Oficinas de Espiritualidade - Textos para a Oficina de 01 de novembro de 2008.
ESPIRITUALIDADE INACIANA
Espiritualidade é uma maneira de ser cristão, uma forma concreta de viver o
Evangelho, a partir da ação do Espírito.
Conforme o ensinamento dos apóstolos, é o Espírito Santo que suscita na
Igreja a fé do seu povo, infundindo-lhe os dons necessários a sua missão
evangelizadora. O acolhimento desses dons espirituais e os frutos concretos
na prática do amor, seja em âmbito pessoal ou comunitário, podem ser
chamados de espiritualidade.
Não se deve esquecer de que o critério de uma vida verdadeiramente cristã
consiste na capacidade de descobrir os caminhos do Espírito na história, por
meio do confronto vital com a Pessoa de Jesus Cristo.
Inácio de Loyola, Francisco de Assis, João da Cruz, Teresa D´avilla e tantos
outros descobriram o amor de Deus no encontro com Jesus Cristo. A resposta a
esse amor surgiu de um jeito próprio, com atitudes concretas, dando origem a
uma pedagogia.
QUAIS SÃO, ENTÃO, OS ASPECTOS PRÓPRIOS DA ESPIRITUALIDADE INACIANA?
Para aprofundar tal questão podemos acompanhar o seguinte texto de Álvaro
Barreiro, publicado na Revista Itaici.
Dentro dos limites impostos pelo espaço e pelo gênero literário de um artigo de
jornal, vamos apresentar alguns dos traços que julgamos mais característicos da
espiritualidade inaciana e sua atualidade. Eles serão desenvolvidos à luz dos
Exercícios espirituais, feitos por Inácio de Loyola quando era leigo, e dados
depois por ele a outros leigos. Escrevemos os dois artigos pensando, em primeiro
lugar, nos leigos. Esperamos que, ao lê-los, possam descobrir alguns aspectos
novos desta espiritualidade e praticá-los na vida cotidiana.
1. Da experiência ao método
A originalidade ou, se preferirmos, o gênio de Santo Inácio de Loyola
(1491-1556) está em ter criado, a partir da experiência do seu encontro pessoal
com Deus (relatada na Autobiografia), um método (descrito nos Exercícios
Espirituais) para que outras pessoas pudessem fazer também elas uma experiência
pessoal de Deus. Por ser pessoal, a experiência de Deus é sempre absolutamente
única e singular. Dentre as incontáveis pessoas que fizeram os Exercícios ao
longo dos quatro séculos e meio de sua história, não há duas cuja experiência de
Deus tenha sido a mesma.
Os Exercícios não são uma teoria, muito menos uma lavagem cerebral. Eles são um
«método», mais exatamente, uma «mistagogia», isto é, uma pedagogia para fazer a
experiência do mistério de Deus. Do começo ao fim, os Exercícios espirituais
estão estruturados e dinamizados por uma «lógica existencial» e concreta, não
racional e abstrata, que conduz a pessoa que os faz a buscar e encontrar a
vontade de Deus na sua vida. Analogamente ao acontece com um manual de ginástica
ou com um livro de receitas para cozinhar, o livrinho dos Exercícios não foi
escrito para ser lido, mas para ser praticado.
2. Experiência de Deus
Inácio estava convencido de que tinha feito, de maneira incipiente durante sua
convalescência em Loyola e de maneira decisiva em Manresa, uma experiência
imediata de encontro com Deus. O importante para nós hoje não são os fenômenos
que acompanharam essa experiência: visões, audições, dom de lágrimas etc. O
importante é o fato da experiência de Deus feita por Inácio. Esse fato mostra,
de maneira irrefutável, que o Deus inacessível e transcendente, inefável e
insondável, vai ao encontro das pessoas que ele criou, «revela-lhes» sua vontade
e entre em comunhão com elas.
Inácio estava absolutamente convencido, por tê-lo experimentado, que as pessoas
podem fazer a experiência de um encontro pessoal com Deus e encontrar a vontade
de Deus sobre suas vidas. Por isso, dava os Exercícios espirituais a todos os
que estavam dispostos a fazê-los. Isso era para ele uma forma de «ajudar as
almas».
A convicção que Inácio tinha da verdade de sua experiência mística era tão
profunda e tão firme que chegou a afirmar que sua fé permaneceria inabalável
mesmo que não existissem as Sagradas Escrituras. Tal convicção é espantosa em
qualquer época. Ela é particularmente escandalosa para nós, que vivemos num
contexto cultural em que vigora um humanismo que se julga autônomo e
desmitificado.
Confrontados com a figura e com as convicções de Inácio, brota em nós,
inevitavelmente, a pergunta: É possível fazer uma verdadeira experiência de Deus
sem cair num subjetivismo não eclesial, criticado pelos contemporâneos de
Inácio, sem ser vítimas da ilusão ou da ideologia, como suspeitam nossos
contemporâneos? Inácio foi caluniado, perseguido e repetidas vezes encarcerado.
Mas, no fim de todos os processos eclesiásticos movidos contra ele, foi
declarado inocente. E tanto seus Exercícios espirituais, como seu modo de
proceder e o dos seus companheiros foram aprovados pelo papa.
Se deixarmos de lado nosso ceticismo ou nosso ateísmo larvado; se nos
confrontarmos radicalmente com nossas experiências mais profundas: a experiência
do desejo de felicidade, do «coração inquieto» de que fala Santo Agostinho, do
sofrimento, do pecado e da morte, também nós podemos fazer a experiência de
Deus, nosso Criador e nosso Pai, que nos acolhe e nos salva da desesperação e da
morte.
O encontro pessoal de Inácio com Cristo teve início com a leitura de um
florilégio de vidas de santos, a «Legenda Áurea», e dos quatro volumes da «Vida
de Cristo» de Ludolfo de Saxônia. Jesus Cristo não é um mito, nem uma idéia, nem
uma teoria. É uma pessoa: o Verbo eterno de Deus, que assumiu nossa humanidade
para nos fazer participantes de sua divindade. Nos «mistérios» da sua
encarnação, nascimento, vida, paixão, morte e ressurreição está narrada a
história da relação de Deus conosco.
A particularidade da história de Jesus, que nos foi conservada nos evangelhos,
tem de ser buscada e encontrada num número muito limitado de acontecimentos e
palavras. Essa história de Jesus deve ser meditada e contemplada por nós sempre
de novo para podermos receber a graça do «conhecimento interno» de Jesus Cristo.
«Conhecer», «amar» e «seguir» Jesus é o caminho para encontrar o Deus
verdadeiro, e não um Deus meramente pensado. Essas três graças, pedidas no
início de todas as contemplações da segunda semana, estão intimamente vinculadas
entre si. O conhecimento interno de Jesus Cristo nos é dado contemplando
longamente os mistérios de sua vida; desse conhecimento brota o amor e a adesão
a ele; e do amor e da adesão nasce o desejo de segui-lo pelo mesmo caminho que
ele percorreu.
4. Espiritualidade apostólica
Na descrição das três primeiras características da espiritualidade inaciana
aparece já claramente que ela é uma espiritualidade apostólica. A
espiritualidade e a mística de Inácio são, como toda espiritualidade e toda
mística autenticamente cristãs, a negação radical de toda e qualquer forma de
«individualismo» e de «intimismo».
Como Moisés depois da experiência da sarça ardente, como Paulo depois da
experiência no caminho de Damasco, também Inácio, depois de ter feito a
experiência do encontro pessoal com Deus, ficou totalmente seduzido por ele e
pelo projeto salvífico. A experiência feita será, doravante, a fonte que saciará
todos os seus desejos, a força que dinamizará toda sua atividade, o fogo sagrado
que alimentará sua «mística de serviço».
Da meditação prolongada do projeto salvífico de Deus sobre o mundo, feita na
primeira fase dos Exercícios; da meditação sobre a perdição, a miséria e o
sofrimento trazidos pelo pecado e da contemplação do amor e do perdão de Deus,
feitas ao longo da segunda fase dos Exercícios; da contemplação dos «mistérios
da vida de Cristo», feitas ao longo das outras fases, surge no exercitante o
desejo de entregar-se inteiramente ao serviço do Reino no seguimento de Cristo
«pobre e humilde». Para segui-lo pelo caminho da pobreza e da humildade é
necessário despojar-se do «próprio amor, querer e interesse».
Desde o início do seu processo de conversão, Inácio viu que a luta formidável
entre Cristo e o «Príncipe deste mundo» é travada incessantemente, em todos os
tempos e lugares, no mais íntimo de cada pessoa e nos labirintos das
instituições e estruturas. Descobriu igualmente que, estando todos envolvidos
nessa luta tremenda, só pode vencer o Príncipe deste mundo quem se decidir a
seguir e servir a Cristo pelo caminho que ele percorreu. Esse seguimento
incondicional e total é expressado na «oblação» com que termina a meditação do
Reino. Quem faz uma oblação assim, torna-se um homem livre e um «homem novo». É
através desses homens novos que se realiza a conversão e a transfiguração do
mundo e nasce a «humanidade nova».
Sugestões de textos para a oração: Gn 12,1-9; Is 43,1-7; Sl 22 e 138.
5. Espiritualidade do «mais»
O ser humano é um eterno insatisfeito. Tendo sua origem no Absoluto, tende
sempre para o Absoluto e nada criado pode satisfazê-lo inteiramente. Todos os
seus desejos são expressões limitadas do seu desejo ilimitado de Deus. Seu
coração, como uma bússola, aponta sempre para Deus, o Norte da sua vida. Porque
está indestrutivelmente polarizado por esse Norte, nenhuma outra escolha que
tente polarizá-lo, aquietará seu coração. Como todos os santos, Inácio foi um
«Peregrino do Absoluto».
«Fizeste-nos, Senhor, para ti; e o nosso coração estará sempre inquieto até
descansar em ti», escreveu Santo Agostinho no fim do primeiro parágrafo das suas
Confissões. Inácio foi também um mestre da inquietude cristã, do amor sempre
in-quieto, do desejo sempre in-satisfeito, da busca nunca terminada. Depois de
ter feito a experiência do encontro com Deus, buscou incessantemente o «Deus
sempre maior»; procurou sempre, apaixonada e incansavelmente, o maior serviço, o
bem mais universal, a maior glória de Deus.
A finalidade dos Exercícios é levar as pessoas a fazerem a experiência da
entrega de suas vidas a esse «Deus sempre maior». O exercitante que entrar nos
Exercícios «com grande ânimo e generosidade» é convidado a entrar no dinamismo
do «mais» já no primeiro exercício. A petição feita no início de todas as
contemplações dos mistérios da vida pública de Jesus é sempre a mesma: um
conhecimento cada vez mais profundo e mais íntimo de Jesus Cristo para mais
amá-lo e mais segui-lo. Quem é agraciado com essa graça, não descansa mais no
serviço de Deus e dos irmãos; não se instala, não se aburguesa; nunca pensa que
amou bastante ou que serviu bastante; nunca envelhece.
6. Espiritualidade do discernimento
O processo da eleição encontra-se no centro mesmo da estrutura e da dinâmica dos
Exercícios. É aqui onde Santo Inácio é mais original e inovador, em comparação
com as concepções dominantes na época sobre a busca da vontade de Deus e sobre a
perfeição cristã. Para ele não há, a priori, nenhum estado de vida mais perfeito
que outro. Todos os cristãos são chamados à santidade. Ela consiste em viver a
fidelidade à vontade de Deus na vida de cada dia.
A vontade de Deus é descoberta no confronto da «objetividade» dos relatos da
vida de Jesus, que o exercitante contempla, com as moções suscitadas pelo
Espírito na sua «subjetividade» e particularidade de sua vida. As «regras para
os discernimento dos espíritos» e as outras orientações oferecem ao exercitante
critérios de verificação das suas moções e opções, alertando-o sobre possíveis
enganos e ilusões e movendo-o à ousadia de «deixar-se guiar» pelo Espírito.
Ao contrário do que não raras vezes se afirma, a espiritualidade inaciana não é
racionalista nem voluntarista. É uma espiritualidade de purificação dos desejos
e de libertação da liberdade. A finalidade dos Exercícios é sintetizada, no fim
da primeira anotação, nestes termos: «... preparar e dispor a alma para tirar de
si todas as afeições desordenadas e, afastando-as, procurar e encontrar a
vontade de Deus na disposição da vida». Porque fomos feitos para amar, não
podemos viver sem afetos. O problema é que estes podem ser ordenados ou
desordenados. Por isso Santo Inácio insiste tanto na necessidade da sua
purificação e ordenação. Se não atingir os afetos, a conversão não será
duradoura. Quando, pelo contrário, o desejo é libertado das «afeições
desordenadas», adere, na eleição, àquilo que se manifestar como sendo a vontade
de Deus.
Para buscar e encontrar a vontade de Deus é necessário discernir os espíritos e
deixar-se conduzir pelo Espírito, o qual nos remete sempre às palavras e às
ações de Jesus. O exercitante descobre a vontade de Deus na sua própria vida, as
formas concretas do seguimento de Cristo e os caminhos concretos da missão
contemplando os mistérios da vida de Jesus. O resultado de todo esse processo de
purificação, de contemplação e de eleição é a «mística do serviço».
7. Espiritualidade mundana: «Buscar e encontrar a Deus em todas as coisas»
O Deus transcendente revela-se na nossa história como o Deus «condescendente»,
que desce, que «descende», até nós. E quando nos abrimos à comunhão com ele, não
somos aniquilados, mas alcançamos nossa plena realização. Todos os Exercícios,
desde o primeiro, o «Princípio e fundamento», até o último, a «Contemplação para
alcançar amor», são, de uma ou de outra forma, exercícios de libertação da
própria liberdade para poder «encontrar a Deus em todas as coisas» e viver a
comunhão com Deus. Privados da relação e da comunhão com Deus, constitutivas do
nosso ser, andaremos sempre errantes e todas as nossas escolhas serão limitadas,
insatisfatórias e descartáveis. Se, pelo contrário, buscarmos, encontrarmos e
praticarmos a vontade de Deus, nossas opções e ações serão expressões da
comunhão com Deus e com suas criaturas.
Da experiência de amar a Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus,
nasce uma espiritualidade radicalmente mundana, de contemplação do mundo e de
ação no mundo. Libertado da relação egoísta com as criaturas, o homem torna-se
um orante e um cooperador permanente do projeto salvífico de Deus.
Na primeira contemplação da segunda semana dos Exercícios a decisão da
encarnação do Verbo, pela força do Espírito, no seio de Maria de Nazaré segue-se
ao olhar da Trindade sobre o mundo. Se nos for dada a graça de fazer a
experiência da comunhão com a Trindade, também nós - como Inácio depois da
experiência mística junto ao rio Cardoner - veremos o mundo «com olhos novos».
Veremos o mundo como ele é visto pelo Pai que criou todas as coisas por amor;
como é visto pelo Filho, o Verbo eterno que assumiu a nossa humanidade e passou
pelos caminhos da nossa terra fazendo o bem a todos (cf. At 10,38); como é visto
pelo Espírito criador, santificador e vivificador.
Quem vê o mundo assim, com um olhar singular e universal, amoroso e esperançado,
libertador e integrador, torna-se um «contemplativo na ação». Quem contempla,
ama e serve assim, vive enraizado no mistério da vida trinitária e, ao mesmo
tempo, mergulhado nas tarefas cotidianas, sejam elas consideradas muito
importantes ou insignificantes.
O mesmo Inácio que depois da conversão percorreu, «sozinho e a pé», os caminhos
da Europa e da Palestina durante 16 anos como «o Peregrino», passou os restantes
18 anos de sua vida em Roma, só saindo da cidade 4 vezes. A «mística de
serviço», a busca da «maior glória de Deus» revestiam
Nos escritos de Santo Inácio encontram-se, repetidas muitas vezes, as frases:
«Buscar e encontrar a Deus em todas as coisas» e «Ter sempre Deus diante dos
olhos». Para caracterizar sua mística e sua ação, Nadal, um dos seus
companheiros, cunhou a frase: «Contemplativo na ação». Estas três frases resumem
a espiritualidade inaciana.
8. Atualidade da espiritualidade inaciana
A espiritualidade inaciana, cujos traços essenciais tentamos mostrar, continua a
ser importante para a Igreja de hoje e de amanhã? Continua sendo atual num
contexto cultural em que as pessoas buscam a satisfação de suas necessidades
religiosas numa religião de «Shopping Center», consumista e individualista?
Continua sendo atual e importante num mundo em que tantas pessoas buscam refúgio
e segurança em espetáculos religioso-terapêuticos massivos, por não suportarem a
silenciosa solidão diante de Deus?
A meta última da missão da Igreja é a comunhão com Deus. Essa deve ser
igualmente a meta de toda pastoral da Igreja digna desse nome. Se não visarem a
alcançar esse fim, serão inúteis todas as formas de piedade, sejam elas
tradicionais ou modernas; todas as formas de «obediência» que se limitam a
cumprir normas ou determinações de «aparatos» ou de «funcionários»
eclesiásticos; assim como todas as formas de teologia, sejam elas conservadoras
ou modernizantes, que não descem do nível da teoria assepticamente abstrata.
A finalidade da espiritualidade inaciana é, como vimos, ajudar as pessoas a
fazerem uma experiência pessoal de Deus, vivendo e agindo no mundo. Por isso ela
será sempre atual. Considerando suas características e as características
culturais das sociedades em que vivemos, talvez possamos dizer que sua
importância e sua atualidade são ainda maiores hoje do que no passado.
Sugestões de textos para a oração: Gl 2,20; Fl 1,21; 3,8.12-15.
Segue texto do Dicionário de Espiritualidade, Edições Paulinas, 1989.
EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS
A expressão "exercícios espirituais" (EE) evoca idéias e imagens que entusiasmam
uns e aborrecem ou entristecem outros. Encontro
pessoal com Deus, conhecimento "espiritual"
do Verbo encarnado, animação e
direção do Espírito, busca e descoberta da própria identidade em Deus...
são realidades vividas por quem teve a sorte de assistir a um curso de EE
dirigidos e feitos com seriedade e compromisso.
I.
Referências históricas
A expressão obteve êxito definitivamente com
Inácio de Loyola. Mas já antes os crentes se "isolavam"
para refletir e rezar.
1. Na Bíblia
—
No AT, Abraão (Gn 12,1),
Moisés (Ex 3,1-6; 19,3-25), Elias (1Rs 19,1-8) foram
chamados por Deus a um encontro pessoal. Desde o princípio, Deus é
quem "atrai e guia ao deserto para falar ao
coração" (Os 2,16).
O chamado para o "deserto" como lugar de
oração está presente também no NT desde João Batista, a quem foi dirigida
a palavra de Deus durante sua permanência "no deserto" (Lc 3,2; cf. 1,8). A
solidão atraía o próprio Jesus. Particularmente significativo é o fato de que,
no começo de sua vida pública, "foi conduzido pelo Espírito através do deserto
durante quarenta dias e tentado pelo diabo"
(Lc 4,1-2). Foi um dos momentos mais intensos de sua vida; naquela
ocasião, o homem Jesus aceitou o projeto do
Pai sobre o modo da redenção. Em resumo: orar é
encontrar-se com Deus para conhecer e aceitar
sua vontade de salvação e os meios de que
servir-se.
A comunidade cristã primitiva oferece não poucas experiências de EE. A mais
interessante é a dos primeiros cristãos: com Maria, mãe de Jesus, "perseveravam
unânimes na oração" (At 1,14). Foi uma experiência magnífica e privilegiada
de... EE feitos para dispor-se a receber o Espírito Santo, o "dom" que haveria
de marcá-los e lançá-los definitivamente.
Experiências análogas foram vividas pela comunidade
depois que se ampliou com a chegada de
novos convertidos: "Eles
mostravam-se assíduos ao ensinamento
dos apóstolos, à comunhão fraterna, à
fração do pão e às orações" (At 2,42). Além
da assiduidade e da concórdia na oração,
temos, pois, a escuta da palavra e a fração do pão, no clima de caridade
fraterna.
2. Antes de santo Inácio
—
Os monges, já
desde os primeiros séculos, se dedicaram aos
diversos "exercícios" de oração e de vida cristã, bem isolados nos
lugares ermos (ermitãos), de modo bem comunitário nas "lauras" (anacoretas)
e nos mosteiros ou cenóbios
(cenobitas). Santo Eutímio, o
Grande, (+ 473), por exemplo, considerado o fundador das lauras da
Palestina, promoveu de modo particular o "retiro" durante a quaresma.
Na Idade Média, Muitos mosteiros destinaram celas e até "ermos" para os que
desejavam dedicar-se à oração durante determinado período, com o fim, por
exemplo, de obter uma graça especial ou de se dispor a receber um cargo ou um
ministério.
Desde fins do séc. XIII até o séc. XVI ocorreu,
sobretudo na Europa, progressiva decadência
do espírito cristão e da prática religiosa. Para
reagir contra o perigo do laicismo e do naturalismo,
promoveu-se a meditação cotidiana metódica; até as grandes ordens religiosas
construíram "desertos" destinados à oração e à penitência.
Justamente depois de um retiro feito na Cartuxa de Colônia, o fundador da
Devotio moderna,
Gerardo Groote (+ 1384), dedicou-se a este
movimento de renovação religiosa. Sua espiritualidade, divulgada principalmente
pela celebérrima De imitatione Christi, de Tomás Hemerken de Kempis (+
1471), caracteriza-se, no plano do conteúdo, por uma ardente devoção a
Jesus, e, no plano do método, pelos exercícios relativos às diversas
faculdades. Datam desses tempos as obras
De spiritualibus ascensionibus,
de Gerardo de Zutphen (+ 1398) e
Rosetum exercitiorum spiritualium de Mombaer ou Mauburnus
(+ 1494). Outras obras de enorme importância foram o Ejercitatorio, de
Garcia de Cisneros (+ 1510), e a Vita
Christi, de Ludolfo de Saxônia (+ 1377).
Graças sobretudo a tais obras, divulgou-se pe
Assim pois, os EE não só têm conteúdos, mas
também técnicas precisas e até o nome específico, mesmo antes de Inácio de
Loyola. Que acrescentou a eles, então, o patrono dos EE?
a) As experiências de Loyola.
Os exemplos dos
santos estimulam-no, arrastam-no, fazem-no desejar
aventuras totalmente diferentes das anteriores.
Mas, de um momento para outro, não se podem apagar vinte e seis anos de
vida. Pensamentos disparatados e opostos se sucedem; algumas
vezes se sente contente e entusiasmado, outras vezes, triste e fechado em
si mesmo. Num primeiro momento, não se preocupou com o significado de tais
estados de ânimo tão variados. "Assim que se lhe abriram um pouco os olhos e
começou a espantar-se com esta diversidade
e a refletir sobre ela, aprendendo por experiência própria que com uns
pensamentos ficava triste e com outros alegre, pouco a pouco
passou a conhecer melhor a diversidade dos espíritos que se agitavam: um
vinha do demônio e o outro de Deus". Inácio descobrira um dos mais originais
elementos constitutivos dos seus EE.
De Loyola foi ele a Montserrat, onde "se confessou
por escrito, numa confissão geral que durou
três dias", e a Manresa, onde permaneceu
de 25 de março de
Os ensinamentos de Manresa.
Depois de narrar outras numerosas experiências, que
registrará rigorosamente no livrinho dos
EE, Inácio escreve: "Deus o tratava da mesma maneira
com que um professor de escola trata uma criança, ensinando-lhe"; e
enumera cinco ensinamentos, dos quais o quinto se reveste de particular
significado para nós. O penitente de Manresa encontrava-se às margens do Cardoner.
Em determinado momento, abriram-se para
ele "os olhos do entendimento", passando a
"entender e conhecer muitas coisas,
tanto coisas espirituais, quando
coisas da fé e das letras, com clareza tão grande que todas lhe pareciam
novas". Foi nessa ocasião que aprendeu a discernir melhor os espíritos; foi
então que
"Deus lhe concedeu conhecimento profundíssimo
e vivo sentimento dos mistérios divinos e da Igreja, transmitiu-lhe os
Exercícios e lhe mostrou, nas meditações do reino e das duas bandeiras, a
finalidade de sua vida". Numa palavra, às margens do Cardoner, "seu
entendimento foi de tal maneira iluminado que parecia outro homem e com outro
entendimento".
Os EE, em sua parte
"substancial", eram coisa feita.
Depois de serem submetidos muitas vezes, junto com seu autor, a repetidos
exames em diversas cidades da Europa e,
em particular, em Alcalá, Salamanca, Paris,
Veneza e Roma, foram definitivamente aprovados por Paulo III a 31 de
julho de 1548 com o Breve
Pastoralis Officii.
II. O conteúdo
Os EE não têm, nem podem ter, muito de original do ponto de vista do conteúdo.
Basta pensar
que em três quartas partes (II, III e IV semanas) apresentam a vida de Jesus.
Não é, porém, menos verdadeiro que os EE são de originalidade única, tanto
porque Inácio neles infundiu suas intuições
e suas experiências, quanto porque soube relacionar e amalgamar suas
diversas etapas, e estruturar o conjunto,
de forma altamente unitária e sistemática. A adaptação e a possibilidade
de graduar os elementos mais centrais da
mensagem cristã contam-se entre os méritos mais originais do método.
1. 0 fim dos EE
—
Inácio fala de quatro etapas (EE 4), que
correspondem: a primeira à via
purgativa, a segunda à via iluminativa, a terceira e a quarta à via
unitiva (EE 10). No começo do livrinho, nas Anotações, temos indicações
concisas e claras sobre o método e a natureza dos EE: uma série de "atividades
espirituais" com um fim (EE 1). 0 exercitante que, em colaboração ativa,
consente em deixar-se "pilotar" (evidentemente
e sobretudo, pelo Espírito de Deus),
chegará a "vencer-se a si mesmo e a ordenar a sua vida sem determinar-se
por nenhum afeto desordenado" (EE 21); através de uma série
de
exercícios,
amadurecerá sua abertura e sua
aceitação do plano divino.
2. Processo de purificação e dimensão sacramental
—
A I semana tem como fim principalmente
"situar" o exercitante na história da
salvação: Qual é sua relação com o Salvador? A experiência, tão
drasticamente descrita por Paulo (Rm
7,14-25), convence-nos de que em cada
homem forças desagregadoras levam a fazer o que não se quer. Desta
maneira, forma-se e acentua-se até impor-se
de modo inegável à medida que se progride na oração, a necessidadede
Salvador. Na realidade, o homem, chamado a
abrir-se a Deus, libertando seu espírito de tudo o que possa distraí-lo
desta relação realizadora (Princípio e
Fundamento: PF), encontra-se na I Semana, timidamente dobrado sobre si
mesmo, separado de Deus, irrealizado. E a experiência — para Inácio elemento
primordial deste surpreendente mosaico — dos anjos que
se revoltam contra Deus, de Adão e Eva, de
um pecador qualquer, do próprio exercitante.
O
terceiro exercício examina, de maneira mais direta, as causas do pecado; na
oração, que se torna cada vez mais
insistente, pede-se a graça de
conhecer
os pecados, a desordem e o mundo,
e a graça de detestá-los e de reequilibrar-se. Chega-se, assim, a
experimentar as condições melhores para ter
acesso aos sacramentos da penitência e da eucaristia; é a dimensão sacramental,
para a qual, conforme se mostra claramente desde o começo da etapa (EE 4; cf.
18; 20 e 354), tudo deve convergir. A I Semana se
encerra com uma visão escatológica que, se,
de um lado, é particularmente traumatizante, de outro (e é este o
objetivo pretendido), abre de maneira definitiva a Cristo Salvador o exercitante.
A meditação do inferno, de fato, ajuda não só "a não cair no pecado" se,
porventura, "por causa de minhas faltas eu me esquecesse do
amor do eterno Senhor" (EE 65 c), mas também
e sobretudo a fixar bem na memória e no coração que "Cristo nosso Senhor... não
me deixou cair" no inferno, "acabando minha
vida" (EE 71 b). A conclusão: dar
graças a Jesus porque "até agora sempre teve tanta piedade de mim e tanta
misericórdia" (EE 71 c). Neste ponto seria preciso estar verdadeiramente
pronto para entrar definitivamente pelo caminho da maravilhosa
aventura cristã.
Busca da própria identidade e dos próprios
valores pessoais —
A II Semana, depois
de haver insistido oportunamente na
prontidão, na diligência e na entrega incondicional (EE
91-94), apresenta ao exercitante, numa visão
sintética, o plano de Jesus: salvar o
mundo seguindo a Ele. A visão
apostólica assume significado e
amplitude com as contemplações da
Encarnação,
do Natal,
da
vida oculta.
Com Jesus, que se encarna e vive de
acordo com opções bem definidas e incentivadoras, o exercitante pode fazer suas
opções, tomar consciência do seu lugar no corpo místico de Cristo e descobrir
sua identidade. O processo de purificação e
de aperfeiçoamento, iniciado com o
PF, particularmente mantido presente
durante a I Semana, continua agora à luz deslumbrante dos exemplos do
Salvador; pouco a pouco, por via de assimilação
vital, graças à ação do Espírito, o
exercitante pode assumir como suas as opções de Jesus.
A trilogia da II Semana (Bandeiras, Binários,
Três colóquios)
apresenta, de modo definitivo e
inequívoco, o caminho (cf. At 19,9). 0 conhecimento
não só dos pecados e das fraquezas, mas também das tendências e das
aspirações, a experiência das consolações, das desolações e do discernimento, a
constante atenção a ser mantida em
equilíbrio e, sobretudo, o deixar-se guiar pelo Espírito de Deus
constituem as condições ideais para ver e avaliar (cf. Lc 14,28ss), para buscar
e encontrar vontade divina.
De tudo o que se disse até agora, facilmente pode-se deduzir que a instância
personalista se integra bem na comunitária. Também na visão
inaciana Deus faz "sinais" para o
indivíduo: mas fá-lo para introduzi-lo
no "corpo", para levá-lo a tomar
consciência de que é membro do povo. Tudo, desde o princípio dos EE,
induz o exercitante a aceitar a vocação pessoal e a viver segundo ela; não só
para realizar-se a si mesmo, como também a fim de contribuir para o bem dos
irmãos. O exercitante de Inácio descobre que foi criado e, portanto,
dotado de capacidades particulares;
redimido e, portanto, reabilitado e chamado para dar sua contribuição
pessoal para a promoção humana integral; animado pelo Espírito e,
portanto, dotado também de carismas
particulares que o tornam apto e pronto para cumprir a tarefa a que a
Providência o destinou (cf. LG 12). Em outros termos: se é verdade
que Deus o chama, é igualmente verdade que o homem é dotado de patrimônio
pessoal, com vistas a uma missão de
libertação e de salvação. São esses os elementos que os EE, bem
dirigidos, fazem emergir e amadurecer.
Mas como, concretamente, ocupar-se da própria missão e viver segundo ela?
4. "Em" e "com" Cristo para vitalidade do
corpo místico
—
A medida que a vida de Jesus
vai pouco a pouco passando diante dos olhos
atentos do exercitante, o quadro dentro do qual
deve comprometer-se vai adquirindo contornos
cada vez mais claros e definidos; vivemos tanto
mais intensamente quanto mais nos damos a
Deus a aos irmãos no estado querido por Deus, "bem enraizados e
edificados" em Jesus (Cl 2,7). Jesus,
considerado durante a I Semana como restaurador da imagem do Pai,
contemplado na II como o modelo em que o exercitante deve inspirar-se para
realizar da melhor maneira possível o plano do Pai, terá que ser assimilado,
mediante permanente e profunda "simpatia",
durante a III Semana, a tal ponto que ele possa afirmar com são Paulo:
"Estou crucificado com Cristo e já não sou eu que vivo, é Cristo
quem vive em mim" (Gl 2,20). Por isso, pedirá "dor com Cristo doloroso,
sofrimento com Cristo sofredor, lágrimas, penas internas por
causa de tantas penas que Cristo suportou
por mim" (EE 203).
E a semana da eucaristia e, portanto, da união
mais íntima que se possa conceber. E o tempo
da reflexão sobre as grandes revelações do Amor: "Estou
É também o tempo da compreensão do mistério da T cruz como meio privilegiado
escolhido por Deus para a redenção do
mundo. Em toda contemplação (EE 204) o exercitante, além
de "considerar como (Jesus) padece
tudo isso por meus pecados etc" (EE
197), deve perguntar-se também: "que
devo fazer e padecer por ele"? (ib.). Isso significa que deve 'ver a
maneira como realizar a missão a que é chamado para o bem do corpo místico. Em
contato, ou melhor, em íntima união com Jesus, que "salva" e "eleva" sofrendo e
morrendo, também ele deve "fazer e padecer" algo; deve adotar o objetivo, como
igualmente o estilo e os meios de Jesus; deve,
à luz de ensinamento preciso da Sagrada Escritura e de são Paulo em
particular, consentir em completar em sua
carne "o que falta das tribulações de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja"
(Cl 1,24); deve, por exemplo, aceitar o eventual convite para "compartilhar" da
vida dos marginalizados.
Habitado pelo Espírito, dotado de dons e de
carismas particulares, o exercitante da IV Semana não pode deixar de
"dizer" sua alegria de estar e de sentir-se salvo; não pode deixar de saborear
a honra de saber-se associado à obra da salvação; não pode deixar de
"dar-se" — também para imitar o Ressuscitado e assemelhar-se a ele, o
Ressuscitado que exerce "o ofício de consolador" (EE 224) — em favor da
edificação do corpo místico, com alegria e
entusiasmo. Na maturidade, que é fruto da ação divina, recebida com
plenitude de docilidade e de amorosa atenção, sentirá a exigência do coração —
estamos na contemplação final proposta por
Inácio — de se encontrar com o Senhor, que cumula de toda espécie de dons
e que também se doa (EE 234) com sua
presença (EE 235) e com sua ação (EE 236); verá em todas as coisas, em cada
conhecimento, em cada homem, as pegadas do Amor e, como conseqüência,
adorará, louvará e agradecerá (EE 237). No
desejo, cada vez mais vivamente
percebido, de estar "com" e "em" Deus — porém sempre dando atenção à
purificação necessária e permanente (EE 238248)
—, terá cada vez mais presentes diante dos
olhos o Pai, o Filho, o Espírito e a
Virgem... e se sentirá como "família" deles (EE 249-257); tê-los-á no
coração e nos lábios (EE 258-260). Mas não de maneira romântica e leviana,
porque sabe que "o amor deve ser colocado mais
nas obras do que nas palavras..." (EE
230-231).
III. O método
Fazemos referência somente a alguns dos elementos
que constituem a força do método inaciano,
tornando-o extremamente atual e válido.
3. Em colaboração ativa
—
Inácio estimula o exercitante a se
comprometer e a colaborar com a graça de Deus. O princípio é tão claro
e tanto se insiste nele, que não poucos já têm acusado nosso autor de
voluntarismo. Na realidade, algumas de suas expressões, sobretudo
quando retiradas de seu contexto, prestam-se
a acusação deste teor. Para resolver esta dificuldade, é
necessário "compreender" a breve frase que
serve de introdução ao pedido da graça própria de cada exercício, a qual
é repetida, com ênfase única, desde a
primeira (EE 48) até a última (221) meditação ou contemplação: "pedir
o que quero", ou então "suplicar a graça que quero" (91 c) ou, numa forma
mais completa: "suplicar a Deus nosso Senhor o que quero e desejo" (48).
Em outras palavras, Inácio está convencido de que tudo é dom de Deus e de que
nenhum fruto pode amadurecer quando Deus não
o concede. Por isso, nos momentos
mais importantes dos EE, ele convida a insistir na oração, interpondo
também a mediação de Jesus e da Virgem Maria (EE 63 e 147).
Isso, porém, não significa passividade nem quietismo. A experiência dos EE de um
mês é somente para pessoas maduras, isto é,
para pessoas capazes de compromisso e
de colaboração, que pedem o que querem e desejam, mas também querem
e desejam o que pedem; que fazem tudo o que está a seu alcance e tudo
o que delas é exigido para se abrirem à graça. O Deus
que Inácio apresenta é um Deus que respeita
a liberdade e a capacidade humana concreta; dirigimo-nos a ele não só
para pedir que "queira mover minha vontade e pôr em minha alma
o que devo fazer sobre a coisa proposta" (EE
180), mas ainda para dizer: "Eterno Senhor de
todas as coisas, com teu favor e ajuda faço
a minha oblação...; quero e desejo e é minha determinação
deliberada..." (EE 98); não só para oferecer a escolha ou eleição, feita
depois de haver "discorrido e raciocinado sob todos os aspectos sobre a coisa
proposta" (EE 182), mas também para pedir-lhe que "a receba e a confirme, se for
para seu melhor serviço e maior louvor" (EE 183).
4. Unidade de atmosfera
—
Durante os EE é necessário afastar-se "de todos os amigos e conhecidos e de toda
solicitude terrena" (EE 20), para ir a outra casa ou residência, para aí
permanecer o mais secretamente possível" (ib.).
Além do isolamento, requer-se também e
sobretudo o recolhimento. Justamente
para isso é que se escolhe aquilo;
afastamo-nos para concentrar "toda a atenção numa só coisa" e, por
conseguinte, exercer mais livremente as faculdades
naturais (ib.).
Isto suposto, sempre com a ajuda de Deus, terá
que procurar não tanto "conhecer" quanto
"compreender", porque "não é o muito saber
que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e
saborear as coisas interiormente" (EE 2); por isso, uma vez encontrado o
"ponto" sobre o qual refletir e orar,
"repousarei nele, sem ânsia de passar adiante, até que me satisfaça" (EE
76).
Graças também a este modo de proceder, a
esta fidelidade ao homem, isto é, a seus processos
de assimilação e de amadurecimento, poderá o discípulo de Inácio
amadurecer verdadeiramente em disposições que o tornem atento e pronto para o
serviço e a maior glória de Deus.
IV. Os atores dos EE
Os verdadeiros protagonistas dos EE inacianos são o Espírito de Deus e o
exercitante. Em linhas gerais, quem os dá deve desempenhar
apenas tarefa de iniciação e de discreta
assistência.
1. O Espírito de Deus
—
Aquele que, pelo contrário, deve dominar o campo, do princípio
ao fim e durante toda a vida (e de maneira
consciente, uma vez que já se tenha
tido a experiência dos EE), é o Espírito Santo. Os EE têm, na realidade,
antes de mais nada, o objetivo de colocar o exercitante em sintonia com o
Espírito de Deus, para conhecer sua vontade realizadora e, depois, focalizar a
vida segundo o plano paterno.
Em cada uma das fases dos EE, desde o princípio, é mister criar as condições
requeridas para
que o exercitante seja "iluminado pela virtude divina" (EE 2); para que o
Criador possa comunicar-se e agir "imediatamente junto à criatura" (EE 15),
mover a vontade e incutir na alma o que é preciso escolher" (EE 180).
2. 0 exercitante
—
Muitos dos elementos que lhe concernem já foram tratados e destacados.
Recordemos aqui a sugestão de iniciar os EE
"com coração aberto e com generosidade",
oferecendo-se a si mesmo e as próprias coisas ao Senhor (EE 5), isto é, fazendo
aquele ato de fé mediante o qual "o
homem se abandona a Deus inteira e livremente" (DV 5).
No curso dos EE, o exercitante terá que discernir todas e cada uma das partes da
vocação cristã, captar os conteúdos da vontade paterna
e escolher, libertado de tudo o que não é
Deus e totalmente aberto a ele. No fundo, tudo se reduz
ao seguinte: ter capacidade de reflexão e de decisão ponderadas,
comprometer-se sinceramente a fazer a
experiência proposta por Inácio, "querer" seguir o Senhor.
Em suma, os EE supõem certa maturidade,
tanto humana quanto cristã. Justamente no n.
649 das Constituições da Companhia,
Inácio escreve: "Geralmente, não se darão mais do que
os Exercícios da I Semana; e, se forem dados
por inteiro, será para pessoas escolhidas ou para
quem deseje tomar uma decisão a respeito do estado de sua vida".
3. Quem dá os Exercícios
—
Este deve, primeiramente, lembrar-se de que ocupa lugar de segundo plano em
relação ao Espírito de Deus; por isso,
sobretudo em algumas circunstâncias,
deve simplesmente desaparecer (EE 15). Em todo caso, a sua é tarefa de
presença discreta e paterna. Além de dar os "pontos", deve
adaptar, sustentar, animar e vigiar para
que os exercitante não formule propósitos exagerados, não seja indiscreto
na escolha ou eleição dos meios, não se
esgote... Principalmente deve ajudar
a discernir os espíritos. É o
que se deduz também do parágrafo seguinte.
V. Elementos sintonizantes com o plano do Pai
O Espírito que habita em nós ensina, recorda
e guia. O homem, no entanto, geralmente falando,
não procede por via de intuição. Conhecer, compreender, desejar, querer, agir
são atividades que requerem tempo e levam às
vezes a longos processos de assimilação, de amadurecimento e de decisão.
1. Sentir e saborear
—
Também para isto Inácio quer se "sinta" e se "saboreie" (E 2), que nos
detenhamos somente numa parte de alguma verdade, que voltemos com constância e
perseverança, cotidianamente e em diversas ocasiões, a rever tudo o que
anteriormente saboreamos, pouco ou muito.
As repetições, os resumos, as
aplicações dos sentidos são habituais nos EE, do primeiro ao trigésimo
dia. Além disto, no fim de cada meditação ou contemplação
é mister refletir para ver "como me saí"
(EE 77), e, duas vezes por dia, examinar-me para fazer uma observação
posterior sobre as moções de Deus. Neste clima, saturado de graça divina
e de esforço humano, esperar-se-á o momento oportuno para procurar e encontrar a
vontade de Deus. Inácio fala disso desde o n. 175 até o n. 189, descrevendo seus
tempos; o primeiro ocorre quando Deus "chama" de maneira inteiramente clara e
inequívoca (EE 175); o segundo, quando nos servimos das experiências das
consolações, das desolações, do
discernimento (176); o terceiro,
quando se descobre a vontade divina "raciocinando". Falaremos brevemente
dos dois últimos.
4. As regras para sentir com a Igreja
—
Entende-se que, neste trabalho de busca, às vezes
complexo, é necessário deixar-se ajudar (condição
para não vagar na escuridão) e "escutar" aqueles a quem o Senhor confiou a
tarefa de guiar-nos: "É necessário que todas as coisas so-bre
as quais queremos fazer escolha (eleição) [...] militem dentro da santa
madre Igreja hierárquica" (EE 170); é mister "ter o ânimo preparado e pronto
para obedecer em tudo à verdadeira esposa de Cristo nosso Senhor, que é
nossa santa madre Igreja hierárquica"
(353). Em resumo, o pensamento de Inácio, solidamente fundamentado na
Sagrada Escritura também neste ponto, harmoniza-se com tudo o que a Igreja
ensina a propósito da autenticidade e do uso dos carismas: "0 julgamento de sua
autenticidade e de seu exercício razoável
compete aos que têm autoridade na Igreja, aos quais cabe,
antes de mais nada, não sufocar o Espírito,
mas provar tudo e ficar com o que é bom (LG 12).
P. Schiavone
VI. EE: Novas experiências
Em nosso tempo existem duas tendências relativas aos EE que aparentemente se
contradizem, mas que no fundo se integram. De um lado, sente-se a necessidade de
continuar a sua prática, porque eles supõem mesmo hoje uma graça eclesial; e, de
outro, a necessidade de renová-los, ainda que com o risco de retocar a
sua essência. Estas breves considerações
pretendem analisar os esforços de renovação e as novas formas mediante as
quais se traduz a experiência original de santo Inácio.
1. Exigências de renovação
— O
Concílio Vat. II constitui ponto de
referência obrigatório, quando se fala de "renovação" e de "atualização".
Mais do que o concílio em si, conta a nova mentalidade que os documentos
conciliares assumem, sintetizam e comentam, sobretudo encarando perspectivas do
futuro. São muitas as causas que influíram na "nova mentalidade"
e que obrigaram os pastoralistas a rever
a trama dos Exercícios inacianos. Algumas
idéias adquiriram especial
relevância e incidem na renovação do método: as categorias do encontro,
a relação e o diálogo,
a dinâmica de grupos,
o novo sentido da comunidade,
que dificultam e questionam a solidão, o silêncio, o diálogo pessoal
com Deus impregnado de individualismo, tão necessário nos clássicos EE.
Mais profunda incidência sobre os EE têm tido a renovação teológica, as
exigências da pastoral e a catequese, as
novas ciências do homem, como a
sociologia religiosa, a antropologia, a psicologia
profunda, a psicologia social etc. E até a situação de injustiça em
muitas partes do mundo, que é interpretada, partindo dos conteúdos da fé, como
denúncia profética. Este complexo mundo de idéias obrigou a procurar
adaptações para os antigos caminhos e métodos espirituais.
Para não sair do mencionado Concílio Vat. II
como impulso renovador dos EE, lembro um fato
sintomático. Poucos meses depois do encerramento do concílio, em agosto de 1966,
realizou-se em Loyola um Congresso
Internacional de Exercícios, que fora precedido de
Inquérito (pesquisa de opiniões), também de âmbito internacional, sobre o
mesmo tema. A finalidade do congresso era
clara: adaptar o método, as idéias
inacianas, à nova teologia do concílio. Este fato confirma tudo o que foi
dito no princípio: validez dos EE, mas também urgência de atualização.
2. Formas novas dos EE —
A renovação dos
EE atinge o método e a exposição de temas, sem
trair, porém, a finalidade primordial dos mesmos, que é a de conseguir
experiência de Deus que conduza à conversão.
a) Exercícios espirituais na vida corrente
—
Na realidade, não se trata de inovação, mas de volta ao que há de original nos
EE, já iniciada por Inácio e depois decaída
Exige-se, em primeiro lugar uma seleção de
candidatos, que possuam capacidade
de reflexão e concentração numa idéia, para se deixarem
dominar por ela durante os trabalhos e ocupações
do dia. Com eles o diretor tem encontro prévio para lhes explicar o
sentido da experiência. Fundamentalmente, o
método se baseia no princípio psicológico de que, durante o dia,
o homem normal não emprega toda a sua capacidade
mental e afetiva nos trabalhos que realiza; de que existem espaços interiores
mortos, ou pelo menos vazios. Ora, o diretor
introduz no exercitante uma idéia "preocupante", que o acompanhe, que vá
amadurecendo até dominá-lo totalmente e
convertê-lo a ela. Esta idéia convive com ele, sobrevive em meio às
preocupações e aos trabalhos normais de cada dia. Por
exemplo: Deus é meu pai; os homens são meus
irmãos; Cristo vive presente, encarnado entre nós, nos pobres, na
Eucaristia etc. Além desta preocupação fundamental, o exercitante necessita de
algum espaço livre para poder concentrar-se
melhor no tema de reflexão do dia ou da semana; e também de um tempo para
a oração pessoal.
O método é extremamente personalizado, requer
controle metódico por parte do diretor, uma revisão freqüente, porém
constitui algo mais do que a clássica "direção espiritual". Pode ser uma boa
experiência religiosa para cristãos muito ocupados, que não dispõem do tempo
necessário para "retirar-se" em casas de espiritualidade,
ou que querem sair da rotina dos EE organizados.
b) Exercícios
O homem moderno está acostumado a ter responsabilidades
sociais e religiosas e — quando se junta com
outros semelhantes — quer encontrar
o caminho da fé juntamente com eles, e não através de líder religioso. A
nova mentalidade gera cristãos novos, que se
expressam numa linguagem diferente e de modo mais livre. O grupo
compartilha a fé, expressa suas experiências religiosas. A busca comum
das soluções ajuda a amadurecer
cristãmente, a construir a Igreja. É tarefa comum que se realiza
O grupo não é numeroso e se fragmenta em pequenas unidades de trabalho, que no
fim comparam as conclusões a que chegaram. Os membros diretivos — que também
assistem — não são de maneira alguma protagonistas, po. rém especialistas a quem
se pode recorrer se surgirem dúvidas e problemas.35 O método é
complexo e custoso, mas vale como novidade
e experiência. Talvez se pudessem, futuramente, adaptar algumas técnicas
e idéias básicas. Uma metodologia combinada melhoraria a prática dos EE
clássicos.
c) EE e técnicas psicológicas.
Constitui uma novidade
metodológica incorporar algumas técnicas psicológicas, para eficácia maior,
como, por
exemplo, a
dinâmica de grupos,
contanto que não
se esqueça o fim primordial dos EE, que é a
"conversão" do exercitante, e que se pretenda
uma finalidade apostólica.
Também já se estão aproveitando os
valores terapêuticos dos EE,
por causa dos processos interiores que despertam. Assim, por exemplo, a
lembrança dos pecados e a meditação da paixão de Cristo, que
desencadeiam no exercitante lágrimas de dor,
têm certo paralelismo com a técnica
de criar no cérebro
"estereótipos dinâmicos de reação". Algo
praticamente igual ao
agere contra
dos EE de
santo Inácio, dinamismo interior
para lutar contra as más inclinações, é utilizado em psicoterapia para
sublimar o instinto de combatividade e assim
corrigir a afetividade mal orientada.
Aliás, tanto os EE quanto a psicoterapia pretendem a reorganização da
vida do indivíduo, submetendo as
forças desintegradoras da personalidade — instintos e afetos — para conseguir
atuação mais unitária, racional e integradora. Finalmente, tanto a psicoterapia
como os EE pretendem provocar imagens
contrárias às imagens que
anteriormente criaram a desarmonia da pessoa. Esta provocação voluntária das
novas imagens se realiza nos EE mediante as
meditações sobre o inferno, o céu, a
composição de lugar, as diferentes contemplações. Ao
mesmo tempo, os exercícios repetidos sistematicamente
geram no exercitante uma espécie de
neurose obsessiva transitória e
provisória, criando, com o tempo, "estereótipos dinâmicos corretivos".
d)
EE como práxis de libertação.
Mais do que novo método, esta
experiência promove a renovação da "temática"
dos EE, levando em conta a "teologia da libertação", muito atuante na
América Latina. As clássicas
meditações dos EE mudam e são
combinadas com outras mais de acordo
com a situação de injustiça em que vivem
muitos povos do Terceiro Mundo, para despertar no exercitante um espírito
solidário com os mais pobres e
marginalizados. Esta seria a conversão
ao Evangelho: amar os irmãos para
ajudá-los a conseguir a sua própria libertação.
Vivência e experiência do Cristo histórico, mas
sobretudo do Cristo total, que é a Igreja e a humanidade
sofredora. Segundo os promotores, ou
os EE suscitam este tipo de conversão ou são
"alienantes". Os temas tratados são uma síntese
da
espiritualidade da libertação,
que corresponde ao que querem despertar por
meio dos EE. Para que os EE surtam os efeitos
desejados, o exercitante tem de
passar antes por processo de
mentalização que o coloque a par e em dia a propósito das correntes e dos
postulados teóricos da teologia da
libertação, que possui sensibilidade
especial diante da injustiça. Para criar este ótimo clima interior são
dedicados os primeiros dias dos EE. que vêm a ser uma
espécie de pré-exercícios;
inicia-se depois o período propriamente de
Exercícios com a pregação seguindo uma ordem de temas, e culmina
com o compromisso assumido com os
pós-exercícios. Em resumo, trata-se de uma experiência
forte vivida durante um mês.38
e) Outras formas de EE.
Os EE têm muitas variedades,
se considerarmos como exercícios
alguns dias densos de espiritualidade, visando à
conversão a Cristo e ao Evangelho. Abandona-se,
por exemplo, a rígida forma inaciana e iniciam-se outras experiências que
dependem do diretor e do exercitante.
Muitos preferem fazer os EE "em
silêncio", com pouca ou nenhuma
pregação e muita reflexão pessoal; puro encontro
com Deus, com Cristo, na leitura da Palavra
de Deus, na celebração da liturgia, e com
o próprio eu. Isso não impede que, por alguns
instantes, se compartilhe com o grupo alguma
experiência. A "experiência do
deserto" de um
ou vários dias é outra formulação moderna.
Nestas ocasiões, escolhem-se a falta de comodidade,
a solidão plena, o cansaço físico, os longos
períodos de oração e de reflexão, como
meios para o encontro com Cristo ou para a escuta
do Espírito Santo. Podem-se combinar, também, dias de reflexão pessoal ou
comunitária, de convivência, com algum
dia de "deserto". Por
outro lado, o diretor também pode
abandonar os rígidos esquemas
temáticos inacianos, para
articular as meditações e reflexões segundo
um esquema doutrinário coerente
e atualizado, seguindo a doutrina de um ou de vários grandes
mestres espirituais, ou as tendências atuais da
teologia ou da espiritualidade. A
oração pessoal, feita em
silêncio e na solidão, segundo os métodos clássicos, pode ser intercalada com
experiências novas. Até o silêncio e a
solidão, típicos dos dias de "retiro", podem ser combinados
com encontros coletivos, em que se
faça revisão do que foi tratado durante o dia. Podem-se
utilizar também meios modernos para a exposição dos temas e para o modo
de fazer oração, tais como as imagens,
as montagens audiovisuais etc.
Enfim, nesta época de transição e de criatividade, o tema fica aberto a muitas
experiências novas, que ainda não
terminaram.
D. De Pablo Maroto