Oficinas de Espiritualidade - Textos para a Oficina de 06 de março de 2009.
Texto 1
Vallés, Carlos G.
Saber escolher a arte do
discernimento. São Paulo : Ed. Loyola, 1992.
São as decisões que fazem o homem. Formam sua personalidade,
definem seu caráter e integram sua vida. Idéias, estudos, leituras, afeições
também influenciam e exprimem
até certo
ponto o que a pessoa
é; mas a base da pessoa são suas decisões, suas determinações, o que
faz com sua vida ao escolher o caminho dia após dia, ao rejeitar alternativas
e avançar na rota. Escolher é viver e decidir-se é definir-se. Em
última instância, sou o que são as minhas decisões, e por isso quero
saber detalhadamente quais são e como as tomo; quero saber se minhas
decisões são realmente minhas ou se são puro arremedo e imitação daquilo
que os outros fazem, ou submissão ao que os outros me
disseram que faça. O importante
na vida é o ato humano,
a entrega pessoal, a livre eleição.
Nunca sou mais eu do que quando me ergo
sereno no meio da vida, avaliando
o horizonte em volta com o olhar,
examinando
cada verdade e esquadrinhando
cada paragem. Dessa forma,
sinto em meu rosto o chamado dos ventos e em meus olhos o
desafio das cores, deixo surgir
dentro de meu ser pacificado e alerta a
opção que minha alma, meu corpo e tudo o que sou construíram na
democracia espontânea de minhas entranhas, e ponho-me a
andar
com
passo firme e coração alegre na direção inédita do momento presente,
seguro de mim mesmo e atento aos ruídos da selva diária e as mudanças
de direção que irão surgindo durante a jornada. Saber a cada momento
o que quero, e fazê-lo, é a essência da vida. O caminho se define
por suas curvas, e o
homem por suas decisões. Elas marcam
a meta.
No vasto terreno da ação moral, sei muito bem o que espera de mim,
e me esforço por fazê-lo. Mas afora esses imperativos morais, para além
do permitido e do proibido, acima de castigos
e recompensas, fica um terreno imenso de opções neutras de mil decisões
diárias grandes e pequenas em que ambas as
alternativas são válidas e legais, e eu
tenho de escolher uma e deixar
outra Qual das duas? Quem me
guia ali? Como decido
entre ler um
livro,
empreender uma viagem
ou aceitar um
convite?
Para apreciar mais
o caminho autêntico e a validade essencial
dos verdadeiros caminhos do discernimento, basta fixar-se
por um momento em outros caminhos mais ou menos
desviados, mas não
menos freqüentados pela humanidade desejosa de
saber o que é
que
deve fazer e o que é que vai acontecer. Mesmo
a predição do futuro, ocupação tão
ancestral quanto moderna na cândida lentidão de dados, cartas búzios e entranhas
de pássaros, é uma
tentativa mais do que
grotesca de
saber
de antemão
o que vai acontecer, isto é, o que vai
fazer com o mundo, e comigo que estou nele, e como conseqüência
adaptar sabiamente minha conduta
à corrente dos fatos antecipados. As
pessoas querem saber o futuro para pôr em ordem seu presente, querem saber o curso dos
astros para ajustar o de suas próprias vidas. Saber o que vai acontecer, saber o que devo fazer, saber,
adivinhar, antecipar... esse é o desejo
inato, a necessidade radical do ser consciente que sofre ao se decidir e quer
que lhe facilitem as opções. Os
astrólogos podem permitir-se o luxo de cobrar honorários bem altos.
Na Índia, é crença popular que as suturas em forma de crista de
cordilheira entre os ossos do crânio são a escritura hieroglífica que
contém em chave a história cifrada do dono do crânio desde seu
nascimento até sua morte. Claro que
ninguém tem a chave para decifrar
a mensagem e, de todo modo, o escrito original permanece
sabiamente oculto até a decomposição
da tumba, quando o interessado já está bem morto
e o futuro se tornou inevitavelmente passado.
É assim que astrólogos e adivinhos se protegem dos fatos e evitam
críticas, enterrando evidências. O negócio tem de continuar. As
linhas da palma da mão (a esquerda ou a direita, segundo diferentes
especialistas) são mais fáceis de observar,
e conseqüentemente geraram uma copiosa bibliografia e proporcionaram meio de
vida a comerciantes decididos, em todas as
épocas e lugares, desde o cigano
que tira a sorte até o quiromante
profissional em seu escritório
esotérico. A linha da vida na minha mão direita diz que vou viver 92 anos, com uma crise de saúde aos 79, e o ponto alto de minha existência
aos 74..., isto segundo um amigo meu que entende de
mãos e se prestou a interpretar
a minha sem cobrar nada. Pelo contrário,
segundo outro, que também entende e
que insistiu em examinar várias
vezes minha mão com uma expressão de surpresa no rosto, eu
deveria ter morrido há muito tempo. Explicou-me, um tanto embaraçado,
que havia dois sistemas de interpretar as linhas da mão, com
resultados às vezes opostos. Outra
escapatória. O curioso é que, apesar
de um conflito tão evidente, de minha própria tendência racionalista e
de meu total ceticismo em matéria de astrologia, futurologia, quiromancia
e magia negra, cheguei a dar como certo que vou viver 92 anos, como se fosse um artigo de fé em revelação privada e
imutável.
É possível que isso seja projeção de meu desejo de viver muito, e talvez
seja também um resquício irracional da tendência latente que todos
temos de acreditar nas ciências ocultas. Tenho amigos religiosos que
não deixam
de ler todas as semanas seu horóscopo e, o que é pior, os
dos outros, e de brincadeira ou a sério
interpretam os acontecimentos da semana à luz dos astros.
É um tema divertido para conversas... e um resquício para entrever o
fundo de superstição que se aninha na alma humana por baixo
da lógica, da razão, da convicção e da fé.
Somos
todos mais profundos do que parecemos.
Há um método bem conhecido, primitivo e universal no tempo e no espaço, que o
homem em sua ingenuidade usou tradicionalmente para averiguar a verdade na hora
ou momento de dúvida, tirar a sorte.
Nós nos tornamos indignos quando pretendemos que outros tomem em nosso nome
decisões vitais que nós mesmos deveríamos tomar.
(Claudia A Conti/2008)
Sigmund Freud, pai da Psicanálise, pensa o homem como um ser
dividido por natureza, dividido internamente, tanto em suas concepções afetivas
e sociais quanto cognitivas e comportamentais. Cria uma forma própria então de
abordar o homem, um ser que produz ciência, mas tem dificuldade de pensar a si
mesmo em sua própria essência, fazer suas próprias escolhas responsabilizando-se
por elas, e o mais difícil: um homem que tem poucas informações para perceber de
onde elas vêm.
A princípio seu trabalho se dá no âmbito de diferenciar
instintos de pulsões.
I)
Instintos: Toda
e qualquer necessidade que um ser humano tem que lhe permita sobreviver: fome,
sede, medo, sexo etc.
II)
Pulsões:
Conceito que fica entre o psíquico e o somático (corpo), que une o ser humano a
algo que está para além da própria necessidade de sobrevivência. Todo e qualquer
desejo que temos, demandas que fazemos que nos indiquem algo que muito queremos,
como se fosse questão de vida ou morte, mas que na impossibilidade de sua
realização não morremos, apenas ficamos infelizes, incomodados, angustiados. Por
exemplo, quando temos fome, não é de qualquer coisa, é de chocolate, estamos
alimentados, contudo queremos Outra coisa mais. As pulsões têm acesso ao
psiquismo apenas por seus representantes, que seriam os desejos, as idéias, os
afetos, desafetos...
·
As pulsões são divididas em: Pulsões de Vida que são agregadoras, que fazem uma petição
do novo, de renovação, e Pulsão de Morte, que é desagregadora, nos faz sofrer. É
um movimento de repetição (sintoma/sinto mal)
·
As pulsões têm ainda, segundo Freud, quatro características, a saber:
a)
‘Drang’ (pressão/impulso):
quantidade de energia psíquica que constantemente é posta em jogo a favor da
satisfação de uma exigência pulsional.
b)
‘Ziel’ (meta, finalidade):
é sempre a satisfação, mesmo que o caminho seja bastante variável.
c)
‘Objekt’ (objeto):
É o que há de mais variável numa pulsão, é o meio pela qual ela vai atingir sua
satisfação, não necessariamente é algo exterior pode ser algo em seu próprio
corpo; quando uma pulsão aparece ligada de modo especialmente íntimo e estreito
a um objeto específico, chamamos isso de fixação.
d)
‘Quelle’ (fonte):
desenvolve-se numa parte do corpo ou órgão específico, a fonte é sempre corporal
e é só nos dada a conhecer pelos seus fins.
Este quantum de energia está atrelado ao ‘corpo erógeno’ de
Freud, onde nos constituímos como sujeito na relação com o outro, o semelhante,
a princípio com aquele/a que nos cuida, alimenta, higieniza, amamenta
(instintos) e conjuntamente acalenta, acalma, mal-trata, ignora, onde começamos
a desenvolver nossas ‘fontes pulsionais’ corporais, nossos corpos vão sendo
tocados e nomeados ao serem cuidados, dependendo de como este toque, ou este
cuidado, ou não cuidado chegam, vai o sujeito de qualquer forma vivenciando
maneiras de obter prazer e/ou desprazer, tendo então zonas corporais fixas de
prazer e desprazer, pois a mesma zona se exigida intensamente (fixação) passa a
dar desprazer, mas se mantida em seu nível de tensão zero, oferece prazer.
Dentro deste contexto, Freud divide a sexualidade
(experiências que me cortam, me marcam no corpo – não diz respeito a
coito/relação sexual!), em difásica, onde em um primeiro momento iniciamos nosso
desenvolvimento pulsional e/ou libidinal:
Fase ou pulsão oral: primeira fase de desenvolvimento
pulsional, onde os prazeres são sentidos por toda a parte orgânica relacionada à
boca e seus contornos, inclusive sistema digestivo (com exceção dos intestinos).
O prazer ou não que temos frente ao alimentar-se e ser alimentado, onde meu
instinto é saciado, mas também sou cuidado, é o momento onde uma pulsão se
instaura, uma necessidade a mais no campo oral. Ou ainda, no caso de uma
fixação: sintomas aparecem, como os transtornos alimentares, a vergonha de
falar, a fofoca, doenças gástricas, fumar, beber etc.
Fase ou pulsão anal: seria a segunda fase do desenvolvimento
libidinal, onde o bebê começa a ter noção dos controles dos esfíncteres (prender
ou soltar a urina e as fezes), É uma primeira produção, e como ela vai ser
acolhida, tem valor psíquico para o sujeito, ou ainda, se nesta fase algo
acontece como o nascimento de um irmãozinho, a criança regride e volta a perder
o controle esfincteriano que já possuía. Tem relação direta com o dar e o
receber, pessoas sovinas ou mão-abertas demais possuem uma fixação nesta fase; o
que promove uma fixação é sempre da ordem de um trauma, um acontecimento que o
sujeito não conseguiu lidar de forma adequada. (pessoas lidam de forma diferente
com os acontecimentos)
Fase fálica: Período onde a criança percebe que não é o único
objeto de prazer/desejo de sua mãe, é a entrada de um terceiro, onde um corte se
faz na fantasia de completude que a criança carrega entre ela e a mãe.
Normalmente é a presença de um pai, que pode ser real ou ainda, dito por esta
mãe, apontado num porta-retrato como aquele para o qual ela se volta e admira. É
o famoso Complexo de Édipo, onde a menina apaixona-se pelo pai e rivaliza com a
mãe, e ao perceber que não tem saída porque o pai à mãe pertence,identifica-se
com a mãe sendo feminina, visando outro homem, não mais o pai. O menino na
proporção inversa, transfere o amor pela mãe para uma mulher, não no lugar de
mãe, mas de mulher, pois o incesto, tanto para a menina quanto para o menino já
fora proibido, é a primeira lei da humanidade. (isso se tudo sair bem, o que é
bem difícil, pois fantasias estão subjacentes a estes processo, cada sujeito
sente um a experiência de um jeito, cada pai e mãe, exercem ou não suas funções
adequadamente e tudo e qualquer coisa pode ser motivo de um trauma, logo de uma
regressão para uma fase anterior, onde o prazer existia).
Período de Latência: A fase onde nada do que acontece com o
próprio corpo interessa muito, a não ser no aspecto cognitivo, fase onde a
criança só quer saber de brincar, jogar, aprender. Ela ‘esquece’, seus
interesses anteriores ficam apenas adormecidos.
Fase ou período genital: É onde o sujeito sai da infância,
entra na adolescência e seu corpo já está preparado BIOLÓGICAMENTE, para a
reprodução, contudo e aí a sexualidade difásica, todas as fantasias construídas
nas fases anteriores ao período de latência fazem parte do psiquismo humano, de
modo que um corpo biológico nada significa, pois muitas vezes o psiquismo não
acompanha.
Toda escolha pessoal está relacionada com o desenvolvimento
libidinal proposto por Freud, estamos quando se trata de desejos, atrelados à
nossa realidade psíquica (que construímos a partir das primeiras fases do
desenvolvimento libidinal), à nossa estrutura inconsciente. Aqui entra o sujeito
dividido de Freud citado no início do texto, somos divididos porque não sabemos
o que nos move, “Não somos nem dono nem senhores em nossa própria casa”
O aparelho psíquico para Freud funciona de forma dinâmica, com
uma economia própria e tem sua localização definida. A saber:
Consciente: tudo aquilo que tenho noção agora, que represento
em forma de palavras ou gestos neste exato momento;
Pré-consciente: Aquilo que está próximo de ficar consciente,
mas ainda não está, aquilo que vou fazer ou falar daqui alguns segundos e neste
exato momento ainda não tenho consciência. Aqui no pré-consciente ficam todas as
representações, tudo aquilo que pode ser falado, é acessado facilmente pelo
consciente.
Inconsciente: Tudo que não tenho noção sobre mim mesmo, são
Coisas que sinto, mas que ainda não encontraram forma, representação possível de
estar consciente, aquilo que não dou conta de me haver, vai precisar atrelar-se
a alguma representação do pré-consciente para fazer-se consciente. Aqui no
inconsciente estão todos os meus desejos, minhas pulsões, meu ID, é puro caos,
desordenação total, funciona pelo princípio do prazer, só luta por isso.
Tem ainda meu SUPEREGO, que são os ideais de ordem e de
verdade que o sujeito constrói a partir das relações estabelecidas no Édipo,
logo, repleto de fantasias, é extremamente exigente, funciona no campo do dever:
Devo, Não Devo, Tenho Que (bem diferente de desejar). O superego vem desde o
inconsciente, e tenho consciência dele apenas no que se refere às suas ordens.
E complementando, temos também o EGO, que funciona pelo
princípio da realidade, e vai mediar as exigências do ID, com as do SUPEREGO e
com as do mundo externo; quanto mais estruturado pela realidade e não pela
fantasia o ego esteja, mais um acordo de cavalheiros será possível fazer,
contudo, porém, o ego está por detrás do véu da fantasia, logo seus acordos
podem trazer uma série de sofrimentos para o sujeito, pois, no Id estão nossas
pulsões de vida, nosso desejo, como transformá-lo de caos em desejo resolvido,
pois a cada ato, a cada palavra um desdobramento se dá?
Como discernir levando em consideração nossos mais profundos
desejos, sem sofrer com as exigências superegóicas, sem abrir mão daquilo que
valorizo na relação com o mundo externo, e não vivo sozinho, preciso do outro,
já que me constituo enquanto sujeito na relação com meu semelhante? E os ideais,
será que são atingíveis? Altos demais? Básicos demais? E os dos outros? Do meu
cônjuge, dos meus filhos, pais, conjuminam com os meus? Se não conjuminarem, por
que não aceitar a diferença e aprender a lidar com ela, respeitando que outros
demandam coisas diferentes de mim, porque simplesmente são outros e não eu?
Aquilo que é significante para um pode jamais sê-lo para outro. Como conviver?
Eis toda a questão que implica uma psicanálise.