Oficinas de Espiritualidade Inaciana
Centro Burnier Fé e Justiça

Oficinas de Espiritualidade - Textos para a Oficina de 09 de maio 2009.

Texto 1 (Versão do Texto para ser impresso em MSWord)   Texto 2: Esquema do Discernimento (Versão para Impressão)


Texto 1

EXPERIÊNCIA INACIANA DE DISCERNIMENTO

Pe. José Antônio Netto de Oliveira, SJ

Introdução

Inácio não descobriu o discernimento espiritual. Esta característica básica de sua vivência e de sua espiritualidade, já fazia parte do patrimônio da Igreja. Mas ele deu uma contribuição tão importante à consciência da Igreja, que foi aprovada por ela e oferecida, sob sua garantia, a quem desejasse aproveitar para o seu crescimento, no maior serviço do Reino.

Antes de sua conversão, Inácio tem um projeto: a busca de grandes honras, de glórias mundanas. Jovem, ambicioso, deseja destaque e prestígio social. Quer se promover, adquirir relevo na sociedade do seu tempo, pelo caminho dos grandes feitos. Sonha chegar a ter um nome na terra.

Na conversão, Inácio descobre Deus como um OUTRO. E este OUTRO também tem o seu projeto: projeto salvífico na História. Até então, Deus lhe parecia um seu colaborador para a realização dos seus projetos pessoais. Por isso mesmo, invoca-o de quando em quando. Por exemplo, em perigo de morte, devido à fratura de sua perna, ele recorre ao Senhor para pedir saúde. Com que objetivo? Para poder executar seus projetos mundanos. Deus era visto como o que podia ajudá-lo na realização de seus desígnios pessoais. Na conversão, Inácio descobre Deus como um OUTRO, que tem pensamentos que não são os seus, que tem caminhos que não são os seus. Inácio inicia um processo de renúncia a seus projetos pessoais, para entrar no projeto do OUTRO: o projeto de Deus para a História, para a humanidade. Este vai ser o objeto do seu discernimento ao longo de toda a sua vida.

Uma vez que Inácio descobre um ponto importante, aquilo não fica mais parado em sua vida: toda ela vai ser um longo discernimento de como entrar e como colaborar nesse projeto de Deus para a História. "O que Deus quer?" - pergunta contínua, contínuo discernimento. Como é que se realiza o projeto Dele agora, aqui, nesta circunstância?

O fundamento desta atitude radica-se precisamente neste encontro com o OUTRO, que não só não tem os meus projetos, mas não vai se colocar a serviço deles, que são, enquanto só meus, restritos e mesquinhos. Ele está me chamando para entrar no seu grande Projeto para a História.

A vida espiritual de muitos de nós sofre e claudica por não termos descoberto a Deus como um OUTRO. Ficamos presos, amarrados nos nossos próprios projetos. Quem não se lança, não entra no grande plano de Deus. Por ter percebido esta verdade, Inácio passou a dar uma importância totalmente nova e central ao discernimento. Ele quer colocar-se todo inteiro nesse plano. Quer servir e salvar, dando tudo de si, reunir tudo o que pode, juntar pessoas que entrem nesse projeto de vida e salvação para o homem e sua história.

 Experiência de discernimento: autobiografia

 Num primeiro momento, vamos nos perguntar: como Inácio foi fazendo sua experiência de discernimento?

Ele possui umas tantas qualidades humanas muito importantes para apoiá-lo neste seu novo caminho. É dotado de uma capacidade notável de auto-observação. Pode olhar para dentro de si e perceber o que sucede no seu íntimo. Uma qualidade humana, que será enriquecida pela graça. Ele fará uma auto-análise tão perfeita, quanto é possível a uma pessoa humana.

A sua primeira experiência espiritual, motivadora de sua conversão, no fundo, está ligada a esta capacidade de auto-observação. É uma experiência de discernimento. Nós a temos relatada na sua Autobiografia. Deitado naquela cama, submetido a uma longa convalescença, contrariado em todos os seus ideais de vida mundana, imobilizado por meses, Inácio pede livros de cavalaria, romances de aventura. Mas, naquela casa nada havia do gênero. Deram-lhe, não desses "best-sellers" do seu tempo, mas uma "Vida de Cristo" e um livro de "Vida de Santos", em espanhol, o que puderam encontrar naquela vivenda rural, no interior da Espanha de quase meio milênio atrás.

A partir destas leituras, surgem nele movimentos interiores, que Inácio chamará, depois, de moções: "(...) Quer dizer que Inácio, ora refletia sobre sua leitura, ora se distraía com os pensamentos mundanos, seus ideais de ascensão social, seus projetos próprios (...) "Contudo, Nosso Senhor o socorria, fazendo suceder a estes pensamentos, outros que nasciam de suas leituras". Começa esta luta interior em Inácio: "Porque, lendo a vida de Nosso Senhor e dos Santos, parava a pensar, raciocinando consigo próprio: "E se eu realizasse aquilo que fez São Francisco? E isto que fez São Domingos?" Assim discorria por muitos assuntos que achava bons, propondo a si mesmo empresas dificultosas e grandes". Aí se mostra toda a riqueza do temperamento de Inácio: sempre se volta para empresas dificultosas e grandes. Como sonhava no lado do mundo, sonhava no lado de Deus: imitar os Santos, servir a Deus. Sonhava grande. Inácio é homem do maior, do mais: "Quando se propunha, parecia encontrar em si facilidade para executá-las". (...) Entretanto, ele nada percebe ainda, ainda não discerne.

(...) Primeira observação espiritual de Inácio: uns pensamentos o empolgam, mas se retiram deixando-o triste e vazio. Pelo contrário, outros pensamentos também o empolgam, mas deixam-no contente e alegre. Era um fato, mas "ele não reparava nisso, nem parava a considerar esta diferença. Até que uma vez, se lhe abriram um pouco os olhos e começou a maravilhar-se desta diversidade, e a refletir sobre ela". (...) Toma consciência desta diversidade: Que coisa mais engraçada! Ele se admira. Assim, veio, pouco a pouco, devagar, a conhecer a diversidade dos espíritos que o moviam: o próprio, uns do demônio, outros de Deus.

(...) Ora, ele que tinha chegado aos 30 anos buscando vida em todas as direções, começa a descobrir agora, nesta experiência de discernimento, que Deus era a vida, e que Deus dá a vida verdadeira, vida que emana do interior, que é profunda, que oferece paz, alegria, contentamento do coração. Ele começa a observar-se e vai progredindo devagar.

Esta foi a primeira luz, e Inácio começa a viver e refletir a partir dela: (...) Inácio vai se firmando no desejo de servir a Deus. Então faz outra experiência - "quando uma visita do céu o confirmou desta maneira" - é a primeira experiência de confirmação, passo que ele virá a perceber como de grande importância no processo de discernimento.

Ele chegou, na sua luta interior, a uma experiência que precisa ser confirmada: "Estava, uma noite, acordado, quando viu claramente uma imagem de Nossa Senhora com o Santo Menino Jesus. Com esta vista, por espaço notável, recebeu consolação excessiva, e ficou com tanto asco da vida passada, especialmente dos pecados da carne, que lhe parecia ter tirado da alma todas as imagens que nela tinha pintado". "Consolação excessiva" - Inácio, aqui, é inundado dessa vida, dessa Presença de Deus que traz vida verdadeira. (...)

 Experiência de Discernimento - Diário Espiritual:

 Descoberto o discernimento, Inácio passa a aplicá-lo em todas as decisões de sua vida. Põe-se em contínuo discernimento. O discernimento vai-se constituindo numa espécie de método de oração.

Fala-se muito, hoje, de "oração encarnada". Acredito que Inácio tinha uma oração tremendamente encarnada, porque trazia constantemente para a oração o que surgia como desafiante para ele a cada momento, para em tudo procurar seguir o Projeto de Deus, para descobrir o que Deus quer, a sua vontade.

Captamos melhor esta atitude profunda de Inácio, através do Diário Espiritual: livro riquíssimo, que nos introduz no espírito de Santo Inácio como místico. Vamos segui-lo um pouquinho. Na verdade, Inácio destruiu todo o seu Diário. Salvaram-se das cinzas umas tantas páginas, dois pequenos cadernos, que restaram dos cinco volumes que ele mostrou ao Pe. Gonçalves da Câmara, em 1555. Por toda a sua vida, ele tinha feito revisão da oração, anotando alguma coisa cada vez. O trecho que escapou é de 1544, quando redigia as Constituições da Companhia no que se referia à pobreza: como deveria ser a pobreza na Companhia de Jesus? Tinha algumas idéias, mas não via claro o que Deus queria. Discerne em torno de três pontos, mas vamos nos deter nesta questão da pobreza.

Inácio, enquanto escrevia as Constituições, permanecia fiel ao método das "eleições", nos seus dois tempos de reflexão e oração: oração e discernimento - busca da vontade de Deus. Constatamos, nesses dois cadernos, sua fidelidade a este caminho de discernimento; decidir discernindo, e procurando a confirmação do que discernia.

(...) - Inácio faz a experiência do Espírito Santo que confirma: "...Embora falasse já como de assunto acabado, já encerrado, sentindo bastante devoção e certas inteligências, com certa clareza de vista, me assentei, olhando de relance por ter todo, em parte ou nada, e me vinha desejo de não considerar mais razões algumas. Nisto vieram-me outras inteligências, a saber, como o Filho, antes de enviar os Apóstolos a pregar em pobreza, e depois o Espírito Santo, dando o Seu Espírito e línguas, os confirmou; assim o Pai e o Filho, enviando o Espírito Santo, as Três Pessoas confirmaram tal missão: pregar em pobreza."

Nesta altura, Inácio se detém em oração muito tempo: "Finalmente me levantei, e, levantando-me, acompanhava-me ainda a devoção com soluços. Eles me vinham por ter feito a oblação de não ter nada, dando-a por confirmada. Em seguida, na Capela, antes da Missa, e durante ela, abundância de devoção e lágrimas; depois, grande tranquilidade e segurança de alma, como quem, cansado, se senta com muito repouso; vontade de não buscar, nem querer buscar coisa alguma, considerando o assunto por acabado; só aceitando dar graças, por devoção, ao Pai, na Missa da Trindade, como antes pensava em celebrá-la, terça-feira, de manhã."

Por conseguinte, Inácio já chegou ao que Deus quer como pobreza para os Jesuítas (...)

Acho que isto nos dá a entrever a seriedade com que Santo Inácio conduzia sua busca da vontade de Deus em tudo. O que nos ensina, ele praticou com a maior fidelidade. Uma vez que ele descobre alguma coisa, ela não o deixa mais. Vai-se aprofundando, progressivamente, na oração. (...) Não considerava a questão fechada sem insistir na oração, pedindo confirmação. Desconfiava, às vezes: mas será que está confirmado mesmo? Persistia na oração, na consideração das razões e das moções. Finalmente fazia a oblação, atento ao que o Senhor lhe concedia sentir.

O seu Diário Espiritual revela-nos a mística de Inácio, mística muito profunda, de comunhão com as Pessoas Divinas. Aplica o discernimento a tudo: na redação das Constituições, no envio dos Jesuítas em missão, nas decisões a tomar... e levava os outros, também, a se pôr em estado de discernimento, a fazer discernimento. Portanto, Inácio é um homem de discernimento: a experiência de discernimento, nele, tem início em sua conversão, e vai-se aprofundando sempre mais, nessa contínua atenção ao Projeto de Deus, na História. Ele vai discernindo o caminho. Discernimento, então, é uma atitude de vida de Inácio, atitude espiritual, permanente. Não o aplica a um casinho ou outro, aqui ou ali, mas toda a sua vida mergulha no discernimento, na busca de Deus, em encontrar Deus em todas as coisas.

Aqui - acho eu - reside o núcleo mais profundo da espiritualidade inaciana.

 Contribuição Específica de Inácio sobre o Discernimento:

 O discernimento, como já dissemos, não é patrimônio da espiritualidade inaciana. De certa maneira, todo cristão discerne, espontaneamente, de um jeito intuitivo, no dia a dia.

Nas Escrituras, fala-se muito do discernimento, inclusive a própria palavra. Toda a tradição da Igreja trata do discernimento. A contribuição própria de Inácio a esta tradição está mais no enfoque. Anteriormente, a linha do discernimento era mais de cunho moralista. Pensava-se, sobretudo, em discernir o que está certo, o que está errado, o que é ortodoxo e o que é herético, se tal mística era verdadeira ou enganosa... Qual a contribuição própria de Inácio na tradição do discernimento?

Inácio colocou o discernimento em relação direta com a eleição: como escolher segundo a vontade de Deus, como buscar e encontrar a vontade de Deus; e vai afirmar-nos, convictamente, que podemos discernir a vontade de Deus. Ora, este não era o enfoque anterior a Inácio. E por que não? Possivelmente, por duas razões: de um lado, o dom que Deus lhe concedeu, de auto-observação, de auto-percepção; de outro lado, as circunstâncias históricas em que viveu.

(...) Inácio, então, pergunta: como encontrar a vontade de Deus, como descobrir o que Ele quer? Como encontrar o caminho que leva à salvação? Inácio recorreu às riquezas do passado para iluminar sua experiência pessoal e ir encontrando um caminho: é o discernimento que se coloca para ele como luz que clareia o caminho. E este discernimento orienta-se para um compromisso.(...)

  Enfoque próprio do Discernimento Inaciano:

 O discernimento que Santo Inácio propõe não é, como já dissemos, na linha moral. Para ele, este discernimento já está feito: Deus não quer o mal; Ele quer o bem. O discernimento inaciano se situa entre um bem e outro bem, ou entre um bem e um bem maior. E esse discernimento não é obra de nossa razão simplesmente: "eu vejo o que é mais conveniente fazer"... Mas chega-se a ele pelo resultado da ação de Deus em nós, estando atentos às moções.

(...) Estamos sempre entre dois dinamismos: de um lado, o amor de Deus, que nos atrai para o amor, para a verdade. Do outro lado, o pecado em nós e em torno de nós, que nos quer trancar em nossos projetos pessoais, levando-nos ao fechamento, ao egoísmo, à mentira, à escravidão... Santo Inácio nos diz: são o bom e o mau espírito atuando com efeitos distintos, diversos (vazio, triste x contente, pacificado, animado). Temos de observar estas moções, estas atuações do Espírito de Deus e do Mau Espírito em nós, para encontrarmos os caminhos do Senhor.

 Sujeito do Discernimento Inaciano:

 E qual é o sujeito desse discernimento inaciano? Quem pode fazer o discernimento inaciano?

 + Sujeito livre

Em primeiro lugar deve ser uma pessoa livre. A liberdade do sujeito é de capital importância. Trata-se de alguém capaz de comprometer-se com o Projeto de Deus.

(...) Este é o primeiro passo: o exercitante deve estar livre. De onde se percebe a dificuldade, que já mencionamos antes, de se enviar uma pessoa "para discernir" em crise e com prazo marcado. É necessário entrar num processo longo. Se a pessoa se deixou apegar, como vai discernir? Gente que vem "fazer discernimento" numa tempestade afetiva séria, envolvida estreitamente com outra pessoa... Dificílimo! É preciso liberdade afetiva para ver com clareza.

+ Sujeito orante

Em segundo lugar, a pessoa tem que ser orante. Só vamos poder discernir na oração. Querer fazer discernimento sem oração é impossível. Pois é na oração que se experimenta, de modo particular, a diversidade de moções. Nela a pessoa vai perceber mais claramente suas relações com Deus. Então os Exercícios ganham sua dimensão específica, seu perfil característico.

Há um nível objetivo dos Exercícios que são as propostas de oração. Durante os Exercícios, Santo Inácio propõe cinco horas de oração pessoal por dia. O Diretor é quem propõe a matéria. Não se trata de rezar qualquer coisa em uma ordem qualquer. Inácio apresenta uma determinada ordem objetiva de oração: Princípio e Fundamento (PF), Primeira Semana; a Segunda Semana, com os mistérios da Vida de Cristo; a Terceira Semana, com a Paixão; a Quarta Semana, com a Ressurreição e a Contemplação para alcançar o amor. Esta sequência é de suma importância.(...)

 Objeto do Discernimento Inaciano:

 Sabendo qual é o sujeito do discernimento inaciano, podemos perguntar, finalmente, sobre o objeto do discernimento: o que se deve discernir?

 Digamos, de modo genérico, que o objeto do discernimento é a vontade de Deus. A vontade de Deus é que seu Projeto de Vida se realize na História dos homens e na minha vida em particular.

Ora, quem realizou de modo perfeito esse Projeto de Vida para os homens, e em sua própria vida se conformou, em tudo, com a Vontade do Pai, foi Jesus Cristo.

O discernimento consistiria, portanto, numa busca contínua e perseverante de configuração com Jesus Cristo, com seus valores e atitudes, com seus critérios e preferências.

Para isso precisamos de uma atenção contínua ao Espírito Santo e às suas moções, porque a ação do Espírito Santo em nós, consiste, precisamente, em configurar-nos com Jesus, em revestir-nos de Cristo, mas cada um de modo diferente e por caminhos diversos. De fato, enquanto pessoas, somos únicos, irrepetíveis, singulares. Enquanto natureza, compartilho da mesma natureza dos demais seres humanos, mas enquanto pessoa, sou único, Deus me criou sem papel carbono, sem xerox.

Esta realidade de ser único e singular, perante toda a humanidade anterior, contemporânea e posterior a mim, e também perante Deus, confere à existência de cada um um caráter de responsabilidade intransferível, perante o Projeto de Deus para a História. Deus, ao criar-nos como pessoa única e irrepetível, tem para cada um, uma missão dentro desse Projeto. Conhecer essa missão em sentido global e conhecer os passos para ir concretizando-a na própria vida, seria o objeto do discernimento, e o Espírito Santo age, atua, move-nos para que nossa resposta seja válida como foi a de Jesus Cristo.

Para compreendermos melhor, seria útil distinguir entre a vontade universal de Deus, que chamamos de Princípios Gerais, e a vontade particular de Deus para cada pessoa, que chamamos de imperativo pessoal.

 Princípios Gerais:

Conhecemos com clareza a vontade de Deus em muitos setores da vida. Deus é amor e quer tudo o que é bom, que traga vida integral para o homem. Deus não quer o mal. Entre o bem e o mal não é possível fazer discernimento. Já sabemos que a vontade de Deus é o bem. Já dissemos que o discernimento inaciano não é moral.

 Imperativo Pessoal:

Os princípios gerais, porém, não resolvem tudo porque o homem é também liberdade, singularidade, é único, só acontece uma vez na história. Essa singularidade indica que os Princípios Gerais não esgotam a vontade de Deus sobre nossa vida. Deus tem um desígnio particular para cada um e essa vontade particular para o indivíduo não está clara, deve ser buscada, deve ser discernida. O que Deus quer de mim?

Para Santo Inácio, esta pergunta pode ser respondida através do discernimento.

O imperativo pessoal não se opõe aos Princípios Gerais. Não pode ser provado, porque o captamos no interior da experiência de Deus. A pessoa terá dificuldade para explicitá-lo para os outros, porque a evidência é pessoal. Por que você quer entrar para a Vida Religiosa? A pessoa sabe o porquê, mas o sabe através de uma experiência pessoal, íntima, e se os outros não têm nenhuma experiência nessa linha, terão muita dificuldade para compreender, e o sujeito muita dificuldade para explicar.

O imperativo pessoal não pode ser deduzido dos Princípios Gerais, nem no seu conteúdo, nem na sua obrigatoriedade. Sto.Inácio fala de três tempos em que se pode conhecer a vontade de Deus. No primeiro tempo há uma evidência tal que a pessoa nem duvida, nem pode duvidar do que Deus quer. Nos outros dois tempos, não se goza desta mesma certeza e evidência, mas percebe-se, com clareza, uma direção. A pessoa deve caminhar nessa direção e a evidência crescerá no agir, atuando na direção que percebe ser a vontade de Deus. Deus o confirmará na caminhada. (...) Seguir o imperativo pessoal poderá implicar, às vezes, em não ser bem compreendido, seja por pessoas, seja pela própria Congregação, seja pela hierarquia. Como a evidência, nesse caso, é subjetiva, somente a pessoa que o vive pode compreender e caminhar na fidelidade ao Espírito. Em certos casos, a pessoa não terá respaldo claro da hierarquia. Há muitos casos, na história, de pessoas que foram incompreendidas em seu tempo e até suspeitas de heresia; só mais tarde se reconheceu que eram movidas pelo Espírito: Mary Ward, Teilhard de Chardin etc..

O Espírito sopra onde quer. Todos podem captar a Vontade de Deus para sua vida; às vezes, é um cristão da base que capta o imperativo do Espírito para a comunidade; às vezes, será a autoridade eclesiástica que o capta, como aconteceu com João XXIII e com nossos Bispos, em Puebla, com seu apelo vigoroso contra a injustiça e a opção preferencial pelos pobres.(...)

 

Conclusão:

O objetivo destas reflexões era lançar algumas luzes sobre o conceito e a prática do discernimento inaciano. Como se trata de um assunto de grande atualidade, devido à situação confusa da sociedade e da Igreja, muito se tem escrito ultimamente sobre discernimento, e o leitor poderá facilmente completar estas informações. Fique, contudo, claro, que discernimento não é uma teoria, mas uma prática, e se não nos lançarmos numa humilde, paciente e atenta observação e leitura dos toques do Espírito Santo e de suas moções em nosso interior, nunca seremos pessoas de discernimento.

Inácio era um homem que aprendeu, no Espírito, a mudar. Primeiro, o Inácio, "jovem Moisés", "matamoros". Depois, o Inácio eremita de Manresa. O peregrino "só e a pé", que rejeitava o apoio e a companhia de quem quer que fosse, para se confiar só ao Pai. O universitário madurão, desejoso de ajudar pessoas e ter companheiros de serviço e vida. Assim, somos apresentados ao Inácio Fundador de uma comunidade para o envio "a qualquer parte do mundo", "companhia" de Jesus, percorrendo cidades e lugarejos no serviço do Reino. É uma fascinante caminhada. Assim, em movimento vital, nasceu a missão segundo Inácio. Como a sua "conversão" não foi um só momento, mas uma graça contínua e encarnada, a missão, que descobriu, vai ser um "estado de discernimento", uma estabilidade encontrada não em situações, instituições ou pessoas, por melhores que fossem, mas no Espírito daquele Senhor, que, sendo de condição divina, assumiu a condição de escravo.

 


Texto 2

COMO FAZER UM DISCERNIMENTO ESPIRITUAL PESSOAL

Passemos agora à descrição do processo ordinário de um discernimento espiritual pessoal. Na prática, ele deverá ser aplicado com flexibilidade. A natureza do  problema proposto, o temperamento das pessoas interessadas e um impulso claro do Espírito poderão sugerir certas adaptações.

Para denominar as etapas a seguir, ou melhor, os trâmites do discernimento, conservamos os termos espanhóis de que se servia santo Inácio. São sugestivos, mesmo intercalados num texto português: mirar ou contemplar, de acordo, aliás, com são: Paulo, que compara a contemplação a uma espécie de "espelho" vivo e transformador; parecer, i.é, examinar, considerar, refletir e daí passar a exprimir um parecer ou opinião, exatamente como quando se diz "parece-me que..."; sentir ou experimentar, sentir, para dizer o que se passa na. parte afetiva ante a eventualidade de uma decisão; juzgar ou concluir, decidir, julgar após um longo debate interior; confirmar ou procurar, seja em si mesmo ou fora, motivos para confirmar a decisão que se acaba de tomar.

Expliquemos agora o esquema ou quadro abaixo. Antes de estudar mais detidamente o sentido e alcance de cada um dos trâmites, convém que vejamos como eles se relacionam entre si.

1. A contemplação, o mirar, tem um duplo objeto: de uma parte Deus, o seu Desígnio de salvação, Cristo, e, de outra, o ego o mais conforme possível a Deus e, conseqüentemente, purificá-lo de tal modo de toda afeição desordenada que a luz vinda de Deus o possa atravessar de lado a lado, sem ser falseada ou desviada, e assim esclarecer “a questão".

2. O exame objetivo da "questão" a resolver levará a pessoa a emitir uma opinião, o parecer. Ele apela em primeiro lugar para a razão, por mais esclarecida que esta seja pela fé, para a observação concreta, para a experiência, para a consulta.

3. O terceiro trâmite (que se encontra, de fato, a meio caminho e se inclui na contemplação e no exame objetivo da questão) consiste em prestar atenção ao que experimentamos quando, de um modo geral, nos pomos na presença de Deus, do seu Desígnio de salvação, de Cristo, e nos pomos mais particularmente na eventualidade de nos fixar em determinada solução A, B ou C. Talvez haja harmonia ou acordo entre esses dois sentimentos ou estados de alma; talvez oposição e tensão. Que conclusão tirar desse sentir?

4. Esses três modos de abordar a questão deverão conduzir a uma conclusão: o juzgar.

5. Antes de tomar uma decisão e pô-la em execução, é aconselhável procurar uma confirmação: o confirmar. Veremos como vem, de ordinário, essa confirmação.

Mas outros termos nos devem ainda reter a atenção nestas considerações preliminares:

1. A questão que se delineia. A prática e a vida nem sempre são tão simples quanto a teoria. Sem pretender ser exaustivos, passaremos em revista algumas das formas mais correntes sob as quais se apresenta a questão.

2. O ego. Nas oficinas precedentes, dissemos que os únicos sujeitos aptos para fazer um discernimento espiritual eram, de um modo geral, os "espirituais". A advertência tem qualquer coisa de estimulante, mas, forçoso é reconhecê-lo, constrange um pouco. Quem ousaria dizer que é um "espiritual"? Em termos mais simples, examine-se cada qual a si mesmo antes de entrar num discernimento espiritual pessoal, tentando descobrir os seus pontos fracos e os seus pontos fortes, para ver como, no seu caso, esse processo poderá ser vivido.

Esquema do processo de discernimento