Oficinas de Espiritualidade Inaciana
Centro Burnier Fé e Justiça

MÓDULO I – Espiritualidade

Textos para a Oficina de 03 de outubro 2009

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Oficina de Espiritualidade Inaciana III -  Módulo 1 – 19 de setembro de 2009

Fundamentos neo-testamentários e teológicos: O Deus de Jesus Cristo.

 

Propomos três textos como preparação para a oficina sobre os Fundamentos neo-testamentários e teológicos: O Deus de Jesus Cristo. No primeiro, a teóloga Maria Clara L. Bingemer discute a religião de Jesus. Victor Codina, teólogo jesuíta, mostra como o povo simples se comunica com Deus, em contraste com uma visão mais conceitual. Finalmente, uma sistematização trabalhada pelos Centros de Espiritualidade Inaciana, em forma de caricatura, distinguindo fetiches do Deus de Jesus.

O Cristianismo: uma religião? ou a saída da religião

Maria Clara Lucchetti Bingemer*
*Teóloga leiga. PUC-Rio

Sempre nos pareceu muito evidente afirmar que o Cristianismo é uma religião. Pois na verdade isso não é tão claro assim. Cada vez mais a teologia se inclina por afirmar que o Cristianismo não pode ser definido como uma religião. O que significa isso?  Na verdade, muitas coisas e que, se pensarmos bem, não irão nos parecer tão estranhas.  Comecemos do começo.  Ou melhor: comecemos por Jesus de Nazaré.  Será que podemos afirmar que Jesus queria fundar uma religião? 

Achamos que não. Jesus já tinha uma religião e não pensava em escolher outra. Era um judeu piedoso e fiel. O que o incomodava, justamente, era aquilo que os especialistas da religião haviam feito com a fé de Israel. Ao ler os quatro evangelhos, vemos claramente que a disputa de Jesus com os mandatários de sua religião se centra na distorção ou deturpação da imagem de Deus que os que se acreditavam donos da religião, do templo e da lei haviam feito. Haviam posto sobre os ombros do povo um peso tão absolutamente insuportável que era impossível de carregar.  Um sem número de rubricas, ritos, prescrições. 

Uma severidade implacável para com o cumprimento de todas essas mínimas normas é uma crueldade com as pessoas mais simples e humildes que não conseguiam cumpri-las por não terem condições de fazê-las. Jesus percebia que segmentos inteiros do povo eram declarados sem Deus: doentes, leprosos, pecadores.  E que várias categorias de pessoas eram tratadas como cidadãos de segunda categoria dentro deste mesmo povo: mulheres, crianças.

A esses, então, Jesus anuncia uma boa notícia, um Evangelho: o projeto do Pai, o Reino é para eles também.  Mais ainda: eles serão os primeiros a entrar, pois são humildes, se reconhecem pecadores, se sabem necessitados de misericórdia e perdão e não se acham donos inexpugnáveis e sobranceiros do dom de Deus que ninguém pode se arvorar em possuir. 

Ao fazer isso, Jesus não queria atacar nem agredir a religião de seus pais, na qual havia nascido e a qual amava.  Desejava apenas que a pureza do ideal da Aliança que sustentou a história e a caminhada de Israel pudesse continuar e crescer em toda a sua pureza.  Porém por isso mesmo foi considerado blasfemo.  Acusaram-no de agir contra a religião, de colocar em perigo a religião vigente que emanava do Templo de Jerusalém. 

E por isso fazem um complot para matá-lo.  E efetivamente o matam. É algo que deve fazer-nos pensar que quem matou Jesus não foi um grupo de bandidos e fora da Lei.  Pelo contrário, foram homens considerados de bem, guardiães da ordem e da religião.  Por crê-lo inimigo da religião de Israel, acreditaram dever eliminá-lo.  Temiam que ele quisesse acabar com a religião e trazer uma nova religião. Na verdade a proposta de Jesus não é a de uma religião, e sim de um caminho: o caminho do amor, da justiça, da fraternidade. O caminho da experiência de ser filhos de um Deus que é Pai bondoso, amoroso, misericordioso.  E por isso, ser irmãos uns dos outros. 

Assim fazendo, Jesus desloca o eixo da presença de Deus do Templo para o ser humano.  Anuncia que quando alguém está ferido á beira do caminho há que deter-se e socorrê-lo, atende-lo, com todo o amor e desvelo possíveis.  E não ir correndo para o templo porque se está atrasado para a celebração. 

Quem se detém e pratica o amor para com o próximo ferido e desamparado, encontra a Deus.  Mesmo que seja um idólatra, como o samaritano do capítulo 10 do evangelho de Lucas.  Mesmo que esse Deus se revele fora do Templo e das rubricas da Lei. Com a morte de Jesus e a experiência de sua ressurreição, seus seguidores começaram a anunciar seu nome e um movimento de fé começou a criar-se em torno dele.  E essa fé necessitava de uma religião para expressar-se.  Por isso tomou os ritos do judaísmo e acrescentou outros. 

O Cristianismo nascente tentou ficar dentro da sinagoga.  Não foi possível e o próprio Paulo, - judeu filho de judeus, circuncidado ao oitavo dia, da tribo de Benjamin, formado aos pés de Gamaliel - com muita dor na alma, foi quem chefiou o movimento de ruptura e ida aos gentios.  Espalhou-se pelo mundo a nova proposta, cresceu e configurou todo o ocidente.  Aquilo que começara humildemente em Nazaré da Galiléia, com o carpinteiro fazedor de milagres que chamava Deus de Abba – Paizinho tornava-se, sobretudo depois do século IV, a religião mais poderosa e hegemônica do mundo.

Foi preciso que houvesse a virada da modernidade, o declínio do mundo teocêntrico medieval, que o Cristianismo perdesse o poder que tinha de instancia normativa dentro da sociedade para que aparecesse a verdade inicial em toda a sua pureza. O Cristianismo não é uma religião. Ou, se for, é uma religião da saída da religião. É um caminho de fé que opera pelo amor, um estilo de viver, nas pegadas de Jesus de Nazaré, que passou pelo mundo fazendo o bem. O que isso quer dizer para nós hoje?  Que tudo que é religioso é mau?  De forma alguma.

Os gestos, os rituais, as normas, as fórmulas religiosas são boas desde que enunciem a verdade de uma fé, de um sentido de vida que se expressa na abertura a Deus e ao outro.  E por isso são relativas. Pode ser que algumas expressões religiosas que foram muito adequadas a determinada época histórica sejam extremamente inadequadas a outra ou outras. O único absoluto é Deus. O resto... é resto mesmo.  Isso é que, hoje como ontem, o Cristianismo é chamado a proclamar diante do mundo.

O Credo dos pobres

Víctor Codina, S.J.
Doutor em Teologia e professor de Teologia na Universidade Católica Boliviana de Cochabamba.

Colocamos entre [colchetes] expressões brasileiras que se aproximam às da região da Bolívia, de onde o autor escreve.

 

Ao terminar um curso de formação e religião cristã para adultos em um bairro popular de Cochabamba, na Bolívia, uma mulher que assistia o curso exclamou: "Deusinho nos acompanha sempre". [No Mato Grosso dizemos: “Vai com Deus!” “Fica com Deus!”] Esta exclamação constitui uma verdadeira profissão de fé, semelhante à daquela mulher que enquanto Jesus falava lhe disse: "Bem aventurado o ventre que te trouxe e os peitos em que mamaste!" (Lc 11,27).

Na Bolívia, como em outros países da América Latina, o povo é muito apegado aos diminutivos: o pão é "pãozinho", o café é "cafezinho", o pai é "papai", o soldado é "soldadinho", o padre é o "padrezinho", a religiosa é a "mãezinha", inclusive o morto é um "mortinho". Estes diminutivos significam familiaridade, proximidade, carinho, algo íntimo e simples. Neste contexto se pode compreender que também Deus seja chamado de "Deusinho".

Chamar Deus de "Deusinho" [ou “Paizinho”, “Painho”] está muito longe de concebê-lo como o Primeiro motor imóvel, a Causa das causas, o Ser necessário e Absoluto, o Ser do qual não se pode pensar nada maior como formularam filósofos helênicos ou escolásticos medievais. Não é também o Deus tremendo e fascinante, nem o "totalmente Outro" dos estudiosos da fenomenologia da religião.

Também não é o Deus que alguns teólogos chamam de Mistério Absoluto, o Deus sempre maior, o Deus inacessível envolto sempre na treva da incognoscibilidade infinita. Não é o Deus "onipotente e sempiterno" ao que nossa liturgia invoca ordinariamente ordinário. Menos ainda "Deusinho" é o YHWH (Javé) terrível que se manifesta entre raios e trovões no Sinai, nem é o Juiz castigador implacável de muitas previsões moralizantes ou da própria pintura do juízo final da capela Sistina. Também não é o Deus do credo Niceno-constantinopolitano.

"Deusinho" é um Deus próximo, familiar, bom, que perdoa, misericordioso, que deseja que sejamos felizes, que tenhamos vida em abundância. É o mesmo Deus ao qual Jesus chamava Abbá, ou seja, "papai", inclusive em seus momentos de angustia ante a proximidade de sua paixão (Mc 14,36). "Deusinho" reflete uma imagem paterna e também materna de Deus, porque como diz o profeta, ainda que uma mãe se esqueça de seus filhos, ele não se esquece de nós (Is 49, 15), ele tem entranhas de misericórdia, nos cuida, nos protege, está sempre perto de nós. Não é o Deus abstrato da mística renana, mas sim o Deus que Teresa de Lisieux descobriu em seu pequeno caminho da infância espiritual.

Indubitavelmente esta imagem do "Deusinho" está estreitamente ligada à encarnação e nascimento de Jesus, quando a Palavra eterna se faz carne e habita entre nós (Jo 1, 14), se despoja de sua glória e se torna semelhante a nós (Fl 2, 6-7). É uma imagem que nasce da contemplação de Jesus menino, o Menino Emanuel, o Deus transformado na pequenez humana, que o povo crente adora na noite de natal e venera nos presépios de suas casas. É sem dúvida o Espírito do Ressuscitado, o que nos permite gritar Abba ou Pai (Rm 8,15; Gl 4, 4), o que nos permite chamar Deus de "Deusinho".

Porém, este "Deusinho", acrescentava a simples mulher de Cochabamba, "nos acompanha sempre".

Não é um Deus que permanece invulnerável e insensível na distância, como os deuses do Olimpo, nem nos deixa abandonados a nossa própria sorte, mas que caminha com seu povo, escuta o clamor dos oprimidos no Egito, acompanha os Israelitas em sua marcha pelo deserto, em sua história de luzes e sombras e lhes faz retornar do exílio da Babilônia a Palestina. É o Senhor ressuscitado que se juntou como peregrino desconhecido aos discípulos de Emaús, lhes explicou as escrituras e compartilhou com eles o pão (Lc 24, 13-35). É o Senhor que disse que estaria sempre conosco até o fim da história (Mt 28, 20) e através do Espírito acompanha a Igreja em sua peregrinação, guia a humanidade e enche o universo, como o Vaticano II ensinou (GS 11). Nele existimos, nos movemos e somos.

"Deusinho" nos acompanha sempre ao longo de nossa vida, em momentos de felicidade e de turbação, e não nos abandonará no momento de nossa morte, porque é o que ressuscitou Jesus de entre os mortos e também ressuscitará nossos pobres corpos mortais (Rm 8, 11; Fl 3, 21). Quem nos separará do amor de Cristo? (Rm 8, 28-39). "Deusinho" fundamenta nossa esperança, porque nos acompanha sempre.

Muitos teólogos buscaram uma fórmula breve que sintetize o credo e responda a nossos dias. "Deusinho nos acompanha sempre" [“vai com Deus”] pode ser uma fórmula breve que resume toda a revelação bíblica expressa através do sentido da fé do povo simples: Deus não só existe, como que acompanha o povo sempre. "Deusinho nos acompanha sempre" resume em linguagem popular grande parte da história de salvação bíblica. É uma versão popular do evangelho, é como o credo dos pobres. Isto o povo pobre e simples não aprendeu nos livros ou cursinhos, experimentou em sua própria vida.

A exultação messiânica de Jesus que cheio do gozo do Espírito bendisse o Pai porque havia ocultado os mistérios do Reino aos sábios e entendidos e os havia dado a conhecer aos pequenos (Lc 10, 21), não foi levada muito em sério nem pela Igreja em geral, nem pela teologia de fato. Esta sabedoria cristã popular, fruto da natureza que o povo tem com o evangelho de Jesus, seu sentido da fé, do qual fala o Vaticano II (LG 12), não é vista como algo comum. [Embora a Bíblia o diga parece que] não cremos que o Espírito fale pelos pequenos e simples e que eles possuem a unção do Espírito (1 Jo 2, 20.27).

Evangelizamos o povo, ensinamos catecismo, pregamos, fazemos teologia e pastoral com os conceitos e linguagens elaborados por sábios e letrados, que muitas vezes apresentam uma imagem de um Deus Todo-Poderoso e Onipotente mais próxima dos ricos, dos senhores feudais, dos reis da terra, dos latifundiários, grandes empresários e banqueiros… que ao Deus clemente e compassivo Pai de Jesus, o Deus dos pobres, o Deus do Magnificat, o Deus que Simeão descobriu no templo onde um casal campesino oferecia aquele Menino ao Senhor (Lc 2, 22-35). Nosso Deus, o que pregamos e ensinamos no catecismo, muitas vezes está muito afastado do "Deusinho" do povo simples. Talvez por isto o povo pobre e simples se afasta da Igreja oficial e vive sua fé um tanto à margem, de maneira informal.

Contudo, o povo entendia Jesus de Nazaré. Falava com autoridade, mas de forma simples, com parábolas, com exemplos caseiros tirados da vida, com imagens populares. O povo simples de hoje entende a liturgia, as homilias, as encíclicas do magistério da Igreja? Falta ao povo simples inteligência para compreender ou aos sábios e prudentes falta compreensão profunda do evangelho para poder transmiti-lo aos pobres? Evangelizar os pobres é um dos grandes sinais messiânicos (Lc 7, 22). Porém, como evangelizar os pobres? Não haveria que partir de suas necessidades vitais, de suas próprias vivências e de suas expressões de fé popular?

A expressão "Deusinho nos acompanha sempre" é um desafio e um grito profético para os setores do Primeiro mundo e também da América Latina, para quem Deus morreu ou é algo que pertence à época pré-industrial e pré-científica, um resíduo cultural ante o qual vale mais a pena ser céticos e indiferentes, manter uma dúvida metódica, permanecer em um prudente e cômodo agnosticismo, guardar silêncio. Frente a estes setores, o povo pobre e simples confessa que Deus realmente existe e nos acompanha sempre.

Uma vez mais é verdade que os pobres nos evangelizam, nos oferecem uma imagem diversa de Deus, que poderá e deverá, sem dúvida, ser aprofundada, iluminada pela fé e razão, ser novamente evangelizada, mas que possui a verdade e a sabedoria própria do credo dos pobres. Os pobres são um lugar teológico e hermenêutico privilegiado para compreender o evangelho. Não acabamos de aceitá-lo. E mais ainda quando é uma mulher pobre que, às vezes, nos evangeliza.

VISÕES DE DEUS

O primeiro passo que devemos dar é garantir que a relação com Deus esteja dada no encontro pessoal com o Deus que Jesus nos revelou, e não com imagens distorcidas dele.

Nem tudo o que atribuímos a Deus é realmente de Deus. Podemos estar adorando um ídolo, um fetiche, que não é Deus, mas uma imagem falsa de Deus.

FETICHES DE DEUS

Propomos algumas imagens fetichistas de Deus fabricados por nossos medos e compulsões, às quais rendemos culto:

O deus perfeccionista, um deus que quer e provoca o perfeccionismo e por tanto se mostra implacável com quem não chega a perfeição.

O deus sádico, um deus que nos exige coisas que custam, coisas que sangram, coisas que doem, que nos fazem sentir, crer e dizer, por princípio: “quanto mais difícil é, maior sinal de deus!”

O deus negociante, um fetiche que exige obras, que exige cultivar a imagem, que é alguém que pode comercializar-se. Por isso a relação com esse deus se torna mercantilista: “te prometo para que me dês!”

O deus personalista e intimista, um fetiche feito a nossa pobre medida. É o deus de minha propriedade, a quem manejo: o faço a minha imagem e semelhança, pra mim; é um deus exclusivo porque é de minha propriedade.

O deus manipulável, um deus a quem se pode manipular com certos ritos, orações ou conhecimentos esotéricos, a quem se conhece nos livros, no saber, no entender lógico.

O deus juiz implacável, um deus que está pronto para julgar e castigar, sobre tudo, no que diz respeito a nosso corpo e sexualidade.

O deus hedonista, um deus facilitador. O deus da criança, que é imagem de seus progenitores e de seus medos. O deus só da ressurreição, que não passa pela morte, que não quer ver o sofrimento, que não assume as conseqüências do compromisso.

O deus todo-poderoso, um deus que se confunde com o poder, que se coloca na prepotência e que então nos arma os maiores embrolhos: não podemos explicar-nos nem entender, nem aceitar o mal nem a dor frente a esse fetiche, ele é o único responsável das conseqüências do mal no mundo, e das conseqüências da ação livre do ser humano contra si mesmo.

O deus da falsa conciliação e da falsa paz, um deus de uma paz, por exemplo, sem justiça. Um deus que não exige a radicalidade do compromisso, só o bem-estar sem conflito.

ü  Há alguma destas falsas imagens de deus (fetiches) com a qual compactuo?

O DEUS DE JESUS

O DEUS de Jesus é o DEUS da alegre misericórdia como o encontramos no Filho Pródigo (Lc 15,11-22); O Deus que celebra o perdão com a festa; o Deus que se interessa por nosso coração e não tanto por nossas ações, o Deus que não nos pede perfeição se não a abertura a seu modo diferente.

O DEUS de Jesus é o DEUS do amor incondicional que nos quer pelo que somos e não por aquilo que fazemos; o Deus que nos busca mais, precisamente quando estamos mais afastados do que nós temos captado como “seu caminho”. O Deus que nos tem querido quando ainda éramos pecadores (Rm 5,8) e nos ama e nos prefere. “Eu não vim chamar justos, mas pecadores” (Mc 2, 17).

O DEUS de Jesus é o DEUS da gratuidade. É a palavra que o representa mais. Tudo nele é gratuito. A Ele não se compra por preço nenhum, Ele não se vende por nada. Tudo nele e todo Ele é presente. “Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10, 45).

O DEUS de Jesus é o DEUS do Reino, é dizer, de um projeto histórico seu para com toda humanidade; projeto que implica a paz, a justiça, a concórdia, a solidariedade, a igualdade, o respeito entre todas as pessoas e o equilíbrio com o universo. É um projeto que começa agora e termina na plenitude de Deus. É o Deus que se encarna em cada um, mas segue sendo radicalmente outro. O que fizerdes a um dos pequeninos ou deixardes de fazer aos outros, é a mim que o fazeis o deixais de fazer (cf. Mt 25,40.46).

O DEUS de Jesus é o DEUS que se experimenta, é dizer, o conhecemos e experimentamos a partir da experiência e o encontro com Jesus, e não tanto a partir do conhecimento. “Eu sou o caminho a verdade e a vida... Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,6.9). Não há passos, nem gradações em sua compreensão. A chave exegética para estar em sua sombra é o reconhecimento de nossa condição de limitados e de pecadores, de pobres e de necessitados. Jesus mesmo, quando vê que os pequenos, seus discípulos evangelizam, exclama: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultastes essas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos” (Lc 11, 21).

O DEUS de Jesus é o DEUS da liberdade, como o atesta Paulo na carta aos Gálatas: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1); E é o DEUS da confiança, que aposta em nossa liberdade e nos impulsiona a ser livres. “Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,31-36). É um Deus que, como critério normativo, põe o amor sobre a lei, a misericórdia sobre a justiça. É um Deus que nos convida a nos soltar e nos deixar levar por Ele “Por isso vos digo: Não vos preocupeis com a vossa vida quanto ao que haveis de comer... Olhai as aves do céu...” (Mt 6,24-34).

O DEUS de Jesus é o DEUS Pascal e nos ensina algo radicalmente novo: que se o grão de trigo não morre não dá fruto (Jo 12,23-24). Dá sentido ao saber entregar-se até o mais profundo: a morte que gera vida. “Quem ama sua vida a perde... Se alguém me serve, meu Pai o honrará” (Jo 12, 25-26).

O DEUS de Jesus é o DEUS encarnado, que escolhe o débil, o pobre, o pequeno como primeiro canal de revelação. Deus presente através de Jesus. Quando Jesus ressuscitou o filho da viúva de Naim, o povo exclamou: “Deus veio visitar o seu povo” (Lc 7,16).  “Esvaziou-se a si mesmo, e assumiu a condição de servo, tomando a semelhança humana...” (Fl 2,7).  Ele é o “Verbo que se faz carne, e habita entre nós” (Jo 1,14).

O DEUS de Jesus é o DEUS da esperança, é quem provoca em nós a capacidade de crer e de esperar, que faz possível que colaboremos na mobilização da história...

ü  Que traços do Deus de Jesus são mais fortes em mim?

ü  Como aproximar-me do Deus de Jesus

ü  A quem busco, a deus ou a DEUS?