Oficinas de Espiritualidade

Relatório da Oficina de Espiritualidade – 07 de março de 2009

RELATÓRIO OFICINA DE ESPIRITUALIDADE MÓDULO II

PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA-PSICOLÓGICA DO DISCERNIMENTO

Assessor: Jair

Acolhida, oração inicial: refrão Ó luz do Senhor (uma vela foi passando de mão em mão em sinal de súplica ao Espírito) Leitura de Gn 2, 1-7, (sobre a criação do ser humano) Canto: Que é Senhor o homem...

Apresentação dos participantes.

Retomada do itinerário da Oficina desde o ano passado: primeiramente refletimos sobre o conceito de espiritualidade e agora, nesta etapa, vamos refletir sobre o discernimento por meio de diversas perspectivas. Salientar que trabalhamos em conjunto, numa oficina, isto é, somos provocados a participar e construir uma compreensão.

 

TEMA DO DIA:

PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA DO DISCERNIMENTO

A Antropologia tenta responder a seguinte questão: o que é o homem? No Gênesis, quando Deus sopra nas narinas do ser humano, surge um ser inflado; ou seja, Deus colocou um sopro de vida no barro, no homem. Nessa leitura, para o seu autor o ser humano é isso um barro inflado. E para nós: o que é o ser humano?

“Para minha religião, para mim, o homem é criação de Deus; não é simplesmente um ser inflado, pois a vida é muito mais que isso”.

“O homem criado por Deus está em constante transformação, renovado pelo sopro de Deus”

“O ser humano é um ser imperfeito, pois assim buscamos sempre melhorar”

“Imagem de Deus, criatura de Deus, criado à imagem e semelhança de Deus”

“o ser humano um ser que busca de Deus”

“quando Deus criou o ser humano o fez com muita paixão, mas o homem se afastou do caminho de Deus; e dizendo homem entendemos todas as pessoas, a humanidade inteira”

“a mulher foi tirada do homem, das costelas do homem”

“segundo os estudos do CEBI quem narrou o Gênesis pode ter sido também uma mulher”

Temos uma concepção errada de costela: no hebraico antigo costela era um molde, uma fôrma; Deus fez da mesma costela, da mesma fôrma o homem e a mulher. A costela (molde) de Adão (homem) é a mesma para Eva (mulher) e a fonte do sopro é o mesmo  que dá vida a ambos. No texto do Gênesis vemos homem no sentido geral de humanidade”.

“ser humano é um ser complexo, intrigante, não se satisfaz, sempre quer mais e mais”

“o canto de hoje dizia ‘que é Senhor o homem’? O ser humano é a obra prima da criação, o ápice da obra criadora; Deus demonstra muito cuidado e carinho para com o homem desde a criação. Ao criar o homem Deus o fez à sua imagem e semelhança. Deus manifesta grande amor na criação.

“o homem é a obra prima de Deus, e há a teoria de Darwin que afirma que o homem evoluiu do macaco. Mas acho que o ser humano ainda não é obra-prima de Deus, pois temos muitas imperfeições.”

“Jesus afirmou para Nicodemos que é preciso nascer de novo, Jesus veio para resgatar o homem, para fazê-lo nascer novamente; se seguimos os planos de Deus vamos nascendo de novo”

“Deus fez primeiro a natureza, as criaturas e depois fez o homem a partir do barro e lhe Deus vida pelo sopro, e esse sopro deu vida ao homem, o homem sofreu uma transformação da natureza do barro”

“o homem é um ser interligado com Deus, a criação, a natureza e aos demais”

“o homem é a concretização do Espírito, pois não vemos Deus; Deus quis concretizar a sua imagem”

“segundo Kafka o ser humano está em constante mudança, sem saber o motivo e vai aprendendo o motivo mediante as relações, assim, com os outros, vou me definindo, me descobrindo”

Tudo o que foi dito está correto, mas é importante ver algo a mais. A narrativa do Gn é interessante e demonstra que nós temos as mesmas substâncias que existem no universo. Como corpo, quando morrermos vamos nos integrar na natureza. Podemos dizer que somos um composto dos 75 elementos que compõem a natureza. Como material orgânico somos então isso um composto de elementos químicos e orgânicos. Para além das questões religiosas o que chama a atenção no Gn é o sopro, o hálito, a vida presente no homem e isso nos mantém vivos, quentes.

Nos intriga essa vida, esse hálito que torna complexa a existência do homem. Somos deuses porque nos distinguimos de outros seres, pois temos a capacidade de conhecer e armazenar conhecimento. Nós somos seres capazes de aprender, de transmitir e de praticar o que aprendemos. Muitos animais são inteligentes: o macaco, o papagaio etc, mas ninguém nunca viu um papagaio ensinar para seu filhote. Temos então a razão como base da estrutura humana, o ser humano como um se racional. E aí entra o discernimento, ou seja, o ser humano possui a capacidade de escolher a partir de sua potencialidade racional, e isso não encontramos em outros animais. Podemos então definir o ser humano como um ser capaz de escolher, e escolhe às vezes fazer o mal.

Para fazermos escolhas nos confrontamos com uma complexidade de elementos presentes no ser humano. Quando nos apresentamos dissemos algo de nós, mas não tudo. Antropologicamente podemos dizer que o homem é complexo. Somos o que nós escolhemos, as decisões nos formam, tornam o que nós somos. As decisões forjam nossa personalidade. Mesmo que nós vamos nos transformando, há elementos permanentes de cada pessoa. Antropologicamente aqui na Oficina podemos perceber esse mecanismo de como nós decidimos, como nós escolhemos.

Na essência do ser humano se encontra a capacidade de escolha. As nossas escolhas vão formando nossa história, vão fazendo nossa história de vida. E vendo essa história vamos revendo nossas escolhas, e assim podemos reinterpretá-las, podemos mudá-las. Assim, para nós nada é eterno, mesmo que exista o Eterno. Nossa personalidade vai sendo transformada por novas decisões que nós vamos tomando.

Somos o que escolhemos e escolhemos a partir daquilo que somos. Vamos criando uma rotina, um hábito de vida que é nossa própria vida, nossa própria personalidade.

“Trabalhei com crianças e nelas vi uma vontade de conhecer, e isso vai se tornando hábito: após um dia de convivência, à noite a criança pede que quer mamar, quer banho, quer dormir. A rotina saudável nos deixa melhores. E não se trata do rotineiro, daquilo que é um ritual, mas algo que contribui para nossa vida”.

A rotina nos dá segurança na vida. Uma pessoa que muda de estados de humor indica que não tem segurança.

“Na enchente de Santa Catarina um menino dizia, chorando que queria sua casa, ir à escola, etc. Isso demonstra que essa criança perdeu sua vida, seus hábitos saudáveis”.

Na infância e na velhice é difícil fazer escolhas, mudanças, por mais pequenas que sejam.

Na vida do ser humano há uma dinâmica de mudanças; estamos sempre em transformação.

Leitura comentada do texto “Saber escolher: a arte do discernimento”

Então o que nos faz decidir?

“a vontade de mudar”

“a pessoa que não sabe tomar decisões vai procurar alguém para ver o seu próprio futuro”

“aquilo que é desejoso fazer, porque não fazer. Sou professor e em sala o aluno pode e não pode ler em voz alta, e prefere não ler”

Decidimos porque o futuro é incerto. E se esse futuro é incerto temos que nos responsabilizar por ele.

“Nas minhas escolhas vou decidindo o que quero para mim; a coisa boa do ser humano é a possibilidade de mudança. Aos sessenta anos não é possível fazer mudanças, isso se torna mais difícil. Fantástico é isso no ser humano, a mudança, ter esperança no futuro. E é complexo porque as escolhas vão ter conseqüências no futuro”.

“Antes de fazer os EE eu percebia que não tinha liberdade, pois minha mãe dizia sempre o que eu devia fazer; e durante os EE percebi que precisava de autonomia, precisava tomar decisões para minha vida.”

“Ás vezes a alma quer uma coisa e o corpo quer outra”

Não podemos fazer essa separação corpo e alma. O ser humano é um ser unitário. Somos uma unidade. Os cientistas é que pretendem separar o ser humano e estudá-lo em partes. Somos um ser, e um ser vivente. Quando ocorre essa separação é preciso se fazer uma integração da pessoa.

Enfim, para as escolhas é preciso levar em conta os aspectos antropológicos, os elementos que nos compõem: elementos biológicos, racionais. O ser humano é formado por esse conjunto complexo. Somos uno, não distintos. Sou o que sou.

A necessidade de decidir por causa da incerteza do futuro, pois não sabemos o que virá para nossa vida no futuro.

“O criador que me criou, me deu a liberdade para decidir. Eu faço o meu caminho, a vida é sua”.

Toda a criação é obra-prima, o ser humano está dentro dessa obra toda. O homem criado em liberdade total deve se apossar dessa liberdade

 

PERSPECTIVA PSICOLÓGICA DO DISCERNIMENTO

No texto Metapsicologia Freudiana recolhemos alguns pontos da psicologia para nosso estudo.

A psicologia é uma ciência relativamente nova em relação a outras ciências. E tem várias correntes: psicanálise, analítica, comportamental etc. Nem tudo que se diz que é psicológico é da psicologia, mas onde há o humano, há o psicológico. A psicologia trata de nossa alma, psiqué, aquilo que nos move, como vimos antes, o hálito. A psicologia pretende indicar como estabelecemos nossas relações, como nos formamos. E esse texto trabalha, aborda o sujeito; como nos tornamos sujeito, que o sujeito seja, de fato, autor daquilo que ele realiza.

Em todos os tempos da história sempre houve questionamentos sobre porque somos assim, porque agimos dessa forma. Inácio trata bem dessas questões acerca da pessoa. Freud agregou suas descobertas à ciência e Inácio legou suas descobertas no campo teológico.

Vimos antes que o homem é uno e Freud justamente parte de um ponto de que o homem está dividido. No processo de vida vamos nos deparando com a complexidade de fazer escolhas; discernir e optar pelo que é bom e melhor. Não sabemos a origem das motivações quando tomamos decisões. Tanto Inácio como Freud dizem que temos que estar conscientes no ato de fazer escolhas. A psicologia e a orientação espiritual nos ajudam a compreender o que nos motiva nas escolhas. Inácio pretende que estejamos indiferentes diante do objeto de escolha, estar livres de afetos desordenados. Freud busca compreender o que motiva as decisões do sujeito.

O instinto como algo que nos torna participantes com outros seres vivos, algo comum. Mas o ser humano é movido pelas escolhas, saímos do instinto quando optamos. Na necessidade sexual escolhemos o parceiro, não é apenas um instinto.

“mas o ser humano não tem instinto?

Freud não define bem isso. Nas crianças vemos um estado muito instintivo. Um autor em psicologia afirma que apenas o sugar pela boca é instintivo.

“o bebê age para sobreviver; a fome o faz pedir alimento”

“mas matar é instinto, sobrevivência”?

Não, pois não existe nem legítima defesa, houve uma escolha naquele momento em que ocorreu o fato, isso para o sujeito. A nível legal, é claro, existe legítima defesa.

“No caso eu mato ou morro”

“Escolher é viver, fazer opções”

“O instinto está mais ligado ao que é selvagem, o leão mata para sobreviver”

O cão sempre ataca ou corre. Já o ser humano pode fazer outras opções.

Pulsão fica entre o que é psíquico e o que o corpo precisa. Escolhemos pelas nossas pulsões. Escolhemos diante de uma necessidade que precisamos resolver. Isso deixa marcas no psicológico do sujeito.

Freud coloca que há pulsões de vida e pulsões de morte. Quando a pessoa decide fumar entra numa dinâmica de morte por escolha pessoal.

“esse exemplo é uma aposta na morte; no ser humano há essas duas pulsões de vida e de morte; na minha casa minha mãe fumava e nenhum dos filhos fuma, por isso em última instância é a pessoa que decide, que toma a decisão”.

“a pulsão é uma obsessão?

A obsessão é algo doentio, desagrega o sujeito, não é uma pulsão de vida. Quando somente como chocolate vou criando uma necessidade de sempre comer chocolate, é uma obsessão por chocolate, não consigo ficar sem isso. Numa análise vamos ver essas coisas sobre as quais não tenho controle, coisas não resolvidas.

A pulsão de vida nos torna melhores, como Inácio coloca a busca do magis, aquilo que vai do bom para o melhor. Posso gostar de chocolate e ter isso na medida certa.

No processo de análise o analista vai ajudar o sujeito a se tornar mais consciente de suas pulsões.

Pressão é a energia presente na pulsão. A satisfação vai indicar a situação da pessoa.

A escolha do objeto indica a satisfação, escolhemos por aquilo que nos satisfaz. No caso da alimentação a fonte é o estômago que pede sempre por aquilo que está acostumado a digerir. E a satisfação pode ocorrer em qualquer parte do organismo.

“a vida é suicídio?

Se você optar por pulsões de morte.

“e o jejum é um suicídio?

Justamente o contrário, pois no judaísmo o jejum visa a purificação. O jejum de água é para limpar todo o organismo, como os judeus tinham uma alimentação muito pesada, sem verduras e legumes. O jejum tinha uma função na saúde da pessoa, quando se come carne demais. No catolicismo o jejum entrou na perspectiva de uma purificação espiritual.

“o jejum é uma pulsão de vida, pois passando a pão e água a pessoa vai trazer mais vida para si: água é fonte de vida e pão é carboidrato, fonte de energia”.

Em que estado tomamos decisões: consciente ou inconsciente?

“fazemos coisas movidos pelo inconsciente”

“temos que tomar nossas decisões conscientes, pois do contrário vai ser uma arraso”

O ideal é que possamos tomar nossas decisões o mais consciente possível. Mas nossas rotinas são feitas de forma inconsciente, tomamos decisões muitas vezes através do inconsciente. As decisões precisam ser sempre conscientes, mas nem sempre serão, por isso o discernimento nos ajuda a tornar consciente os processos inconscientes.

Freud indica que o Id é a grande parte de nosso inconsciente, estaria aí o prazer. O superego tenta ordenar, regrar os movimentos de prazer. O ego é aquilo de que tenho noção, é o espaço de discernimento.

Registramos tudo no inconsciente e quando trabalhamos a memória buscamos algumas coisas, mas é o inconsciente que vai se manifestar.

O inconsciente é como um vulcão que não pára de explodir, expelir coisas.

“na nossa vida é sempre esse jogo id, ego e superego, um controlando o outro, tudo está se relacionando em nossa vida, o jogo é sempre dessa forma, um lutando com o outro; São Paulo é um exemplo disso: faço o que não quero e o que quero não faço”.

Discernir sempre parte de algum desejo, nesse processo vamos vendo o que pode e o que não se pode realizar. É o bom e o mau espírito como diz Inácio; a pulsão de morte que pode se apresentar como uma pulsão de vida.

“Pedro optou viver mesmo tendo negado Jesus, e Judas optou pela morte mesmo tendo visto Jesus manifestar o amor e a bondade; Deus sempre vai manifestar o bem para a pessoa, nunca vai apontar para a pessoa o mal”.

Nos EE podemos então discernir os movimentos que direcionam nossas escolhas.