Oficinas de Espiritualidade Inaciana
Centro Burnier Fé e Justiça

MÓDULO I – Espiritualidade

Relatório da Oficina de Espiritualidade – 24 de outubro de 2009


 

Tema: Fundamentos neo-testamentários e teológicos

Assessor: Pe. João Inácio Wenzel

Oração inicial: canto - Olha a glória de Deus brilhando; leitura de Mc 1, 9-11 (Batismo de Jesus) – oração (dirigida) relaxamento e contemplação do texto bíblico lido – Pai-Nosso (meditado).

 

Tema do dia:

Primeiro, partilha, em duplas, das leituras feitas do texto Visões de Deus.

Sobre fetiches de Deus:

“Deus é forçado a fazer o que queremos mediante novenas, promessas...”

“vendo o Círio de Nazaré, um jovem que pedia muito pela cura da mãe cancerosa, nele eu via muita fé, muita confiança”

Vamos crescendo na nossa compreensão de Deus, conforme vamos crescendo e refletindo nossa fé ao longo de nossa vida.

“mesmo já tendo refletido muito sobre esse texto ainda tenho a imagem do Deus perfeccionista e que cobra muito da gente, sempre exigindo muito de nós”

“com as falsas imagens de Deus surgem muitos escrúpulos, o medo exagerado de pecar, tudo é pecado”

“eu tinha duas imagens de Deus: aquele somente da razão do pensamento, da leitura de livros e aquele manipulável pelos ritos”

“para mim a imagem do hedonista”

“sempre tinha presente a imagem de Deus Todo-Poderoso, uma compreensão superficial, que traz presente uma instância de dominação”

“Deus não depende de nossa ação para realizar sua obra; se a salvação é somente pelo batismo, então Nossa Senhora não está no céu”

“o batismo é um sinal de comprometimento, não fico preso somente no rito: a pessoa é batizada e pronto, não faz mais nada”

“tenho um sobrinho que atribui tudo o que acontece de ruim para Deus; ele reclama muito contra Deus”

Isso é reflexo da imagem de Deus Todo-Poderoso que pode fazer tudo.

“tenho a imagem do Deus sádico, quanto mais eu sofro mais realizo a vontade de Deus”

Sobre o Deus sádico: o sofrimento pelo sofrimento, agradeço a Deus pelo sofrimento que estou passando.

No cristianismo temos o sofrimento redentor: passar pela cruz, e o sofrimento desnecessário, sofrer por sofrer, em outros temos na Igreja as pessoas machucavam seu corpo como sinal de fé pessoal. Mas Jesus sempre procurou livrar as pessoas do sofrimento.

“mas o que significa carregar a cruz, não é sofrimento...?”

Se estamos com um trauma é preciso ir até a ferida para curá-la, mesmo que isso cause dor, isso é o sofrimento redentor.

“quando falamos sobre o sofrimento de Jesus na cruz, não se trata somente do madeiro, mas de uma atitude de vida, lutar para que haja justiça social, para que o patrão pague justamente o funcionário, e o corrupto devolva o que roubou”

Quando houve o censo na Judéia, houve uma revolta entre os judeus e cerca de dois mil foram crucificados pela legião romana, então muitos foram crucificados além de Jesus; Jesus assumiu com fidelidade e humildade o projeto do Pai, foi solidário com os crucificados.

“uma cruz é a solidão de vida, ficar sozinha, ficar somente olhando para mim, meio narcísica”

Isso impede a pessoa de assumir o serviço da comunidade, e sempre vai ser muito vista e até criticada, isso é sofrimento e cruz.

“quando estou na dor e no sofrimento não faço muitas orações, agora quando estou bem aí rezo bastante”

Quando não estamos bem isso reflete em todas as áreas da minha vida, nos relacionamentos.

Quando estamos bem consolados qualquer coisa me consola, mas quando estamos mal não encontro consolo em lugar nenhum.

Na cruz Jesus se sente sozinho, sem a ajuda do Pai, mas entrega sua vida nas mãos do Pai, com confiança.

Recomenda-se que na desolação não abramos mão dos propósitos iniciais da vida espiritual. Tenho que verificar para onde me leva a moção: se me aproxima ou me afasta de Deus, conforme Santo Inácio.

“fico nesse Deus sádico: o sofrimento significa que Deus está me provando”

Temos que distinguir entre a tentação do sofrimento e a provação de Deus: se sou tentado para o sofrimento então isso vem do mau espírito; na provação eu vejo esperança, tenho confiança, percebo que devo crescer na fé.

“no caso da morte de um filho em acidente se eu me revoltar, isso não é de Deus, mas se aceitar que Deus me deu o filho e o levou, então aí não vou viver somente no sofrimento”

“eu vejo que Deus não vai fazer acontecer um acidente com meu filho, para que eu seja provado, mas ele aproveita de um caso para que eu possa crescer mais um pouco”

“diante da dificuldade a gente pensa mais no problema, e não fica com vontade de rezar fica focado inteiramente no problema”

“é difícil saber o que é tentação, sofrimento, é importante a gente partilhar com alguém, um orientador espiritual”

“o caso da mãe de Cazuza: após a morte do filho ela se dirigiu para os mais necessitados com projetos sociais, não se pode dizer que Deus tirou o filho dela para que ela despertasse”

“muitos padres exageram com relação a eucaristia: a salvação só vem da eucaristia, e as pessoas não promovem atos de serviço e ajuda ao próximo”

“quando estou sofrendo peço muito a paz e penso que isso logo vai passar, me silencio, me acalmo e vou tranqüilizando”

Quando acontece algo de ruim nos perguntamos o que foi que eu fiz, mas deveríamos nos perguntar o que Deus quer de mim. Temos que aprender a tirar lições das coisas mais terríveis, um exemplo o Holocausto judeu.

Sobre o falar em línguas como relacionamento com Deus, cada pessoa deve buscar aquilo que mais aproxima a Deus, não existe um modo de oração somente para todas as pessoas, o terço por exemplo é uma das orações.

Sobre a eucaristia: Jesus disse Tomai e Comei e não tomai e adorai, e em João não há a narrativa da eucaristia, ali é trazida a narrativa do Lava pés. Para algumas pessoas a adoração ao santíssimo é um caminho que pode levar a Deus, mas isso pode se tornar um fetiche quando eu não admito formas diferentes de relacionamento com Deus, me prendo somente àquilo que eu acho que é correto para todos. Não podemos, por exemplo, obrigar a todos a orar em línguas.

“para mim é o fetiche do deus perfeccionista: pergunto-me sobre os consagrados que tem tanta proximidade com Jesus, com eucaristia e ainda são infelizes, e não percebem o valor das pessoas que às vezes vem lá em casa, mendigos, e não são aceitos”

Estava vendo um documentário sobre a Ir. Dóroty, os depoimentos dos ribeirinhos que aprenderam a usar os recursos naturais em conjunto, como cooperativa, e ela sempre vinha sendo ameaçada pelos homens do agronegócio, e se ela saísse de lá aquelas pessoas ficariam desprotegidos, e ela ficou e foi morta; esse sofrimento foi redentor, pois as pessoas que lá ficaram assumiram a luta e mantém o projeto da irmã até hoje. Veja o exemplo da Laura que está acamada doente, viver agora dessa maneira, mas buscar fazer a vontade de Deus, encontrar a vontade de Deus para minha vida.

“creio que devemos ver melhor o que é felicidade, alegria e sofrimento: minha amiga Maria Benedita que ajuda num sítio que trata de dependentes químicos, agora ela está aposentada e poderia descansar, mas ela se doa plenamente nesse trabalho, não fica presa em salão de beleza, com a casa, mas a alegria profunda dela é estar totalmente nesse trabalho”

 

Atividade: o Deus de Jesus

“para mim o Deus de Jesus é o Deus da liberdade e da esperança”

“para mim é o Deus da gratuidade, pois Deus nos dá tudo gratuitamente, e o Deus do Reino, com relação ao próximo, quando acolhemos irmão acolhemos o próprio Deus”

“para mim é o Deus da gratuidade, mas o que estamos fazendo para ajudar as pessoas, para resgatar as pessoas”

“para mim é o Deus do amor incondicional: sinto muito a presença do amor de Deus nas pequeninas coisas, não sei explicar bem, mas sinto isso muito forte”

“me identifico com o Deus da misericórdia, o perdão para mim mesmo; e o Deus do amor incondicional, recebo tudo de Deus, a iniciativa é sempre dele”

“para mim é o Deus da alegre misericórdia: como o filho pródigo esse Pai que ama tanto, e me pergunto como posso ajudar mais as pessoas; e o Deus da gratuidade, Ele não cobra nada; amar e acolher os mais necessitados, e Deus acolhe a todos, como um Pai de braços abertos”

Assim a gente compreende mais o Deus de Jesus, não fico mais com medo de Deus, percebo que o Reino é paz, é justiça; mas isso somente ocorre quando faço a experiência do profundo amor de Deus, quando a gente aceita esse amor; aí então percebo que devo entrar na dinâmica de Jesus, devolver a Deus por tanto bem que Ele me faz.

“meu menino infelizmente foi conhecer Deus na prisão, e eu angustiada fui até ele, e ele acabou me consolando, ele descobriu Deus, e é nesse Deus maravilhoso que eu acredito”

Eu tenho uma tendência ao perfeccionismo, eu que tenho que fazer acontecer, mas é preciso eu confiar na justiça de Deus, não somente fazer tudo certinho; é preciso fazer a experiência da liberdade minha e do próximo. Queremos teleguiar Deus e não nos deixar guiar pelo Espírito.

“o que nos atrapalha são as nossas regras: dizer que as pessoas de outras Igrejas não vão se salvar, os nossos preconceitos nos impedem de ser livres, a nossa liberdade fica reduzida por condicionamentos”

 

Sobre o tema da Trindade:

Vejamos Pr 8, 22-31, no Gênesis vemos que Deus cria pela sua Palavra todas as coisas. Em Provérbios temos a sabedoria que estava junto a Deus, em João lemos que no princípio o Verbo estava junto a Deus; o cristianismo afirma a crença em um único Deus, que foi revelado por Jesus; no texto do batismo de Jesus lemos que o Pai pronunciou as palavras, e o Espírito pousou sobre Jesus em forma de pombinha, e esse trecho é a última vez que Lucas fala sobre o Espírito, pois depois o Espírito vai se revelar em Jesus. Em Jo 1, 33 o Espírito aparece como alguém que permanece em Jesus.

E na cruz onde estava o Pai e o Espírito: Jesus entrega-se plenamente ao Pai; o tremor de terra foi a forma de expressar a presença de Deus.

Em Marcos Jesus morre dando um grande grito: Deus que ouve o grito do oprimido e o auxilia.

Em João acentua-se a unidade do mistério pascal: Jesus aparece aos discípulos e já sopra sobre eles o Espírito.

Temos que compreender o Mistério da Trindade nessa unidade entre as Três Pessoas Divinas.

O equívoco é dizer aqui está somente o Pai, ou aqui está o Filho, ou o Espírito. Fazemos confusão quando queremos dizer quem ocupa o lugar mais elevado.

“pecar contra o Espírito é não aceitar aquilo que Jesus fez, o que realizou em nome do Pai, a libertação dos doentes, das pessoas”

Os fariseus atribuíram as obras de Jesus a Belzebu: isso é pecar contra o Espírito, não aceitar aquilo que Deus fez por meio de se Filho Jesus.