Oficinas de Espiritualidade

Relatório da Oficina de Espiritualidade – 21 de março de 2009

 

PERSPECTIVA BÍBLICO-CRISTÃ

Assessor: Pe. João Inácio Wenzel, sj

Acolhida: feita por João Inácio lembrando o Dia Mundial das Águas (22/03/2009)

Oração: uma mesa foi disposta ao centro da sala do encontro com uma tijela contendo água e igualmente uma jarra também contendo água; e ainda uma pequena vasilha contendo um pouco de terra. Todos foram convidados para pegar com a caneca um pouco de água da jarra para beber. Seguimos um roteiro Celebrativo de Abertura, em anexo. Foi narrada uma parábola sobre o sapo (imaginemos se jogarmos uma rã num tacho de água normal, ela se acomoda. Se a água foi esquentando lentamente, essa vai sucumbindo lentamente. A princípio relaxa com a água aquecida, depois se sente incomodada mas se acostuma, por fim, debilitada, morre cozida. Mas se fosse jogada no taxo aquecido a 50 graus, imediatamente iria saltar fora. Isso nos remete para um alerta sobre a lenta poluição das águas. Não podemos mais tomar a água que sai da torneira, pois não confiamos em sua qualidade...). Um pouco de terra foi colocado na tijela com água limpa para significar a poluição da água. E o que essa história suscita em nós?

“medo, incerteza”, “falta consciência ecológica por parte de muitos”, “não sei quando o povão vai acordar, somente quando faltar água em nossa casa... aí vão culpar a Deus”, “angústia, preocupação... até que ponto vamos chegar”.

Jesus, assim como nós, também teve sede Jo 4, 7-15 (narração do encontro de Jesus com a Samaritana). Ambos Jesus e a samaritana tinham sede física, mas ela tinha sede de algo mais para sua vida. De que eu tenho sede?

“eu tenho sede da verdade, do conhecimento”, “eu tenho sede da fraternidade”, “sede de amor de Deus”, “sede de conhecimento, de estar sempre procurando... essa água viva para nos saciar”, “todos nós temos sede.... eu tenho sede de paz, de justiça...às vezes não conseguimos expressar.... mas principal sede do amor de Deus... e no Brasil sede de justiça, de segurança... e na minha casa proteção para meu lar, para nos livrar de tantas coisas”.

Após uma oração de bênção sobre a água todos beberam a água que estava nas canecas.

MEMÓRIA DO ENCONTRO PASSADO:

“na perspectiva antropológica vimos que as pessoas não conseguem tomar decisões por si, procuram adivinhos para decidir seu futuro”, “o papagaio é inteligente, mas não consegue decidir”, “vimos o que nós somos, o que é o homem: somos seres humanos feitos à imagem e semelhança de Deus”, “além de sermos imagem de Deus, somos seres incompletos, sempre em busca de algo para saciar nossa vontade”, “as pulsões, o ‘desejo’ de vida e de morte nessa sociedade que exige um sim ou não meu, pessoal... se eu tomar a decisão de, como batizado, não mais desperdiçar água, não esquecer isso: eu é que tomo a decisão”, “vimos que o ser humano é diferente, e vendo a dinâmica de hoje, quanto mais o ser humano aprende menos ele se preocupa com o amanhã, quanto mais conhece menos se preocupa com o mal que está produzindo na natureza”, "nós estamos tão preocupados conosco mesmos, que pouco nos preocupamos com os demais, com o meio ambiente, há muito tempo já estamos ouvindo falar sobre a degradação ambiental, mas pouco fazemos, devemos educar as crianças sobre esse assunto: não gastar água, somente quando for totalmente racionada a água aí é que vamos nos dar conta”.

TEMA DO DIA:

Entrando no tema de hoje vamos ver o profeta Oséias 4, 1-3 (os homens praticam toda espécie de mal, e a terra toda está perecendo). Oséias alerta sobre a escassez de peixes e isso 700 anos antes de Cristo. O homem que está optando pela ganância: não somente pela exploração do ser humano, mas também da natureza. E isso tudo pela falta do conhecimento de Deus. Jeremias 22, 16 pode nos esclarecer sobre o conhecimento de Deus (é julgar com justiça a causa do indigente). É preciso então conhecer a justiça para cuidar da vida do pobre, do indigente.

Na bíblia discernimento é apresentado como algo que se coloca sempre em prática; se formos ver o discernimento na bíblia deveremos percorrer a bíblia de cabo a rabo. No Gn 2, 8-9 Deus plantou um jardim e colocou duas árvores (árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal) e dessa última o homem não deveria provar, experimentar. Precisamos escolher. Gn 2, 15-17 (se comer dessa árvore morrerás). Gn 3, 1-7 (a sedução da serpente), isso para ver como ocorre a tentação, é um texto que usa imagem simbólica; a serpente representa um animal astuto. Diante da tentação o ser humano começa a vacilar: ‘se comerem dessa árvore vocês serão como deuses’. Conhecer em sentido bíblico é experimentar, não somente conhecer intelectualmente, um exemplo, é de fato, fazer a experiência de matar. Jesus foi tentado em transformar pedra em pão, usando seu poder divino, assim usaria do poder de Deus, se sentiria Todo-poderoso como o próprio, e não seria humano como foi, faria um espetáculo e apareceria para os demais.

“a mulher agiu de forma inocente...”

“não, eles tinham plena consciência do que não poderiam fazer”

“aí temos algo sobre o que é consciente e inconsciente: deixar-me guiar por aquilo que está em nossa consciência, e não deixar que o inconsciente, com sua força nos domine. São Paulo é exemplo, diz ele que faz aquilo que não quer”

“São Paulo foi se purificando quando disse que já não sou eu que vivo, mas Cristo que vive em mim.”

“e quando diz que seus olhos se abriram?”

Eles começam a se enxergar com malícia. Não conseguem se relacionar sem a malícia.

Santo Inácio diz que há três forças que agem em nós: o meu próprio querer e vontade, o Espírito de Deus e o espírito mau, e esse último pode se disfarçar em algo bom e me seduzir. O discernimento vai então nos conduzir até aquilo que é a vontade de Deus.

Vamos ver Dt 30, 15-20 (coloco diante de ti a vida com o bem e a morte com o mal). Escolham a vida para viver tu e tua posteridade, e isso para todos os dias; sempre reagindo contra o desânimo. Vamos para o Sl 1, a vida como uma caminhada; feliz quem não segue o caminho dos maus. Exemplo disso nas propagandas para as crianças: compre sapatinhos da Xuxa.... A propaganda cria o desejo de consumir desnecessariamente. A observância da lei de Deus, da lei da vida possibilita a produção de bons frutos. Esse texto nos convida a não somente ficar indignado com a situação de morte, mas também agir. Exemplo disso é o bom samaritano. Vamos para o Novo Testamento Mc 3, 1-6, e quando a própria lei começa a causar morte? (cura do homem da mão seca no sábado). Reconstruindo a cena para compreender: estão na sinagoga, local do culto e em dia de sábado, dia em que não é permitido fazer nada, nem cozinhar. Na sinagoga estavam os fariseus, a comunidade, Jesus com seus discípulos e o homem da mão atrofiada, e esse aliás não deveria estar na sinagoga, pois era tido como impuro. Os fariseus estavam na sinagoga para acusar Jesus de alguma infração; Ele poderia cometer alguma coisa contra a lei de Moisés. Porque Jesus “desobedecia” a lei em nome da vida, da defesa da vida.

Vamos para Ex 20, 8-11 para entender melhor a Lei Mosaica, o que pode e o que não pode se fazer no dia de sábado. O texto diz que o sábado é para o descanso tanto para o homem como para os empregados e até os animais, todos precisavam descansar. Isso então estava em questão no texto de Marcos. O homem estava com a mão atrofiada e não podia trabalhar nenhum dia da semana, não podia se sustentar, ter autonomia, não vivia em plenitude. Ao curá-lo, Jesus indica que o bem sempre deve ser feito em qualquer dia. Jesus pergunta se no sábado se faz o bem ou o mal. Os fariseus queriam matar Jesus, aí se percebe um sentimento de morte.

Vamos para Dt 5, 12-15 (guardar o sábado). Mais uma razão do descanso no sábado: os hebreus eram escravos no Egito e foram libertados, e então o sábado era dia de celebrar a libertação da escravidão. Após a cura do homem os fariseus vão conspirar contra Jesus com os herodianos, para ver como matar Jesus, optam pela morte.

Discernimento ultrapassa aquilo que está na Lei, não é somente cumprir estritamente o que está previsto na Lei, mas perceber o que o Espírito de Deus está suscitando. Jesus quer alertar que a Lei seja aplicada para promover a vida.

“essas pessoas, os fariseus, eram os guias do povo, tinham a missão de fazer o povo chegar até Deus, neles estava o caminho para Deus... pessoas que supostamente estavam fazendo o bem...?”

LEITURA COMENTADA DO TEXTO “DISCERNIMENTO”

O cristão deve estar em constante discernimento. A vida do cristão não é estática, é dinâmica: não é somente ir à missa aos domingos e pagar dízimo, há algo mais. Se recebemos a luz de Cristo no Batismo agora devemos viver como filhos da luz, discernindo sempre por aquilo que mais possa dinamizar essa luz que nós recebemos, “tendo em nós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”.

Vamos conferir Ef 5, 6-17 (viver como filhos da luz discernindo a vontade de Deus). O Batismo então expressa isso que somos filhos da luz, e isso fica demonstrado se vivemos na bondade e na verdade. O Batismo é isso morrer para o pecado e nascer para a luz, passar da infância para a maturidade. Muitos cristãos fazem a Crisma e ficam somente nisso; se formam em Medicina e em outras ciências, mas não crescem na fé. A vida interior é muito complexa como vimos antes em três planos: o querer, a decisão, o Espírito de Deus e espírito mau. Então como discernir entre esse dinamismo principalmente quando o mau espírito se disfarça em anjo de luz. Discernimento é algo constante, por isso, a cada escolha vamos aprofundando. Santo Inácio diz que a cada momento de tentação e também de erro eu vou aprendendo a me fortalecer e a resistir para chegar um momento em que uma tentação específica não volte mais.

“até na rua podemos desviar nosso olhar, pecamos sabendo, mas digo a Satanás para se afastar... porque não nos livramos do mal? Porque sempre pecamos?”

Não é contra homens, mas contra forças celestiais. Todos são tentados: padres, bispos, e mais ainda quem está nessa caminhada. E nesse caso a tentação não é tão descarada, ela se disfarça às vezes no meu zelo pastoral e me leva a uma situação sufocante quando vou assumindo mais e mais atividades.

“Nós sempre pecamos, faz parte de nossa vida, somente Jesus é santo”

Por isso é importante se dar conta dessas forças que atuam em mim, de vida e de morte, reconhecendo-me pecador e necessitado de Deus.

Li em algum lugar uma oração: Senhor Deus, se quer alguém que vive em oração, capaz de suportar longos períodos de noite escura, já tens Santa Terezinha do menino Jesus, se queres um grande pregador já tens Santo Domingo e Santo Antônio, alguém que se doou tudo aos pobres, tens São Francisco de Assis, se queres alguém experimentado no discernimento, já tens Santo Inácio de Loyola, mas se quer alguém necessitado, pequeno, humilde, pecador, fraco, aqui estou eu, Senhor.

“o primeiro pecado é gula?”

Na bíblia o primeiro pecado é querer ser deus, ou maior que Deus, indo contra o primeiro mandamento. Isso nos faz ver qual é o meu pecado raiz, meu ponto fraco. Para Caim era o ciúme do irmão; para Davi era a luxúria, matou se melhor amigo para ficar com a esposa dele; para Safira era a mentira, disse que vendeu suas posses para compartilhar e na verdade não fez isso.

A própria Igreja, em sua história, se desviou do projeto de Jesus. Na Inquisição quantos foram mortos em nome de Deus. Nas Cruzadas, matar para reconquistar a terra Santa.

“e hoje os homens bomba...”

É a sutileza do inimigo que nos tenta constantemente.

Deus nos deixou indicado para que escolhêssemos a vida até que Ele voltasse nos últimos tempos.

A pessoa que discerne precisa estar livre. Na primeira semana dos EE percebemos aquilo que nos impede de sermos livres. Há dois momentos: de passividade e de atividade. No exame cotidiano inaciano vemos isso, iniciamos o exame dando graças a Deus, e percebendo a ação de Deus em minha vida, e ao final do exame nos comprometemos em colaborar com Ele em sua obra, nos comprometemos “em tudo amar e servir”.

Atividade:

Em duplas verificar textos bíblicos que se referem ao discernimento. E ver quais palavras São Paulo utiliza para falar de discernimento.

Em Col 1, 9-14 pedir conhecimento e sabedoria, para suportar as coisas dessa vida. Conhecer a vontade de Deus.

Ef 4, 11-16 a verdade e a caridade nos faz passar da infância para a maturidade.

Fil 1,9 para escolher o que é melhor é preciso conhecer a Deus; na segunda semana dos EE se insiste no pedido de conhecer mais o Senhor para melhor segui-lo. Em Jeremias conhecimento de Deus é se fortalecer na justiça, em Paulo é crescimento da fé, esperança e amor. Se os frutos são de justiça vem de Deus.

O Espírito promove diversos dons para cada pessoa. E muitos dons na comunidade cristã.

“Em minha comunidade quando começou a Renovação Carismática queriam que todos fizessem parte do movimento. Agora me dou conta que há muitos dons”.

O discernimento é dom, há pessoas que ajudam outros a descobrirem a vontade de Deus. Cada um tem condições de discernir a vontade de Deus. Ninguém é dono do Espírito, Ele sopra onde quer.

RESUMINDO:

Podemos seguir Paulo quando fala do discernimento ou quando falamos do Reino, da dinâmica do Reino. Para Santo Inácio as pessoas que estão indo de bem a melhor o Espírito de Deus anima e quem vai de mal a pior o Espírito de Deus incomoda para ver se a pessoa se dá conta de seus desvios.

Como saber se a moção é de Deus ou não? Já vimos o critério da promoção e defesa da vida. Há outros critérios apontados pelos evangelhos sinóticos: Mateus, Marcos e Lucas. O primeiro é a Justiça do Reino. Buscai primeiro o Reino e sua justiça; Um segundo critério é a misericórdia, a compaixão, por exemplo, a parábola do bom samaritano ou a parábola do pai misericordioso; se me leva a ter compaixão é do Reino; um terceiro critério é o seguimento da cruz. Não é sofrer por sofrer, mas a cruz/sofrimento que leva à libertação, à Ressurreição; quarto critério observar o mandamento do amor ao próximo como a si mesmo, ou seja, se não me dignifica, se não tenho auto-estima, não vem de Deus, agora se me valorizo e tenho auto-estima isso, de fato, vem de Deus.

Avaliação do encontro

“Excelente ler e comentar cada parágrafo”; “bom, houve debate e leitura”; “o Espírito nos inspirou hoje”; “o assunto foi mais dinâmico, não deu sono”; “hoje aprofundamos mais do que semana passada”; “no anterior foi mais teórico”; “hoje foi mais dinâmico”.

No entanto, se não tivesse tido os estudos anteriores, não teríamos aprofundando tanto neste.