Oficinas de Espiritualidade - Textos para a Oficina de 31 de agosto.
A
Pe. Igresias
Quando Paulo perguntou aos Efésios se
haviam recebido o Espírito Santo, obteve uma resposta que muitos cristãos atuais
poderiam repetir: “mas nem ouvimos dizer
que haja um Espírito Santo!”.
No Antigo Testamento a presença do Espírito Santo foi limitada e fragmentada.
Começa a ser visto depois do Êxodo, mobilizando especialmente os profetas:
Enviou-me a anunciar a boa nova aos
pobres, a curar os quebrantados de coração (Is 61,1). Mas eram sempre
figuras isoladas e de forma transitória, na maioria das vezes apenas enquanto
durava a missão para a qual eram escolhidos. Depois da morte do último profeta
tornou-se opinião comum entre os rabinos que mesmo esta presença limitada teria
desaparecido. Esperava-se, entretanto, que nos tempos messiânicos o Espírito
Santo se derramaria sobre todo o povo, fazendo dele um povo de profetas.
Depois de séculos de ausência, voltamos a encontrar o Espírito Santo descendo
sobre Jesus no dia de seu batismo (Mt 3,16), não apenas para lhe encomendar uma
missão, ou enquanto durasse esta missão, mas de forma permanente e estável. Isso
ninguém tinha se atrevido a esperar. Vi o
Espírito descer como uma pomba, vindo do céu, e permanecer sobre ele (Jo 1,33).
Cristo não foi mais um profeta possuído pelo Espírito, mas o Senhor do Espírito.
Neste tempo pré-pascal, os evangelhos coincidem em elucidar que só Jesus possuía
o Espírito: ...pois não havia ainda
Espírito, porque Jesus não fora ainda glorificado (Jo 7,39).
Hoje sabemos que a ressurreição, ascensão e pentecostes devem ser considerados
como o desdobramento pedagógico de um único acontecimento que teve lugar no
instante mesmo da morte. Hipólito emprega uma imagem muito bonita: da mesma
forma que quando se quebra um vaso de perfume seu aroma se difunde em todas as
partes, ao romper-se o Corpo de Cristo na cruz, o seu Espírito, que enquanto
estava vivo possuía em caráter exclusivo, derramou-se pelos corações de todos.
Por isso Jesus dissera: É de vosso
interesse que eu parta, pois, se eu não for, o Paráclito não virá a vós. Mas se
eu for, enviá-lo-ei a vós (Jo 16,7).
O Pai enviou seu Filho ao mundo. Hoje tampouco podemos ver ou tocar o Filho,
porque como tal ele já partiu de nosso meio. Mas o Espírito Santo, que o Pai
enviou pelo Filho, foi o que ficou depois de sua morte. Esse Espírito já não é
apenas o Espírito do Pai, mas também do Filho, tendo a este ponto se tornado uma
coisa só. Paulo, que não conviveu fisicamente com Jesus afirma que mais
importante do que conhecer “Cristo segundo
a carne”, é poder dizer
já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive
Como muitos cristãos se esquecem da ação do Espírito Santo, podem pensar que a
história da salvação termina em Cristo. Os apóstolos, quando Cristo ascendeu aos
céus, deixaram de olhar para as nuvens, por onde desaparecia o Filho de Deus,
para olhar para a terra, onde havia de manifestar-se o Espírito Santo. A
história da salvação seguia adiante.
Vivemos o tempo do Espírito Santo!
O homem só pode motivar e falar de fora a outro homem. O Espírito, em
contrapartida, nos dinamiza a partir de dentro e nos fala na própria
consciência. O dia em que tomarmos
consciência de sermos habitados por Deus, será como se nascêssemos de novo.
Durante muito tempo os teólogos usaram uma linguagem abstrata ao tratar da
Trindade o que tornava este mistério insignificante para a maioria dos cristãos.
As coisas mudaram nos últimos tempos. A teologia trinitária une a nossa vida
pessoal e coletiva com a Trindade. A Trindade vai se revelando numa eterna
história de amor por nós. A Sagrada Escritura vai narrando as maravilhas de Deus
na história da Salvação. Deus narrando seu amor! Na Escritura admiramo-nos como
somos: filhos(as) amados, reunidos e santificados por Deus, a quem damos nome de
Pai, Filho e Espírito Santo. A oração litúrgica da Igreja é a que guia a
reflexão teológica (lex orandi, lex
credendi). A Trindade acontece em nossa existência. Devemos procurar a
Trindade em nossa vida e na vida do mundo. Não a encontramos originalmente em
enunciados dogmáticos enigmáticos, mas na expressão dramática e na atualidade
litúrgica do Mistério salvífico.
Tanto em Jesus como no Espírito Santo, quem age é Deus mesmo, embora sejam
pessoas distintas. Riqueza inesgotável que a Igreja nos aponta para que saibamos
onde Deus abre seu íntimo para nós: no seu Filho e no Espírito Santo que nos
anima. Lá encontramos Deus, não como um bloco monolítico e fechado, mas como
pessoas que se relacionam, tendo cada uma sua própria atuação: o
Pai que nos ama e chama à vida; o
Filho Jesus, que fala do Pai para nós e mostra como é o Pai, sendo
bom e fiel até o dom da própria vida na morte de cruz; e o
Espírito Santo que fica sempre conosco. Ele atualiza em nós a
memória da vida e as palavras de Jesus; ele anima
a sua Igreja. E todos os três estão unidos e formam uma unidade naquilo que Deus
essencialmente é: amor.
Pelo batismo somos mergulhados “em nome do
Pai, do Filho e do Espírito Santo”. O acolhimento na comunidade de fé (Igreja) é a entrada na comunhão de Cristo, e esta é de per si
comunhão com o Pai, no Espírito que impeliu Jesus para a missão (Mt 4,1; 3,17).
O Espírito que recebemos é o mesmo Espírito que Jesus recebeu no seu batismo e
com o qual ele nos batiza. Recebemos um Espírito de filhos adotivos, que clama
em nosso espírito: “Abbá, Pai!” (Rm
8,15). Quem recebe o batismo entra numa relação específica com cada uma das três
pessoas da Trindade. Em relação ao Pai, é filho por adoção (o que, na cultura de
Jesus, significava muito: pleno direito ao amor e à herança do Pai). Em relação
ao Filho, é irmão (participando da mesma vida e missão). E quanto ao Espírito
Santo, é dele que recebe inspiração e impulso para viver a vida divina no mundo.
Convém termos consciência disso na nossa vida de batizados.
Certamente Deus é um só. O que o Pai, o Filho e o ES significam em nós é uma só
e mesma realidade: a presença divina em nós. Mas essa realidade se realiza em
relações diversificadas. Assim
podemos cultivar as diversas atitudes que nos relacionam com a Trindade em nossa
vida. Atitude de filho adotivo do Pai, cuidando de sua obra, de sua solicitude
para com a criação e a humanidade. Atitude de irmão de Jesus, na sintonia e
solidariedade, na ternura para com os outros irmãos, e para com Jesus mesmo.
Atitude, finalmente, de quem é impulsionado pelo ES (e não pelo espírito do
mundo, do lucro, da exploração...). Esta consciência da nossa relação com as
pessoas divinas não surge espontaneamente. É preciso cultivá-la na contemplação
das Três Pessoas divinas.
A escultura da
Irmã Caritas Müller que está numa casa de oração da Suíça fala mais
que muitas palavras. Apreciamos na foto quatro círculos, sendo que se insinuam
tantos círculos como pessoas no orbe da terra. O círculo expressa o caráter
único de cada pessoa, tanto divina como humana. É interessante notar que os
círculos não são fechados, pois as pessoas podem entrar no círculo das outras na
medida que seu amor é atuante. Que realidade bonita! O círculo
central recolhe uma pessoa humana, que
pode ser qualquer um de nós. Não dá para saber se é homem ou mulher, pobre ou
rica, jovem ou velha e assim por diante. Parece sim se tratar de uma pessoa
ferida nos caminhos da vida. Logo nos vem a lembrança do
bom samaritano. As três pessoas divinas estão debruçadas, com
reverência, sobre a pessoa machucada. É patente que o Deus uno e trino, comunga
no mesmo sentimento de amor e com-paixão. O Pai (à direita) está inclinado,
joelho em terra, se esforçando com cuidado para levantar a pessoa ferida. O
sentimento do Pai é de ternura, seu rosto se aproxima e beija o rosto inerte da
pessoa, O Filho (à esquerda), dois joelhos em terra, nos lembra da última Ceia;
ele lava os pés da pessoa ferida, cura suas feridas com carinho e beija seus
pés. O ES, figura que desce do alto e se aproxima do ferido, tanto pode ser a
figura de uma pomba, de chamas ou de mãos que trazem vida. O bico da pomba, ao
igual que o Pai e o Filho, beija a pessoa e lhe transmite um sopro criador de
vida e de amor.
Quem conhece os Exercícios Espirituais de Santo Inácio admira como o santo foi
feliz na contemplação da Encarnação
do Verbo. Apresenta um tríptico: as Três pessoas divinas, a humanidade inteira e
Nazaré, onde o anjo anuncia a Encarnação a Maria. Convida-nos a
ver, ouvir e olhar o que
as pessoas fazem. As Três pessoas
divinas, ao verem a situação da humanidade, “determinam” em sua eternidade, que a segunda Pessoa se faça homem
para salvar o gênero humano. O verbo está no presente indicativo:
a história
está acontecendo agora!
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CONTEXTUALIZAÇÃO
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Que consciência e intimidade você tem com o Pai? Conte-nos.
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Que consciência e intimidade você tem com o Filho? Conte-nos.
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Que consciência e intimidade você tem com o Espírito Santo? Conte-nos.
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Texto para oração na semana: Rm 8,1-17
Jair José Schuh
A harmonia espiritual é estar na “onda do Espírito”, que tenha os seus mesmos impulsos: gerar a ordem e a beleza no universo, preocupar-se pela justiça e o direito das pessoas necessitadas, assinalar onde se encontra na atualidade a presença mais forte de Jesus no mundo, defendendo-o ali onde sofre mais e libertá-lo onde hoje está sendo crucificado.
A harmonia espiritual potencia uma espiritualidade que se traduz em obras: o compromisso social com a justiça solidária, a misericórdia alegre, o risco da incompreensão e a perseguição, e o amor a si mesmo, porque se está em comunhão com o Deus de Jesus, que é o da alegre misericórdia, o amor incondicional, a gratuidade, o compromisso solidário, o mistério, a liberdade e a confiança, a Páscoa (morte que gera a vida), o encarnado no débil, o da esperança, o apaixonado pelos pobres e pecadores.
A espiritualidade que brota da harmonia é:
Ø Uma espiritualidade no enquadro do discernimento, da busca do modo como quer levar Deus.
Ø Uma espiritualidade, que capta a passiva atividade como seu dinamismo interno: fazer tudo como se dependesse de mim, sabendo que tudo depende de Deus.
Ø Uma espiritualidade que nasce da experiência de ser pecador perdoado: onde perdão quer dizer misericórdia, habilitação e tarefa. A melhor forma de se verificar se alguém foi perdoado é no receber uma tarefa: a tarefa de ocupar-se com os mais débeis da história.
Ø Uma espiritualidade alimentada com o princípio escatológico pelo qual sempre se pode por em questão tudo, sem que se comprometa o Reino: que sempre é um já, ainda não! É o que a nós, cristãos, nos faz livres e independentes: saber que sobre a lei está o amor e sobre a justiça, a misericórdia.
Ø
Uma
espiritualidade que se realiza na igreja - santa e pecadora -, e em comunhão com
ela. Como capacidade para vê-la pecadora, mas ver aí também a Deus. Experimentar
não só o que chamamos igreja católica, mas a de todos os convocados a fazer as
obras de misericórdia, como nos apresenta o evangelho em Mateus 25.
Ø
Uma
espiritualidade cujo centro seja o Reino tal como se entende em Jesus: projeto
histórico do pai; projeto de justiça, paz, eqüidade, ecologia, que começa nesta
gera encomenda para o coração de Deus.
Ø
Uma
espiritualidade que contempla e sofre com o Cristo morrendo hoje; que faz
esforços para contribuir com o Espírito da ressurreição de Jesus, é a
solidariedade ativa da defesa da vida.
Ø Uma espiritualidade que está na onda do Espírito: gera vida, ressuscita, está na luta das minorias... é a matiz específica da feminilidade de Deus, por isso, disso a mulher entende, sabe e tem maior facilidade para captá-lo, pois também é sua matiz específica.
Ø Uma espiritualidade que fundamenta o compromisso ético e que faz deste a maior expressão. Não a norma, não o culto... É a solidariedade afetiva e efetiva o que mais explicita esta espiritualidade.
Ø Uma espiritualidade que é necessariamente corpórea porque todas as metáforas de Deus para com a humanidade tomam o corpo como base: relação sexual, cuidado maternal, o banquete, a boda, a festa...
Ø
A
espiritualidade que se expressa em meu corpo porque as grandes palavras de Deus
são a escritura, a História da Salvação, o cosmos e o corpo. Uma espiritualidade
que se vive a partir do corpo com a força comunicativa envolta de sexualidade...
uma espiritualidade que não faz um ídolo do corpo, mas Canto da Trindade para
dar vida ao mundo.
Ø Uma espiritualidade que me leva a atuar com harmonia e interdependência com toda a criação... porque a Criação é a sua grande marca; porque a criação anuncia enfaticamente sua eternidade que transcende os milhões e milhões de anos; porque a criação transcende distâncias. Uma espiritualidade que cala ante esse universo inacabável em todo o sentido, que transcende o que aparentemente seja de Deus e me submerge em um silêncio profundo porque não se tem palavras nem muito menos dogmas fixos para traduzi-la.