Oficinas de Espiritualidade Inaciana
Centro Burnier Fé e Justiça

MÓDULO I – Espiritualidade

Textos para a Oficina de 24 de outubro de 2009


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A TRINDADE REVELADA

Pe. Igresias

Quando Paulo perguntou aos Efésios se haviam recebido o Espírito Santo, obteve uma resposta que muitos cristãos atuais poderiam repetir: “mas nem ouvimos dizer que haja um Espírito Santo!”.

No Antigo Testamento a presença do Espírito Santo foi limitada e fragmentada. Começa a ser visto depois do Êxodo, mobilizando especialmente os profetas: Enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres, a curar os quebrantados de coração (Is 61,1). Mas eram sempre figuras isoladas e de forma transitória, na maioria das vezes apenas enquanto durava a missão para a qual eram escolhidos. Depois da morte do último profeta tornou-se opinião comum entre os rabinos que mesmo esta presença limitada teria desaparecido. Esperava-se, entretanto, que nos tempos messiânicos o Espírito Santo se derramaria sobre todo o povo, fazendo dele um povo de profetas.

Depois de séculos de ausência, voltamos a encontrar o Espírito Santo descendo sobre Jesus no dia de seu batismo (Mt 3,16), não apenas para lhe encomendar uma missão, ou enquanto durasse esta missão, mas de forma permanente e estável. Isso ninguém tinha se atrevido a esperar. Vi o Espírito descer como uma pomba, vindo do céu, e permanecer sobre ele (Jo 1,33). Cristo não foi mais um profeta possuído pelo Espírito, mas o Senhor do Espírito. Neste tempo pré-pascal, os evangelhos coincidem em elucidar que só Jesus possuía o Espírito: ...pois não havia ainda Espírito, porque Jesus não fora ainda glorificado (Jo 7,39).

Hoje sabemos que a ressurreição, ascensão e pentecostes devem ser considerados como o desdobramento pedagógico de um único acontecimento que teve lugar no instante mesmo da morte. Hipólito emprega uma imagem muito bonita: da mesma forma que quando se quebra um vaso de perfume seu aroma se difunde em todas as partes, ao romper-se o Corpo de Cristo na cruz, o seu Espírito, que enquanto estava vivo possuía em caráter exclusivo, derramou-se pelos corações de todos. Por isso Jesus dissera: É de vosso interesse que eu parta, pois, se eu não for, o Paráclito não virá a vós. Mas se eu for, enviá-lo-ei a vós (Jo 16,7).

O Pai enviou seu Filho ao mundo. Hoje tampouco podemos ver ou tocar o Filho, porque como tal ele já partiu de nosso meio. Mas o Espírito Santo, que o Pai enviou pelo Filho, foi o que ficou depois de sua morte. Esse Espírito já não é apenas o Espírito do Pai, mas também do Filho, tendo a este ponto se tornado uma coisa só. Paulo, que não conviveu fisicamente com Jesus afirma que mais importante do que conhecer “Cristo segundo a carne”,  é poder dizer já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim (Gl 2,20). No Espírito Santo nos tornamos contemporâneos de Cristo.

Como muitos cristãos se esquecem da ação do Espírito Santo, podem pensar que a história da salvação termina em Cristo. Os apóstolos, quando Cristo ascendeu aos céus, deixaram de olhar para as nuvens, por onde desaparecia o Filho de Deus, para olhar para a terra, onde havia de manifestar-se o Espírito Santo. A história da salvação seguia adiante. Vivemos o tempo do Espírito Santo!

O homem só pode motivar e falar de fora a outro homem. O Espírito, em contrapartida, nos dinamiza a partir de dentro e nos fala na própria consciência.  O dia em que tomarmos consciência de sermos habitados por Deus, será como se nascêssemos de novo.

Vivemos o tempo do Espírito Santo

Durante muito tempo os teólogos usaram uma linguagem abstrata ao tratar da Trindade o que tornava este mistério insignificante para a maioria dos cristãos. As coisas mudaram nos últimos tempos. A teologia trinitária une a nossa vida pessoal e coletiva com a Trindade. A Trindade vai se revelando numa eterna história de amor por nós. A Sagrada Escritura vai narrando as maravilhas de Deus na história da Salvação. Deus narrando seu amor! Na Escritura admiramo-nos como somos: filhos/as amados/as, reunidos e santificados por Deus, a quem damos nome de Pai, Filho e Espírito Santo. A oração litúrgica da Igreja é a que guia a reflexão teológica (lex orandi, lex credendi). A Trindade acontece em nossa existência. Devemos procurar a Trindade em nossa vida e na vida do mundo. Não a encontramos originalmente em enunciados dogmáticos enigmáticos, mas na expressão dramática e na atualidade litúrgica do Mistério salvífico.

Tanto em Jesus como no Espírito Santo, quem age é Deus mesmo, embora sejam pessoas distintas. Riqueza inesgotável que a Igreja nos aponta para que saibamos onde Deus abre seu íntimo para nós: no seu Filho e no Espírito Santo que nos anima. Lá encontramos Deus, não como um bloco monolítico e fechado, mas como pessoas que se relacionam, tendo cada uma sua própria atuação: o Pai que nos ama e chama à vida; o Filho Jesus, que fala do Pai para nós e mostra como é o Pai, sendo bom e fiel até o dom da própria vida na morte de cruz; e o Espírito Santo que fica sempre conosco. Ele atualiza em nós a memória da vida e as palavras de Jesus; ele  anima a sua Igreja. E todos os três estão unidos e formam uma unidade naquilo que Deus essencialmente é: amor.

Pelo batismo somos mergulhados “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. O acolhimento na comunidade de fé (Igreja) é a entrada na comunhão de Cristo, e esta é de per si comunhão com o Pai, no Espírito que impeliu Jesus para a missão (Mt 4,1; 3,17). O Espírito que recebemos é o mesmo Espírito que Jesus recebeu no seu batismo e com o qual ele nos batiza. Recebemos um Espírito de filhos adotivos, que clama em nosso espírito: “Abbá, Pai!” (Rm 8,15). Quem recebe o batismo entra numa relação específica com cada uma das três pessoas da Trindade. Em relação ao Pai, é filho por adoção (o que, na cultura de Jesus, significava muito: pleno direito ao amor e à herança do Pai). Em relação ao Filho, é irmão (participando da mesma vida e missão). E quanto ao Espírito Santo, é dele que recebe inspiração e impulso para viver a vida divina no mundo. Convém termos consciência disso na nossa vida de batizados.

Certamente Deus é um só. O que o Pai, o Filho e o ES significam em nós é uma só e mesma realidade: a presença divina em nós. Mas essa realidade se realiza em relações diversificadas. Assim podemos cultivar as diversas atitudes que nos relacionam com a Trindade em nossa vida. Atitude de filho adotivo do Pai, cuidando de sua obra, de sua solicitude para com a criação e a humanidade. Atitude de irmão de Jesus, na sintonia e solidariedade, na ternura para com os outros irmãos, e para com Jesus mesmo. Atitude, finalmente, de quem é impulsionado pelo ES (e não pelo espírito do mundo, do lucro, da exploração...). Esta consciência da nossa relação com as pessoas divinas não surge espontaneamente. É preciso cultivá-la na contemplação das Três Pessoas divinas.

A escultura da Irmã Caritas Müller que está numa casa de oração da Suíça fala mais que muitas palavras. Apreciamos na foto quatro círculos, sendo que se insinuam tantos círculos como pessoas no orbe da terra. O círculo expressa o caráter único de cada pessoa, tanto divina como humana. É interessante notar que os círculos não são fechados, pois as pessoas podem entrar no círculo das outras na medida que seu amor é atuante. Que realidade bonita! O círculo central recolhe uma pessoa humana, que pode ser qualquer um de nós. Não dá para saber se é homem ou mulher, pobre ou rica, jovem ou velha e assim por diante. Parece sim se tratar de uma pessoa ferida nos caminhos da vida. Logo nos vem a lembrança do bom samaritano. As três pessoas divinas estão debruçadas, com reverência, sobre a pessoa machucada. É patente que o Deus uno e trino, comunga no mesmo sentimento de amor e com-paixão. O Pai (à direita) está inclinado, joelho em terra, se esforçando com cuidado para levantar a pessoa ferida. O sentimento do Pai é de ternura, seu rosto se aproxima e beija o rosto inerte da pessoa, O Filho (à esquerda), dois joelhos em terra, nos lembra da última Ceia; ele lava os pés da pessoa ferida, cura suas feridas com carinho e beija seus pés. O ES, figura que desce do alto e se aproxima do ferido, tanto pode ser a figura de uma pomba, de chamas ou de mãos que trazem vida. O bico da pomba, ao igual que o Pai e o Filho, beija a pessoa e lhe transmite um sopro criador de vida e de amor.

Quem conhece os Exercícios Espirituais de Santo Inácio admira como o santo foi feliz na contemplação da Encarnação do Verbo. Apresenta um tríptico: as Três pessoas divinas, a humanidade inteira e Nazaré, onde o anjo anuncia a Encarnação a Maria. Convida-nos a ver, ouvir e olhar o que as pessoas fazem. As Três pessoas divinas, ao verem a situação da humanidade, “determinam” em sua eternidade, que a segunda Pessoa se faça homem para salvar o gênero humano. O verbo está no presente indicativo: a história está acontecendo agora!

 

CONTEXTUALIZAÇÃO

 

Que consciência e intimidade você tem com o Pai? Conte-nos.

 

Que consciência e intimidade você tem com o Filho? Conte-nos.

 

Que consciência e intimidade você tem com o Espírito Santo? Conte-nos.

 

 

Essas leituras bíblicas ajudam a nos aproximar melhor desse Mistério:

ü  Essa leitura fala do PAI: que CRIA, pondo em ação seu projeto de liberdade e de vida para todos, segundo a sua "Sabedoria". (Pr 8,22-31)

ü  Essa leitura apresenta a obra do FILHO,  que realiza o projeto da Salvação. (Rm 5,1-5)

ü  Essa leitura - fala do ESPÍRITO SANTO, prometido por Jesus, que completará a obra do Pai e do Filho, para que possamos aderir plenamente ao projeto do Pai e à obra salvadora do Filho.  (Jo 16,12-15)