Oficinas de Espiritualidade Inaciana
Centro Burnier Fé e Justiça

MÓDULO I – Espiritualidade

Textos para a Oficina de 19 de setembro


Texto para impressão

Texto 1: Deus e a Revelação

Um conceito não-fundamentalista da revelação

Em: Queiruga, Andres Torres. Do Terror de Isaac ao Abbá de Jesus. Por uma nova imagem de Deus. Paulinas, pg 31-37.

a) Deus fala sempre e a todos

Seria o caso de fazer uma série de preâmbulos, tanto de caráter histórico como de reflexão filosófico-teológica, com o intuito de situar-se no novo paradigma. No entanto, como quase sempre acontece, o mais eficaz é certamente jogar-se de cabeça, partindo do mais elementar, isto é, daquilo que de mais simples e certo chegamos a saber de Deus (graças justamente ao processo real da revelação). "Deus é amor" (110 4,8.16): por amor nos criou e por amor vive, como um "Pai/Mãe", voltado sobre nossa história, a fim de ajudar-nos e salvar-nos a todos e a todas, desde o começo e sem nenhum tipo de discriminação. Se de alguma coisa temos certeza como cristãos, é precisamente desse amor universal, incondicionado e irrestrito.

Pois bem, ao pôr em crise a concepção tradicional, a nova situação cultural permite que levemos a sério essa verdade fundamental. Se Deus cria por amor - e só por amor - todas as pessoas, é óbvio que quer dar-se a todas, dar-se sempre e dar-se totalmente. Além do mais, é isso o que a mais elementar experiência humana nos ensina: nenhum pai ou mãe, normais e decentes, regateiam o amor a seus filhos, negando-lhes o bem que lhes podiam proporcionar ou fazendo-os esperar sem motivo; nem amam algum deles, discriminando os demais; nem amam alguns desde o começo, esperando longo tempo para demonstrar seu carinho pelos outros.

Se observássemos algo semelhante em algum caso da vida real, só nos restariam duas hipóteses: ou se trata de pais desnaturados, ou há algo que os impede de demonstrar e de exercer seu amor. No caso específico de Deus, a primeira hipótese está, evidentemente, descartada. É óbvio que só se pode pensar na segunda: algo torna impossível que Deus possa revelar-se plenamente, a todos e sempre. O que impede muitos de tomarem em consideração essa hipótese é que têm a impressão de que, se assim o fizessem, estariam negando a grandeza e a onipotência divinas.

No entanto, tal conseqüência não é inevitável: pode acontecer - e é o que de fato acontece - que uma revelação evidente, universal e ubíqua, desde o próprio começo da humanidade, seja efetivamente impossível não por parte de Deus, mas por parte do homem. O contrário já seria estra­nho a priori, pois Deus é muito grande, e nós, muito pequenos; Deus é transcendência absoluta, e nós, mundanalidade relativa. Se a comunicação, mesmo entre iguais, é sempre muito difícil e sujeita a equívocos, como não deveria sê-lo entre Deus e os homens? Olhando bem, assombroso não é o fato de a revelação ser tão difícil, mas muito mais o fato de ela ser simplesmente possível.

Esclareçamos um pouco mais esse ponto, partindo de um ângulo um tanto diferente. Ninguém pensa que Deus dei­xa de ser onipotente porque "não pode" fazer um lindo círculo quadrado; não que ele simplesmente não possa: é que compreendemos que um círculo-quadrado é impossível, ou melhor, é nada, e que, por isso mesmo, a suposição carece de sentido. Na revelação, isso parece ser menos claro, mas não é difícil compreender que se trata de uma estrutura idêntica.

Pensemos em um exemplo (confesso que cada vez mais gosto dos exemplos nessas questões, a fim de evitar elevadas especulações... nas nuvens): por mais inteligente que uma mãe possa ser e por mais que ame seu filhinho de um ano, poderá ensinar-lhe o teorema de Pitágoras? E se "não pode", isso quer dizer que é tola e que não sabe ou não ama seu filho? Da mesma forma, tem sentido dizer que Deus não é onipotente porque "não pode" revelar-se em absoluto a um embrião de seis meses nem a uma criança de onze semanas? Ou, indo mais além, tem sentido perguntar por que Deus não revela os mistérios mais altos de sua transcendência a uma horda primitiva do paleolítico inferior, perseguida pela fome, pelos animais e pela intempérie? Repito: em tais circunstân­cias, não é que Deus não seja onipotente, mas sim que é impossível que essas pessoas possam entender determinadas verdades ou, mais simplesmente, interessar-se por elas.

Se, apesar da cruel brevidade dessas reflexões, olharmos a partir delas o processo da revelação na história, tudo mudaria de figura, tomando-se mais claro, mais cálido, mais humano e... mais divino. Não estamos diante de um Deus "mesquinho" ou "caprichoso", o qual, porque quer, restrin­ge inicialmente sua revelação a um só povo e, além disso, começa tarde (tardíssimo, sabemos hoje pela paleontologia: não quatro mil anos, como se pensava então, mas provavel­mente mais de dois milhões de anos); além disso, ele o faz a conta-gotas e dizendo de forma obscura o que poderia dizer claramente. De imediato, compreendemos que ocorre exatamente o contrário: Deus, voltado com todo o seu amor sobre a humanidade, luta contra nossa ignorância e nossa pequenez, contra nossos instintos e resistências, contra nossos mal-entendidos e perversões, para ir abrindo-nos seu coração e iluminar para nós seu rosto, para manifestar-nos a profundidade de nosso ser e a esperança de nosso destino.

Quando realmente assumimos essa perspectiva, a própria Bíblia adquire uma nova luz e tudo se entende melhor. Suas dúvidas e obscuridades, seus avanços e vacilações são vistos agora como fruto da luta amorosa de Deus para tomar compreensível seu desígnio salvífico, aproveitando-se das diversas circunstâncias e valendo-se de todos os meios. Nunca é ele quem se nega - embora em alguns casos isso apareça expressamente nos textos da Bíblia -, e sim os ho­mens e as mulheres, que ( ainda) não sabem, ou não podem, ou não querem escutar e deixar-se guiar.

Ao mesmo tempo, aprende-se a ver que, "enquanto isso", Deus não havia abandonado os demais povos, mas desde o começo da humanidade está com todos e com cada um, manifestando-se a eles na medida do possível, isto é, na medida em que eles, em sua circunstância e com suas possi­bilidades culturais, são capazes de compreender e se decidem a aceitar. As religiões representam justamente o resultado dessa presença; por isso, como mostra a fenomenologia da religião, todas se consideram reveladas; e na realidade o são, como enfim o Concílio Vaticano II reconheceu (o são precisamente - da mesma forma que o Antigo Testamento em suas distintas etapas - na medida em que lhes é possível ser em seu lugar e em seu momento).

Por isso, nesse sentido preciso, devemos dizer que todas as religiões são verdadeiras, embora o sejam de manei­ra provisória e limitada, muitas vezes por meio de deformações e até de perversões, mas notando que isso ocorre em todas, também na bíblica, como o indicávamos no princípio; e a história mostra que nem sequer depois de sua culminação em Cristo consegue livrar-se de abusos, deformações e inquisições. O fato de que algumas religiões avancem mais do que outras não se deve a um "favoritismo" divino, mas à necessidade da história finita (do mesmo modo que nem todos nascemos igualmente sãos ou inteligentes).

Deus - como um pai e uma mãe com seus filhos e filhas - pensa em todos, e de sua parte entrega-se totalmente a todos; a desigualdade provém da acolhida humana. Todavia, ainda assim, seu amor busca a igualdade. Qualquer avanço em um ponto representa, definitivamente, uma vantagem para os demais. Por essência, toda revelação concreta tem por vocação chegar a todos, jamais permanecendo como propriedade exclusiva daquele que a alcança; no momento mesmo de ser captada por alguém, já pertence, por direito, à huma­nidade. Tal é também a razão pela qual, quando culmina em Cristo - como cremos nós, cristãos -, a revelação se torna universal. É isso que nos torna todos humildes e nos convoca à colaboração, ajudando-nos e enriquecendo-nos uns aos outros. Daí a enorme importância do diálogo entre as religiões.

Resumindo, para que não percamos o fio condutor da reflexão: Deus, como amor infinito e sempre ativo, entrega-se e trata de manifestar-se a todos, desde o começo e na máxima medida possível; as restrições provêm unicamente da limitação humana, que ou não pode ou resiste à sua revelação. Por isso, deve-se ter muito cuidado com expressões tais como o "silêncio de Deus". Podem ter certo fundamento subjetivo, porquanto isso é o que pode parecer-nos em algum momento; objetivamente falando, porém, são lesivas para o amor de um Deus que não tem outro interesse a não ser o de manifestar-se a nós. Autêntica resposta de filhos é justamente confiarmos que Deus não nos abandona jamais, embora as circunstâncias pareçam dizer o contrário (Cristo na cruz é o exemplo supremo).

Peço desculpas pelos inevitáveis antropomorfismos da exposição, que o leitor saberá situar devidamente. E acima de tudo estou consciente - porque já me objetaram isso muitas vezes - de que essa proposta pode soar a otimismo leibniziano, pretendendo ainda dizer a Deus o que ele deve fazer. Mas basta parar um pouco para compreender que se trata de uma falsa impressão, e que representa exatamente o contrário disso. Há otimismo, certamente; mas só naquilo que diz respeito a Deus; e aí não importa a objeção, porque o certo é que sempre ficaremos infinitamente aquém na hora de reconhecer e expressar sua bondade e seu amor. No entanto, pela mesma razão, não há soberba, mas, no fundo, profunda humildade: não dizemos a Deus qual deve ser sua conduta, mas reconhecemos seu amor e nos esforçamos por crer realmente nele, mesmo com todas as aparências em contrário.

Desse lado, portanto, o problema jamais vai estar. É em nós mesmos que não confiamos. E aqui, sim, não só cabe como se impõe todo o realismo do mundo: basta abrir os olhos para ver que o homem realmente pode falhar e falha, que é pequeno e necessitado, submetido ao lento crescimen­to da história, sempre em luta contra a ignorância, o instinto e o egoísmo, a tal ponto que, muito mais do que otimista, a proposta poderia parecer de um pessimismo exacerbado. Isso, contudo, também seria falso, pois a impotência e a limitação - reconhecidas sem rodeios - são vistas sempre em relação viva com o amor de Deus, que as sustenta e as apóia. Essa relação constitui justamente a essência íntima da reve­lação e define a trama de sua história.

 


 

Texto 2: A palavra de Deus e a Bíblia

 

Em: Palavra na Vida 237. Texto de Luiz Carlos ARAÚJO (Org). Metodologia de aprendizagem bíblica. CEBI, pp. 7-11.

No CEBI, nos foi dada a compreensão de que Deus se comunica através dos acontecimentos. Trata-se de uma percepção privilegiada, que revoluciona os fundamentos da Teologia da Revelação.

Esta compreensão de como Deus se comunica tem conseqüências extremamente esclarecedoras, a começar pelo entendimento da ação de Deus no mundo. Neste sentido, a Bíblia, se mal interpretada, pode nos confundir, dando a impressão de que Deus age e se revela com interferências diretas nos fenômenos da natureza e na história da humanidade.

Se assim fora, Deus agiria como agem os demais seres, só que com maior poder, ou melhor, com a sua onipotência. O ser humano pode secar um açude. Deus pode secar oceanos. Deus seria uma cau­sa onipotente, mas agiria igual aos outros seres, interferindo diretamente na realidade para modificá-Ia. Se assim age, Ele é um ser como os outros, só muito grande, infinito. O seu agir e conseqüentemente o seu ser não seriam de fato diferentes. Ele seria infinitamente poderoso, mas não seria infinitamente diferente. Estaria, de fato, no mesmo nível das causas naturais e humanas. Em outras palavras, não seria Deus.

Por trás da afirmação de que Deus se comunica através dos acon­tecimentos está outra afirmação: Deus age através dos acontecimentos. Eis o que isso significa: Deus age e se comunica através dos acontecimentos, como eles são e como, de fato, acontecem. Por isso, sua ação é misteriosa, porque se dá, sem Ele modificar diretamente a realidade, porque tudo o que acontece, do jeito que acontece, é ação de Deus e comunicação de Deus.

Aqui convém parar um pouco. Este entendimento da ação de Deus pode modificar a nossa visão de Deus e mudar a nossa vida. Vou repetir: tudo o que acontece, do jeito que acontece, é ação de Deus e comunicação de Deus. É ação de Deus e palavra de Deus. A este ponto vale lembrar que a primeira manifestação e, portanto, a primeira palavra de Deus é a própria criação. Nela, Deus se revela como a fonte da vida, conservador e promotor de tudo que existe.

Obviamente, os acontecimentos, simplesmente como eles são, nada nos podem dizer sobre as características específicas da ação de Deus nem sobre o que Ele está querendo nos comunicar. Portanto, quando dizemos: "É Deus que está me avisando...", "Foi Deus que me mostrou esse caminho...", "Foi Deus que me protegeu...", tudo isso é interpretação da nossa fé.

Deus fala continuamente através de todos os acontecimentos, mas a sua palavra só acontece, quando alguém a escuta, ou seja, quando alguém a interpreta devidamente. Qualquer palavra só acontece quando alguém efetivamente escuta aquele que fala. Com a revelação de Deus não é diferente.

Nem todos, porém, ouvem ou entendem o que Deus está comunicando. A questão, então, se concentra na seguinte pergunta: quem tem ouvidos capazes de ouvir a palavra de Deus, expressa nos acontecimentos? A resposta vem da primeira carta de Paulo aos coríntios (2,11): "As coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus". É preciso, pois, ter o Espírito de Deus para ter a sensibilidade capaz de captar a comunicação de Deus. Ou, como nos alerta João: "Quem é de Deus, ouve as palavras de Deus" (Jo 8,47).

E ouvir significa interpretar, entender a mensagem. Por isso, várias vezes nos evangelhos, se apresenta o desafio: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça" (Mc 4,9; 4,23; 7,16; Mt 11,15; 13,9; 13,43; Lc 8,8; 14,35). A palavra de Deus ressoa nos acontecimentos, como eles são e do jeito que se apresentam. É preciso, então, interpretá-los enquanto mensagem de Deus, o que não é possível, senão àqueles que se deixam guiar pelo Espírito de Deus, o qual habita o íntimo da consciência.

O que, porém, é importante observar é que não tem sentido pensar que Deus revele diretamente o que Ele é ou como Ele é. É impossível revelar ao nosso poder de concepção o jeito próprio de Deus ser, porque a natureza de Deus está além de nossa capacidade de conceber. Tal mensagem não poderia sequer chegar ao nosso entendimento. Um Deus concebido pelo ser humano é um Deus diminuído, um Deus à medida do homem. Refiro-me à nossa capacidade finita de conceber, a qual não pode senão formar conceitos de coisas finitas. Isso não quer dizer, como veremos a seguir, que não possamos atingir um certo conhecimento de Deus, através de outra via, diferente da nossa atividade de conceber.

Na verdade, o que Deus nos revela, através dos acontecimentos, é o seu caminho, ou melhor, aqueles caminhos possíveis da nossa história, que Ele indica como sendo os caminhos d'Ele para nós. Indica um caminho bem concreto, a ser seguido. Mas não basta ouvir sua palavra, que aponta um caminho. É preciso seguir o caminho revelado, pois somente no momento em que se assume o caminho mostrado por Deus é que sua palavra se torna realidade e realiza sua missão transformadora.

Essa prática do caminho que Deus mostra, mediante a luz do Espírito, ou seja, mediante a consciência aberta à mensagem dos acontecimentos da vida, é a principal fonte da revelação de Deus. A revelação de Deus se dá ao assumirmos os seus caminhos. Convém, pois, seguir a advertência profética da Bíblia: "Se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração" (Hb 3,7-11; ver SI 95,7-8).

Quem, em sua vida, procura com fidelidade ouvir a palavra de Deus e seguir o caminho que ela indica vai-se tornando semelhante a Deus. Por identificação com os seus caminhos, vai adquirindo a sensibilidade do seu Espírito, vai experimentando a sabedoria divina, vai "conhecendo" a visão de Deus sobre o mundo e sobre a vida. Esta é a via possível de comunhão com Deus e de conhecimento de Deus. Estas pessoas podem dar testemunho dos caminhos de Deus e através desse testemunho se tornam palavra de Deus para o mundo. São suas profetisas e seus profetas. Por isso, dizemos que Jesus foi a palavra de Deus, o Profeta de Deus.

Chegamos assim a identificar duas maneiras importantes e interrelacionadas de Deus se comunicar: ou diretamente através dos acontecimentos, ou pela mediação de profetas e profetisas, que pela sua vivência dos caminhos de Deus, mostrados nos acontecimentos, e pelo seu testemunho, apontam e convidam ao acolhimento desses cami­nhos. Neste segundo caso, é necessário atenção, porque os caminhos de Deus para profetas e profetisas não necessariamente são idênticos aos caminhos de Deus para nós. As nossas circunstâncias de vida podem ser diferentes, o que implica caminhos de Deus diferentes. To­davia, as suas vivências e seus testemunhos sobre caminhos de Deus servem de luz e inspiração para entendermos que caminhos Deus está revelando para nós.

Nós cristãos reconhecemos, nas nossas origens, um povo profético que, de Abraão a Jesus, entre fidelidades e infidelidades, reuniu em sua história um conjunto considerável de vivências da escuta da palavra de Deus, nos acontecimentos da vida, e de testemunhos de caminhos revelados por Deus. A Bíblia é uma história dessas vivências e desses testemunhos, que chegaram até nós, através de uma coleção de livros.

Não podemos deixar de considerar que, também no caso da Bí­blia, a origem e a principal fonte das vivências e dos testemunhos proféticos são os acontecimentos através dos quais Deus se revelou e se revela. Nem podemos esquecer que, sem a mediação do Espírito, que habita a consciência, não é possível perceber a comunicação de Deus, nem nos acontecimentos nem mediante os testemunhos proféticos.

Parece que podemos tirar dessas considerações iniciais três con­clusões relativas à leitura da Bíblia:

· O profetismo do povo de Israel, que chegou até nós através da Bíblia, tem um lugar e um papel privilegiados na vida das comunidades cristãs. Mas esse precioso e inestimável testemunho bíblico, para ser aproveitado criteriosamente, é preciso que seja lido com a consciência de que nele não buscamos caminhos a imitar, mas inspiração e luz para perceber que caminhos Deus aponta para nossa vida. Sendo assim, devemos procurar entender com lucidez que importância se deve atribuir ao aprofundamento do sentido original do texto. Obviamente, essa importância é grande. Mas existe o risco de alguém se iludir pensando que saber muito sobre a Bíblia e conseguir entender "o mais per­feitamente possível" o sentido histórico-literário do texto é o que mais importa para uma leitura proveitosa da palavra de Deus na Bíblia. Ora, "o mais perfeitamente possível" é sempre imperfeito. E, às vezes, basta um pouco de conhecimento verdadeiro sobre o significado original do texto para nos inspirar sobre algum caminho que Deus esteja mostrando para a nossa vida. O que mais importa é isso, porque é o que nos pode aproximar de Deus.

· A segunda conclusão óbvia é que, sem a ação do Espírito, que abre o nosso coração para o entendimento das coisas de Deus, a leitura da Bíblia em nada nos ajudará a perceber os caminhos de Deus para a nossa vida.

· Em terceiro lugar, portanto, quanto mais nos tornamos sensíveis à inspiração do Espírito, acolhendo a palavra de Deus nos acontecimentos da vida e nos testemunhos dos muitos profetas e das muitas profetisas que encontramos nos mais inesperados lugares do mundo, mais a leitura da Bíblia nos pode iluminar e encantar. Daí nasce a possibilidade do diálogo entre a vida e a Bíblia, de que fala o CEBI.

Perguntas

Observe atentamente as frases em negrito nas três conclusões acima e responda:

     . Em que medida essas convicções estão sendo vivenciadas nas várias instâncias de formação?

     . Essas convicções de fato são transmitidas através de palavras?

     . Só através de palavras?

     . Que procedimentos utilizados expressam a vivência dessas convicções?

 


 

Texto 3: Clamor e lamento.

Em:Roteiros para Reflexão V. Livro dos Salmos, pp.36-42

Crise de

Nem sempre é fácil guardar a fé. Há muitas coisas que conspiram contra a fé e nos podem levar a descrer de Deus e dos outros. Diante da mortalidade infantil, do abandono das crianças

que vivem na rua, da violência e miséria que reinam nas grandes cidades, muita gente duvida da existência de um Deus justo e I1lisericordioso. Talvez o desafio maior seja a prosperidade dos corruptos e opressores em contraste com a vida difícil daqueles que procuram ser fiéis. Onde está o Deus que "escuta o clamor dos pobres oprimidos"? Essa contradição que aparece claramente nos Salmos de lamento continua gritante nas desigualdades sociais de um país como o nosso. Os poderosos, cada vez mais arrogantes, só estão preocupados com os lucros e com o avanço da tecnologia que está nas mãos deles, enquanto aumenta o número dos excluídos e marginalizados. Com o devastador neoliberalismo, idolatrado pelos países ricos e pelos ricos dos países pobres, parece que não há mais espaço para a fé em Deus, Senhor da história. As próprias instituições eclesiásticas, que parecem acomodar-se para sobreviver, vão perdendo também a credibilidade.

Os Salmos e o clamor do povo

1. EU GRITO! ELE OUVE!

A novidade da Bíblia não está na dor que faz gritar. O grito de dor existe em todos os povos. A novidade da Bíblia está na certeza de que Deus ouve o grito reprimido do povo oprimido. Na Bíblia, o grito não é para acordar, pois Deus está sempre acordado e atento. Ele mesmo disse: "Eu vi a miséria do meu povo. Ouvi o seu clamor, por causa dos seus opressores. Conheço as suas angús­tias. Desci para libertá-lo e fazê-lo ir para uma terra boa e vasta" (Ex 3,7-8). Ele vê, ouve, conhece, desce, liberta e conduz. O grito do Povo de Deus nasce de dupla fonte: da dor que faz gritar e da fé em que Deus sempre ouve. Os Salmos são a expressão desse grito de fé:

"Para Deus a minha voz: eu grito!

Para Deus a minha voz: Ele me ouve!" (SI 77,2).

Na raiz dos Salmos está a nova experiência que a humanidade fez, através do povo de Israel, de que Deus se coloca do lado dos oprimidos e os liberta da opressão, dando-lhes esta garantia: "Eu estou com vocês!" (Ex 3,12). Esta experiência de Deus pro­duziu a resistência ao sistema de dominação e deu aos pequenos e oprimidos a coragem de enfrentar até o faraó.

Há um mútuo entendimento entre Deus e o povo. De um lado, Deus diz: "Eu vou ter de protegê-lo, porque ele conhece o meu Nome. Se me invocar, eu vou ter de atendê-lo" (SI 91,14-15). De outro lado, o povo diz: "Eu grito e tu me respondes" (SI 17,6).

Vale a pena ir lendo os Salmos e anotar os versículos em que se expressa essa convicção de que Deus ouve o nosso grito. Essa convicção aparece com tanta freqüência que se pode dizer que é o fio condutor que percorre e unifica os 150 Salmos. Aqui está, para os pequenos e oprimidos, a garantia de que não estão gritando em vão.

 

2. AS INVOCAÇÕES DO NOME DO SENHOR

A nova experiência de Deus foi eXt>ressa no nome de YHWH, que significa: "Eu estou com ~ocês!" E o nome definitivo. "Este é o meu nome para sempre! E com este nome que eu quero ser invocado de geração em geração" (Ex 3,15). O profeta Jeremias diz: "Tu estás em nosso meio, pois teu nome foi invocado por nós!" (Jr 14,9; 15,16). A invocação do Nome estava no centro da fé do Povo de Deus. Está também no centro e na raiz dos Salmos.

Os Salmos, na sua variedade, são como os galhos de uma árvore frondosa. Todos nascem do mesmo tronco. O tronco é a invocação do Nome que pode ter sete sentidos, misturados entre si, em inumeráveis combinações, nos 150 Salmos.

1. YHWH - Ele está conosco!

Grito de louvor que descobre e celebra a presença de Deus (cf. SI 46,4.8.12).

2. YHWH - Ele esteve conosco!

Grito de ação de graças depois da experiência da libertação (cf. SI 34,5; 105,1-5; 107,1-3).

3. YHWH - Ele estará conosco!

         Grito de confiança, na certeza de ser atendido (cf. SI 16,8-11).

4. YHWH - Ele está ou não está conosco?

         Grito de dúvida e pedido de socorro da fé em crise (cf. SI 3,3; 42,4; 22,2-3).

5. YHWH - Ele esteja conosco!

Grito e apelo de confiança, em momento de aflição (cf. SI 6,4-5; 77,8-13).

6. YHWH - Ele está vivo e atuante, ao contrário dos ídolos.

         Grito de compromisso e de fidelidade (cf. SI 115, 17-21; 101,1-8).

7. YHWH - Possamos estar contigo!

         Grito de desejo de estar sempre com Deus (cf. SI 23,6; 27,4).

São sete significados do mesmo Nome, sete invocações modulando o mesmo clamor, em situações diferentes e dirigidas ao mesmo Deus: YHWH! Deste Nome tão breve, de apenas quatro letras, nascem os Salmos em todas as direções da vida e em todas as formas e gêneros literários. Este Nome é invocado em prosa e verso, em todas as modalidades e modulações, com todos os ins­trumentos, em todas as situações e momentos da vida. Ao longo das páginas da Bíblia, aparece quase 6.000 vezes. É a raiz do grito do povo, o eixo dos Salmos.

 

3. O GRITO DOS POBRES - A ESPIRITUALIDADE DOS PEQUENOS

Entre os Salmos, há muitos lamentos e a maioria deles é individual. Os Salmos acolhem os problemas das pessoas, sobretu­do o sofrimento. O sofrimento precisa expressar-se em lamento para que a pessoa não fique sufocada pela solidão e tente despertar a solidariedade dos outros.

Os Salmos de lamento mostram como as pessoas sofriam: perseguições constantes, sem alívio, sem ninguém para socorrer (SI 142,2-5); tentações e pressões para abandonar o compromisso com a comunidade (SI 73,2-14); angústia de quem pensava estar firme e, de repente, perde a coragem (SI 30,7-8), etc. Mostram também como as pessoas reagiam para não tropeçarem nas dificuldades (SI 73,16-28).

Os Salmos refletem a espiritualidade dos pequenos, simples, direta e espontânea. Espiritualidade dos que só sabiam dizer: "Deus é grande!" (SI 35,27; 40,17). "Maior do que as trevas que me envolvem!" (cf. SI 139, 12). Agarrados a esta fé, sem teorias nem altas elucubrações, atravessavam o túnel das dificuldades em busca da luz da salvação.

A teimosia da fé dos pequenos se traduz no grito que reper­cute nos Salmos. Grito incômodo para quem é obrigado a escutá­10. Incômodo até para Jesus e os apóstolos (cf. Mt 15,21-24). Incômodo até para Deus, conforme a comparação que Jesus fez da viúva que incomoda o juiz (Lc 18,6-7). Mas os pequenos conhe­cem o segredo do coração de Deus e sabem que podem gritar: "Eu te louvo, Pai, porque escondeste essas coisas aos entendidos e doutores, mas as revelaste aos pequenos!" (Mt 11,25).

Jesus veio evangelizar os pobres (Lc 4,18). Viveu pobre com os pobres e morreu como o último dos pobres, totalmente desam­parado (Me 15,37). Mas Deus escutou o seu grito e o ressuscitou da morte. "Nos dias de sua vida terrestre, Jesus apresentou pedidos e súplicas, com veemente clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte. Ele foi atendido por causa da sua obediência" (Hb 5,7).