Oficinas de Espiritualidade - Módulo II - DISCERNIMENTO
Relatório da Oficina de Espiritualidade – 04 de abril de 2009
DISCERNIMENTO NA PERSPECTIVA ÉTICA
Assessor: Roberto Rossi
Acolhida: Arlene
Oração: leitura do texto
bíblico de Dt 30, 15-20 (coloco diante de ti a vida e a morte); canto “Ninguém
pode prender um sonho”; quem quiser poderá expressar algo sobre o texto lido.
Tema do dia:
Somos seres de relação,
não estamos sozinhos, minhas decisões afetam a minha vida e a vida dos demais.
Por isso é importante refletir sobre nosso agir e nossas escolhas. Como vocês,
ao longo dessas Oficinas, estão elaborando ou reelaborando a questão do
discernimento?
“Para mim
discernir era escolher sobre algo bom ou ruim, hoje fica mais a perspectiva de
Santo Inácio, escolher entre o bom e o melhor, pois nunca vamos escolher algo
ruim”. “Para escolher devemos rever todo o processo e chegar a uma conclusão”.
“Para discernir devemos tomar uma decisão de fé, pela fé, por Deus e Jesus
Cristo e fora disso temos o pecado”. “Quando faço discernimento tenho que pensar
não somente em mim, mas também pensar no outro, nos meus familiares, no
próximo”. “Entendo discernimento como uma leitura do mundo, é preciso verificar
o sentido de justiça, Deus é justo; fazer uma leitura do cotidiano, o que
reflete nas pessoas e na sociedade em geral”. “Discernimento para diferenciar
entre as coisas boas e as melhores, hoje pode haver algo bom, mas amanhã haverá
algo melhor ainda”.
Qual a idéia que vocês tem
sobre a ética, pois desde a década de 1990 vemos muito as pessoas falarem sobre
ética, principalmente na política.
“Conjunto de
normas gerais da sociedade, mas há também ética particular de cada profissão e
ética religiosa, e a ética religiosa se diferencia de toda a ética”. “A ética
reflete as normas de conduta pretendendo respeitar o próximo”. “No trânsito tem
uma ética, mas poucos respeitam ou seguem; temos a ética e também as leis”.
Atividade em
grupo: ler e comentar o texto:
Ética e discernimento
Considerações gerais sobre
o texto: foi fácil, difícil ler o texto? “polêmico...”; “fomos analisando por
parágrafo... mas não conseguimos diferenciar muito ética e discernimento”.
Considerando nosso grupo
[Oficina] dentro da sociedade, é um grupo de cristãos, pertencentes à Igreja
Católica. Assim, sabendo dos seis bilhões de habitantes da Terra, somos um
pequeno grupo. Por isso é importante não tentar impor algo dentro desse universo
de diversidade.
A partir do trabalho em
grupo, podemos conversar sobre o texto:
“discernir é uma
ação humana; é uma atividade humana, mas uma ação pensada, não uma ação
qualquer, é refletida, e esse sujeito não age sozinho, mas em grupo na busca do
bem comum, a felicidade. Mas quem ditou essa ação? Aí temos o costume, o ethos”.
O texto, primeiramente, é
metodológico a partir de uma técnica pessoal e também comunitária. Mas o texto
não tem o objetivo de ser técnico, mas ser um instrumento para verificar sobre o
discernimento.
“O ethos de que
fala o texto apresenta como deve ser uma comunidade; não apresenta algo de
religioso, mas fala como deve ser o costume numa sociedade, na família...”
O texto apresenta
critérios para o discernimento.
“Para o
discernimento, dependemos unicamente de nossa atitude”
“Nós estamos
vendo uma polêmica hoje sobre o aborto; é uma questão filosófica, religiosa,
ética muito grande. Na Europa tem um instituto que aprofunda sobre a ilegalidade
do aborto...”
O ato humano de fazer
escolhas ocorre no mundo, não em uma sala fechada. Discernir humanamente é fazer
escolhas dentro de um contexto histórico, social, que implica diferentes idéias
e convicções. Por isso apresentei o conceito de práxis, que implica ação
relacionada com os demais. Nesse texto apresento uma perspectiva ética que é a
teleológica, a vida humana que está orientada para uma finalidade, que procura
apontar a finalidade da vida humana.
O agir humano está
referenciado pelas coisas e pelas outras pessoas.
Para começar a ver sobre o discernimento inaciano e a ética
é importante ver sobre o ethos. Para
Pe. Vaz ethos tem dois sentidos, sobre
isso o que vocês puderam compreender?
“primeiramente
ethos diz respeito aos costumes, é modo histórico de agir, pautado por valores,
não qualquer modo de agir. É um comportamento que se repete e se torna costume”
Além disso, ethos
significa casa onde o homem habita. Nós estamos no mundo e pertencemos a esse
mundo. Nós somos nesse mundo e estamos nesse mundo. Não estamos simplesmente
jogados nesse mundo, se assim fosse seríamos uma coisa. Mas somos nós que damos
sentido à nossa vida e a à vida do planeta. Os outros animais não se preocupam
com isso. Nós é que estabelecemos sentido para nossa vida, estabelecemos
objetivos para nossa vida. Tudo isso tem em vista construir a vida de
convivência entre os humanos. Estabelecemos as normas de conduta, o que pode e
não pode. Disso resulta a tradição e a cultura, aí temos também a religião, e
também nossa busca de prazer, de satisfação.
“Discernimento é
buscar escolher algo para mim, mas pensando também nos demais. Todos nós aqui,
nenhum pensou algo igual ao outro. É importante pensar sempre no bem da
comunidade. Precisamos saber definir...”
Nessa casa boa formada, há
uma variedade de elementos, costumes, regras, o que é certo ou errado. E aí
essas regras são baseadas em valores próprios para cada grupo, assim há uma
grande diferença de um costume de um grupo para outro.
“se uma pessoa
vai trabalhar numa aldeia indígena tem que ter em conta a vida do grupo antes de
tomar quaisquer decisões”.
Aí é preciso levar em
conta que o grupo pode condicionar totalmente a pessoa, e essa não vive
plenamente em liberdade.
“discernimento
não somente diz respeito ao bem e ao mal, mas aquilo que eu quero, que eu
desejo, e às vezes eu quero algo que me dá satisfação. Uma pessoa que vive num
país árabe, mas de tradição ocidental, essa vai viver um conflito quando não
aceitar plenamente as tradições de lá, como as vestes, a comida, o
comportamento. A ética então pode padronizar; você tem que viver como o grupo
vive. A ética, o ethos é pensado, reformulado, a vida à nossa volta muda”.
“nós estamos num
país de tradição ocidental, lá há outro costume, outros valores, um país
oriental e lá a mulher adúltera é apedrejada; mas uma pessoa daqui que vive lá
vai viver um grande conflito diante dessa questão. E a pessoa que rompe com essa
tradição oriental procura viver com liberdade, com decisão pessoal. Essa pessoa
define viver como ela quer, enquanto indivíduo livre. E isso significa viver e
lutar pela felicidade pessoal. O rompimento chega a ser algo muito radical: o
próprio pai renega a filha por causa de algo que ela fez. Quando você se
encontra diante de algo que te leva a agir se torna utópico. E aí temos a
questão religiosa, falamos enquanto dentro de uma perspectiva que parte de
Cristo. Mas Ele indicou principalmente para amar e acolher o próximo.
Independente de religião, temos a capacidade de amar e de compreender que é
universal, que vale para todos”.
Vemos então sobre a
diferença que há entre diversas culturas, diferentes povos, e aí então pode
ocorrer o rompimento ético, pois em algumas culturas ocorre a cristalização de
costumes. E quando uma pessoa decide ser livre diante de uma determinada cultura
há o conflito ético. Para isso uma pessoa tem que ter convicções muito
profundas. É o caso de Cristo. É quebra de paradigmas.
“Cristo pregava
buscando romper com algumas leis que oprimiam o povo”
A grande questão
filosófica da ética diz respeito a universalização de valores válidos para todos
os seres humanos. Essa é uma corrente. Mas há outra que defende uma postura
ética a partir de grupos humanos com suas tradições. E isso reflete nas questões
religiosas e nas questões de convivência entre grupos diferentes. Sobre isso não
vamos fechar o assunto...
Para o discernimento, as minhas escolhas tem relação com as
atitudes pessoais e comunitárias. No segundo sentido de
ethos apresentado pelo texto, vemos
que há um processo de mudança dos costumes, de transformação da tradição.
Quando duas pessoas vão
praticando algo com regularidade isso vai acabar por se tornar um costume.
Exemplo: ao sair de casa fazer o sinal da cruz, mesmo mecanicamente ou fazer
genuflexão quando entra na igreja. Se torna então um hábito consciente ou
mecânico.
Introduzo então o
ethos como modo de ser. Cumprimos deveres por costume ou por medo, aí há o
medo de desobedecer, há o medo de descumprir a norma do grupo, de ser penalizado
pelo grupo. Quando a pessoa rompe com consciência dando razões age em liberdade.
Mas fazer o bem para não ir ao inferno é algo não discernido, não pensado. Ou
batizar porque meus antepassados fizeram também não é algo pensado.
Fazemos ações impensadas e
ainda achamos que somos os melhores.
“um exemplo, meu
esposo é luterano e eu católica e aí nós tivemos que construir nossa vida,
aprender a conviver principalmente quando vieram os filhos, tentar fazer as
coisas e mudar se não deu certo”
Uma outra corrente ética
diz respeito ao estrito cumprimento de normas e leis.
Então a ética não é um
conjunto de normas, de valores, é uma reflexão sobre o agir humano.
“por isso eu
disse que a ética é mutável, ela se transforma, por dar o sentido ao agir
humano”.
Na corrente deontológica,
temos a formulação de correntes éticas. Por ex. os médicos, os padres, os
políticos. Essa corrente normativa impõe éticas especiais.
Para a ética da
responsabilidade o importante é o resultado da ação do grupo ou da pessoa, não
importam os meios, mas o resultado. Na ética da convicção importa aquilo que é
convicção por se colocar em prática.
A ética está então
relacionada a um grande número de elementos: sociais, religiosos, etc..
Mas o que ficou para nós
sobre ética?
“com relação ao
discernimento, quanto mais estivermos esclarecidos sobre algo, melhor andamento
daremos a isso, e ética é respeito pelos outros”.
“quanto mais
refletimos, mas podemos contribuir no mundo”
“quando fiz o
segundo grau a professora pediu para ler um livro de ética do autor Betinho, ele
dizia que devemos voltar a acolher o outro, ter responsabilidade pelo outro.
Tudo acaba se tornando um costume, nos acostumamos a ver os pobres e a conviver
com a pobreza”
Ajudou a pensar o discernimento, essa reflexão sobre a
ética? “sim, no sentido de aprender a lutar pela sempre
pela vida”.