MÓDULO I – Espiritualidade
Relatório da Oficina de Espiritualidade – 05 de setembro de 2009
TEMA:
Como ler a Sagrada Escritura
Assessor:
Pe. João Inácio Wenzel, SJ
Oração sobre os sentidos (Arlene):
Foi feito uma dinâmica rezando com os
cinco sentidos. Para cada sentido uma gesto, uma oração e um canto. Sobre o
sentido da visão, em pares as pessoas se olharam; Em relação ao olfato, unção
com algodões perfumados; audição: tocamos uns nos outros nos ouvidos; tato,
tocamos na cabeça, nos ombros e nos abraçamos.
Memória do encontro passado sobre o tema
O que é Espiritualidade:
“é sentir e saborear as coisas internamente
“navegar no mar que é Deus”
“espiritualidade é diferente de religião”;
“Santo Inácio afirma que o homem é criado para louvar a Deus, e não somente o
sujeito católico, ou de outra religião”
“alguns perceberam que espiritualidade vai além de ser católico ou de outra
religião”
“espiritualidade se refere a movimento, aquilo que nos paralisa não vem de Deus”
Iniciando o tema do dia:
Para os
cristãos espiritualidade sem bíblia é como aniversário sem bolo; mas sabemos que
Deus se revela também na natureza, nas pessoas, nos acontecimentos. Por isso é
preciso fazer uma ponte entre a Palavra de Deus e a nossa vida hoje, em nossas
atividades.
Pensar e escrever: O que representa a bíblia para mim; Como utilizo a bíblia na
minha vida espiritual.
“A boca de Deus falando comigo, Deus que se comunica comigo; utilizo a bíblia
para ver o que Deus quer para mim; assim como no episódio da samaritana, Jesus
que saciou aquela mulher que estava com sede”
“A bíblia para mim é momento de intimidade com Deus; mas ainda não consegui
colocar em prática aquilo que ela nos orienta”
“A bíblia representa a luz para a caminhada; a partir da mensagem divina procuro
aplicar no dia-a-dia.”
“É alimento e sustento para a vida espiritual; fonte de aprimoramento e de
enriquecimento para meu cotidiano e para os irmãos.”
“É uma carta que comunica Deus no meu dia-a-dia; utilizo como inspiração para a
vida; mas não é fácil viver aquilo que a bíblia nos comunica; é difícil, por
exemplo, perdoar alguém que nos fez algo de mau, um inimigo; um exemplo, minha
sobrinho foi estuprada, espedaçada, com isso vejo que é muito difícil perdoar
essa pessoa que causou isso”
“Aperfeiçoar meus conhecimentos; inspiração para mim.”
“Fonte de conhecimento; bíblia como educadora da minha vida.”
“Fonte de orientação para vida, para sermos felizes; passo horas estudando a
bíblia, comparando textos.”
“Representa tudo o que devemos passar para as pessoas; ela fechada é um livro,
mas aberta é a palavra de Deus, pois há tanta violência no mundo e é preciso
levar essa palavra para as pessoas;”
“Fonte que eu ainda não tenho hábito de ler; para analisar minha conduta, para
mim e minha família.”
“O que devo fazer e aprender, para passar para as pessoas; eu me deito diante do
sacrário e faço a leitura do evangelho do dia, pois às vezes estou muito cansada
pelas atividades; um dia alguém perguntou a D. Milton se era pecado rezar
deitado, e ele questionou onde está escrito isso, aí então não me preocupo mais,
não ligo para o que as pessoas dizem sobre isso”.
“A bíblia é instrumento com o qual Deus fala comigo; para descobrir como Deus me
ama, li a bíblia para descobrir como Jesus amou, como fez milagres, como
atuou... lendo gostaria de estar naquele período em que Jesus viveu; um dia
Jesus falou comigo, estou aqui, junto a você, por isso não é preciso ira lá para
aquele tempo; a bíblia é uma fonte de aprendizado.”
“Eu não lia a bíblia, não rezava, ia para o serviço e somente dizia: pelo sinal
da santa cruz livrai-nos Deus de nossos inimigos; percebo que minhas irmãs
rezavam por mim, eu ia somente na missa de São Benedito; eu ia com a minha irmã
na missa e ela tinha um marido que bebia muito, mas ela sempre lia a bíblia e
então ela superou as dificuldades que enfrentava; um dia escutei no rádio sobre
as bodas de Caná, e então percebi que é importante para mim ler a bíblia, é um
veículo por onde Jesus se comunica comigo, isso nos leva a Jesus; minha filha
vivia não de acordo com os padrões de nossa família, e passei a ler os salmos,
para me dar mais tranqüilidade, aí percebi que esse livro passa algo de
espiritualidade.”
Aparecem
nas falas algumas convicções: Uma primeira convicção é que a bíblia é Palavra de
Deus. Isso apareceu em várias falações, com estas palavras ou outras, como “a
boca de Deus falando comigo”; “é espelho”, olhando para ele vejo a mim mesmo.
Assim, podemos dizer que “a Bíblia é um livro que me lê”; lendo eu percebo que
isso acontece comigo. Na primeira página da Bíblia lemos que somos criados à
imagem e semelhança de Deus, e ver Deus é reconhecê-lo, no indígena, no
asiático, nos mendigos, nos irmãos e irmãs. Somos criados à imagem e semelhança
de Deus. Por isso os Dez Mandamentos proíbem fazer imagens de Deus, para que não
nos fixemos em nenhuma, mas possamos perceber sua sua face, sua presença nas
pessoas, na natureza, nos acontecimentos.
Santo
Agostinho diz que Deus se revela na criação e na bíblia; Esta é uma segunda
convicção: Deus se revela nas pessoas, na minha história pessoal e na história
do povo de Deus.
Em 2
Coríntios 3, 1-3 se diz claramente que nós somos uma carta de Deus – “vocês são
a carta de Cristo, são os portadores do Espírito”;
Terceira
convicção: A Bíblia como luz para iluminar o caminho, para que possa seguir
orientado; a Bíblia é fonte de conhecimento, mas não um conhecimento qualquer. A
gente pode até ser um especialista, mas se não viver aquilo que a Bíblia nos
diz, nós não a conhecemos.
Em Mateus
16, 13-20 encontramos a profissão de fé de Pedro. Jesus pergunta sobre o que as
pessoas dizem quem é Jesus, e as respostas são várias; e Ele então pergunta as
discípulos, e Pedro diz que Ele é o Messias, o filho de Deus vivo; e logo em
seguida, quando Jesus fala de que era necessário passar pela paixão e morte,
Pedro censura Jesus, e Ele repreende a Pedro; num primeiro momento Pedro é carta
de Deus e, logo em seguida, noutro deixa-se levar pelo espírito do mundo, pois
em vez de seguir Jesus, Pedro quer dizer como Jesus deve agir.
Santo
Inácio diz que devemos discernir as moções que sentimos, se estes vem do
Espírito de Deus ou se são provocados pelo mau espírito; mas para isso devemos
nos exercitar. Quando o que experimento me fortalece na fé, na esperança e no
amor, então sei que vem de Deus; e quando é o contrário, leva-me a me fechar, a
um descrédito ou ao desânimo, então sei que não vem de Deus.
“A Igreja criou muitos dogmas, e isso prendeu a Igreja, aquilo que era preceito
passou a ser preconceito; víamos tão tranquilamente o que é espiritualidade na
nossa vida, mas há tantas coisas que tornam Deus complexo, muito complexo; a
Bíblia é apenas uma pista para Deus, mas há tantos outros meios para chegar a
Deus; a religião nos engessa.”
Buscar
conhecimento na bíblia é justamente para aprender a amar o próximo como a mim
mesmo, não para me exaltar ou apenas citar textos.
Em
seguida, fez uma Leitura comentada do
texto Leitura popular da bíblia e
espiritualidade inaciana.
A Bíblia
transmite aquilo que várias pessoas viveram no passado, como as pessoas fizeram
a experiência de Deus, como os acontecimentos foram vividos e percebidos; estas
experiências eram transmitidas oralmente de geração em geração, usados nas
liturgias. Somente depois passam a ser escritos, e, posteriormente incorporados
em um livro.
Na
Dei Verbum, constituição dogmática sobre a Sagrada Escritura, lemos
como Deus se revela, como Deus se comunica; também faz uma relação entre o AT e
o NT, ou seja, lendo o NT percebemos o AT relido.
“o que é fidelidade criativa?”
O que é
fidelidade criativa: é usar a intuição, a inteligência para interpretar a
bíblia, para aplicar hoje a Palavra de Deus.
“No evangelho de amanhã quando Jesus cura o cego com barro e saliva, Ele quer
que nós hoje vamos em busca dos que precisam ser curados, acolhidos, e não
somente aqueles que possuem carro do ano, mas principalmente os que precisam, de
fato, de ajuda, os desgraçados da sociedade, os pequenos”
Sabemos
que, por um lado, Jesus era considerado transgressor da Lei; Em Lc 13, 10-17
(cura da mulher encurvada) uma pessoa encurvada vive humilhada. Jesus toma a
iniciativa e cura essa mulher, resgata a sua dignidade de mulher, mas isso não
sensibiliza o chefe da sinagoga, pois para ele Jesus transgride a Lei. Para
proceder deste modo, Jesus se baseia numa Lei maior: garantir a vida das pessoas
ameaçadas. Em Êxodo 20, 2 são colocadas as razões do decálogo: o Senhor Deus
libertou o seu povo e não quer que retornem à escravidão. No decálogo o “não
matarás” está no meio da lista; e o sábado deveria ser o dia de lembrar esse
Deus libertador, que salvou o povo do Egito. Ex 20, 8-11: no dia de sábado a
pessoa não deveria fazer nada.
Se por um
lado Jesus é visto como transgressor da lei, por outro, em Mateus 5, 17
Jesus afirma que não veio abolir a Lei, mas veio para dar pleno
cumprimento. E dá cinco exemplos. Como se explica isso? Em Mt 5, 20 e Mt 5,48
encontramos a resposta: a “nossa justiça deve superar a dos escribas e
fariseus”. A Lei é feita para ser observada, sim, mas não como letra morta, mas
como letra viva, escrita em sangue, como o diz Paulo (2 Cor 3,3); não significa
cumprir cegamente, estritamente a Lei, mas como caminhada para a buscar a
perfeição: “sede perfeitos como vosso Pai é perfeito”, assumindo a pedagogia de
Deus.
Outra
cena onde aparece claramente o critério utilizado por Jesus para ler e
interpretar as escrituras está em Marcos 3, 1-6: na cena vemos Jesus com os
discípulos, e os doutores da Lei lá estavam para ver se Jesus ia curar o homem
em dia de sábado, e ao perceber a intenção dos doutores da Lei, Ele chama para o
meio o homem da mão atrofiada, e pergunta: “o que era permitido fazer em dia de
sábado... salvar a vida ou matar”; as pessoas familiarizadas com a Bíblia sabem
que Jesus estava se referindo a Deuteronômio 30, 19-20, que convida às pessoas a
escolherem entre os dois caminhos: de vida ou de morte; Jesus cura o homem, e
assim opta pela vida; os fariseus, ao sair dali tramar a morte de Jesus; e com
isso vemos que os próprios “legisladores” também estavam trabalhando em dia de
sábado, ao tramar como iriam eliminar Jesus.
Na
parábola do semeador vemos que Deus semeia, mas o acolhimento da palavra de Deus
depende do terreno, da pessoa, de sua intenção livre de receber essa palavra.
A Bíblia
usa, às vezes, uma linguagem dura para chamar a atenção das pessoas, mas se
alguém usa um texto bíblico apenas para impor pelo medo alguma coisa, isso não
vem de Deus, pois o próprio Deus diz: “não tenhas medo”, quando d’Ele nos
aproximamos.
Pessoas
de igrejas pentecostais ou fundamentalistas costumam dizer - “está escrito na
Bíblia!” - aplicando dessa forma impositivamente a Palavra de Deus; ou vemos as
pessoas tirando a sorte com a Bíblia: abre-se o livro com a intenção de seguir o
que está escrito na página aberta aleatoriamente. Dessa forma se usa a Bíblia
para tirar a sorte...
“Os pentecostais na minha casa queriam que eu quebrasse as imagens sagradas, e
se eu não fizesse isso viria enfermidade e coisas ruins para mim; se a gente não
busca conhecimento a gente fica perdido, e os outros vão querendo nos levar.”
Justamente Jesus queria sempre ajudar as pessoas, promover a vida e não ficar
gerando discórdia.
No texto
de Emaús, em Lucas 24, 13-35, Jesus caminha junto aos discípulos, sem
recriminá-los; primeiramente ouve o que eles estão sentindo, para depois citar
as Escrituras e os Profetas, mas mesmo assim ainda não reconhecem Jesus, e enfim
após acolherem o peregrino, fazendo o que a Bíblia ensina, reconhecem Jesus
durante a ceia. Sentem internamente a presença de Jesus, sem precisar olhar para
Ele fisicamente; assim somos fiéis à Escritura: vemos e ouvimos a realidade,
lemos a Escritura e a celebramos e vivenciamos em comunidade.
Rezar é
proferir preces escritas, decoradas: Salve Rainha, Ofício Divino, oração de São
Benedito etc, mas orar é ler a Escritura e deixar que o texto fale para mim,
diga algo para minha vida. Este é também o modo inaciano de orar com a
Escritura.
Paulo é
um exemplo: perseguia os cristãos e foi convertido por uma grande luz que vinha
de Deus, e a comunidade teve dificuldade de acolher o recém-convertido.
Avaliação:
“saio daqui sentindo culpa, pois antes não íamos para as pessoas, por questões
preconceituosas, aí ficamos somente dentro do círculo da Igreja, e Jesus
justamente pede para acolhermos os mais necessitados.”
Encaminhamentos para próximo encontro:
Entrega
de textos para serem lidos sobre o tema do próximo encontro
A Revelação de Deus:
- Deus e a Revelação; A Palavra de Deus e a Bíblia; Clamor e lamento.