristo mediador e
redentor, pela humanidade de Jesus; a devoção a Cristo-homem,
que já se encontra
Bernardo
(1112-1153), o doctor melifluo, foi polifacético: místico,
poeta, organizador, pregador popular, escritor combativo,
controversista e polemista, monge,
fundador de mosteiros, teólogo e mestre espiritual; se em teologia foi um
compilador dos Padres, em
espiritualidade foi um inovador. Apresenta um quadro completo da vida
espiritual: um itinerário que vai do
conhecimento de si à posse de Deus, da humildade ao êxtase, do pecado à
glória. Embora sendo autor principalmente místico,
não se esquece da ascese: o ardor místico toma corpo e forma na
devoção à humanidade de Jesus e à Virgem.
Para Bernardo, com o pecado (afastamento de Deus, escravidão
de si mesmo), a imagem de Deus se corrompe, não se destrói, e a semelhança
se perde; porém pode reconstruir-se
com a conversão e a união amorosa com o Verbo. "Sou livre
porque sou semelhante a Deus, sou miserável porque sou contrário
a Deus" (Sermões sobre os Cânticos, 81,9). Deus é o autor da
salvação, e o livre-arbítrio é a pura
capacidade de salvação, cooperando com seu consentimento (consentir é
salvar-se). No caminho da perfeição,
duas opções se apresentam ao ser humano:
humildade-verdade, que conduz ao amor de Deus e ao
desprezo de si mesmo, e soberba-mentira,
que conduz ao amor de si e ao
desprezo de Deus. Como Bento, descreve os doze
graus da humildade, identificando-a com
a verdade. O amor, que mais do
que dom de Deus é Deus mesmo, é o princípio e a meta da vida cristã, o
termômetro para medir a temperatura espiritual da alma. Os graus da
perfeição sintetizam-se nos quatro
graus do amor (carta a Guigo, abade da grande cartuxa): amor
carnal: amor próprio; amor servil e
temeroso: o ser humano ama a Deus
por si mesmo; amor filial: o ser humano ama a
Deus por ele mesmo; e amor místico: o
ser humano somente ama a si mesmo
por Deus, um amor que Deus infunde no
coração humano ("...unindo-se a ele, os
dois serão um só espírito" =
matrimônio espiritual). A união com Deus é obra das
três pessoas divinas: da união com o
Verbo nasce a humildade, com o
Espírito a caridade, e a perfeição se consuma na união esponsal com o
Pai. Nos 86 sermões sobre o Cântico, Bernardo
desenvolve o tema da união progressiva
da alma com o Verbo: essa converte-se em verdadeira esposa
transformada
Com o surgimento do método escolástico aparecem as
primeiras análises e classificações da vida espiritual, em geral, e da
oração, em particular, com o cartuxo Guido II e sobretudo
com a escola parisiense dos cônegos regulares de São Vítor.
Chega-se a definir
a vida religiosa como estado de perfeição,
confirmando a idéia larvada durante
séculos de que a santidade é monopólio de um estado de vida.
Hugo
e Ricardo,
a partir de um fundo platônico-agostiniano,
contribuíram para a elaboração da
mística católica: vêem na criação a obra do Verbo, sua palavra
exterior, e em cada criatura uma sílaba
que a exprime e a partir da qual o ser humano
deveria elevar-se ao Criador; como o
pecado original perturbou a ordem
do universo, vêem na humanidade de Cristo o
novo sinal que Deus concedeu ao ser
humano para chegar até Ele; a humanidade de Cristo estimula a
imitação e conduz à contemplação amorosa, na qual a alma é desposada
por Deus.
A partir do século
XIII os elementos dos séculos XI e XII,
independentes um do outro, se unem e se fundem. Os religiosos,
em vez de se isolarem em claustros ou ermidas, partilham
a existência de seus contemporâneos,
lançam-se ao mundo pelo fato de ele ser o reflexo do além e por seu
valor imanente.
Os artífices desta
transformação são os dominicanos e os
franciscanos. Ambos proíbem a propriedade, dedicam-se ao apostolado, e
testemunham uma submissão total à Igreja e à
sua hierarquia. Fundados para combater
a heresia, os dominicanos
valorizam os estudos e orientam-se para a especulação
e a busca da verdade. Edificados sobre o despojamento integral, os
franciscanos podem entrar em comunhão com o universo e amar todas os
seres.
A espiritualidade
dominicana teve um caráter doutrinal,
contemplativo e apostólico, expresso na fórmula tomista
"Contemplare et contemplata aliis
tradere". Seu caráter original
foi confirmado e desenvolvido pelo influxo de Santo Tomás,
que realizou a união do pensamento
especulativo e da piedade ardente.
Para Tomás de Aquino a atuação das virtudes morais é
uma premissa indispensável à vida contemplativa: o êxito
contemplativo encontra um obstáculo insuperável na veemência
das paixões e das ocupações externas (distrações), e tais
impedimentos só podem ser superados
pela prática das virtudes morais. Graus da contemplação: prática das
virtudes, atos preparatórios (leitura, oração), consideração das obras
divinas, contemplação das virtudes divinas em si mesmas. O objeto da
contemplação é a verdade divina; nem o
místico pode perceber diretamente a essência divina, pois ela está
fora da possibilidade de conhecimento;
ao ser humano cabe uma contemplação
imperfeita, como um início de beatitude; a visão de
Deus torna-se possível por meio de um
intermediário, um quid que
pertence à espécie da graça. A contemplação representa
o conhecimento mais perfeito de Deus e
acontece através do véu da fé: é
um ato do intelecto, é a percepção da verdade divina. Fala também da
hipótese de uma visão imediata de
Deus, na qual a única luz do intelecto
humano deveria ser um lume da
glória de Deus comunicado momentaneamente ao
ser humano. A pregação é uma
continuação da contemplação, porque falar de Deus ainda é falar com
Deus.
A vida de Francisco significou uma reação religiosa contra
os perigos e males da cultura urbana: a primazia do humano
sobre o institucional, o desprezo das riquezas que coisificam o
ser humano, o valor do simples e natural perante o artificialismo
das necessidades de consumo, o despojamento de todo prestígio
e hipocrisia para se voltar à verdade original, o amor à
pobreza como fonte de liberdade interior, o amor a todo ser
vivo, a paz entendida como amor positivo e universal a todos os irmãos. Foi
um louvor ao Senhor através de suas criaturas
(estas não são
somente símbolos, mas realidades vivas, filhas de Deus). Francisco foi uma
das pessoas mais abertas às alegrias da
vida: cantou e exaltou todas as criaturas como transparência da
glória e do amor de Deus.
Uma novidade de importância social e espiritual foi a instituição da Ordem
Terceira, oferecendo aos leigos um tipo de
vida de oração,
caridade e penitência.
A conjunção dos
dados tradicionais à difusão da lírica mediterrânea
e à introdução das obras da filosofia antiga provocaram o
florescimento da mística, ou das místicas, pois a variedade das
circunstâncias gerou a diversidade de tendências e doutrinas: misticismo
afetivo das beguinas e freiras holandesas e alemãs
(Hadewijck e Gertrudes), misticismo
especulativo dos dominicanos
(Eckhart), e misticismo prático dos clérigos dos Países Baixos
(Groote e Kempis). Os itinerários da
alma até Deus se resumem nas concepções do diálogo, da união e da
imitação.
O movimento de volta ao evangelho penetrou todas as classes da sociedade.
Nos países do norte motivou muitas
mulheres ao abandono do mundo e à vida de meditação e
contemplação,
vivendo em casas, mas sem votos. Desde fins do século XIII os sodalícios das
beguinas e dos begardos já eram
encontrados nos Países Baixos, no norte da França e na Renânia;
no século XIII puseram-se sob a direção
espiritual dos dominicanos e
franciscanos. A espiritualidade destes meios é a
da presença de Deus como ser vivo, com
quem se partilha a existência. O
florescimento da mística nupcial revela a vitalidade religiosa dos
países germânicos.
Os dominicanos penetraram neste meio e acolheram as
mulheres piedosas que outras ordens recusavam, assumiram
sua direção e procuraram, com a ajuda da dialética, elaborar
uma teoria da
experiência espiritual (Eckhart, Suso, Tauler).
Para Eckhart (1260-1327) Deus é o ser absoluto, a plenitude,
a perfeição, o ser supremo mas sem nome (inefável = que
supera toda expressão humana possível). O desejo de Deus é
justificado com a doutrina da emanação: como o Pai gera o
Filho, gera também o ser humano. O retorno a Deus se dá
quando a alma obtém a participação divina, isto é, na união
mística; a encarnação de Deus, as boas obras, as devoções
favorecem o nascimento de Deus na alma e da alma
Fatigados da logomaquia (luta de palavras) dos escolásticos,
e atentos em estreitar o contato com a massa, muitos mestres
se esforçaram em propor meios cômodos de entreter e inflamar
a vida da alma. Tal tendência gerou uma escola: a devotio
moderna.
Gerard Groote (1340-1384)
recomendava como primeira condição à iniciação espiritual a conversão
interior acompanhada
do empenho de despojar-se do velho homem para
revestir-se do novo; este deve assumir como fim essencial do
cristão a conformidade e a configuração a Cristo; a Escritura
impele o ser humano a seguir Jesus Cristo em sua humanidade,
que é a porta de ingresso da via espiritual. A alma que se
punha no caminho de Cristo prescrevia ruminar a paixão do
Senhor.
Alguns dos ouvintes de Groote passaram a se reunir de vez
em quando para colóquios espirituais; outros passaram a ter a
vida em comum e, como não queriam mendigar, viviam do
próprio trabalho (especialmente cópia de manuscritos). Os Irmãos
da Vida Comum, denominação autônoma dos Amigos
de Deus, provinham de uma comunidade referida a Gerard
Groote; para eles foi escrita a Imitação de Cristo, atribuída a
Tomás de Kempis, a fim de que pudesse constituir-se em pequeno
manual para a piedade do leigo consagrado (o autor da
Imitação
procura entrar no caminho de Cristo, valorizando ao
longo de sua ascensão os sofrimentos e as tribulações inevitáveis
da existência para configurar-se sempre mais a Cristo; a
conversão total a Cristo desenrola-se no caminho de uma vida
de amor a Ele).
A espiritualidade seguiu um movimento inverso ao da cultura,
e especialmente à atividade intelectual: enquanto ela ia
cada vez mais ao abstrato, a espiritualidade insistiu sempre mais
na pessoa e na
vida do Salvador.
Espiritualidade
ortodoxa
Em termos de
literatura espiritual, a Idade Média oriental
assinalou-se pela estagnação do
pensamento e pelo tradicionalismo: elogios às Escrituras e aos
Padres, e florilégios.
O peregrino é um
dos tipos constantes da piedade oriental.
Muitos eram missionários que levavam
consigo as Escrituras e a Filocalia (antologia dos Padres e autores
hesicastas).
Teodoro Studita, falecido em 826, reformou os mosteiros segundo o espírito
basiliano, estabelecendo-os como comunidades
de oração, trabalho, beneficência, cultura e missão. Já
o movimento do hesicasmo apareceu como uma volta à espiritualidade
dos solitários, uma reação contra a tendência dos studitas; o monte Athos
tornou-se o centro deste movimento
que buscava a união com Deus por meio da hesychia (paz
interna e
externa).
O método da oração hesicasta, transmitido por via oral, foi
escrito somente em
princípios do século XI por Simeão, o Novo
Teólogo; mais tarde foi objeto de
estudo de Nicéforo (séc. XIII), que o descreveu fisicamente, e de
Gregório, o Sinaíta, que restabeleceu
sua prática em princípios do século XIV no monte
Athos — onde o hesicasmo organizou-se
como método rígido de contemplação. Seu escopo é facilitar a
concentração, e toda atenção deve ser
dirigida às palavras "Senhor Jesus, Filho de
Deus, tende piedade de mim, pecador",
repetidas a cada respiração; o
monge que o pratica tem o dever de tender à hesychia, à tranqüilidade
da mente e do corpo, regulando seus movimentos e procurando
introduzir em seu pensamento a paz e a calma necessárias à contemplação.
A natureza da iluminação na contemplação hesicasta foi
objeto de ásperas discussões: segundo Gregório Palamás (século
XIV), a luz da contemplação é a mesma do Tabor, ou seja,
a própria realidade divina; tachados de erros messalianos e
influências bogomilas, os palamitas reconheceram que a luz
tabórica não era
idêntica a Deus, mas às suas operações e propriedades.
No século XV, o hesicasmo estendeu-se à Rússia por obra de Diemetri
de Rostov.
E) A
ESPIRITUALIDADE CRISTA NOS SÉCULOS XV-XVII: RENASCIMENTO E DESEJO DE
REFORMA, HEGEMONIA ESPIRITUAL
ESPANHOLA, HEGEMONIA ESPIRITUAL FRANCESA E ESPIRITUALIDADE
PROTESTANTE
O surgimento e desenvolvimento do espírito laicista provocou
o ocaso da concepção sacral da autoridade da Igreja. Consumou-se
a existência de diferentes Igrejas, teologias e espiritualidades; a
Paz de Westfália de 1648 confirmou juridicamente a divisão que já era um
fato sociorreligioso.
Na história da
espiritualidade, ocorreram deslocamentos de interesses temáticos, de
hegemonias geográficas (Itália, Espanha,
França), geralmente em paralelo com as tendências culturais. Para favorecer
a vida de oração, considerada como centro da
vida espiritual prática, os autores
espirituais propuseram métodos
de oração e exercícios espirituais; para eles a finalidade da vida interior
era conduzir o cristão à assimilação pessoal da fé, para que esta
inspirasse sua existência. Teólogos e místicos
mergulharam nos temas da contemplação,
da geografia mística da alma, da união transformadora, dos fenômenos
místicos e da criteriologia do
discernimento. Como os místicos escreviam conforme a língua materna,
o linguajar místico se recriou e se popularizou.
Renascimento e
desejo de reforma
Nos séculos XV e
XVI, a espiritualidade medieval transformou-se sob o influxo e a ação do
humanismo e da reforma. No humanismo, o interesse se concentra no homem e na
vida civil;
de uma concepção teocêntrica, transcendente e teológica, passa-se
a uma concepção humanística, antropocêntrica e imanentista;
se antes a mais alta expressão arquitetônica concentrava-se
nas catedrais, agora orienta-se para o palácio renascimental.
Havia aspiração por uma vida cristã
mais íntima e pessoal, e isto explica o sucesso de Erasmo, Lutero, e
dos "alumbrados".
As novas congregações religiosas passaram decididamente à atividade
apostólica. A atividade absorvente exigia um novo
método de oração: opera-se um esforço para transformar o
trabalho em oração, e para dar à oração, tornada geralmente
um exercício privado, uma forma sistemática e metódica — já no âmbito da
devotio houve tentativas de sistematizar a prática
da oração mental;
dos séculos XIII-XV, a noção e o método se precisaram; no século XVI tal
método fixou-se completamente.
O Renascimento
acolheu da devotio moderna a tendência à
interioridade, à subjetividade, como
forma de superação da piedade exteriorizada, como afirmação da
dignidade da pessoa humana.
Erasmo de Roterdam
impôs
os novos ares renascentistas à
espiritualidade, propugnando uma piedade fundada no evangelho
criticamente estabelecido, na teologia renovada, fundamentada
nas fontes da revelação e na tradição dos Padres, que ensine a
conhecer o Cristo. Advogou um cristianismo interiorizado, puro,
sem tanto rito nem cerimônia farisaica,
com mais piedade e menos fórmulas, fundado na cultura, vivido em
liberdade.
A renascença substituiu o ideal de santidade pela conformidade
a Cristo sofredor pelo ideal de um equilíbrio humano e
cristão. Os humanistas queriam substituir o cristianismo medieval
por uma religião depurada e racionalizada; suas críticas
serviram aos reformados, enquanto a parte positiva de suas
obras permaneceu inacessível às massas. As reformas propiciadas
pelos humanistas — evangelismo — pareciam mais apropriadas
às elites; a grande maioria seguia apegada às tradições medievais.
Em termos de reforma, a Espanha foi privilegiada. O século
XV espanhol caracterizou-se pela fermentação de reformas
entre as ordens
religiosas, começando por pequenos núcleos e chegando à constituição de
congregações da observância.
Neste período,
houve dois representantes nítidos e predominantes:
os beneditinos, com os centros de reforma de San Benito de Valladolid
e Montserrat, e o movimento franciscano, com a promoção da piedade
interiorizada. Dentre os beneditinos destacou-se
Garcia Jiménez de Cisneros (Exercitatorio de la vida espiritual),
que introduziu a temática dos autores medievais. Dos "recolectarios"
franciscanos surgiram comunidades orantes que praticaram a oração de
recolhimento; Teresa de Jesus e outros discípulos tiveram em mãos o livro
Tercer abecedario espiritual, de Francisco de Osuna, que lhes serviram
como manual do método.
Hegemonia
espiritual espanhola
Por seu poder político e sua riqueza artística e literária, a
Espanha dominou o século XVI. O represamento das infiltrações luteranas foi
conseguido graças à Inquisição, que freou
também o
desenvolvimento da espiritualidade.
As universidades espanholas eram numerosas e florescentes,
e seus melhores espíritos foram conquistados pelo
humanismo (Alcalá
conduzia tal movimento).
A espiritualidade espanhola não se perdeu em abstrações, mas desceu à vida
cotidiana. Ascetas e místicos, convictos de que a ação nasce da
contemplação, urgiram a necessidade das
obras, da ação pastoral; para eles, as obras são a prova da
eficácia do matrimônio místico — último grau da experiência
mística — e
critério de sua veracidade.
Na segunda metade
do século XVI, a produção espiritual
espanhola atingiu o ápice. O povo cristão viveu ativamente a piedade
que marcou os grandes mestres (Juan de Avila, Luis de Granada, Inácio de
Loyola, Teresa de Avila, João da Cruz).
i
i
A doutrina
inaciana do discernimento não é nova na Igreja.
Fundamenta-se nas Escrituras,
especialmente em Paulo ("o fruto
do Espírito", que permite reconhecer de onde vem a inspiração)
e João ("não confieis em qualquer espírito", "provai os
espíritos"). Conheceu ricos desenvolvimentos na tradição monástica
dos primeiros séculos. Os grandes nomes nesta matéria
são: os Padres do Deserto, Basilio,
Gregório Nazianzeno, Máximo
Confessor, Cassiano e João Clímaco. Sem dúvida, ao
menos no início, tais autores não
exerceram nenhuma influência em Inácio: quando ele fez suas primeiras
experiências de discernimento era muito ignorante das coisas espirituais. E
interessante notar sua consonância com
tais autores e sua ligação com esta tradição.
Os místicos
espanhóis foram dados à análise dos estados de
consciência. Para eles, a experiência
inefável se traduz mediante a
variação desses estados. Empreenderam tal trabalho com um fino
sentido da Igreja como mãe e mestra.
Teresa de Ávila
(1515-1582) foi uma mística e fundadora solidamente
realista. Seu equilíbrio foi fruto de uma conquista e o termo de um
combate, no qual os elementos neuropáticos deseu temperamento
tiveram um grande papel; suas experiências
místicas (certeza da presença e da ação
divina em si) influenciaram
decisivamente na reconquista de sua personalidade. Introduziu
um novo gênero na literatura espiritual: descreveu sua história
espiritual, procurando tirar ensinamentos práticos que
pudessem servir às pessoas; preocupou-se
pouco em descobrir a realidade ontológica subjacente à sua
experiência, analisando sobretudo os dados subjetivos de suas reações
(empirismo psicológico). Os Exercícios Espirituais reforçaram seu
sensorialismo (tendência a objetivar
interiormente, sob forma de palavras e
visões, as graças recebidas na oração).
Seus escritos têm um caráter autobiográfico.
Teresa distingue
dois níveis na via unitiva:
1)
alternância de estados de intensidade diversa: é o lugar das provas e
purificações passivas, e dos fenômenos extraordinários;
2)
matrimônio espiritual: trata-se do estágio mais alto, que transforma a alma
e a coloca num estado estável; sentimento de
fusão, de identificação: a alma adquire
uma nova personalidade, que lhe permite atuar apostolicamente sem deixar de
saborear Deus e sentir-se movida por Ele.
A espiritualidade
teresiana é a espiritualidade da intimidade divina, porque procura
alimentar o ideal da intimidade com Deus;
tal finalidade atinge-se principalmente
por meio da oração mental. E
também doutrinal, pois Teresa desejou e procurou que a vida ascética
e mística tivesse como base uma doutrina sólida.
Para Teresa de Jesus, a oração mental "é uma conversa
íntima em que a alma fala muitas vezes a sós com aquele de
quem se sabe
amada" (Autobiografia 8,5). Na oração o papel do
entendimento consiste em conhecer, em
dar-se conta da existência do
amor de Deus para com a alma; a inteligência procura
compreender que Deus ama sua criatura e deseja ser amado
por ela; a vontade, respondendo ao
convite divino, ama. Estrutura do método teresiano:
1)
preparação: pôr-se mais formalmente na presença de
Deus;
2)
tema de reflexão: o texto;
3)
meditação: deter-se em pontos que chamam a atenção;
4)
colóquio: o centro da oração mental;
5)
ação de graças, oferecimento (propósitos) e petição.
João da Cruz
(1542-1591) exprimiu sua mística em dois níveis:
tradução de sua vida interior no plano lírico (poemas) por
um jogo de símbolos; visão especulativa sobre a teologia mística
mediante comentários de três de seus poemas. Sua mística
é antiintelectual, ou antinocional, e sobretudo mística da negação
(niilismo vertiginoso): Deus é o absoluto e não pode ser
medido pelo
criado; a única preparação à união mística é uma
atividade negativa de aniquilação
(esvaziamento de todas as faculdades da alma; união à alma de Cristo). Esta
mística de negação é, ao mesmo
tempo, de obscuridade, e encontra sua expressão no simbolismo noturno. O
termo "noite" resume a vida
mística: esta é uma noite, pois significa renúncia à vida sensível
(rejeição das imagens), o caminhar da fé, que é sempre
obscuro ao entendimento, pois o caráter
tenebroso faz parte de sua essência (lançar-se no abismo da fé), e
pelo fim para o qual caminhamos, que é
Deus mesmo (o terceiro sentido da noite, a união à alma de Cristo,
não foi desenvolvido).
Teresa, descrevendo as ascensões, e João da Cruz, ensinando
os princípios da contemplação, traçaram as linhas fundamentais
da vida mística. Para ambos a contemplação distingue-se das graças
secundárias, chamadas de visões, revelações, locuções,
e dos fenômenos como o êxtase e os estigmas: a contemplação
é o verdadeiro tesouro da alma, com o qual se adentra
na intimidade divina e se encaminha à união; porém não é um
gozo contínuo,
pois há períodos de purificação.
Após a morte dos grandes mestres das diversas escolas, os
autores
limitaram-se a compilar e sistematizar suas doutrinas.
Permeável a toda influência, a Itália não apresentou a coerência
espiritual da Espanha. Os meios fervorosos são atraídos
pelo desejo de reforma da Igreja, pela vontade de renovar a
vida interior, e sobretudo de dar ao clero o sentido de seus
deveres (Filipe
Neri, Carlos Borromeo). Os místicos italianos continuaram a pertencer ao
gênero extático.
Hegemonia
espiritual francesa
No século XVII, tanto no domínio espiritual como político,
à preponderância
espanhola sucedeu a francesa.
As influências nórdicas e espanholas foram acolhidas por círculos devotos
elitistas, como o círculo parisiense de Mme.
Acarie (1566-1618), posteriormente Maria da Encarnação: por
meio de sua ação, suas fundações pias e caritativas, este grupo foi
o ponto de partida
de um movimento de renovação religiosa que vivificou o catolicismo francês
em princípios do século XVII.
O representante típico da escola francesa é o cardeal de
Bérulle
(1575-1629). Após uma passagem pelo grupo de Mme.
Acarie e de ter
pensado em entrar para a Companhia de Jesus,
descobriu que sua vocação era a de
trabalhar pela reforma do clero; a partir daí centrou sua piedade no
mistério da encarnação (Jesus como via e
termo da vida espiritual). Para Bérulle, Jesus
é o único verdadeiro e perfeito
adorador do Pai, e toda relação
entre os seres humanos e Deus passa por ele; somente a incorporação a
Cristo possibilita o retorno a Deus. Sua originalidade consistiu em pedir ao
cristão um esforço voluntário e consciente para conformar sua vida interior
à vida interior de Jesus em cada um dos momentos de sua existência (os
estados do Verbo encarnado); tal adesão
pode ocorrer tanto pela meditação como pelas
vias extáticas (Discours de l'etat
et des grandeurs de Jesus [1623]: o
cristão deve aderir a Cristo com um
esforço constante para plasmar a própria vida às "condições" do
Salvador, isto é, aos altos momentos espirituais de sua existência).
Com Bérulle a
linguagem espiritual enriqueceu-se com um vocabulário novo e especial. Os
esforços de seus continuadores generalizaram uma piedade impregnada de
devoção a Cristo, ricamente teológica e
solidamente fundamentada em bases
bíblicas e patrísticas. O oratoriano
Bourgoing traduziu o berullianismo para um público mais amplo e o
editor das obras completas de Bérulle,
Gibieuf, desenvolveu a orientação mariana do berullianismo.
Francisco de Sales,
observando que a atração pela reforma era o desejo de uma religião pessoal e
interior e de uma vida
moral digna, transformou a devoção monástica em devoção
civil (Introdução à vida devota e Tratado do amor divino).
Nele, a
devoção, equivalente de piedade, unge-se de classicismo, de
amor à cultura, sem desenraizar-se das bases populares. Para
ele todos os estados de vida são chamados à santidade cristã, e
a perfeição se
mede pelos graus de amor, que se manifestam no
cumprimento da vontade de Deus
(conformidade das vontades).
Soube tornar amável a piedade, sem nada tirar de sua
austeridade: preocupou-se em fazer da
ascese um testemunho de amor e
foi inflexível quanto ao despojamento da vontade
própria. Combateu o espírito do
extraordinário com as pequenas virtudes.
Uma corrente mais prática e popular foi a do humanismo
devoto, nascido no momento da mentalidade barroca, do espírito
de Contra-Reforma, cheio de otimismo, de alegria, e de
confiança na
natureza humana. Os autores desta tendência encontravam-se entre os
seculares e religiosos.
No século XVII, forjou-se a piedade barroca, a partir de
forças
coincidentes: a tradição medieval, a reação católica ao
protestantismo e a reação à mentalidade
jansenista. Foram várias as
fontes de alimentação da piedade: a pregação, com grandes
oradores (Vieira, Bossuet) e também com humildes e anônimos párocos
rurais; a catequese, nutrida especialmente pelos catecismos; os livros de
piedade e devocionários.
O jansenismo impunha a idéia de um Deus tão soberano,
que o homem não tinha acesso afetivo a Ele: o temor e a
reverência deviam ser os sentimentos do cristão na presença de
Deus. Sua expansão levou, como reação, ao aparecimento e à
difusão da devoção
ao Coração de Jesus.
João Eudes
(1601-1680), educador do clero e missionário
popular, formado
na escola berulliana, foi o primeiro e o mais
ardoroso apóstolo do culto litúrgico
aos corações de Jesus e de Maria. Na obra 0 coração admirável,
ele afirma que se deve honrar a origem e
a fonte de todos os mistérios e ações de
esus, e aquilo que fundamenta a
dignidade de sua pessoa: seu
amor. O culto do Sagrado Coração é o culto da pessoa: o
coração se encontra no ponto de
encontro do corpo e da alma, do
ser e do agir, está no centro da pessoa, sendo ao mesmo
tempo interioridade e abertura; o
coração de Cristo é sua pessoa enquanto relação de amor com o Pai,
com os seres humanos e com o cosmo.
Para a visitandina
Margarida Maria Alacoque (1648-1690), o amor de Deus por nós, sempre
misericordioso e fiel, é continuamente
ultrajado e desconhecido dos seres humanos ("Eis o
coração que tanto amou os homens e
deles só recebe ingratidões").
Para ela, o ato de reparação significa opor-se ao pecado
e pôs-se a serviço do amor. A devoção ao
Coração de Jesus passou do
mosteiro de Paray-le-Monial aos demais mosteiros da ordem e depois ganhou
toda a Igreja, tornando-se uma das
devoções mais queridas dos fiéis,
incentivando ao máximo a piedade eucarística.
Surgiu vigoroso o culto ao Santíssimo Sacramento (a festa
de Corpus Christi foi particularmente propícia às manifestações
dessa piedade). Prosseguiu o interesse pela devoção à Virgem
Maria, estimulado
especialmente pela congregações marianas.
Na Rússia do século XVI, dentro do monaquismo, havia
duas tendências zelosas da reforma: a corrente tradicionalista
(José de
Volokolamski) e os fautores de uma nova reconstrução,
mais livre, no sentido do hesicasmo
(Nilo Sorskij). A partir do
século XVII, os contatos dos orientais com a civilização
racionalista européia produziram, num
primeiro momento, incertezas e
hesitações. Enquanto os ocidentais procuraram verificar os
fundamentos racionais da fé, os orientais retornaram à
convicção mística de que a fé e a vida
são metalógicas, ou seja, de que
o ponto de encontro entre Deus e o ser humano é o coração
(espiritualidade do coração).
A partir de meados do século XVII, a posição dos místicos
se tornou cada vez mais crítica: foi o tempo no qual o
psicologismo e o
intelectualismo invadiram a piedade francesa,
tempo em que muitos autores viam a vida
cristã sob o ângulo do moralismo;
a existência de vias místicas não era negada,
mas elas eram vistas como milagrosas e
excepcionais, sem medida comum com a espiritualidade normal. No
conjunto, desconfiava-se de tudo que não fosse consciência clara e pensada.
A estruturação da
vida espiritual como ciência, ou a sistematização científica da vida
espiritual, começou no século XVII: o acervo tradicional de doutrinas
espirituais foi assumido por profissionais
da ciência teológica, que impuseram o método escolástico a esse
material. As Sumas e Cursos geralmente consistiam em
comentários e sínteses dos grandes
mestres: são autênticos manuais entregues aos membros de determinada
ordem religiosa, como introdução ao
conhecimento de seus mestres (José del Espiritu Santo: Cursus
theologiae mysticae scolasticae, 6 vol).
O século XVII testemunhou também a divisão da ciência
espiritual em ascética e mística. Uma tímida corrente aproveitou-se
da palavra ascética para tratar sob esta epígrafe todo o
caminho da vida espiritual (Cristóbal Schorrer); e uma outra
quis reunir
teologia e espiritualidade (Vicente Contenson). No
entanto, em termos de clarificação
pedagógica e metodológica, a separação definitiva só ocorreria no
século seguinte.
A espiritualidade
protestante
Os reformadores do
século XVI sempre afirmaram a continuidade
da Igreja
A liturgia
sacramental da Idade Média tornou-se uma liturgia da palavra (multiplicação
das pregações). No culto os luteranos
conservaram tudo o que não é contrário à Escritura, ao passo
que os reformados conservaram somente o
que é expresso por ela (por
exemplo, o canto sacro entre os luteranos; só os salmos para os
reformados). Nas famílias, o culto doméstico (leitura da
Bíblia e oração) tornou-se uma prática
cotidiana. Os livros devocionais (Jeremias Taylor, Baxter, Bunyan,
Willian Law) são coletâneas de textos bíblicos com breves explicações e
orações referentes às leituras feitas.
A Palavra de Deus não é simplesmente a Escritura entendida
literalmente, mas sua mensagem. A salvação ocorre na
pregação e na escuta: a palavra é pregada e o Espírito Santo a
torna eficaz. A relação íntima entre palavra de Deus e Espírito
Santo caracterizou a teologia e a piedade dos reformadores
clássicos ante a ala radical da reforma: os primeiros afirmavam
que o Espírito Santo é comunicado por Deus por meio da
palavra, e para certificar-se de que é Ele que fala na interioridade
do ser humano basta confrontar-se com as Escrituras; já os
espiritualistas
davam importância à inspiração interior.
Jacob Boehme, falecido em 1624, é o representante da
corrente mística. O ser humano e o universo, a natureza de
Deus e da alma, e a doutrina renana do nascimento de Deus na
alma, foram temas
de sua abordagem.
Entre luteranos e calvinistas emergiu o pietismo: uma corrente
religiosa que enfatizou, contra a objetividade doutrinal e a aridez
espiritual, a piedade individual, prática, baseada estritamente
na Bíblia. Os pietistas (Spener, Francke, Anton...) acentuaram
a experiência pessoal da fé, a vida cristã ativa, e certas
práticas da ascética e da mística
medievais; seu centro mais ativo
foi Halle (Alemanha), donde partiram as primeiras missões luteranas.
Filipe Spener (1635-1705) acentuou o sacerdócio
universal e o cristianismo como vida e
ação (a oração e a caridade
devem prevalecer sobre as disputas religiosas); recomendava a leitura
cotidiana da Bíblia em cada família, e a substituição
da pregação retórica e solene pelo apelo à fé que se manifesta nas
obras.
No luteranismo, a
piedade permaneceu cristocêntrica. No calvinismo predominou a devoção a Deus
Pai e acentuou-se a observância da lei.
Já a Broad Church foi de inspiração humanística,
com uma teologia mais racional e filosófica (platônicos de Cambridge)
e de grande tolerância.
F) A
ESPIRITUALIDADE CRISTÃ NOS SÉCULOS XVIII-XX:
AS ESPIRITUALIDADES ORTODOXA E
PROTESTANTE
Este período caracterizou-se pelas revoluções do pensamento,
da tecnologia e religião, pelas tentativas de restauração e
pelo espírito
encarnacionista da espiritualidade evangélica.
Século XVIII
Devido ao racionalismo e ao naturalismo, o iluminismo foi
a exaltação da
secularização, da laicização e da descristianização.
Neste período a espiritualidade se fez
cada vez mais ciência: impôs-se uma nova metodologia, correspondente à nova
mentalidade científica do tempo.
O iluminismo afirmou um novo absoluto, a razão autônoma,
com pretensões de substituir o absoluto religioso. A pessoa
culta podia admitir um Deus como princípio, mas não como
pessoa reveladora. A classe culta e a burguesia em geral apostataram
da religião, e teve início um lento e intermitente processo
de secularização. Fé, humildade e caridade foram substituídas
por razão,
filantropia e autonomia pessoal.
A revolução francesa foi, ao mesmo tempo, uma guerra
civil no âmbito europeu e o surgimento de uma nova mentalidade,
a subversão da ordem estabelecida e a transformação do pensamento, das
estruturas e dos valores.
O século XVIII assinalou-se por uma situação desfavorável
em relação à mística e pela luta contra tudo o que pudesse
representar o sagrado em geral, sobretudo se este denotasse
uma conexão com o
transcendente revelado.
Se por um lado o jansenismo exaltava a importância de
Deus, por outro situava-o numa transcendência inacessível, fazendo
com que as relações familiares com Ele se tornassem problemáticas.
Sublinhava o valor de uma ética rígida e severa, e desprezava as devoções,
considerando-as como supersticiosas e como fruto da fantasia dos frades.
Coube a Afonso
de Ligório (1696-1787) combater o rigorismo
dos jansenistas: com ele afirmou-se o
princípio da vocação universal à
santidade. Para Afonso a perfeição atinge o cume
quando o ser humano não somente
conforma a própria vontade à de
Deus, mas a unifica à de Deus. Como mestre e pregador sugere meios práticos
para se chegar à perfeição: a mortificação, a freqüência aos
sacramentos e a oração.
Do conjunto de suas obras, deduz-se uma espiritualidade
eclética (pensamento prático e místico): afetiva (cheia de sentimento
religioso), popular e ascética. Afonso foi o apóstolo da
devoção
cristológica (especialmente o nascimento, a eucaristia e a paixão) e
mariana, e da prática da meditação como base da
piedade popular. A razão, que não
satisfazia as razões do coração, apresentou uma religião viva, coerente com
as exigências da cruz. A razão
iluminista conquistou boa parte da Europa
culta. Afonso, ao invés, voltou-se
particularmente para o povo
cristão, compreendeu suas exigências religiosas e transmitiu-lhe um
estilo de piedade cálida e simples.
Paulo da Cruz
(1694-1775), no século das luzes, foi o pregador
de uma theologia crucis, quase
esquecida na teologia católica. Enucleou os conteúdos da cruz: esta
não é somente sofrimento de Cristo, mas
assume o aspecto de uma sabedoria cristã em oposição
à sabedoria do mundo; enquanto a sabedoria humana se
constrói sobre as seguranças terrenas e
visa ao sucesso imediato, a cruz
nutre-se da esperança, leva à posse da vida divina, e esta posse
conduz a alma ao otimismo radicado na palavra de Deus.
O específico da
espiritualidade passionista consistiu na vivência e experiência da paixão de
Cristo: o crucificado torna-se objeto de meditação e a imolação da vida
torna-se um ideal cristão.
A devoção mariana representou o carisma particular de L.
M. Grignon de Montfort (1673-1716): a santidade consiste na adesão
ao Cristo da cruz, oferecido aos cristãos pelos braços de
Maria, mãe do salvador; Cristo é um dom de Maria a todos os
seres humanos, e este dom será tanto mais perfeito quanto
maior for a união
da alma cristã com a mãe de Cristo.
Na Itália, França
e Espanha surgiram novas congregações religiosas que, com a novidade
pastoral das missões populares,
conseguiram conservar e renovar a religiosidade desses povos.
As missões populares representavam um
momento de atenção especial em torno ao tema religioso baseado nas
verdades fundamentais do cristianismo e
nas etapas escatológicas do ser
humano; partindo das paróquias, representavam uma espécie de exercícios
espirituais coletivos que apontavam para a conversão
do coração, a prática penitencial e eucarística, e a maturação de um
propósito de vida religiosa renovada.
No concernente à mística herdaram-se as conseqüências funestas
da condenação do quietismo (doutrina difundida por
Molinos em fins do
século XVII, segundo a qual a pessoa deve
suprimir toda atividade própria,
deixando Deus ter o domínio absoluto sobre suas ações, e agir somente
no caso de uma intervenção direta da
parte de Deus): a mística e os fenômenos que
podiam acompanhá-la foram vistos com
suspeição e como quimera. A Santa Sé vigiava a literatura espiritual,
controlava os pregadores e estava
atenta sobretudo aos diretores espirituais, a
fim de que não emergisse nenhuma sombra
de quietismo. Os ambientes devotos viam-se num clima de tensão
permanente.
Século XIX
A partir de 1815, levou-se a cabo a restauração, um período
de certa
estabilidade política e social. Mas a mentalidade do
Antigo Regime já não se prestava mais a
isso, pois a nova história
estava
O século XIX herdou do século precedente um senso difuso
de desvalorização da mística: a opinião comum nutria preconceitos
em relação à mística e pensava-se que as graças
contemplativas e
místicas fossem quase um luxo espiritual.
A espiritualidade,
privada de sólida reflexão dogmática, refugiava-se na ascética e nos
preceitos práticos. As energias espirituais
estavam apontadas mais para as devoções. O amplo espaço reservado ao
sentimento religioso baseava-se também na freqüência mais assídua aos
sacramentos e exercícios de piedade.
As pessoas do século XIX tiveram de reconstruir sua história e readaptar-se
à nova mentalidade. Foi um período místico
e missionário, no qual se destacaram: no apostolado juvenil,
João Bosco; no apostolado paroquial e pastoral, João Maria
Vianey; no laicato católico, Frederico Ozanan; no reencontro da Igreja
anglicana com a católica, Henry Newman; como espírito
profético, Rosmini; na renovação da vida religiosa e da
liturgia, Guéranger; na fecundidade da vida contemplativa, Teresa
de Lisieux; como contemplativo na ação, Charles de
Foucauld.
João Bosco
(1815-1888)
recapitulou as correntes de espiritualidade
de seu tempo: educador, fiel à Virgem, sustentador do papado, padre
exigente, homem de oração, místico, missionário, animador da educação
na e pela confiança.
O cristianismo de
Foucauld (1858-1916) descobre a vida oculta de Jesus, o mistério de
Nazaré. O amor a Jesus oculto gera a
contemplação e a adoração silenciosa da presença eucarística, o desejo da
pobreza, a imitação dos sofrimentos de Cristo, e o serviço aos mais
pobres e humildes por meio da amizade e do testemunho silencioso.
Em Teresa de
Lisieux (1873-1897), o menino é síntese de amor e doçura. Ela ensina a
nunca perder de vista a infância espiritual,
a própria pequenez e fragilidade, a
desejar ser esquecido e não contar em nada, a nutrir-se do amor
misericordioso de Deus.
Cresceu o número de congregações religiosas dedicadas a
viver e propagar a devoção mariana. No campo leigo, destacou-se
a congregação das Filhas de Maria. Aumentou a devoção
à sagrada família e a São José. As devoções clássicas não sofreram solução
de continuidade.
Século XX
O século XX foi marcado pelas grandes guerras, pela explosão
da bomba atômica, chegada do ser humano à lua, exploração
do espaço, descolonização e independência de muitos
países, e pela divisão do mundo em blocos e em situações
econômicas e culturais diferentes. Nesse mundo tão pluralista,
a espiritualidade continuou sendo uma realidade querida, buscada,
e também desprezada.
As linhas de força da espiritualidade contemporânea podem
ser resumidas da seguinte maneira: sentimento eclesial e comunitário,
ânsia do absoluto, retorno às fontes da vida cristã (Bíblia,
liturgia e Padres), abertura ao mundo e
engajamento. A tensão se dá entre dois componentes da mensagem cristã:
presença ou fuga do mundo, valor da pessoa e função da comunidade.
Dentre os movimentos que influenciaram na configuração
da espiritualidade contemporânea destacaram-se: o americanismo, o
modernismo, o problema místico (unicidade da via
mística versus contemplação infusa e adquirida), litúrgico, bíblico,
patrístico, mariano, ecumênico, missionário, e leigo.
Em princípios do
século, na França e na Espanha, A. Saudreau e
P. Poulain assinalaram o início das
discussões sobre a natureza da vida mística e o chamado de todos à
contemplação. Farges e Maritain passaram a pesquisar as relações entre as
místicas cristã e não-cristã. Entre as duas guerras a atenção voltou-se à
natureza e ao método da teologia espiritual (Stolz, Mager...).
Em contraposição à visão maniqueísta e neoplatônica da vida espiritual,
firmou-se uma espiritualidade de imersão na
vida, que
descobriu o valor cristão do mundo, do ser humano e de sua história. Tal
caminho foi propiciado pela nova teologia (Teilhard, Chenu).
Teilhard de
Chardin
(1881-1955)
plantou as sementes da espiritualidade
do futuro: suas investigações científicas como arqueólogo
e antropólogo na China e África levaram-no à conclusão de que a
espiritualidade da vida cristã se desenvolve em diálogo com o
mundo e a cultura; estabeleceu as bases
para a elaboração de uma
espiritualidade do mundo ao afirmar que a natureza é sagrada e que,
após a encarnação, nada mais é profano.
O movimento
litúrgico remonta ao século XIX: Guéranger
programa a liturgia como forma
particular de espiritualidade e
oração; Festugière tende a delinear a liturgia como forma de vida
espiritual. Expandiu-se com o centro Maria Laach, com
Herwegen e Casel, e com um grupo de
alemães sob Romano Guardini. A encíclica Mediator Dei pôs em
foco os problemas teológicos, pastorais e espirituais que lhe estavam
implicados; a partir daí o movimento desenvolveu-se sob o aspecto pastoral e
aprofundou as relações entre liturgia e
espiritualidade, tendendo a recuperar aquilo que se dissolvera em fins da
Idade Média.
A Bíblia voltou a ser a fonte direta da piedade e da vida
espiritual. Antes de
A Igreja apenas digeriu os novos posicionamentos e situações com o
Vaticano II: nesse Concílio, pôde ressaltar a dignidade
da pessoa humana, como ser criado e redimido, e afirmar que somente o
mistério do Verbo encarnado explica o mistério
do ser humano (GS 22), e que a plenitude do ser humano está
na união com Deus (GS 19,1). A teologia do homem novo, dos novos céus etc.,
originou a antropologia teológica; as raízes da
virada antropológica devem ser buscadas na descoberta de Jesus,
homem para os demais, e no seguimento de Jesus.
O Vaticano II redescobriu o Espírito Santo. A ruptura de
1054 privara o
ocidente desse hálito de mistério e transcendência
que respira a teologia e a
espiritualidade orientais; a partir do
século XIII a teologia ocidental se
racionalizou e o teólogo perdeu o contato vital com a palavra de Deus
e a tradição. A redescoberta do
Espírito é um fato, assim como a dimensão trinitária da
espiritualidade.
A acentuação dos
aspectos místico e pneumatológico abriu
perspectivas à espiritualidade, que tendeu a concentrar-se na
caridade, nos sacramentos, a ser mais escatológica, ecumênica, dinâmica e
apostólica, socialmente mais engajada e responsável.
Em termos de espiritualidade, a novidade do Vaticano II foi
a volta às
fontes Escritura (a constituição dogmática Dei Verbum propôs a
Escritura como prova das teses dogmáticas e indicou o
primado da Palavra de Deus na Igreja),
liturgia (fruto do movimento
litúrgico, a constituição Sacrosanctum Concilium estabeleceu
o princípio básico da liturgia como cume
para o qual tende toda a ação da Igreja), e Igreja (as noções
teológicas de povo e corpo, contidas na constituição dogmática Lumen
Gentium, superaram a dimensão jurídica da Igreja como sociedade
perfeita).
Paralelamente ao retorno às fontes, outra orientação que repercute no campo
da espiritualidade é a abertura ao mundo.
Tal esforço se traduz na vontade de presença e aproximação da
nova mentalidade.
Após o Concílio, proliferaram as dimensões da militância,
da transcendência,
da descoberta da Igreja como comunhão,do
compromisso libertador, da essencialidade do Espírito na
vida.
Na década de 60, um ar secularizante e dessacralizador
eclodiu na história do cristianismo: Van Buren, Altizer, Cox, e
outros espirituais da secularização criticaram a religião, a teologia
e a espiritualidade.
Potenciada pelo
Vaticano II, surgiu a espiritualidade da ação, com a ruptura das dicotomias
e antinomias clássicas entre ação e
contemplação, sacro e profano. O emergir desta mentalidade
foi propiciado pelos cristãos para o
socialismo, pelas comunidades de base e comunidades populares.
Um dos indicadores
e paradigmas mais férteis no Concílio e pós-Concílio foi a irrupção dos
pobres na Igreja como sujeitos
evangelizadores e libertadores. Um núcleo doutrinal importante foi a
teologia esboçada em Medellín e Puebla.
Após alguns anos de iconoclastia, crítica e abandono das
devoções clássicas, a religiosidade popular retornou com força.
Nos anos 70,
assistiu-se ao despertar religioso: descobriu-se gratuito, o festivo;
ressurgiu a dimensão ritual e simbólica da
existência humana; renasceram o gosto
pela experiência espiritual e religiosa, a mística oriental, os
êxtases, a volta à natureza e a ânsia da
comunhão ecológica. Dentro do cristianismo brotaram
os movimentos de renovação carismática e os grupos de oração. O
anseio pela experiência e transmissão mistagógica do
cristianismo, pela fusão entre teologia
e espiritualidade, coincidiu com o reavivamento (revival) da
religião.
A espiritualidade se pôs o problema da santidade no mundo,
ou da integração dos valores terrenos no ideal de santidade.
No plano da vida religiosa isto se concretizou nos Institutos
Seculares, aprovados em 1947. Esta nova forma de vida religiosa
revela uma das características de fundo da espiritualidade
contemporânea, que tende a realizar no
mundo os ideais de presença e
testemunho, conciliando a sede do absoluto com os valores terrenos.
Atualmente, entre os grupos que configuram a sociedade e
a Igreja, a
espiritualidade tem sido vivida diversamente:
a)
os arcaizantes continuam vivendo a espiritualidade tradicional,
em confusão simbiótica com a teologia natural, a magia e a
superstição;
b)
os integristas, nostálgicos da religião, olham com entusiasmo
para o passado espiritual e se opõem a qualquer reforma ou adaptação;
c)
os
radicais continuam sendo excessivamente críticos;
d)
e, enfim, os grupos dinâmicos procuram renovar-se.
Dentro da ambigüidade, da polivalência do termo, grupos
díspares, que
também entendem a espiritualidade de maneiras diferentes, estão se voltando
para ela.
Espiritualidade
ortodoxa
No monaquismo oriental, a figura do mistagogo adquiriu
uma importância particular. Seu método foi relevante sobretudo
na forma desenvolvida em Athos, o starcestuo, cujo campo de
ação foi especialmente a Rússia. O staretz é o padre espiritual
(guia da vida interior) que vive no cenóbio ou sozinho, no
deserto ou nas proximidades de um mosteiro (nem todos eram
monges).
Entre os ortodoxos, a partir do século XIX, a espiritualidade
do coração foi difundida especialmente pelos russos como a espiritualidade
típica dessa Igreja; a insistência recai sobre os
sentimentos espirituais, e a oração se
manifesta por meio da intuição espiritual (Teófano Recluso).
O cristocentrismo
foi a tendência principal dos pensadores
russos do século XIX: desde os tempos de Pedro, o Grande
(século XVIII), a inteligência russa buscou a estrada de sua
instrução no
ocidente. Mas quase sempre seus representantes retornaram desiludidos e
atormentados, e, após uma longa crise pessoal, sonhavam com um ideal: dar
nova unidade ao pensa-mento ocidental
despedaçado (isto seria a vocação própria da
nova filosofia russa). Segundo seus
principais representantes, essa unidade deve ser viva e universal, e buscada
somente em Cristo: para G. S. Skovoroda (1794), Cristo é a lei interna do
mundo; Dostoievsky (1881) afirma
que tornar-se genuinamente russo significa introduzir definitivamente
a conciliação nas contradições européias, segundo a lei evangélica de
Cristo; para P. Florensky (1946), esta
unidade não poder ser a retomada da forma escolástica, mas deve estar
fundamentada na unidade viva das pessoas divinas.
As doutrinas
sofiológicas ou sofiânicas dominam as concepções
teológicas dos russos recentes (V.
Soloviev, P. Florensky, S. Bulgakov, B. Zenkovsky). O que os une é o
esforço comum de superação do
determinismo científico, de ver o mundo
liturgicamente, de afirmar numa visão
global a atividade cósmica do
Deus Criador, santificando a Igreja e divinizando o mundo. A
Sofia, a sabedoria divino-humana, é uma comum-unidade da
criatura que toma parte na vida da
Trindade; é a verdadeira
realidade do mundo; é divino-humano-cósmica, antitética, dinâmica,
dialógica; conseqüentemente descobrir a essência de todas as coisas
somente é possível em diálogo com o Pai, o Filho, e o
Espírito Santo, isto é, na
oração (estudar o mundo, rezando, é a única ciência verdadeira digna
do ser humano sábio).
Espiritualidade
protestante
No século XVII, o pietismo promovera um despertar religioso,
levando a Bíblia ao povo e pregando uma piedade mais
simples e humana.
Nos primeiros
decênios do século XIX, como reação ao racionalismo teológico, houve
movimentos de despertar religioso que queriam recuperar as verdades
fundamentais da fé cristã em grande
parte perdidas na teologia iluminista. Dava-se importância à
experiência religiosa interior, à conversão e à santificação pessoal. Teve
uma tendência escatológica e um forte impulso missionário.
O romantismo favoreceu a acentuação sentimental da fé e
o subjetivismo
religioso, com certa desvalorização da doutrina.
Na segunda metade do século XIX, com a crítica bíblica e
a filosofia da imanência, chegou-se à teologia liberal, com seu
otimismo
antropológico e social, sua fé no progresso moral da humanidade.
No início o movimento pentecostal protestante não pretendia,
ser uma nova Igreja, mas acabou por dar origem a numerosas
denominações. Suas origens remontam aos movimentos
de reavivamento, característicos do cristianismo norte-americano
no século XIX. Sua tipicidade consiste na afirmação da
necessidade de um segundo batismo (o "batismo no Espírito
Santo"), que possibilita a experiência dos dons do Espírito
mediante manifestações carismáticas, sobretudo o dom das línguas
e a cura divina; caracteriza-se também por uma piedade
individual, uma moral rígida, e por
certa espontaneidade no culto.
Os valores exaltados desabaram com a Primeira Guerra.
Surgiu a teologia da crise com Karl Barth, que pronunciou um
juízo demolidor sobre a teologia liberal e sobre todo desvio
subjetivista do pietismo, do despertar e da teologia romântica,
para retornar aos
reformadores e à revelação bíblica do Deus
transcendente — totalmente outro — e à
sua revelação única
Após a Segunda Guerra, um movimento neopentecostal,
iniciado nas universidades norte-americanas, espalhou-se no seio
das IgTejas
históricas, chegando em alguns casos à formação de
novas denominações. Como o
pentecostalismo, enfatiza o batismo no Espírito Santo e os carismas
extraordinários.
No século XIX, tanto no anglicanismo como no protestantismo,
surgiram experiências de tipo comunitário-monástica. No anglicanismo, as
primeiras comunidades nasceram nos anos 40, em meio à desconfiança das
autoridades eclesiásticas e do povo, mas
depois foram reconhecidas oficialmente; de tipo contemplativo,
e também de assistência social, assumiram posição crítica
em relação à reforma, pois esta teria destruído elementos
positivos da vida eclesial. Entre os
protestantes, as ordens diaconais femininas iniciaram-se nos anos 30
(diaconisas de Kaiserwert, na Renânia):
tinham a vida em comum, sem os
votos perpétuos, e finalidade assistencial. As ordens de tipo
monástico surgiram na Alemanha, após a Primeira Guerra, e o
promotor deste movimento foi o teólogo
Frederico Heiler. Após a Segunda
Guerra surgiram centros de vida comunitária tanto
de tipo contemplativo como social; a
Comunidade de Taizé, junto a Cluny, com o ramo feminino de Grandchamp, na
Suíça, e a das Irmãs de Maria são
as mais conhecidas (estas e outras comunidades protestantes observam
os votos perpétuos).
O voto de
obediência ao superior da confraria ou da ordem
contém a reserva implícita da vinculação
da consciência à palavra de Deus
— é a atitude protestante diante de qualquer autoridade eclesiástica que se
encontre em contraste com a palavra de Deus.
O protestantismo substituiu a idéia de perfeição pelo conceito
de cumprimento: a perfeição está em Cristo, que é a
meta; na vida presente a pessoa está sempre e somente a caminho.
Os votos não são lei, se exprimem a oferta total da vida
do crente (oblação
por amor do Reino).
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