Oficinas de Espiritualidade - Textos para a Oficina de 01 de novembro de 2008.

Oficinas de Espiritualidade Inaciana
Centro Burnier Fé e Justiça

ESPIRITUALIDADE INACIANA

Espiritualidade é uma maneira de ser cristão, uma forma concreta de viver o Evangelho, a partir da ação do Espírito.

Conforme o ensinamento dos apóstolos, é o Espírito Santo que suscita na Igreja a fé do seu povo, infundindo-lhe os dons necessários a sua missão evangelizadora. O acolhimento desses dons espirituais e os frutos concretos na prática do amor, seja em âmbito pessoal ou comunitário, podem ser chamados de espiritualidade.

Não se deve esquecer de que o critério de uma vida verdadeiramente cristã consiste na capacidade de descobrir os caminhos do Espírito na história, por meio do confronto vital com a Pessoa de Jesus Cristo.

Inácio de Loyola, Francisco de Assis, João da Cruz, Teresa D´avilla e tantos outros descobriram o amor de Deus no encontro com Jesus Cristo. A resposta a esse amor surgiu de um jeito próprio, com atitudes concretas, dando origem a uma pedagogia.

QUAIS SÃO, ENTÃO, OS ASPECTOS PRÓPRIOS DA ESPIRITUALIDADE INACIANA?

Para aprofundar tal questão podemos acompanhar o seguinte texto de Álvaro Barreiro, publicado na Revista Itaici.


Dentro dos limites impostos pelo espaço e pelo gênero literário de um artigo de jornal, vamos apresentar alguns dos traços que julgamos mais característicos da espiritualidade inaciana e sua atualidade. Eles serão desenvolvidos à luz dos Exercícios espirituais, feitos por Inácio de Loyola quando era leigo, e dados depois por ele a outros leigos. Escrevemos os dois artigos pensando, em primeiro lugar, nos leigos. Esperamos que, ao lê-los, possam descobrir alguns aspectos novos desta espiritualidade e praticá-los na vida cotidiana.

1. Da experiência ao método

A originalidade ou, se preferirmos, o gênio de Santo Inácio de Loyola (1491-1556) está em ter criado, a partir da experiência do seu encontro pessoal com Deus (relatada na Autobiografia), um método (descrito nos Exercícios Espirituais) para que outras pessoas pudessem fazer também elas uma experiência pessoal de Deus. Por ser pessoal, a experiência de Deus é sempre absolutamente única e singular. Dentre as incontáveis pessoas que fizeram os Exercícios ao longo dos quatro séculos e meio de sua história, não há duas cuja experiência de Deus tenha sido a mesma.

Os Exercícios não são uma teoria, muito menos uma lavagem cerebral. Eles são um «método», mais exatamente, uma «mistagogia», isto é, uma pedagogia para fazer a experiência do mistério de Deus. Do começo ao fim, os Exercícios espirituais estão estruturados e dinamizados por uma «lógica existencial» e concreta, não racional e abstrata, que conduz a pessoa que os faz a buscar e encontrar a vontade de Deus na sua vida. Analogamente ao acontece com um manual de ginástica ou com um livro de receitas para cozinhar, o livrinho dos Exercícios não foi escrito para ser lido, mas para ser praticado.

2. Experiência de Deus

Inácio estava convencido de que tinha feito, de maneira incipiente durante sua convalescência em Loyola e de maneira decisiva em Manresa, uma experiência imediata de encontro com Deus. O importante para nós hoje não são os fenômenos que acompanharam essa experiência: visões, audições, dom de lágrimas etc. O importante é o fato da experiência de Deus feita por Inácio. Esse fato mostra, de maneira irrefutável, que o Deus inacessível e transcendente, inefável e insondável, vai ao encontro das pessoas que ele criou, «revela-lhes» sua vontade e entre em comunhão com elas.

Inácio estava absolutamente convencido, por tê-lo experimentado, que as pessoas podem fazer a experiência de um encontro pessoal com Deus e encontrar a vontade de Deus sobre suas vidas. Por isso, dava os Exercícios espirituais a todos os que estavam dispostos a fazê-los. Isso era para ele uma forma de «ajudar as almas».

A convicção que Inácio tinha da verdade de sua experiência mística era tão profunda e tão firme que chegou a afirmar que sua fé permaneceria inabalável mesmo que não existissem as Sagradas Escrituras. Tal convicção é espantosa em qualquer época. Ela é particularmente escandalosa para nós, que vivemos num contexto cultural em que vigora um humanismo que se julga autônomo e desmitificado.

Confrontados com a figura e com as convicções de Inácio, brota em nós, inevitavelmente, a pergunta: É possível fazer uma verdadeira experiência de Deus sem cair num subjetivismo não eclesial, criticado pelos contemporâneos de Inácio, sem ser vítimas da ilusão ou da ideologia, como suspeitam nossos contemporâneos? Inácio foi caluniado, perseguido e repetidas vezes encarcerado. Mas, no fim de todos os processos eclesiásticos movidos contra ele, foi declarado inocente. E tanto seus Exercícios espirituais, como seu modo de proceder e o dos seus companheiros foram aprovados pelo papa.

Se deixarmos de lado nosso ceticismo ou nosso ateísmo larvado; se nos confrontarmos radicalmente com nossas experiências mais profundas: a experiência do desejo de felicidade, do «coração inquieto» de que fala Santo Agostinho, do sofrimento, do pecado e da morte, também nós podemos fazer a experiência de Deus, nosso Criador e nosso Pai, que nos acolhe e nos salva da desesperação e da morte.

3. A experiência de Deus em Jesus Cristo

O encontro pessoal de Inácio com Cristo teve início com a leitura de um florilégio de vidas de santos, a «Legenda Áurea», e dos quatro volumes da «Vida de Cristo» de Ludolfo de Saxônia. Jesus Cristo não é um mito, nem uma idéia, nem uma teoria. É uma pessoa: o Verbo eterno de Deus, que assumiu nossa humanidade para nos fazer participantes de sua divindade. Nos «mistérios» da sua encarnação, nascimento, vida, paixão, morte e ressurreição está narrada a história da relação de Deus conosco.

A particularidade da história de Jesus, que nos foi conservada nos evangelhos, tem de ser buscada e encontrada num número muito limitado de acontecimentos e palavras. Essa história de Jesus deve ser meditada e contemplada por nós sempre de novo para podermos receber a graça do «conhecimento interno» de Jesus Cristo.

«Conhecer», «amar» e «seguir» Jesus é o caminho para encontrar o Deus verdadeiro, e não um Deus meramente pensado. Essas três graças, pedidas no início de todas as contemplações da segunda semana, estão intimamente vinculadas entre si. O conhecimento interno de Jesus Cristo nos é dado contemplando longamente os mistérios de sua vida; desse conhecimento brota o amor e a adesão a ele; e do amor e da adesão nasce o desejo de segui-lo pelo mesmo caminho que ele percorreu.

4. Espiritualidade apostólica

Na descrição das três primeiras características da espiritualidade inaciana aparece já claramente que ela é uma espiritualidade apostólica. A espiritualidade e a mística de Inácio são, como toda espiritualidade e toda mística autenticamente cristãs, a negação radical de toda e qualquer forma de «individualismo» e de «intimismo».

Como Moisés depois da experiência da sarça ardente, como Paulo depois da experiência no caminho de Damasco, também Inácio, depois de ter feito a experiência do encontro pessoal com Deus, ficou totalmente seduzido por ele e pelo projeto salvífico. A experiência feita será, doravante, a fonte que saciará todos os seus desejos, a força que dinamizará toda sua atividade, o fogo sagrado que alimentará sua «mística de serviço».

Da meditação prolongada do projeto salvífico de Deus sobre o mundo, feita na primeira fase dos Exercícios; da meditação sobre a perdição, a miséria e o sofrimento trazidos pelo pecado e da contemplação do amor e do perdão de Deus, feitas ao longo da segunda fase dos Exercícios; da contemplação dos «mistérios da vida de Cristo», feitas ao longo das outras fases, surge no exercitante o desejo de entregar-se inteiramente ao serviço do Reino no seguimento de Cristo «pobre e humilde». Para segui-lo pelo caminho da pobreza e da humildade é necessário despojar-se do «próprio amor, querer e interesse».

Desde o início do seu processo de conversão, Inácio viu que a luta formidável entre Cristo e o «Príncipe deste mundo» é travada incessantemente, em todos os tempos e lugares, no mais íntimo de cada pessoa e nos labirintos das instituições e estruturas. Descobriu igualmente que, estando todos envolvidos nessa luta tremenda, só pode vencer o Príncipe deste mundo quem se decidir a seguir e servir a Cristo pelo caminho que ele percorreu. Esse seguimento incondicional e total é expressado na «oblação» com que termina a meditação do Reino. Quem faz uma oblação assim, torna-se um homem livre e um «homem novo». É através desses homens novos que se realiza a conversão e a transfiguração do mundo e nasce a «humanidade nova».

Sugestões de textos para a oração: Gn 12,1-9; Is 43,1-7; Sl 22 e 138.

5. Espiritualidade do «mais»

O ser humano é um eterno insatisfeito. Tendo sua origem no Absoluto, tende sempre para o Absoluto e nada criado pode satisfazê-lo inteiramente. Todos os seus desejos são expressões limitadas do seu desejo ilimitado de Deus. Seu coração, como uma bússola, aponta sempre para Deus, o Norte da sua vida. Porque está indestrutivelmente polarizado por esse Norte, nenhuma outra escolha que tente polarizá-lo, aquietará seu coração. Como todos os santos, Inácio foi um «Peregrino do Absoluto».

«Fizeste-nos, Senhor, para ti; e o nosso coração estará sempre inquieto até descansar em ti», escreveu Santo Agostinho no fim do primeiro parágrafo das suas Confissões. Inácio foi também um mestre da inquietude cristã, do amor sempre in-quieto, do desejo sempre in-satisfeito, da busca nunca terminada. Depois de ter feito a experiência do encontro com Deus, buscou incessantemente o «Deus sempre maior»; procurou sempre, apaixonada e incansavelmente, o maior serviço, o bem mais universal, a maior glória de Deus.

A finalidade dos Exercícios é levar as pessoas a fazerem a experiência da entrega de suas vidas a esse «Deus sempre maior». O exercitante que entrar nos Exercícios «com grande ânimo e generosidade» é convidado a entrar no dinamismo do «mais» já no primeiro exercício. A petição feita no início de todas as contemplações dos mistérios da vida pública de Jesus é sempre a mesma: um conhecimento cada vez mais profundo e mais íntimo de Jesus Cristo para mais amá-lo e mais segui-lo. Quem é agraciado com essa graça, não descansa mais no serviço de Deus e dos irmãos; não se instala, não se aburguesa; nunca pensa que amou bastante ou que serviu bastante; nunca envelhece.

6. Espiritualidade do discernimento

O processo da eleição encontra-se no centro mesmo da estrutura e da dinâmica dos Exercícios. É aqui onde Santo Inácio é mais original e inovador, em comparação com as concepções dominantes na época sobre a busca da vontade de Deus e sobre a perfeição cristã. Para ele não há, a priori, nenhum estado de vida mais perfeito que outro. Todos os cristãos são chamados à santidade. Ela consiste em viver a fidelidade à vontade de Deus na vida de cada dia.

A vontade de Deus é descoberta no confronto da «objetividade» dos relatos da vida de Jesus, que o exercitante contempla, com as moções suscitadas pelo Espírito na sua «subjetividade» e particularidade de sua vida. As «regras para os discernimento dos espíritos» e as outras orientações oferecem ao exercitante critérios de verificação das suas moções e opções, alertando-o sobre possíveis enganos e ilusões e movendo-o à ousadia de «deixar-se guiar» pelo Espírito.

Ao contrário do que não raras vezes se afirma, a espiritualidade inaciana não é racionalista nem voluntarista. É uma espiritualidade de purificação dos desejos e de libertação da liberdade. A finalidade dos Exercícios é sintetizada, no fim da primeira anotação, nestes termos: «... preparar e dispor a alma para tirar de si todas as afeições desordenadas e, afastando-as, procurar e encontrar a vontade de Deus na disposição da vida». Porque fomos feitos para amar, não podemos viver sem afetos. O problema é que estes podem ser ordenados ou desordenados. Por isso Santo Inácio insiste tanto na necessidade da sua purificação e ordenação. Se não atingir os afetos, a conversão não será duradoura. Quando, pelo contrário, o desejo é libertado das «afeições desordenadas», adere, na eleição, àquilo que se manifestar como sendo a vontade de Deus.

Para buscar e encontrar a vontade de Deus é necessário discernir os espíritos e deixar-se conduzir pelo Espírito, o qual nos remete sempre às palavras e às ações de Jesus. O exercitante descobre a vontade de Deus na sua própria vida, as formas concretas do seguimento de Cristo e os caminhos concretos da missão contemplando os mistérios da vida de Jesus. O resultado de todo esse processo de purificação, de contemplação e de eleição é a «mística do serviço».

7. Espiritualidade mundana: «Buscar e encontrar a Deus em todas as coisas»

O Deus transcendente revela-se na nossa história como o Deus «condescendente», que desce, que «descende», até nós. E quando nos abrimos à comunhão com ele, não somos aniquilados, mas alcançamos nossa plena realização. Todos os Exercícios, desde o primeiro, o «Princípio e fundamento», até o último, a «Contemplação para alcançar amor», são, de uma ou de outra forma, exercícios de libertação da própria liberdade para poder «encontrar a Deus em todas as coisas» e viver a comunhão com Deus. Privados da relação e da comunhão com Deus, constitutivas do nosso ser, andaremos sempre errantes e todas as nossas escolhas serão limitadas, insatisfatórias e descartáveis. Se, pelo contrário, buscarmos, encontrarmos e praticarmos a vontade de Deus, nossas opções e ações serão expressões da comunhão com Deus e com suas criaturas.

Da experiência de amar a Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus, nasce uma espiritualidade radicalmente mundana, de contemplação do mundo e de ação no mundo. Libertado da relação egoísta com as criaturas, o homem torna-se um orante e um cooperador permanente do projeto salvífico de Deus.

Na primeira contemplação da segunda semana dos Exercícios a decisão da encarnação do Verbo, pela força do Espírito, no seio de Maria de Nazaré segue-se ao olhar da Trindade sobre o mundo. Se nos for dada a graça de fazer a experiência da comunhão com a Trindade, também nós - como Inácio depois da experiência mística junto ao rio Cardoner - veremos o mundo «com olhos novos». Veremos o mundo como ele é visto pelo Pai que criou todas as coisas por amor; como é visto pelo Filho, o Verbo eterno que assumiu a nossa humanidade e passou pelos caminhos da nossa terra fazendo o bem a todos (cf. At 10,38); como é visto pelo Espírito criador, santificador e vivificador.

Quem vê o mundo assim, com um olhar singular e universal, amoroso e esperançado, libertador e integrador, torna-se um «contemplativo na ação». Quem contempla, ama e serve assim, vive enraizado no mistério da vida trinitária e, ao mesmo tempo, mergulhado nas tarefas cotidianas, sejam elas consideradas muito importantes ou insignificantes.

O mesmo Inácio que depois da conversão percorreu, «sozinho e a pé», os caminhos da Europa e da Palestina durante 16 anos como «o Peregrino», passou os restantes 18 anos de sua vida em Roma, só saindo da cidade 4 vezes. A «mística de serviço», a busca da «maior glória de Deus» revestiam em Santo Inácio as formas mais diversas: escrevendo cartas para reis e príncipes, orar longamente na solidão do seu quartinho despojado ou esperando durante horas nas ante-salas dos cardeais; fundando casas para as prostitutas de Roma, acolhendo mouros e judeus ou cuidando pessoalmente dos «pobres envergonhados» ou das vítimas das enchentes.

Nos escritos de Santo Inácio encontram-se, repetidas muitas vezes, as frases: «Buscar e encontrar a Deus em todas as coisas» e «Ter sempre Deus diante dos olhos». Para caracterizar sua mística e sua ação, Nadal, um dos seus companheiros, cunhou a frase: «Contemplativo na ação». Estas três frases resumem a espiritualidade inaciana.

8. Atualidade da espiritualidade inaciana

A espiritualidade inaciana, cujos traços essenciais tentamos mostrar, continua a ser importante para a Igreja de hoje e de amanhã? Continua sendo atual num contexto cultural em que as pessoas buscam a satisfação de suas necessidades religiosas numa religião de «Shopping Center», consumista e individualista? Continua sendo atual e importante num mundo em que tantas pessoas buscam refúgio e segurança em espetáculos religioso-terapêuticos massivos, por não suportarem a silenciosa solidão diante de Deus?

A meta última da missão da Igreja é a comunhão com Deus. Essa deve ser igualmente a meta de toda pastoral da Igreja digna desse nome. Se não visarem a alcançar esse fim, serão inúteis todas as formas de piedade, sejam elas tradicionais ou modernas; todas as formas de «obediência» que se limitam a cumprir normas ou determinações de «aparatos» ou de «funcionários» eclesiásticos; assim como todas as formas de teologia, sejam elas conservadoras ou modernizantes, que não descem do nível da teoria assepticamente abstrata.

A finalidade da espiritualidade inaciana é, como vimos, ajudar as pessoas a fazerem uma experiência pessoal de Deus, vivendo e agindo no mundo. Por isso ela será sempre atual. Considerando suas características e as características culturais das sociedades em que vivemos, talvez possamos dizer que sua importância e sua atualidade são ainda maiores hoje do que no passado.

Sugestões de textos para a oração: Gl 2,20; Fl 1,21; 3,8.12-15.

 

Segue texto do Dicionário de Espiritualidade, Edições Paulinas, 1989.

 

EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS

A expressão "exercícios espirituais" (EE) evoca idéias e imagens que entusiasmam uns e aborrecem ou entristecem outros. Encontro pessoal com Deus, conhecimento "espiritual" do Verbo encarnado, animação e direção do Espírito, busca e descoberta da própria identidade em Deus... são realidades vividas por quem teve a sorte de assistir a um curso de EE dirigidos e feitos com seriedade e compromisso.

I. Referências históricas

A expressão obteve êxito definitivamente com Inácio de Loyola. Mas já antes os crentes se "isolavam" para refletir e rezar.

1. Na Bíblia No AT, Abraão (Gn 12,1), Moisés (Ex 3,1-6; 19,3-25), Elias (1Rs 19,1-8) foram chamados por Deus a um encontro pessoal. Desde o princípio, Deus é quem "atrai e guia ao deserto para falar ao coração" (Os 2,16).

O chamado para o "deserto" como lugar de oração está presente também no NT desde João Batista, a quem foi dirigida a palavra de Deus durante sua permanência "no deserto" (Lc 3,2; cf. 1,8). A solidão atraía o próprio Jesus. Particularmente significativo é o fato de que, no começo de sua vida pública, "foi conduzido pelo Espírito através do deserto durante quarenta dias e tentado pelo diabo" (Lc 4,1-2). Foi um dos momentos mais intensos de sua vida; naquela ocasião, o homem Jesus aceitou o projeto do Pai sobre o modo da redenção. Em resumo: orar é encontrar-se com Deus para conhecer e aceitar sua vontade de salvação e os meios de que servir-se.

A comunidade cristã primitiva oferece não poucas experiências de EE. A mais interessante é a dos primeiros cristãos: com Maria, mãe de Jesus, "perseveravam unânimes na oração" (At 1,14). Foi uma experiência magnífica e privilegiada de... EE feitos para dispor-se a receber o Espírito Santo, o "dom" que haveria de marcá-los e lançá-los definitivamente. Experiências análogas foram vividas pela comunidade depois que se ampliou com a chegada de novos convertidos: "Eles mostravam-se assíduos ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações" (At 2,42). Além da assiduidade e da concórdia na oração, temos, pois, a escuta da palavra e a fração do pão, no clima de caridade fraterna.

2. Antes de santo Inácio Os monges, já desde os primeiros séculos, se dedicaram aos diversos "exercícios" de oração e de vida cristã, bem isolados nos lugares ermos (ermitãos), de modo bem comunitário nas "lauras" (anacoretas) e nos mosteiros ou cenóbios (cenobitas). Santo Eutímio, o Grande, (+ 473), por exemplo, considerado o fundador das lauras da Palestina, promoveu de modo particular o "retiro" durante a quaresma. Na Idade Média, Muitos mosteiros destinaram celas e até "ermos" para os que desejavam dedicar-se à oração durante determinado período, com o fim, por exemplo, de obter uma graça especial ou de se dispor a receber um cargo ou um ministério.

Desde fins do séc. XIII até o séc. XVI ocorreu, sobretudo na Europa, progressiva decadência do espírito cristão e da prática religiosa. Para reagir contra o perigo do laicismo e do naturalismo, promoveu-se a meditação cotidiana metódica; até as grandes ordens religiosas construíram "desertos" destinados à oração e à penitência.

Justamente depois de um retiro feito na Cartuxa de Colônia, o fundador da Devotio moderna, Gerardo Groote (+ 1384), dedicou-se a este movimento de renovação religiosa. Sua espiritualidade, divulgada principalmente pela celebérrima De imitatione Christi, de Tomás Hemerken de Kempis (+ 1471), caracteriza-se, no plano do conteúdo, por uma ardente devoção a Jesus, e, no plano do método, pelos exercícios relativos às diversas faculdades. Datam desses tempos as obras De spiritualibus ascensionibus, de Gerardo de Zutphen (+ 1398) e Rosetum exercitiorum spiritualium de Mombaer ou Mauburnus (+ 1494). Outras obras de enorme importância foram o Ejercitatorio, de Garcia de Cisneros (+ 1510), e a Vita Christi, de Ludolfo de Saxônia (+ 1377).

Graças sobretudo a tais obras, divulgou-se pela Europa a expressão "exercícios espirituais", até tornar-se de uso corrente.

Assim pois, os EE não só têm conteúdos, mas também técnicas precisas e até o nome específico, mesmo antes de Inácio de Loyola. Que acrescentou a eles, então, o patrono dos EE?

3. A gênese dos EE inacianos Inácio, nascido em Loyola em 1491, "até os vinte e seis anos de idade, foi homem inclinado às vaidades do mundo". A ferida recebida em Pamplona em 1521 obrigou-o a permanecer muito tempo de cama. Na falta de outra coisa, resignou-se a ler a Vida de Cristo do cartuxo Ludolfo de Saxônia e a Legenda áurea, do dominicano Giacomo da Varazze (+ 1298).

a) As experiências de Loyola. Os exemplos dos santos estimulam-no, arrastam-no, fazem-no desejar aventuras totalmente diferentes das anteriores. Mas, de um momento para outro, não se podem apagar vinte e seis anos de vida. Pensamentos disparatados e opostos se sucedem; algumas vezes se sente contente e entusiasmado, outras vezes, triste e fechado em si mesmo. Num primeiro momento, não se preocupou com o significado de tais estados de ânimo tão variados. "Assim que se lhe abriram um pouco os olhos e começou a espantar-se com esta diversidade e a refletir sobre ela, aprendendo por experiência própria que com uns pensamentos ficava triste e com outros alegre, pouco a pouco passou a conhecer melhor a diversidade dos espíritos que se agitavam: um vinha do demônio e o outro de Deus". Inácio descobrira um dos mais originais elementos constitutivos dos seus EE.

De Loyola foi ele a Montserrat, onde "se confessou por escrito, numa confissão geral que durou três dias", e a Manresa, onde permaneceu de 25 de março de 1522 a fevereiro de 1523.

Os ensinamentos de Manresa. Depois de narrar outras numerosas experiências, que registrará rigorosamente no livrinho dos EE, Inácio escreve: "Deus o tratava da mesma maneira com que um professor de escola trata uma criança, ensinando-lhe"; e enumera cinco ensinamentos, dos quais o quinto se reveste de particular significado para nós. O penitente de Manresa encontrava-se às margens do Cardoner. Em determinado momento, abriram-se para ele "os olhos do entendimento", passando a "entender e conhecer muitas coisas, tanto coisas espirituais, quando coisas da fé e das letras, com clareza tão grande que todas lhe pareciam novas". Foi nessa ocasião que aprendeu a discernir melhor os espíritos; foi então que "Deus lhe concedeu conhecimento profundíssimo e vivo sentimento dos mistérios divinos e da Igreja, transmitiu-lhe os Exercícios e lhe mostrou, nas meditações do reino e das duas bandeiras, a finalidade de sua vida". Numa palavra, às margens do Cardoner, "seu entendimento foi de tal maneira iluminado que parecia outro homem e com outro entendimento". Os EE, em sua parte "substancial", eram coisa feita. Depois de serem submetidos muitas vezes, junto com seu autor, a repetidos exames em diversas cidades da Europa e, em particular, em Alcalá, Salamanca, Paris, Veneza e Roma, foram definitivamente aprovados por Paulo III a 31 de julho de 1548 com o Breve Pastoralis Officii.

II. O conteúdo

Os EE não têm, nem podem ter, muito de original do ponto de vista do conteúdo. Basta pensar que em três quartas partes (II, III e IV semanas) apresentam a vida de Jesus. Não é, porém, menos verdadeiro que os EE são de originalidade única, tanto porque Inácio neles infundiu suas intuições e suas experiências, quanto porque soube relacionar e amalgamar suas diversas etapas, e estruturar o conjunto, de forma altamente unitária e sistemática. A adaptação e a possibilidade de graduar os elementos mais centrais da mensagem cristã contam-se entre os méritos mais originais do método.

1. 0 fim dos EE Inácio fala de quatro etapas (EE 4), que correspondem: a primeira à via purgativa, a segunda à via iluminativa, a terceira e a quarta à via unitiva (EE 10). No começo do livrinho, nas Anotações, temos indicações concisas e claras sobre o método e a natureza dos EE: uma série de "atividades espirituais" com um fim (EE 1). 0 exercitante que, em colaboração ativa, consente em deixar-se "pilotar" (evidentemente e sobretudo, pelo Espírito de Deus), chegará a "vencer-se a si mesmo e a ordenar a sua vida sem determinar-se por nenhum afeto desordenado" (EE 21); através de uma série de exercícios, amadurecerá sua abertura e sua aceitação do plano divino.

2. Processo de purificação e dimensão sacramental A I semana tem como fim principalmente "situar" o exercitante na história da salvação: Qual é sua relação com o Salvador? A experiência, tão drasticamente descrita por Paulo (Rm 7,14-25), convence-nos de que em cada homem forças desagregadoras levam a fazer o que não se quer. Desta maneira, forma-se e acentua-se até impor-se de modo inegável à medida que se progride na oração, a necessidadede Salvador. Na realidade, o homem, chamado a abrir-se a Deus, libertando seu espírito de tudo o que possa distraí-lo desta relação realizadora (Princípio e Fundamento: PF), encontra-se na I Semana, timidamente dobrado sobre si mesmo, separado de Deus, irrealizado. E a experiência — para Inácio elemento primordial deste surpreendente mosaico — dos anjos que se revoltam contra Deus, de Adão e Eva, de um pecador qualquer, do próprio exercitante.

O terceiro exercício examina, de maneira mais direta, as causas do pecado; na oração, que se torna cada vez mais insistente, pede-se a graça de conhecer os pecados, a desordem e o mundo, e a graça de detestá-los e de reequilibrar-se. Chega-se, assim, a experimentar as condições melhores para ter acesso aos sacramentos da penitência e da eucaristia; é a dimensão sacramental, para a qual, conforme se mostra claramente desde o começo da etapa (EE 4; cf. 18; 20 e 354), tudo deve convergir. A I Semana se encerra com uma visão escatológica que, se, de um lado, é particularmente traumatizante, de outro (e é este o objetivo pretendido), abre de maneira definitiva a Cristo Salvador o exercitante. A meditação do inferno, de fato, ajuda não só "a não cair no pecado" se, porventura, "por causa de minhas faltas eu me esquecesse do amor do eterno Senhor" (EE 65 c), mas também e sobretudo a fixar bem na memória e no coração que "Cristo nosso Senhor... não me deixou cair" no inferno, "acabando minha vida" (EE 71 b). A conclusão: dar graças a Jesus porque "até agora sempre teve tanta piedade de mim e tanta misericórdia" (EE 71 c). Neste ponto seria preciso estar verdadeiramente pronto para entrar definitivamente pelo caminho da maravilhosa aventura cristã.

Busca da própria identidade e dos próprios valores pessoais — A II Semana, depois de haver insistido oportunamente na prontidão, na diligência e na entrega incondicional (EE 91-94), apresenta ao exercitante, numa visão sintética, o plano de Jesus: salvar o mundo seguindo a Ele. A visão apostólica assume significado e amplitude com as contemplações da Encarnação, do Natal, da vida oculta. Com Jesus, que se encarna e vive de acordo com opções bem definidas e incentivadoras, o exercitante pode fazer suas opções, tomar consciência do seu lugar no corpo místico de Cristo e descobrir sua identidade. O processo de purificação e de aperfeiçoamento, iniciado com o PF, particularmente mantido presente durante a I Semana, continua agora à luz deslumbrante dos exemplos do Salvador; pouco a pouco, por via de assimilação vital, graças à ação do Espírito, o exercitante pode assumir como suas as opções de Jesus.

A trilogia da II Semana (Bandeiras, Binários, Três colóquios) apresenta, de modo definitivo e inequívoco, o caminho (cf. At 19,9). 0 conhecimento não só dos pecados e das fraquezas, mas também das tendências e das aspirações, a experiência das consolações, das desolações e do discernimento, a constante atenção a ser mantida em equilíbrio e, sobretudo, o deixar-se guiar pelo Espírito de Deus constituem as condições ideais para ver e avaliar (cf. Lc 14,28ss), para buscar e encontrar vontade divina.

De tudo o que se disse até agora, facilmente pode-se deduzir que a instância personalista se integra bem na comunitária. Também na visão inaciana Deus faz "sinais" para o indivíduo: mas fá-lo para introduzi-lo no "corpo", para levá-lo a tomar consciência de que é membro do povo. Tudo, desde o princípio dos EE, induz o exercitante a aceitar a vocação pessoal e a viver segundo ela; não só para realizar-se a si mesmo, como também a fim de contribuir para o bem dos irmãos. O exercitante de Inácio descobre que foi criado e, portanto, dotado de capacidades particulares; redimido e, portanto, reabilitado e chamado para dar sua contribuição pessoal para a promoção humana integral; animado pelo Espírito e, portanto, dotado também de carismas particulares que o tornam apto e pronto para cumprir a tarefa a que a Providência o destinou (cf. LG 12). Em outros termos: se é verdade que Deus o chama, é igualmente verdade que o homem é dotado de patrimônio pessoal, com vistas a uma missão de libertação e de salvação. São esses os elementos que os EE, bem dirigidos, fazem emergir e amadurecer.

Mas como, concretamente, ocupar-se da própria missão e viver segundo ela?

4. "Em" e "com" Cristo para vitalidade do corpo místico A medida que a vida de Jesus vai pouco a pouco passando diante dos olhos atentos do exercitante, o quadro dentro do qual deve comprometer-se vai adquirindo contornos cada vez mais claros e definidos; vivemos tanto mais intensamente quanto mais nos damos a Deus a aos irmãos no estado querido por Deus, "bem enraizados e edificados" em Jesus (Cl 2,7). Jesus, considerado durante a I Semana como restaurador da imagem do Pai, contemplado na II como o modelo em que o exercitante deve inspirar-se para realizar da melhor maneira possível o plano do Pai, terá que ser assimilado, mediante permanente e profunda "simpatia", durante a III Semana, a tal ponto que ele possa afirmar com são Paulo: "Estou crucificado com Cristo e já não sou eu que vivo, é Cristo quem vive em mim" (Gl 2,20). Por isso, pedirá "dor com Cristo doloroso, sofrimento com Cristo sofredor, lágrimas, penas internas por causa de tantas penas que Cristo suportou por mim" (EE 203).

E a semana da eucaristia e, portanto, da união mais íntima que se possa conceber. E o tempo da reflexão sobre as grandes revelações do Amor: "Estou em meu Pai, e vós em mim e eu em vós" (Jo 14,20); "a fim de que todos sejam um" (Jo 17,21); "permanecei em mim como eu em vós" (Jo 15,4).

É também o tempo da compreensão do mistério da T cruz como meio privilegiado escolhido por Deus para a redenção do mundo. Em toda contemplação (EE 204) o exercitante, além de "considerar como (Jesus) padece tudo isso por meus pecados etc" (EE 197), deve perguntar-se também: "que devo fazer e padecer por ele"? (ib.). Isso significa que deve 'ver a maneira como realizar a missão a que é chamado para o bem do corpo místico. Em contato, ou melhor, em íntima união com Jesus, que "salva" e "eleva" sofrendo e morrendo, também ele deve "fazer e padecer" algo; deve adotar o objetivo, como igualmente o estilo e os meios de Jesus; deve, à luz de ensinamento preciso da Sagrada Escritura e de são Paulo em particular, consentir em completar em sua carne "o que falta das tribulações de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja" (Cl 1,24); deve, por exemplo, aceitar o eventual convite para "compartilhar" da vida dos marginalizados.

5. A vida no Espírito: uma alegria que deve ser comunicada A IV Semana destina-se à contemplação de Jesus ressuscitado. Inácio quer que o exercitante peça a graça de alegrar-se e "gozar-se intensamente de tanta glória e gozar de Cristo nosso Senhor" (EE 221). Para ajudar a conseguir a meta, sugere dirigir a atenção para as manifestações da divindade (EE 223); ter a intenção, desde o primeiro momento do dia, de comover-se e alegrar-se "com tanto gozo e alegria de Cristo nosso Senhor" (EE 229), recordar e pensar "coisas que causem prazer, alegria e gozo espiritual" (ib.). No fundo, trata-se de dar à vida sabor novo, próprio dos que se deixam animar e conduzir pelo Espírito. Estamos no fim do itinerário e é a hora dos frutos do Espírito. Ao contato com o corpo ressuscitado de Jesus e à medida que se aprofunda a consideração dos "verdadeiros e santíssimos efeitos" da ressurreição (EE 223), não se pode deixar de participar de sua alegria. Ele cumpriu perfeitamente sua missão; estabeleceu as condições para a efusão do Espírito prometido; e o Espírito, depois de haver tomado posse de nossos corações, atesta que "somos filhos de Deus" (Rm 8,15-16). Também estes, e sobretudo estes, são os "verdadeiros e santíssimos efeitos" da ressurreição.

Habitado pelo Espírito, dotado de dons e de carismas particulares, o exercitante da IV Semana não pode deixar de "dizer" sua alegria de estar e de sentir-se salvo; não pode deixar de saborear a honra de saber-se associado à obra da salvação; não pode deixar de "dar-se" — também para imitar o Ressuscitado e assemelhar-se a ele, o Ressuscitado que exerce "o ofício de consolador" (EE 224) — em favor da edificação do corpo místico, com alegria e entusiasmo. Na maturidade, que é fruto da ação divina, recebida com plenitude de docilidade e de amorosa atenção, sentirá a exigência do coração — estamos na contemplação final proposta por Inácio — de se encontrar com o Senhor, que cumula de toda espécie de dons e que também se doa (EE 234) com sua presença (EE 235) e com sua ação (EE 236); verá em todas as coisas, em cada conhecimento, em cada homem, as pegadas do Amor e, como conseqüência, adorará, louvará e agradecerá (EE 237). No desejo, cada vez mais vivamente percebido, de estar "com" e "em" Deus — porém sempre dando atenção à purificação necessária e permanente (EE 238248) —, terá cada vez mais presentes diante dos olhos o Pai, o Filho, o Espírito e a Virgem... e se sentirá como "família" deles (EE 249-257); tê-los-á no coração e nos lábios (EE 258-260). Mas não de maneira romântica e leviana, porque sabe que "o amor deve ser colocado mais nas obras do que nas palavras..." (EE 230-231).

III. O método

Fazemos referência somente a alguns dos elementos que constituem a força do método inaciano, tornando-o extremamente atual e válido.

1. A concatenação das idéias Tudo o que foi dito sobre o conteúdo deve ter ajudado a compreender que um dos segredos do método deve consistir em buscá-lo na concatenação das idéias dentro dos respectivos exercícios, entre um exercício e outro, e entre as diversas etapas. Deixando de lado tanto a visão que dele temos desde o princípio, quanto o fato de que o exercitante, ao refletir sobre esta página maravilhosa, fica praticamente iniciado neste rigor lógico, dispomos igualmente de afirmações explícitas. Limitamo-nos apenas a um exemplo: não se pode passar para a etapa seguinte enquanto não se houver recolhido os frutos da anterior, justamente porque a segunda está enraizada na primeira e procura desenvolvê-la (EE 4 b; 162; 209; 226).

2. A adaptação Isso mostra também a necessidade da fidelidade tanto ao homem como a Deus. Nem todos somos feitos da mesma maneira. E não só do ponto de vista dos dotes naturais, da capacidade, da vontade de compromisso (EE 4b; 14; 18); existe também uma "medida" da graça que Deus, em sua imperscrutável sabedoria e bondade infinita, confere a cada um segundo lhe apraz. Por isso, quem dá os exercícios deve propor as verdades que são "convenientes e de acordo com a necessidade" concreta do exercitante (EE 17). Daí decorre o princípio áureo: "Os exercícios espirituais devem adaptar-se à disposição das pessoas que querem fazê-los" (EE 18).

3. Em colaboração ativa Inácio estimula o exercitante a se comprometer e a colaborar com a graça de Deus. O princípio é tão claro e tanto se insiste nele, que não poucos já têm acusado nosso autor de voluntarismo. Na realidade, algumas de suas expressões, sobretudo quando retiradas de seu contexto, prestam-se a acusação deste teor. Para resolver esta dificuldade, é necessário "compreender" a breve frase que serve de introdução ao pedido da graça própria de cada exercício, a qual é repetida, com ênfase única, desde a primeira (EE 48) até a última (221) meditação ou contemplação: "pedir o que quero", ou então "suplicar a graça que quero" (91 c) ou, numa forma mais completa: "suplicar a Deus nosso Senhor o que quero e desejo" (48).

Em outras palavras, Inácio está convencido de que tudo é dom de Deus e de que nenhum fruto pode amadurecer quando Deus não o concede. Por isso, nos momentos mais importantes dos EE, ele convida a insistir na oração, interpondo também a mediação de Jesus e da Virgem Maria (EE 63 e 147).

Isso, porém, não significa passividade nem quietismo. A experiência dos EE de um mês é somente para pessoas maduras, isto é, para pessoas capazes de compromisso e de colaboração, que pedem o que querem e desejam, mas também querem e desejam o que pedem; que fazem tudo o que está a seu alcance e tudo o que delas é exigido para se abrirem à graça. O Deus que Inácio apresenta é um Deus que respeita a liberdade e a capacidade humana concreta; dirigimo-nos a ele não só para pedir que "queira mover minha vontade e pôr em minha alma o que devo fazer sobre a coisa proposta" (EE 180), mas ainda para dizer: "Eterno Senhor de todas as coisas, com teu favor e ajuda faço a minha oblação...; quero e desejo e é minha determinação deliberada..." (EE 98); não só para oferecer a escolha ou eleição, feita depois de haver "discorrido e raciocinado sob todos os aspectos sobre a coisa proposta" (EE 182), mas também para pedir-lhe que "a receba e a confirme, se for para seu melhor serviço e maior louvor" (EE 183).

4. Unidade de atmosfera Durante os EE é necessário afastar-se "de todos os amigos e conhecidos e de toda solicitude terrena" (EE 20), para ir a outra casa ou residência, para aí permanecer o mais secretamente possível" (ib.). Além do isolamento, requer-se também e sobretudo o recolhimento. Justamente para isso é que se escolhe aquilo; afastamo-nos para concentrar "toda a atenção numa só coisa" e, por conseguinte, exercer mais livremente as faculdades naturais (ib.).

Isto suposto, sempre com a ajuda de Deus, terá que procurar não tanto "conhecer" quanto "compreender", porque "não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear as coisas interiormente" (EE 2); por isso, uma vez encontrado o "ponto" sobre o qual refletir e orar, "repousarei nele, sem ânsia de passar adiante, até que me satisfaça" (EE 76).

Graças também a este modo de proceder, a esta fidelidade ao homem, isto é, a seus processos de assimilação e de amadurecimento, poderá o discípulo de Inácio amadurecer verdadeiramente em disposições que o tornem atento e pronto para o serviço e a maior glória de Deus.

IV. Os atores dos EE

Os verdadeiros protagonistas dos EE inacianos são o Espírito de Deus e o exercitante. Em linhas gerais, quem os dá deve desempenhar apenas tarefa de iniciação e de discreta assistência.

1. O Espírito de Deus Aquele que, pelo contrário, deve dominar o campo, do princípio ao fim e durante toda a vida (e de maneira consciente, uma vez que já se tenha tido a experiência dos EE), é o Espírito Santo. Os EE têm, na realidade, antes de mais nada, o objetivo de colocar o exercitante em sintonia com o Espírito de Deus, para conhecer sua vontade realizadora e, depois, focalizar a vida segundo o plano paterno.

Em cada uma das fases dos EE, desde o princípio, é mister criar as condições requeridas para que o exercitante seja "iluminado pela virtude divina" (EE 2); para que o Criador possa comunicar-se e agir "imediatamente junto à criatura" (EE 15), mover a vontade e incutir na alma o que é preciso escolher" (EE 180).

2. 0 exercitante Muitos dos elementos que lhe concernem já foram tratados e destacados. Recordemos aqui a sugestão de iniciar os EE "com coração aberto e com generosidade", oferecendo-se a si mesmo e as próprias coisas ao Senhor (EE 5), isto é, fazendo aquele ato de fé mediante o qual "o homem se abandona a Deus inteira e livremente" (DV 5).

No curso dos EE, o exercitante terá que discernir todas e cada uma das partes da vocação cristã, captar os conteúdos da vontade paterna e escolher, libertado de tudo o que não é Deus e totalmente aberto a ele. No fundo, tudo se reduz ao seguinte: ter capacidade de reflexão e de decisão ponderadas, comprometer-se sinceramente a fazer a experiência proposta por Inácio, "querer" seguir o Senhor.

Em suma, os EE supõem certa maturidade, tanto humana quanto cristã. Justamente no n. 649 das Constituições da Companhia, Inácio escreve: "Geralmente, não se darão mais do que os Exercícios da I Semana; e, se forem dados por inteiro, será para pessoas escolhidas ou para quem deseje tomar uma decisão a respeito do estado de sua vida".

3. Quem dá os Exercícios Este deve, primeiramente, lembrar-se de que ocupa lugar de segundo plano em relação ao Espírito de Deus; por isso, sobretudo em algumas circunstâncias, deve simplesmente desaparecer (EE 15). Em todo caso, a sua é tarefa de presença discreta e paterna. Além de dar os "pontos", deve adaptar, sustentar, animar e vigiar para que os exercitante não formule propósitos exagerados, não seja indiscreto na escolha ou eleição dos meios, não se esgote... Principalmente deve ajudar a discernir os espíritos. É o que se deduz também do parágrafo seguinte.

V. Elementos sintonizantes com o plano do Pai

O Espírito que habita em nós ensina, recorda e guia. O homem, no entanto, geralmente falando, não procede por via de intuição. Conhecer, compreender, desejar, querer, agir são atividades que requerem tempo e levam às vezes a longos processos de assimilação, de amadurecimento e de decisão.

1. Sentir e saborear Também para isto Inácio quer se "sinta" e se "saboreie" (E 2), que nos detenhamos somente numa parte de alguma verdade, que voltemos com constância e perseverança, cotidianamente e em diversas ocasiões, a rever tudo o que anteriormente saboreamos, pouco ou muito. As repetições, os resumos, as aplicações dos sentidos são habituais nos EE, do primeiro ao trigésimo dia. Além disto, no fim de cada meditação ou contemplação é mister refletir para ver "como me saí" (EE 77), e, duas vezes por dia, examinar-me para fazer uma observação posterior sobre as moções de Deus. Neste clima, saturado de graça divina e de esforço humano, esperar-se-á o momento oportuno para procurar e encontrar a vontade de Deus. Inácio fala disso desde o n. 175 até o n. 189, descrevendo seus tempos; o primeiro ocorre quando Deus "chama" de maneira inteiramente clara e inequívoca (EE 175); o segundo, quando nos servimos das experiências das consolações, das desolações, do discernimento (176); o terceiro, quando se descobre a vontade divina "raciocinando". Falaremos brevemente dos dois últimos.

2. A experiência das ressonâncias interiores Desde o primeiro dia dos EE, somos convidados a anotar e a nos determos nos pontos em que se experimentou "maior consolação ou desolação, ou maior sentimento espiritual" (EE 62). Numa palavra, há ressonâncias íntimas e profundas em nós que Inácio, fiel à tradição mais segura, chama de consolações e desolações. Na origem de tais "sentimentos" estão os "espíritos": o bom age para nossa realização; o mau, para nossa alienação e dispersão (EE 318). Fruto da ação do primeiro é tudo o que abre ao amor e à alegria (consolação); tudo o que, pelo contrário, leva a pessoa a dobrar-se sobre si e a fechar-se em si (desolação) é fruto deteriorado do "inimigo da natureza humana" (EE 325). Por conseguinte, o desejo de escolher ou a própria escolha (eleição) que, uma vez realizada, produz consolações, são de Deus. E isto basta.

3. A busca dos sinais dos tempos Mas que fazer quando as ressonâncias interiores não estão presentes de maneira clara e nítida? Neste caso, convida-se o exercitante a proceder a um trabalho de atenta investigação sobre tudo o que possa ajudar a escolher o que "sinta" ser para maior glória de Deus (EE 179). Trata-se, na nossa opinião, de buscar, de descobrir e de interpretar os sinais dos tempos, discorrendo e raciocinando "sob todos os aspectos sobre a coisa proposta" (EE 182); de "descobrir nos acontecimentos... quais são as exigência naturais e qual é a vontade de Deus" (P0 6); de examinar "aqueles sinais de que se serve cada dia o Senhor para fazer compreender sua vontade aos cristãos prudentes" (Po 11); de "buscar em cada acontecimento sua vontade" (AA 4).

4. As regras para sentir com a Igreja Entende-se que, neste trabalho de busca, às vezes complexo, é necessário deixar-se ajudar (condição para não vagar na escuridão) e "escutar" aqueles a quem o Senhor confiou a tarefa de guiar-nos: "É necessário que todas as coisas so-bre as quais queremos fazer escolha (eleição) [...] militem dentro da santa madre Igreja hierárquica" (EE 170); é mister "ter o ânimo preparado e pronto para obedecer em tudo à verdadeira esposa de Cristo nosso Senhor, que é nossa santa madre Igreja hierárquica" (353). Em resumo, o pensamento de Inácio, solidamente fundamentado na Sagrada Escritura também neste ponto, harmoniza-se com tudo o que a Igreja ensina a propósito da autenticidade e do uso dos carismas: "0 julgamento de sua autenticidade e de seu exercício razoável compete aos que têm autoridade na Igreja, aos quais cabe, antes de mais nada, não sufocar o Espírito, mas provar tudo e ficar com o que é bom (LG 12).

P. Schiavone

VI. EE: Novas experiências

Em nosso tempo existem duas tendências relativas aos EE que aparentemente se contradizem, mas que no fundo se integram. De um lado, sente-se a necessidade de continuar a sua prática, porque eles supõem mesmo hoje uma graça eclesial; e, de outro, a necessidade de renová-los, ainda que com o risco de retocar a sua essência. Estas breves considerações pretendem analisar os esforços de renovação e as novas formas mediante as quais se traduz a experiência original de santo Inácio.

1. Exigências de renovação — O Concílio Vat. II constitui ponto de referência obrigatório, quando se fala de "renovação" e de "atualização". Mais do que o concílio em si, conta a nova mentalidade que os documentos conciliares assumem, sintetizam e comentam, sobretudo encarando perspectivas do futuro. São muitas as causas que influíram na "nova mentalidade" e que obrigaram os pastoralistas a rever a trama dos Exercícios inacianos. Algumas idéias adquiriram especial relevância e incidem na renovação do método: as categorias do encontro, a relação e o diálogo, a dinâmica de grupos, o novo sentido da comunidade, que dificultam e questionam a solidão, o silêncio, o diálogo pessoal com Deus impregnado de individualismo, tão necessário nos clássicos EE.

Mais profunda incidência sobre os EE têm tido a renovação teológica, as exigências da pastoral e a catequese, as novas ciências do homem, como a sociologia religiosa, a antropologia, a psicologia profunda, a psicologia social etc. E até a situação de injustiça em muitas partes do mundo, que é interpretada, partindo dos conteúdos da fé, como denúncia profética. Este complexo mundo de idéias obrigou a procurar adaptações para os antigos caminhos e métodos espirituais.

Para não sair do mencionado Concílio Vat. II como impulso renovador dos EE, lembro um fato sintomático. Poucos meses depois do encerramento do concílio, em agosto de 1966, realizou-se em Loyola um Congresso Internacional de Exercícios, que fora precedido de Inquérito (pesquisa de opiniões), também de âmbito internacional, sobre o mesmo tema. A finalidade do congresso era clara: adaptar o método, as idéias inacianas, à nova teologia do concílio. Este fato confirma tudo o que foi dito no princípio: validez dos EE, mas também urgência de atualização.

2. Formas novas dos EE — A renovação dos EE atinge o método e a exposição de temas, sem trair, porém, a finalidade primordial dos mesmos, que é a de conseguir experiência de Deus que conduza à conversão.

a) Exercícios espirituais na vida corrente Na realidade, não se trata de inovação, mas de volta ao que há de original nos EE, já iniciada por Inácio e depois decaída em desuso. De fato, na "Anotação 19" do Livro dos Exercícios, ele escreve: "Quem estiver muito ocupado com tarefas públicas ou negócios convenientes, dotado de cultura ou de engenho (criatividade), tomando uma hora e meia para se exercitar, refletindo sobre o objetivo e o fim para que o homem foi criado, pode fazer, ainda que pelo espaço de meia hora, o exame particular, e depois o geral, de modo a se preparar para confessar e receber o sacramento..." Pioneiros em nossos dias podem ser considerados o jesuíta P. Jean Pierre van Schoote, que iniciou a experiência com jovens universitários em Lovaina por volta do ano de 1960; e o jesuíta canadense Gilles Cusson, que publicou uma espécie de Diretório sobre o método.

Exige-se, em primeiro lugar uma seleção de candidatos, que possuam capacidade de reflexão e concentração numa idéia, para se deixarem dominar por ela durante os trabalhos e ocupações do dia. Com eles o diretor tem encontro prévio para lhes explicar o sentido da experiência. Fundamentalmente, o método se baseia no princípio psicológico de que, durante o dia, o homem normal não emprega toda a sua capacidade mental e afetiva nos trabalhos que realiza; de que existem espaços interiores mortos, ou pelo menos vazios. Ora, o diretor introduz no exercitante uma idéia "preocupante", que o acompanhe, que vá amadurecendo até dominá-lo totalmente e convertê-lo a ela. Esta idéia convive com ele, sobrevive em meio às preocupações e aos trabalhos normais de cada dia. Por exemplo: Deus é meu pai; os homens são meus irmãos; Cristo vive presente, encarnado entre nós, nos pobres, na Eucaristia etc. Além desta preocupação fundamental, o exercitante necessita de algum espaço livre para poder concentrar-se melhor no tema de reflexão do dia ou da semana; e também de um tempo para a oração pessoal.

O método é extremamente personalizado, requer controle metódico por parte do diretor, uma revisão freqüente, porém constitui algo mais do que a clássica "direção espiritual". Pode ser uma boa experiência religiosa para cristãos muito ocupados, que não dispõem do tempo necessário para "retirar-se" em casas de espiritualidade, ou que querem sair da rotina dos EE organizados.

b) Exercícios em diálogo. Esta experiência supõe profunda mudança metodológica. Os EE clássicos, embora feitos em grupos mais ou menos limitados, não rompem a estrutura individualista e certa passividade; em suma, fazem-se com diálogo. O novo método se baseia na psicologia dinâmica de grupos, que vê o homem como ser social, membro de um grupo no qual necessariamente existe uma relação e encontro com os outros. Os exercícios neste caso — não só se farão com diálogo, mas igualmente em diálogo, com a participação ativa de todos os componentes do grupo.

O homem moderno está acostumado a ter responsabilidades sociais e religiosas e — quando se junta com outros semelhantes — quer encontrar o caminho da fé juntamente com eles, e não através de líder religioso. A nova mentalidade gera cristãos novos, que se expressam numa linguagem diferente e de modo mais livre. O grupo compartilha a fé, expressa suas experiências religiosas. A busca comum das soluções ajuda a amadurecer cristãmente, a construir a Igreja. É tarefa comum que se realiza em diálogo. Parece ficar bem claro que se trata de algo mais profundo do que a mera dinâmaca de grupos.

O grupo não é numeroso e se fragmenta em pequenas unidades de trabalho, que no fim comparam as conclusões a que chegaram. Os membros diretivos — que também assistem — não são de maneira alguma protagonistas, po. rém especialistas a quem se pode recorrer se surgirem dúvidas e problemas.35 O método é complexo e custoso, mas vale como novidade e experiência. Talvez se pudessem, futuramente, adaptar algumas técnicas e idéias básicas. Uma metodologia combinada melhoraria a prática dos EE clássicos.

c) EE e técnicas psicológicas. Constitui uma novidade metodológica incorporar algumas técnicas psicológicas, para eficácia maior, como, por exemplo, a dinâmica de grupos, contanto que não se esqueça o fim primordial dos EE, que é a "conversão" do exercitante, e que se pretenda uma finalidade apostólica. Também já se estão aproveitando os valores terapêuticos dos EE, por causa dos processos interiores que despertam. Assim, por exemplo, a lembrança dos pecados e a meditação da paixão de Cristo, que desencadeiam no exercitante lágrimas de dor, têm certo paralelismo com a técnica de criar no cérebro "estereótipos dinâmicos de reação". Algo praticamente igual ao agere contra dos EE de santo Inácio, dinamismo interior para lutar contra as más inclinações, é utilizado em psicoterapia para sublimar o instinto de combatividade e assim corrigir a afetividade mal orientada. Aliás, tanto os EE quanto a psicoterapia pretendem a reorganização da vida do indivíduo, submetendo as forças desintegradoras da personalidade — instintos e afetos — para conseguir atuação mais unitária, racional e integradora. Finalmente, tanto a psicoterapia como os EE pretendem provocar imagens contrárias às imagens que anteriormente criaram a desarmonia da pessoa. Esta provocação voluntária das novas imagens se realiza nos EE mediante as meditações sobre o inferno, o céu, a composição de lugar, as diferentes contemplações. Ao mesmo tempo, os exercícios repetidos sistematicamente geram no exercitante uma espécie de neurose obsessiva transitória e provisória, criando, com o tempo, "estereótipos dinâmicos corretivos".

d) EE como práxis de libertação. Mais do que novo método, esta experiência promove a renovação da "temática" dos EE, levando em conta a "teologia da libertação", muito atuante na América Latina. As clássicas meditações dos EE mudam e são combinadas com outras mais de acordo com a situação de injustiça em que vivem muitos povos do Terceiro Mundo, para despertar no exercitante um espírito solidário com os mais pobres e marginalizados. Esta seria a conversão ao Evangelho: amar os irmãos para ajudá-los a conseguir a sua própria libertação. Vivência e experiência do Cristo histórico, mas sobretudo do Cristo total, que é a Igreja e a humanidade sofredora. Segundo os promotores, ou os EE suscitam este tipo de conversão ou são "alienantes". Os temas tratados são uma síntese da espiritualidade da libertação, que corresponde ao que querem despertar por meio dos EE. Para que os EE surtam os efeitos desejados, o exercitante tem de passar antes por processo de mentalização que o coloque a par e em dia a propósito das correntes e dos postulados teóricos da teologia da libertação, que possui sensibilidade especial diante da injustiça. Para criar este ótimo clima interior são dedicados os primeiros dias dos EE. que vêm a ser uma espécie de pré-exercícios; inicia-se depois o período propriamente de Exercícios com a pregação seguindo uma ordem de temas, e culmina com o compromisso assumido com os pós-exercícios. Em resumo, trata-se de uma experiência forte vivida durante um mês.38

e) Outras formas de EE. Os EE têm muitas variedades, se considerarmos como exercícios alguns dias densos de espiritualidade, visando à conversão a Cristo e ao Evangelho. Abandona-se, por exemplo, a rígida forma inaciana e iniciam-se outras experiências que dependem do diretor e do exercitante. Muitos preferem fazer os EE "em silêncio", com pouca ou nenhuma pregação e muita reflexão pessoal; puro encontro com Deus, com Cristo, na leitura da Palavra de Deus, na celebração da liturgia, e com o próprio eu. Isso não impede que, por alguns instantes, se compartilhe com o grupo alguma experiência. A "experiência do deserto" de um ou vários dias é outra formulação moderna. Nestas ocasiões, escolhem-se a falta de comodidade, a solidão plena, o cansaço físico, os longos períodos de oração e de reflexão, como meios para o encontro com Cristo ou para a escuta do Espírito Santo. Podem-se combinar, também, dias de reflexão pessoal ou comunitária, de convivência, com algum dia de "deserto". Por outro lado, o diretor também pode abandonar os rígidos esquemas temáticos inacianos, para articular as meditações e reflexões segundo um esquema doutrinário coerente e atualizado, seguindo a doutrina de um ou de vários grandes mestres espirituais, ou as tendências atuais da teologia ou da espiritualidade. A oração pessoal, feita em silêncio e na solidão, segundo os métodos clássicos, pode ser intercalada com experiências novas. Até o silêncio e a solidão, típicos dos dias de "retiro", podem ser combinados com encontros coletivos, em que se faça revisão do que foi tratado durante o dia. Podem-se utilizar também meios modernos para a exposição dos temas e para o modo de fazer oração, tais como as imagens, as montagens audiovisuais etc.

Enfim, nesta época de transição e de criatividade, o tema fica aberto a muitas experiências novas, que ainda não terminaram.

D. De Pablo Maroto