Oficinas de Espiritualidade - Textos para a Oficina de 21 de março.
Discernimento
A. Barruffo, Em Dicionário de Espiritualidade.
[Como preparação para a Oficina sobre
DISCERNIMENTO NA PERSPECTIVA BÍBLICO-CRISTA, apresentamos as duas primeiras
partes do verbete DISCERNIMENTO, do dicionário de Espiritualidade Inaciana. As
duas partes seguintes – o discernimento pessoal e o discernimento comunitário
serão vistos em oficinas posteriores]
SUMÁRIO: I. O discernimento espiritual no dinamismo da experiência cristã: 1. O dinamismo da existência cristã; 2. O discernimento entre as tensões e as ambigüidades da existência - II. O discernimento espiritual na Sagrada Escritura: 1. Atitude crítica do cristão para progredir no caminho de Deus; 2. Busca da autenticidade cristã; 3. Critérios de discernimento segundo são Paulo - III. O discernimento pessoal: 1. Relação dialética entre discernimento pessoal e comunitário; 2. O itinerário do discernimento pessoal segundo santo Inácio de Loyola - IV. O discernimento comunitário: 1. Em que consiste; 2. Seus fundamentos; 3. Condições psicológico-espirituais; 4. Técnicas do discernimento comunitário.
I. O discernimento espiritual no dinamismo da
experiência cristã
A instância do discernimento espiritual nasce da experiência que o cristianismo realiza em sua vida de fé em Cristo, na Igreja e no mundo. A complexidade das situações em que é chamado a viver e agir para cumprir o plano de Deus a respeito de si mesmo e dos outros, impõem ao cristão atenta consideração dos impulsos e das motivações que o induzem a determinadas opções. Deus chama cada homem e cada grupo de pessoas reunidas em seu nome a uma vocação particular, que se insere no contexto da missão que ele confia ao povo que escolheu para si. O que é bom para um não é bom para outro, e o que é melhor para um nem sempre o é para outro. Daí nasce o problema que assim se expressa: Como reconhecer os sinais de Deus em determinada situação e, sobretudo, diante de certas opções?
1. O dinamismo da existência cristã - A existência
cristã não é realidade estática. É vida e, como tal, possui todas as
características da vida. A vitalidade cristã é por nós experimentada na nossa
vitalidade existencial, constituída por pensamentos, sentimentos, atividades,
tendências e relações com os outros, com as coisas, com o mundo e com a
sociedade. A existência cristã tem em nós seu nascimento e seu desenvolvimento
contínuo. Na origem desta nova existência, como ensina são Paulo (Rm 3,6.8),
estão a fé
2. O discernimento entre as tensões e as ambiguidades da existência. – Assim, pois, para que a existência possa desenvolver-se em sua autenticidade, é necessário o confronto contínuo entre as inspirações e a orientação de Deus, que se revelam em Cristo, na Igreja, e, de outro lado, os impulsos e estímulos dos instintos humanos ou das potências do mal que são contrárias ao Espírito de Deus. Não é fácil estabelecer a distinção entre a ação do Espírito de Deus, a do espírito humano e a do espírito mau.4 Primeiramente, a vida interior do homem é complexa, e "este, por erro, pode considerar como manifestação do absoluto ou de Cristo algo que, de fato, nada mais é do que fruto de elaboração subjetiva".5 A dificuldade provém, outrossim, de que, estando o Espírito de Deus presente em nosso espírito humano, o espírito mau tenta imitar o Espírito de Deus para enganar o homem e afastá-lo do plano da salvação.
Paulo diz que, se mediante o Espírito fizermos morrer as ações pecaminosas de nosso eu, viveremos: "Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus" (Rm 8,14). Mas nossa tendência para o pecado e a inimizade com Deus (Rm 8,7) subsistem mesmo depois de Deus nos haver justificado através da fé e do batismo. Também Jesus, imediatamente depois do batismo, foi tentado por Satanás, que lhe propôs abusar de seu poder messiânico, desviando-o do fim para o qual Deus lho havia concedido. Esta experiência de Jesus repete-se na vida do cristão, o qual sente o poder do espírito mau, que tenta separá-lo de Deus, retirá-lo de seu plano ou, pelo menos, diminuir a sua capacidade de praticar o bem. Por isso, Paulo adverte os efésios: "Revesti-vos da armadura de Deus, para poderdes resistir às insídias do diabo" (6,11). E preciso levar a sério o combate espiritual: "Pois o nosso combate não é contra o sangue nem contra a carne, mas contra os Principados, contra as Autoridades, contra os Dominadores deste mundo de trevas, contra os Espíritos do Mal que povoam as regiões celestiais" (Ef 6,12).6
Às vezes a ação do poder do mal é muito sutil. Encaminha-se no sentido de propor ações ou atitudes à primeira vista boas, mas para levar a conseqüências más, seguindo a tática do exagero: abusar da própria liberdade pelo fato de ser dom de Deus, exagerar na penitência para cair em seguida no cansaço e na repulsa pela vida espiritual; deixar tudo e todos, radicalizando o ensinamento evangélico para escapar de responsabilidades pessoais e sociais; usar para a própria glória os dons recebidos de Deus, que os dá para a edificação da Igreja etc. Satanás, como diz são João, é o "pai da mentira" (8,44); Por isso devemos “reconhecer o espírito da verdade e o espírito do erro” (1Jo 4,6). Além do mais, a história da Igreja ensina que alguns dons autênticos do Espírito não puderam mostrar toda a sua eficácia ou foram até desviados do bem, tanto porque aqueles que os possuíam não souberam discernir entre inspiração de Deus, impulsos e desejos humanos, ou desvios operados por Satanás, quanto porque os que tinham a missão de guiar, de orientar estes dons em vez de fazerem isto, extinguiram-nos.
II. O discernimento espiritual na Sagrada Escritura
Procurar na Escritura o que é o discernimento espiritual significa percorrê-la em sua totalidade. Mais do que uma teoria sobre o discernimento, na Escritura se encontra discernimento em ação, in fieri; de um lado, o discernimento que Deus realiza na história de Israel ou na Igreja; de outro, o que o homem faz para entrar no caminho da fé e da justificação e para aumentar a operosidade de sua existência cristã na Igreja e no mundo.7
1. Atitude crítica do cristão para progredir no caminho de Deus - No AT Deus escolhe: Adão (Gn 2,17), Abraão (Gn 12.4), o povo de Israel (Ex 19,8; 24,3; Jz 24,15; Dt 28,1.15...), os soberanos e os chefes do povo. Para corresponder a esta escolha, a esta eleição, é preciso libertar-se de motivos e condições obscuros e comprometer-se no caminho contínuo de busca de fé. Tanto mais que junto à voz de Deus está a do pecado (Gn 4,7) e a de Satanás, adversário de Deus, também esta cheia de mistério.8 Para o povo eleito trata-se de aceitar a própria visão de Deus, seu discernimento, o que implica dois momentos: o da passividade, isto é, deixar-se guiar por ele, recordar seus benefícios, dar graças, voltar às origens para compreender novamente sua vocação, fortalecer-se na confiança da promessa; o da atividade, de compromisso, de busca do novo, sempre sob a direção de Deus.
O discernimento de "espíritos" ou de "inspirações"
encontra-se ao longo de todo o NT, particularmente
Nos sinóticos, embora sem termo que a especifique, temos a realidade do discernimento, que consiste substancialmente em "reconhecer" na pessoa e na ação de Jesus o poder do Espírito de Deus e a derrota do espírito do mal. Jesus é sinal de contradição (Lc 2,34) e, portanto, objeto de discernimento; os que o acolhem descobrem nele os caminhos do Espírito; os outros continuam lendo as Escrituras sem compreendê-las e vêem Jesus passar sem reconhecer que Deus está nele.
Para os Atos dos Apóstolos, para além de toda teoria, a dinâmica do discernimento é clara: "O Espírito de Deus se impõe com sua própria força e traz a sua luz; suas iniciativas são sempre maravilhosas e às vezes desconcertantes, porém nunca turbulentas nem desordenadas; sua ação exerce-se sempre na Igreja, cuja paz e expansão assegura; sua obra consiste em dar a conhecer e em irradiar o nome do Senhor Jesus".10
2. Busca da autenticidade cristã - Para são Paulo, o
discernimento é parte imprescindível da busca dinâmica da autenticidade cristã,
e, por isso, é preciso mantê-lo sempre
O discernimento, em seu aspecto moral, tem por objeto a "vontade de Deus" (Rm 12,2), o imperativo moral que impõe vida santa e agradável a Deus (1Ts 4,1-3). Este imperativo supõe caminho de conversão contínua. O "conhecimento" de que fala muitas vezes são Paulo (Fm 5-6; Ef 1,15-18; 4,13; FI 1,9; Cl1,9-10) representa justamente este caráter dinâmico de progresso e de crescimento, que interioriza e conduz a nível cada vez mais alto a fé, a esperança e a caridade.13 Analisando o ato concreto do discernimento, Therrien diz que é ao mesmo tempo uno e complexo, humano e divino, pessoal e eclesial, "em situação concreta" e inserido no plano único da salvação, que visa à edificação dos irmãos, ordenado para a glória de Deus, realizado no tempo, mas participando desde agora do juízo escatológico.14
3. Critérios de discernimento segundo são Paulo - São João em sua primeira epístola, adverte os cristãos para que adotem atitude crítica diante das inspirações: "Caríssimos, não acrediteis em qualquer espírito, mas examinai os espíritos para ver se são de Deus" (4,11.15) Mas quais são os critérios mediante os quais podemos ter certeza de que determinada inspiração vem efetivamente de Deus? Da doutrina paulina extraem-se alguns destes critérios:16
a) Os frutos. O espírito bom e o mau reconhecem-se por seus frutos: "As obras da carne são manifestas: fornicação, impureza, libertinagem... Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio" (Gl 5,14-22; cf. Ef 5,8-10; Rm 7,4-5.19-20).
b) A comunhão eclesial. Os dons autênticos do Espírito são os que edificam a Igreja (1 Cor 14,4.12.26s). Os carismas são dons fecundos para a Igreja: sobretudo a profecia, que é palavra eficaz que transmite paz, ânimo e confiança.
c) A força na fraqueza. O Espírito se manifesta com sinais de poder: milagres, segurança para proclamar a palavra de Deus e enfrentar as perseguições (1Ts 1,4-5; 2Cor 12,12). São sinais que se mostram tanto mais autênticos, quanto mais contrastam com a fragilidade do apóstolo (2Cor 2,4; 12,9).
d) A imediatez de Deus. Segurança de vocação divina na docilidade eclesial. De um lado, Deus dá a certeza de sua vocação (Rm 1,1; Gl1,15; FI 3,12) e, de outro, este chamado deve ser autenticado pela comunidade eclesial (Gl1,18) e por seus responsáveis.
e) A luz e a paz. Os dons do Espírito não são impulsos cegos que suscitam dificuldades e desordem (lCor 14,33). Isso vale não só a respeito das manifestações extraordinárias, como também das moções interiores: "A tristeza segundo Deus produz arrependimento que leva à salvação e não volta atrás, ao passo que a tristeza segundo o mundo produz a morte" (2Cor 7,10), "porque o pensamento da carne é morte, mas o pensamento do espírito é vida e paz" (Rm 8,6; cf. 14.17-18).
f) A comunhão fraterna. É o critério mais seguro e importante que revela os sinais da presença do Espírito (1Cor 13). A caridade também leva a respeitar e a amar os carismas dos outros (1Cor 12).
g) Jesus é o Senhor! O critério supremo do discernimento é o alcance e as conseqüências que certas moções ou atitudes têm a respeito de Jesus: "Por isso, eu vos declaro que ninguém, falando com o Espírito de Deus, diz: ‘anátema seja Jesus!’, e ninguém pode dizer: 'Jesus é Senhor' a não ser no Espírito Santo" (1Cor 12,3). Confessar que Jesus é o Senhor não é apenas pronunciar uma fórmula, porém descobrir o segredo de sua pessoa, proclamar sua divindade, aderir a ele pela fé e pelo amor, o que só é possível com a graça do Espírito Santo.
1. H. Schlier,
Per la vita cristiana: fede, speranza, carità. Meditazini bibliche, Morcelliana,
Brescia, 1975.
2. "Deste modo, pois, o dom do Espírito aparece como a consciência nova de nossa filiação (Rm 8,14-16) e de nossa união com Cristo (1Cor 12,3), assim como o dinamismo vital que permite viver as exigências que a vida cotidiana apresenta" (G. Therrien, Le discernement dans les écrits pauliniens, Gabalda, Paris, 1973, 271).
4. Sobre o discernimento de espíritos recordamos duas obras clássicas: G. B. Scaramelli, Discernimento degli spiriti, Simone Occhi, Veneza, 1800; Dotrina di S. Giovanni della Croce e discernimento degli spiriti, Ed. Paoline, Roma, 1946.
5. V. Truhlar, Discernimento degli spiriti, em LS, 190.
6. Comentando Ef 6,12, H. Greeven, no vocábulo póle em GLNT, IX, 452. diz: "Para o cristão, a luta se situa no próprio centro do acontecimento escatológico; sua luta é um episódio da grande batalha final que já começou e está agora em pleno desenvolvimento; seus adversários são o diabo e os demônios; seu prêmio, ser encontrado fiel no julgamento e salvo".
7. Veja-se um tratado amplo do discernimento na Escritura
8. "De modo que o homem se encontra desaparecido em meio a tríplice obscuridade: obscuridade de um Deus que se impõe sem deixar-se ver; obscuridade de Satanás, que se mascara, que sugere mais do que afirma, que propõe mais do que impõe, que desencadeia sonhos fazendo esquecer a realidade; obscuridade, finalmente, do próprio homem, incapaz de ver claro em seu próprio coração, incapaz de abranger totalmente a gravidade de suas ações e de suas conseqüências (Ex 32,21; 25m 12,71, dividido entre os dois chamados que escuta, cada um dos quais desperta nele seu eco 151 73,2.15). Escolher, para o homem, não é somente executar uma e outra ação; é também identificar as vozes que escuta; é, pois, discernir" U. Guillet, a.c., nota 7, 1223).
9. W. Grundmann, Dokimazein. em GLNT, II, 1404-1418; F. Büchsel, Krino (diakrino). em GLNT, V, 1021-1110. [Tomamos a liberdade de colocar as palavras gregas entre parêntesis, para facilitar a leitura]
10. J. Guillet, a.c. (nota 7), 1238; no livro dos Atos dos Apóstolos, entre outras coisas, encontramos alguns modelos de discernimento, por meio dos quais o Espírito guia a Igreja primitiva: 1,15-25, critérios para a escolha do substituto de Judas; 4,23-25, oração dos apóstolos na perseguição; 6,1-6, eleição dos sete diáconos; 10 e 11, teofanias mediante sonhos; 13,1-3, envio e missão de Barnabé e Saulo; 15, concílio de Jerusalém.
11. Diz Therrien em o.c. (nota 2), 271: "Deste modo o dom do Espírito se apresenta como a consciência nova da nossa filiação (Rm 8,14-16)... Com o ágape que edifica e o conhecimento espiritual da vontade de Deus, o cristão pode discernir o que convém ao espírito de filiação adotiva, depositado nele como germe que deve crescer". Citamos alguns textos fundamentais de Paulo sobre o discernimento: 1 Ts 5,19-21; Rm 1.28.32; 2,17-24; 12,1-2; 14,18-23; FI 1,9-11; Ef 5,8-10.
12. Therrien, no cap. 2 da III parte da obra que acabamos de citar, descreve por extenso o discernimento moral.
13. C. Noyen, Foi, charité, espérance et "connaissance" dans les epitres de la captivité, em "NouvRevrh", 10411972),897-911; 1031-1052.
14. Therrien, o.c. (nota 2), 292-301.
15.
16. Seguimos substancialmente J. Guillet, 1240-1244.