Oficinas de Espiritualidade Inaciana
Centro Burnier Fé e Justiça

Oficinas de Espiritualidade - Textos para a Oficina de 06 de junho 2009.


Texto 1

NOVO RELACIONAMENTO: VIVER EM COMUNIDADE

Texto: João 15,1-17 - Quem está unido a Jesus produz frutos.

Contextualização

A Comunidade que Jesus deseja

Jesus quis viver e trabalhar em comunidade. Os quatro Evangelhos testemunham esta opção de Jesus. Significa uma atitude prática de superação do individualismo. Jesus chama para viver em comunidade com ele e para enviar em missão. Certo dia, após uma noite inteira em oração, "Jesus subiu ao monte e chamou os que ele quis. E foram até ele. Então Jesus constituiu o grupo dos doze para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar com autoridade para expulsar os demônios..." (Mc 3,14-15). No mesmo chamado há duas finalidades: "ficar com Ele" (comunidade) e "enviá-los a pregar e expulsar os demônios" (missão). No Novo Testamento encontramos vários textos que descrevem diferentes rostos de comunidades desejadas por Jesus:

1.    Como a videira:

Em todos os textos constitutivos do discipulado de Jesus há uma proposta: chamado gratuito de Deus que pede uma resposta generosa, um compromisso com seu projeto, por parte de quem é chamado. Jesus forma comunidade com suas discípulas e seus discípulos, por isso diz: "Fiquem unidos a mim e eu ficarei unido a vocês... Vocês não poderão dar fruto se não ficarem unidos a mim" (cf. Jo 15,4).

2.    Imitar a Trindade:

O mesmo Mateus expressa o desejo de Jesus de que este novo modo de relacionar-se não fique restrito à comunidade dos discípulos e discípulas, mas que chegue a toda humanidade. Na Ascensão, Jesus se despede de seus discípulos e os envia em missão: "Portanto, vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês. Eis que eu estarei com vocês todos os dias até o fim do mundo" (Mt 28,18-20).

3.    Comunidade de pessoas comuns:

Jesus não queria uma comunidade de pessoas perfeitas. Por isso chamou e acolheu gente comum do povo para seu seguimento: "Depois disso Jesus saiu e viu um cobrador de impostos, chamado Levi, que estava na coletoria. Jesus disse para ele: Siga-me! Levi deixou tudo, levantou-se e seguiu a Jesus" (Lc 5,27-28). Ele mesmo conviveu com pessoas tidas pecadoras (Lc 5,29-32; 7,36-50).

4.  Como crianças:

"Diante da tentação do poder, Jesus apresenta aos discípulos uma criança e, junto com ela, uma proposta: converter-se e tornar-se como criança. A imagem da criança lembra fraqueza, confiança absoluta no pai/mãe, humildade, pobreza, carência. Aáriança é o oposto da força! Jesus propõe algo difícil: diante da força deste mundo/ a comunidade deve reagir e ser como uma criança".

5.  Comunidade testemunho:

A comunidade desejada por Jesus pede a superação de relações de dominação e servidão e se manifesta na transparência, isto é, sem segredismos nem tabus, mas aberta ao diálogo e capaz de dar frutos que permanecem (Jo 15,16). "Toda árvore boa dá bons frutos; toda árvore má dá maus frutos. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos. Toda árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo. Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt 7, 17-20).

6. Comunidade inserida e missionária:

A comunidade desejada por Jesus é inserida no meio dos pobres, na realidade concreta do seu tempo. Os fariseus são os separados e o que Jesus propõe não é uma comunidade separada, mas inserida. Por isso alerta muitas vezes: "Cuidado com o fermento dos fariseus" (Mt 16,6.11-12; Mc 16,12; Lc 12,1). Uma comunidade inserida no meio dos pobres, cuja mística é o discipulado mútuo, de iguais, no seguimento de Jesus, torna-se, essencialmente, profética, formadora e missionária. (CLAR, Seguir Jesus, 2° volume)

Palavra da Igreja:

A Igreja, como "comunidade de amor" é chamada a refletir a glória do amor de Deus, que é comunhão, e assim atrair as pessoas e os povos para Cristo. No exercício da unidade desejada por Jesus, os homens e mulheres de nosso tempo se sentem convocados e recorrem à formosa aventura da fé. "Que também eles vivam unidos a nós para que o mundo creia" (Jo 17,21). A Igreja cresce, não por proselitismo, mas por atração: como Cristo atrai tudo para si com a força do seu amor. A Igreja atrai quando vive em comunhão, pois os discípulos de Jesus serão reconhecidos se amarem uns aos outros como Ele nos amou.

A diversidade de carismas, ministérios e serviços, abre o horizonte para o exercício cotidiano da comunhão através da qual os dons do Espírito são colocados à disposição dos demais para que circule a caridade (cf. 1Cor 12,4-12). De fato, cada batizado é portador de dons que deve desenvolver em unidade e complementariedade com os dons dos outros, a fim de formar o único Corpo de Cristo, entregue para a vida do mundo. O reconhecimento prático da unidade orgânica e da diversidade de funções assegurará maior vitalidade missionária e será sinal e instrumento de reconciliação e paz para nossos povos. Cada comunidade é chamada a descobrir e integrar os talentos escondidos e silenciosos que o Espírito presenteia aos fiéis.

 Textos de apoio:

Romanos 12,3-8: A comunidade é um corpo vivo.
Romanos 12,9-21: As relações dentro e fora da Comunidade.

Para ajudar a refletir:

1.      O que entendo por comunidade?

2.      Como discernir em comunidade?

3.      O que é discernimento comunitário?

4.      Como fazer um discernimento comunitário?

 


Texto 2

DISCERNIMENTO COMUNITÁRIO: Alguns aspectos, condições e critérios para o discernimento comunitário a partir de Santo Inácio de Loyola

Jair José Schuh*

Para quem não sabe onde quer chegar, todos os caminhos estão errados.

Neste texto pretendo abordar alguns aspectos, algumas condições e alguns critérios para se fazer um verdadeiro discernimento comunitário. É no sentido da busca da veracidade que tentaremos perceber a atualidade do Discernimento Comunitário experimentado por Inácio de Loyola e seus companheiros.

Aspectos...

O Primeiro aspecto a se considerar brota da nova concepção de Igreja nascida no Concílio Vaticano II: uma Igreja de comunhão, participação e missão. “A comunhão e a missão estão profundamente ligadas entre si, compenetram-se e integram-se mutuamente, ao ponto de a comunhão representar a fonte e, simultaneamente, o fruto da missão: a comunhão é missionária e a missão é para a comunhão”[1]. A comunhão em vista da missão foi uma das primeiras questões que Inácio teve presente ao pensar na constituição da Companhia de Jesus. Inácio preocupa-se com a organização da Companhia em vista da missão. Assim a atividade missionária não é mais apenas de Inácio, mas de todos os Companheiros. Por isso era importante confirmar com os irmãos a vontade de Deus. Assim acontece a reunião dos primeiros companheiros em colocarem-se de acordo e em comunhão acerca de vários assuntos comuns. Deste modo podemos perceber, desde já, para acontecer o discernimento em comum, não basta estar reunido para decidir, mas saber discernir a vontade do Senhor. Isto nos remete a ver um grupo que discerne como um “corpo”, isso já pode ser encontrado no Novo Testamento. Recordemos São Paulo (1Cor 12,12-14), quando falava da Igreja como um corpo formada por vários membros diferentes, mas unidos a Cristo. No grupo que discerne, normalmente há vários membros, visões e dons diferentes, porém isso não é impedimento à comunhão-participação-missão, mas enriquecimento da comunidade.

Um segundo aspecto a se levar em conta é o tempo. Mais uma vez podemos olhar para o Concílio Vaticano II. Aconteceu no intervalo dos anos de 1963 a 1965, tempo em que uma grande Assembléia Ecumênica se dedicou em revisar e atualizar os caminhos da Igreja aos tempos modernos. O tempo dedicado para verificar, debater e aprofundar é significativo nas decisões. Isso indica a importância do evento e das decisões tomadas. Nesse sentido, penso que o tempo seja, também, um elemento fundamental, visto que somos pessoas limitadas e normalmente lentas em compreender a vontade do Senhor comunitariamente, por isso, precisamos de tempo para meditação, oração, reflexão e confronto de idéias em vista da descoberta da vontade do Senhor sem nenhum engano.

Condições...

Após ter acenado estes dois aspectos do descernimento comunitário relacionando com a realidade do Vaticano II, veremos agora algumas condições fundamentais para o discernimento em comum.

1. Uma das condições fundamentais é procurar fazer a vontade de Deus. Esta é o escopo da relação histórica dialogal entre Deus e homem. Deus que chama e a pessoa que reconhece seu amor, mediante a liberdade de escolha, e responde à sua vontade, pois: A razão mais sublime da dignidade do homem consiste na sua vocação à união com Deus. É desde o começo da sua existência que o homem é convidado a dialogar com Deus: pois, se existe, é só porque, criado por Deus por amor, é por Ele por amor constantemente conservado; nem pode viver plenamente segundo a verdade, se não reconhecer livremente esse amor e se entregar ao seu Criador[2].

2. Uma outra condição é a necessidde da abertura a comunicação que vem de Deus. O canal que se abre para Deus é constituído através da oração, nas suas mais variadas modalidades como Inácio coloca ao apresentar os Exercícios Espirituais.

3. Outra condição é a “indiferença”. A indiferença aqui entendida como o estado de ânimo conatural a nós, mas que necessita comunicar-se com a docilidade da graça para poder ingressar no caminho autêntico da procura de Deus.

4. Saber-se colocar em questionamento. Esta é uma condição que nos permite examinar, mediante a presença de Deus, que certas posições impedem o diálogo com o outro. Vale lembrar que nem sempre temos o alcance pleno da verdade.

5. Por isso que no processo de discernimento é preciso deixar-se “completar” mediante o relacionamento interpessoal, com os colegas que nos colocamos a discernir.

6. Não há necessidade de mudar a própria posição, porque a partir de um confronto sereno com os outros, o grupo se reconhecerá em comunhão.

7. Para começar o discernimento é bom iniciar por aquilo que ‘nos une’. Levantar os elementos que são comuns, dos quais sabe-se não haver divergência inicial.

8. É importante que o grupo tenha um vivo desejo de superar as divergências que se apresentam. Só o diálogo franco e aberto que possibilita isso.

9. Não esconder as dificuldades que aparecem no discernimento: falta de diálogo, individualismo, incapacidade de escultar, falta de coragem, mentalidade diversas...

Neste sentido podemos afirmar que o sucesso das decisões comunitárias, depende em parte da preparação espiritual de cada pessoa e de sua abertura à Deus e ao próximo, no entanto, Deus vai além de nossos limites e pode fazer grandes coisas em nossas vidas, porém o canal normal é a nossa histórica humanidade. Pois, não obstante, as diferenças de dons e cultura que existem são para o enriquecimento comunitário e não para a confusão comunitária.

Critérios...

Agora, vou apresentar alguns critérios, a partir da espiritualidade inaciana, para fazer o discernimento em comunidade, seguido de algumas questões que podem ajudar a orientar o discernimento.

Cristocentrismo. Toda a experiência inaciana está enraizada e fundada em um amor pessoal a Jesus Cristo. A petição insistente dos Exercícios é conhecer melhor Jesus, para poder amá-lo mais a fundo e segui-lo assim mais de perto. Jesus Cristo é o centro, o motor, a razão de amor à pessoa de Cristo é o fundamento de nosso modo de proceder, condição imprescindível para poder discernir bem. A Comunidade que discerne, normalmente, é formada por cristãos - homens e mulheres, adultos e jovens, de todas as condições sociais - que desejam seguir mais de perto a Jesus Cristo e trabalhar com ele na construção do Reino.

- O que estamos discernindo leva em conta o projeto do Reino de Jesus Cristo? Não está em contradição com o Evangelho?

O "Magis": enquanto pessoas inspiradas pela Espiritualidade Inaciana, nossa disponibilidade missionária não pode ter restrições a um campo ou outro de apostolado. Devemos estar disponíveis, em principio para tudo, para qualquer coisa que não entre em conflito com nosso estado de vida e nossas obrigações primordiais enquanto  fazemos uma opção de vida. Exemplo: leigos (família, etc...).

- O que estamos discernindo está levando em conta aquilo que é mais importante? (mais e melhor)

"O bem, quanto mais universal, mais divino": o bem mais universal, mais durável. Se é verdade que o espírito do "Magis" deve reger nossa vocação missionária e nosso discernimento apostólico, o bem que buscamos com nosso serviço, quanto mais universal, mais divino, como dizia o próprio Santo Inácio. Ao discernir e eleger nosso apostolado, trabalho, devemos preferir as pessoas e lugares cujo aproveitamento possa ser causa de que este mesmo bem se estenda a muitos mais sob sua influência. Por isto, não devemos, por medo ou timidez, resistir a assumir tarefas de primeira linha. Aonde houver possibilidade de multiplicar o anúncio da Boa Nova e exercer influência sobre estruturas, mais que sobre pessoas, ali devemos estar, ainda que sempre conscientes de nossas limitações e fazendo-nos ajudar por outros.

- A quem favorece o que estamos discernindo? Poderia atingir a mais pessoas (grupos)? Qual a sua abrangência global (direta e indiretamente)?

“O maior fruto": É de importância extrema para nossa missão a capacidade de multiplicação que um serviço apostólico possa ter. Podemos ter ganas de comprometer- nos em um serviço boníssimo e cheio de méritos, mas se temos que compará-lo com outro, que nos permitirá alcançar um número maior de pessoas, este deverá ser preferido àquele. O universal sempre em primazia ao particular e o mais duradouro em preferência ao episódico o momentâneo.

- Quais são os frutos que queremos colher? O que queremos atingir?

"A urgência do serviço a realizar": a maior necessidade ou urgência. Neste sentido nos pode ajudar muitíssimo ter sempre presente a realidade social e os planos pastorais. A análise social e cultural da realidade, com base em estudos profundos e especializados e um verdadeiro conhecimento da situação são instrumentos indispensáveis para que nosso discernimento comunitário seja realmente eficaz.

- Quanto é necessário o que discernimos e quanto vai interferir na transformação da realidade na qual nos inserimos?

"Chegar aonde outros não chegam, estar aonde outros não estão": a mesma capacidade de analisar a realidade nos há de levar a descobrir aonde as necessidades não se fizeram aparentes e visíveis, ou aonde as dificuldades levaram a desistir de tentar estar; ou ainda, aonde a solidão ou o desespero nos chamam a dar testemunho de esperança.

- Já existem outros que fazem o que estamos discernindo fazer? Qual é a originalidade?

Para concluir: para que nosso trabalho seja cada vez mais segundo a vontade de Deus, temos que levar a sério a necessidade de uma formação sólida e profunda. Mas ser "contemplativos na ação", o que se objetiva no final do processo dos Exercícios Espirituais, não implica formar-nos primeiro e agir depois, mas que temos de estar dispostos a prepararmo-nos convenientemente e permanentemente, discernindo sobre nossa vida cotidiana e nossa missão.

A pessoa que discerne é pessoa que tomou a sério sua vida; é a pessoa que aprendeu a dar nomes aos acontecimentos internos para compreendê-los e fazer opções coerentes. Não há possibilidade de uma pessoa discernir verdadeiramente sem conhecer-se em profundidade. Discernir vem a ser algo co-natural para quem vive a inacianidade, mas para isso deve conhecer-se e aprender a se manejar em sua própria humanidade.

A pessoa que discerne sabe aquilo que ela experimenta (dentro ou fora de si mesma) a leva às obras de justiça solidária (Mt 25,31-46); a conduz à experiência de um Deus pura misericórdia e que a convida a ser misericordiosa (Lc 6,36-38); se por estas duas coisas o mundo não a compreende ou a persegue (às vezes com o risco de vida) e sente, no entanto, forças para enfrentá-las (Mc 8,34-38). 

 

REFERÊNCIAS

CONCILIO VATICANO II. Cost. past. Gaudium et spes. Disponível em http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html. Acesso em 02 jun 09.

JOÃO PAULO II. Christi Fideles Laici. Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_30121988_christifideles-laici_po.html. Acesso em 20 mai 09.

* Jair José Schuh é Filósofo, Teólogo e Psicólogo


[1] JOÃO PAULO II. Christi Fideles Laici, 32.

[2] CONCILIO VATICANO II, Cost. past. Gaudium et spes, 19.