Oficinas de Espiritualidade - Textos para a Oficina de 05 setembro 2009.
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João Inácio
Wenzel, SJ
O passado e o presente se fundem na
leitura popular da Bíblia. Por leitura popular entendemos a leitura que busca na
Bíblia a água viva que alimenta a experiência libertadora do Deus da vida.
Experiência que faz a pessoa sair de si e se abrir às necessidades das outras
pessoas.
Ao ler ou escutar a experiência de
Deus do povo da Bíblia, o povo de hoje faz uma nova experiência de Deus. Dizia
uma liderança de comunidade: “Eu não era muito ligada nas coisas de Deus, mas um
dia, quando estava muito mal, ao ouvir a leitura do apocalipse 12, sobre Maria,
senti uma forte comoção interna, minha pele ficou toda arrepiada, as pernas
bambas... Senti Deus através de Maria”.
Não é raro encontrar pessoas que,
ao ler a Bíblia, encontram uma formulação para a sua própria experiência de
vida. Certo dia, uma pessoa da oficina de espiritualidade, desafiada a
explicitar como Deus age em sua vida, começou a contar a seguinte história: “Um
dia, ao sair da missa, indo em direção ao carro, foi abordada por assaltantes
que tomaram meu carro e me forçaram a entrar e me levaram para fora da cidade.
Não sabia onde estava. Tinha certeza de que iriam me matar. Surpreendi-me que
fiquei calma, conversei com os assaltantes o tempo todo, procurando acalmá-los.
De repente mandaram-me descer num lugar ermo, e saí caminhando descalça...” Seu
relato ficou interrompido pela emoção. Depois respirou fundo e continuou: “Vocês
sabem! Aconteceu comigo o que diz o Salmo 91”. Ela não disse mais nada e todos
permaneceram em silêncio. Ela não encontrou palavras para expressar como Deus
agiu nela, nessa dura experiência. Se nós quisermos saber o que se passou com
ela precisamos ir ao salmo: “Meu refúgio, minha fortaleza, meu Deus em quem
confio... Ele te livrará do laço do caçador... Não temerás os temores da
noite... Ele me invocará e eu lhe darei resposta...”
Neste caso, a leitura que se faz da
Bíblia se funde de tal maneira que já não sabemos se somos nós que lemos a
Bíblia ou se é a Bíblia que lê e interpreta a nossa vida.
No entanto, essas experiências não
são isoladas. Muitas vezes pessoas que participaram de assembléias ou
conferências que definem linhas de ação pastoral resumem a sua experiência na
seguinte expressão: “foi uma forte experiência de Deus”. Os bispos que
participaram do Concílio Vaticano Segundo, ao apresentarem a “Constituição
Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação de Deus” recorrem a uma expressão da
primeira carta de João, para transmitirem a experiência que vivenciaram:
Aquilo que vimos e ouvimos nós agora
anunciamos a vocês...
(1 Jo 1,3). A letra, as palavras, são as mesmas usadas, mas o contexto é
totalmente diferente. João se referia a uma pequena comunidade da Ásia, no fim
do primeiro século. Os bispos, por usa vez, a milhões de católicos do século XX.
Mudaram os autores, os destinatários, o lugar e a data, mas parece que é com
estas palavras que melhor conseguem expressar a experiência do Espírito que
vivenciaram no Concílio.
Os exemplos acima ilustram bem o
jeito de o povo ler a Bíblia. Nela encontramos três grandes convicções: A Bíblia
é Palavra de Deus, ilumina a situação que se vive e ajuda a compreender como
Deus nos fala hoje. Contamos nossa experiência de vida e concluímos: “Foi Deus”;
“só por Deus!” Lemos a Sagrada Escritura solenemente nas leituras e concluímos
dizendo: “Palavra de Deus”; “Palavra da Salvação”. Mas onde está a fonte da
Palavra? Quando que “a letra morta”, no dizer de Paulo apóstolo, se torna
Palavra Viva? Como sentimos ou percebemos que Deus nos fala pela Palavra escrita
na Bíblia ou nos acontecimentos da vida?
Responder a essas perguntas exige
de nós ir a busca da fonte de vida que encontramos na relação dialética entre a
Palavra da Escritura e a experiência de vida. A experiência de Deus que fazemos
na vida nos remete à Palavra revelada e a Palavra da escritura se torna fonte de
vida. Lemos a Bíblia e nos reconhecemos sendo parte dela. Interpretamos os
textos e nos percebemos sendo interpretados por eles.
Isso não quer dizer que a Bíblia
deva ser usada como mera embalagem para apresentar e dar razão às nossas idéias.
Pelo contrário, isso exige de nós sermos fiéis ao passado e ao presente, ao
texto e ao povo. Em outras palavras, exige de nós uma fidelidade criativa, para
responder aos desafios dos nossos tempos.
O critério básico para esta
fidelidade, para nós cristãos e cristãs, é a maneira de Jesus ler e interpretar
a Bíblia. Por um lado Ele diz claramente, no ensinamento sobre a montanha, de
que não veio “revogar a Lei e os Profetas” e sim “dar-lhes pleno cumprimento”
(Mt 5,17); e por outro lado Ele é acusado de ser um transgressor da lei de não
trabalhar em dia de sábado (Lc 13, 14). Qual então foi o critério que Jesus
utilizou para ler e interpretar as Escrituras se Ele, por um lado diz que “não
será omitido nem um só i, uma só
vírgula da Lei” (Mt 7, 18) e, por outro, realiza curas
justamente
em dia de sábado, o que era
proibido pela lei de Moisés?
No ensinamento sobre o cumprimento
da lei Jesus fornece a seguinte chave de compreensão: “Se a vossa justiça não
exceder a dos escribas e a dos fariseus, não entrareis no Reino dos céus” (Mt
5,20). E conclui dizendo: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt
5,48). No ensinamento na sinagoga Jesus explica seu critério básico de
interpretação das Escrituras: “Cada um vós, no sábado, não solta seu boi ou seu
asno do estábulo para levá-lo a beber? E esta filha de Abraão que Satanás
prendeu há dezoito anos, não convinha soltá-la no dia de sábado?” (Lc 13,15s).
Jesus retoma, deste modo, o espírito com que a lei deve ser interpretada: não
para escravizar, mas para libertar as pessoas. Foi esta a razão pela qual Deus
nos deu a lei: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te fez sair da terra do Egito, da
casa da escravidão” (Ex 20,2). E no centro do decálogo esta a seguinte lei: “não
matarás”. Dito de modo positivo: promova a vida.
Numa outra ocasião, Jesus se
defronta com uma situação em que os inimigos de Jesus estavam na sinagoga só
para ver se Jesus iria curar o homem da mão seca, para acusá-lo (Mc 3,1-6).
Jesus o chama para o meio e pergunta a todos: “Em dia
de sábado, o que é permitido: fazer o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou
matar?” Como se silenciam covardemente, Jesus afirma em alto e bom tom: “Estenda
a mão”.
O que Jesus fez foi
colocar em prática a lei de Moisés que apela para a responsabilidade de cada um
optar pela vida:
“Eu te propus a vida e a morte, a
bênção ou a maldição. Escolhe, pois a vida, para que vivas tu e tua
descendência” (Dt 30,19).
Jesus optou pela vida e
proporcionou mais vida ao homem que tinha a mão seca, e os defensores da lei
acabaram optando, na prática pela morte, pois saem dali “para conspirar contra
Ele sobre como o destruiriam”.
Portanto, promover e defender a
vida em todas as instâncias e em todas as relações é o critério referencial para
captar a mensagem da Palavra, quer seja da leitura da Bíblia, quer seja em
captar os sinais de Deus que fala pela vida.
Não se trata de fazer uma leitura
para suscitar um mero bem estar, pois este pode ser também causado por outras
circunstâncias. Trata-se de estarmos atentos aos sinais do Espírito, tanto
quando Ele nos desafia ou suscita indignação diante da realidade, quanto quando
nos faz cantar as suas maravilhas pelas surpresas da vida.
O método Ver, Julgar e Agir em
muito contribui para uma nova visão da revelação de Deus. Parte-se do
ver a situação do povo e, somente
então, após uma análise crítica da realidade, com a ajuda da Bíblia, procura-se
julgar ou iluminar esta situação.
Assim, a fala ou a revelação de Deus não
vem da Bíblia, mas dos fatos iluminados pela Bíblia. E são estes que levam a
agir de maneira nova
(C. Mesters.
Palavra na Vida 222, p.9). Desta forma,
o objetivo primeiro da leitura bíblica não é conhecer a Bíblia, mas interpretar
a vida com a ajuda da Bíblia.
Um bom exemplo de como Jesus anima
as pessoas pela Palavra de Deus é o exemplo dos discípulos de Emaús (Lc
24,13-35). Jesus aparece como forasteiro e se aproxima deles, capta a sua
confiança e faz com que falem das razões de sua decepção e desistência da
caminhada. Somente depois de escutá-los e de perguntar sobre outras
possibilidades de interpretação dos fatos, ilumina a realidade com o que dizia a
lei de Moisés nos livros do Pentateuco e nos livros proféticos.
A Palavra de Jesus fez aquecer o
coração dos discípulos, mas não foi suficiente para que reconhecessem que era o
Ressuscitado. Somente na fração do pão, em comunidade, que se dá o estalo e todo
caminho fica iluminado. Somente quando se põe em prática o que a Palavra ensina,
acolhendo as pessoas e partindo o pão com eles, que se entende realmente o
significado dela.
Portanto, partir da realidade da
vida, iluminá-la com a Palavra e vivê-la em comunidade, são como três pilares
sobre a qual se fundamenta a leitura popular da Bíblia. Como o fez Jesus,
seguimos os mesmos passos:
Partindo da
realidade das pessoas (estavam com o
rosto triste),
·
Preocupados com a transformação da sociedade (eles
esperavam a libertação de Israel),
·
Acolhendo as pessoas e repartindo o pão nas comunidades.
Ler a Bíblia
significa, portanto, escutar Deus no chão da realidade,
Lemos a Bíblia para captar o que
Deus nos quer revelar. Na liturgia, ao terminar a leitura afirmamos: “Palavra de
Deus”. Como assim?
Ao afirmar que
a Bíblia é palavra de Deus não se quer dizer de que ela tenha sido escrita por
alguém que teve contato telefônico direto com Deus, mas que Deus não está alheio
à história humana. A Bíblia não surge como um conjunto de livros ditados por
Deus, mas como relatos da experiênica do povo interpretados à luz da fé. Ao
relatar essas experiências os autores e as autoras tiveram de usar uma linguagem
sujeita a todo as vicissitudes da literatura humana. A palavra de Deus
encarnou-se na palavra humana. É “palavra de Deus na língua dos homens”, como
diz uma canção da missa da terra sem males. Deus, juntamente com e através dos
“verdadeiros autores humanos”, é o “autor” da Bíblia. É livro de Deus e dos
homens, escrita por ambos. Pelos homens e mulheres no papel, por Deus, na vida.
A Bíblia usa muitos símbolos,
imagens e comparações. Para falar de Deus o livro de Gênesis fala de um oleiro
(Gn 2,7); para falar da misericórdia do Pai
Jesus conta a parábola do “Pai Misericordioso”
(Lc 15, 11-32); e para falar do Reino de Deus
Jesus usa parábolas e comparações que falam em semente, trigo, grão de mostarda,
rede, pérola, talento...
(Mt 13).
O modo mais simples que o povo da
Bíblia encontrou para falar de Deus foi descrevê-lo como se fosse humano: um
Deus que tem mãos
(Gn 7,16), olhos
(Ex 3,7), boca
(Gn
2,7), que fica zangado, que se
arrepende
(Gn 6,6), que usa
escudo e lança...
É preciso levar em conta também a
cultura do povo que escreveu a Bíblia. Costumam usar uma linguagem forte.
Expressam-se por contrastes extremos. Usam uma linguagem emocional e simbólica,
como em Mateus 5,29. Quando Jesus fala que no “céu há muitas moradas”, não está
falando em condomínio com diferentes padrões de conforto...
Na mesma lógica precisamos entender
a função do milagre no texto bíblico. “A grande preocupação, ao relatar um
milagre, é evidenciar a presença de Deus num acontecimento e ensinar algo por
meio do relato. A violação das leis naturais não tinha papel de destaque. O
evangelho de João chama os milagres e sinais: são de fato sinais do que Deus
quer para o mundo e para a ação de cada um de nós. Vale mais destacar a mensagem
que o milagre comunica do que ficar somente deslumbrado com o lado
extraordinário do evento”
(Estudos da
CNBB 86, n. 44).
No caso da multiplicação dos pães,
a mensagem que fica é: E o que estamos nós fazendo para repartir melhor o pão?
No caso
Esta forma de ler a Escritura
também a encontramos na metodologia dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio.
Para meditar ou contemplar um texto bíblico, Inácio propõe ao exercitante a
composição vendo o lugar. Com isso
somos desafiados a ver o contexto, inserir-nos e até mesmo participar dele, como
se isso que está sendo narrado na Bíblia estivesse acontecendo conosco. Neste
momento não interessa o estudo do texto, o conhecimento bíblico em si, mas o
entendimento do que Deus nos quer revelar. Por isso Inácio insiste tanto em
sentir e saborear intimamente a Palavra
tirando dela proveito. É como se dissesse: é ali que se encontra a fonte da
Palavra, a fonte da vida. Sentindo e saboreando se vai experienciando a
sabedoria de Deus e o que Deus nos quer falar. Ao contemplar os mistérios da
vida, paixão, morte e ressurreição de Cristo, santo Inácio insiste no pedido da
graça do “conhecimento interno do Senhor, para que mais o ame e o siga”
(EE 104). Não é um
conhecimento intelectual sobre a vida de Cristo, mas em “sentir e saborear” a
presença do Senhor para crescer afetivamente no amor que se manifesta no
seguimento. As palavras “sabor” e “saber” contêm a mesma raiz - Sofia. Desta
forma, a Palavra saboreada se faz carne e
habita no meio de nós
(Jo 1,14).
Segundo esse sentir e saborear da
Palavra Inácio convida o exercitante a dar um passo a mais em sua oração,
fazendo um colóquio, dirigindo-nos diretamente à fonte da Palavra agradecendo ou
pedindo mais luz para compreender a Sua vontade ao nosso respeito; ou seja,
simplesmente deixar que “o próprio Espírito interceda por nós com gemidos
inefáveis”
(Rm 8,26b).
Deus nos fala sempre. A questão
está em perceber, ouvir e discernir o que está a nos dizer. Nem tudo o que
vivenciamos é suscitado pelo espírito de Deus. Muita coisa também é suscitada
pelos afetos desordenados. Por isso é preciso estar atento para fazer o exame
após cada experiência vivida, para perceber de onde veio esse movimento interno
e a que leva.
Certamente um bom critério para
sabermos se estamos ouvindo a Palavra e sendo fiéis a ela, é se nosso modo de
proceder gera humanidade e se, ao mesmo tempo, nos deixamos humanizar. Pois
quanto mais nos humanizamos, mais nos revestimos dos sentimentos daquele que se
esvaziou a si mesmo e assumiu a condição de servo
(cf. Fl 2, 5-11).
Esse é o modo inaciano de fazer
leitura orante da Bíblia e encontrar nela a vontade de Deus.
Queremos destacar algumas atitudes
importantes a serem cultivadas na leitura da Bíblia, como sugere a CNBB em:
Crescer na leitura da Bíblia, número
65:
1.
Lembrar que
temos em Jesus a melhor imagem do Pai, olhando o conjunto de sua vida e o
significado de sua missão;
2.
Não tomar
textos isolados como se fossem a idéia de Deus que a Bíblia quer comunicar no
seu conjunto;
3.
Perceber como,
por que e em que situação cada texto nasceu, para assim compreender melhor as
motivações daquilo que está escrito;
4.
Analisar nosso
próprio modo de imaginar Deus, para ver se não estamos muitas vezes fabricando
um Deus à nossa moda e com isso achando desculpas para faltar com a caridade e
ignorar o direito do próximo.
BOHN GASS, Ildo (Org.), Porta
de Entrada. Coleção: Uma Introdução à Bíblia, n. 1.
Paulus / CEBI, 2002.
MESTERS, C. e OROFINO, F. O Caminho por onde caminhamos. Reflexões
sobre o método de interpretação da Bíblia, em: Palavra na Vida 222
CNBB. Crescer na leitura da Bíblia. Coleção Estudos da CNBB, 86.
Paulus, 2003.
Dei Verbum. Concílio Vaticano II
FRIGERIO, Tea. Introdução geral ao estudo da Bíblia (Curso popular
de Bíblia 1). São Leopoldo: CEBI, 2005.
KONINGS, Johan.
A Bíblia nas
suas origens e hoje. Vozes, 1998
(especialmente os capítulos 1 e 2, 7 e 8).
VV.AA, História do Povo de Deus. (Roteiros de Reflexão 1). São
Leopoldo: CEBI, 1995.