Oficinas de Espiritualidade - Textos para a Oficina de 31 de agosto.

Oficinas de Espiritualidade Inaciana
Centro Burnier Fé e Justiça

 

VISÕES DE DEUS

 

O primeiro passo que devemos dar é garantir que a relação com Deus esteja dada no encontro pessoal com o Deus que Jesus nos revelou, e não com imagens distorcidas dEle.

Nem tudo o que atribuímos a Deus é realmente de Deus. Podemos estar adorando um ídolo, um fetiche, que não é Deus, mas uma imagem falsa de Deus.

FETICHES DE DEUS

 

Ø  Proporemos algumas imagens fetichistas de Deus que nos fabricam os nossos medos e compulsões, das quais rendemos culto.

Ø  O deus perfeccionista, um deus que quer e provoca o perfeccionismo e por tanto se mostra implacável com quem não chega a perfeição.

Ø  O deus sádico, um deus que nos exige coisas que custam, coisas que sangram, coisas que doem, que nos fazem sentir, crer e dizer, por princípio: “quanto mais difícil é, maior sinal de deus!”

Ø  O deus negociante, um fetiche que exige obras, que exige cultivar a imagem, que é alguém que pode comercializar-se. Por isso a relação com esse deus se torna mercantilista: “te prometo para que me dês!”

Ø  O deus personalista e intimista, um fetiche feito a nossa pobre medida. É o deus de minha propriedade, a quem manejo: o faço a minha imagem e semelhança, pra mim; é um deus exclusivo porque é de minha propriedade.

Ø  O deus manipulável, abarcável, um deus a quem se lhe pode manipular co certos ritos, orações ou conhecimentos esotéricos, a quem se conhece nos livros, no saber, no entender lógico.

Ø  O deus juiz implacável, um deus que está pronto para julgar e castigar, sobre tudo, no que diz respeito a nosso corpo e sexualidade.

Ø  O deus hedonista, um deus facilitão. O deus da criança, que é imagem de seus progenitores e de sus medos. O deus só da ressurreição, que não passa pela morte, que não quer ver o sofrimento, que não assume as conseqüências do compromisso.

Ø  O deus todo-poderoso, um deus que se confunde com o poder, que se coloca na prepotência e que então nos arma os maiores embrolhos: não podemos explicar-nos nem entender, nem aceitar o mal nem a dor frente a esse fetiche, ele é o único responsável das conseqüências do mal no mundo, e das conseqüências da ação livre do ser humano contra si mesmo.

Ø  O deus da falsa conciliação e da falsa paz, um deus de uma paz, por exemplo, sem justiça. Um deus que não exige a radicalidade do compromisso., só o bem-estar sem conflito.

 

Qual é o fetiche que pertence mais a minha própria realidade? Qual foi-me imposto? Qual pratico? Qual comunico por osmose?

 

 

O DEUS DE JESUS

 

Ø  O DEUS de Jesus é o DEUS da alegre misericórdia como o encontramos no Filho Pródigo (Lc 15,11-22); O Deus que celebra o perdão com a festa; o Deus que se interessa por nosso coração e não tanto por nossas ações, o Deus que não nos pede perfeição se não a abertura a seu modo diferente.

Ø  O DEUS de Jesus é o DEUS do amor incondicional que nos quer pelo que somos e não por aquilo que fazemos; o Deus que nos busca mais, precisamente quando estamos mais afastados do que nós temos captado como “seu caminho”. O Deus que nos tem querido quando ainda éramos pecadores (Rm 5,8) e nos ama e nos prefere. “Eu não vim chamar justos, mas pecadores” (Mc 2, 17).

Ø  O DEUS de Jesus é o DEUS da gratuidade. É a palavra que o representa mais. Tudo nele é gratuito. A Ele não se compra por preço nenhum, Ele não se vende por nada. Tudo nele e todo Ele é presente. “Pois os Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em fresgate por muitos” (Mc 10, 45).

Ø  O DEUS de Jesus é o DEUS do Reino, é dizer, de um projeto histórico seu para com toda humanidade; projeto que implica a paz, a justiça, a concórdia, a solidariedade, a igualdade, o respeito entre todas as pessoas e o equilíbrio com o universo. É um projeto que começa agora e termina na plentude de Deus. É o Deus que se encarna em cada um, mas segue sendo radicalmente outro. O que fizerdes a um dos pequeninos ou deixardes de fazer aos outros, é a mim que o fazeis o deixais de fazer (cf. Mt 25,40.46).

Ø  O DEUS de Jesus é o DEUS que se experimenta, é dizer, o conhecemos e experimentamos a partir da experiência e o encontro com Jesus, e não tanto a partir do conhecimento. “Eu sou o caminho a verdade e a vida... Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,6.9). No há passos, nem gradações em sua compreensão. A chave exegética para estar em sua sombra é o reconhecimento de nossa condição de limitados e de pecadores, de pobres e de necessitados. Jesus mesmo, quando vê que os pequenos, seus discípulos evangelizam, exclama: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultastes essas coisas aos sábios e entnedidos e as revelastes aos pequeninos” (Lc 11, 21).

Ø  O DEUS de Jesus é o DEUS da liberdade, como o atesta Paulo na carta aos Gálatas: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1). Jesus, ao enfrentar os fariseus; E é o DEUS da confiança, que aposta em nossa liberdade e nos impulsiona a ser livres. “Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos e conheceresis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,31-36). Nos põem o amor como único critério normativo. É um Deus que põe o amor sobre a lei, a misericórdia sobre a justiça. É um Deus que nos convida a nos soltar e nos deixar levar por Ele “Por isso vos digo:Não vos preocupeis com a vossa vida quanto ao que haveis de comer... Olhais as aves do céu...” (Mt 6,24-34).

Ø  O DEUS de Jesus é o DEUS Pascal, nos ensina algo radicalmente novo: que se o grão de trigo não morre não dá fruto (Jo 12,23-24). Dá sentido ao saber entregar-se até o mais profundo: a morte que gera vida. “Quem ama sua vida a perde...Se alguém me serve, meu Pai o honrará” (Jo 12, 25-26).

Ø  O DEUS de Jesus é o DEUS encarnado, que escolhe o débil, o pobre, o pequeno como primeiro canal de revelação. Deus presente através de Jesus. Quando Jesus ressuscitou o filho da viúva de Naim, o povo exclamou: “Deus veio visitar o seu povo” (Lc 7,16).  “Esvaziou-se a si mesmo, e assumiu a condição de servo, tomando a semelhança humana...” (Fl 2,7).  Ele é o “Verbo que se faz carne, e habita entre nós” (Jo 1,14).

Ø  O DEUS de Jesus é o DEUS da esperança, é quem provoca em nós a capacidade de crer e de esperar, que faz possível que colaboremos na mobilização da história...

 

Que traços do Deus de Jesus existem com maior força em mim? Quais menos? Como acercar-me do Deus de Jesus? Implica em algum “salto de fé”?

 

A quem busco, a deus ou a DEUS?

 


Invocação a Jesus Cristo Modelo

 

Oração do Pe. Pedro Arrupe, que renovou a Companhia de Jesus

 

Graça a pedir: “Haja entre vós o mesmo sentir e pensar que no Cristo Jesus” (Fl 2, 5)

 

Senhor, meditando o nosso modo de proceder, percebi que o ideal de nosso modo de proceder é o teu modo de proceder. Por isso fixo meus olhos em Ti, os olhos da fé, para contemplar tua iluminada figura tal como aparece no Evangelho. Eu sou um daqueles de quem disse S. Pedro: “Vocês nunca viram Jesus e, apesar disso, o amam; não o vêem, mas acreditam. E por isso sentem alegria extraordinária e gloriosa”.

 

Hb 12,2

1 Pd 1,8

Senhor, Tu mesmo nos disseste: “Eu lhes dei o exemplo para que façam a mesma coisa que eu fiz”. Quero imitar-te até o ponto que possa dizer aos demais: “Sede meus imitadores, como eu o tenho sido de Cristo”. Já que não posso dizê-lo fisicamente como São João, ao menos gostaria de poder proclamar com o ardor e sabedoria que me concedas, “o que vi com os meus olhos, o que toquei com minhas mãos acerca da palavra de Vida; pois a Vida se manifestou e eu a tenho visto e dou testemunho”.

 

Jo 13,15

1Cor.11,1

1Jo 1,3

Dá-me, sobretudo, o “sensus Christi” que Paulo tinha, que eu possa sentir com seus sentimentos os sentimentos de teu Coração com que amavas o Pai e aos homens. Jamais alguém teve maior amor que Tu, que deste a vida por teus amigos, culminando com tua morte na cruz em total abandono. “Kénosis”, de tua encarnação. Quero imitar-te nesta disposição interna e suprema e também em tua vida de cada dia, atuando no que é possível, como tu procedeste.

1Cor.2,16

Jo14,31;
Jo 13,1

Jo 15,13

Fil 2,7

Ensina-me teu modo de tratar com os discípulos, com os pecadores, com as crianças, com os fariseus e com Pilatos e Herodes; também com João Batista ainda antes de nascer e depois no Jordão (Mt 10,2-12; Mc 3,16; Jo 19,26-27; 13,26; Lc 22,48). Como trataste com teus discípulos, sobretudo dos mais íntimos: com Pedro, com João e também com o traidor Judas. Comunica-me a delicadeza com que os trataste no lago de Tiberíades preparando-lhes algo de comer (Jo 21,9; 13,1-20), ou quando lhes lavastes os pés.

Lc 17,16

Lc 1,41-45

Mt 3,17

Que aprenda de Ti, teu modo de comer e de beber; como tomavas parte dos banquetes; como te comportavas quando tinhas fome e sede, quando sentias cansaço por causa das caminhadas apostólicas, quando tinhas que repousar e dar tempo ao sono.

Mc 2,16;3,20; Jo 4,8; 4,31-33; Mt 9,19; Jo 2,1; Lc 7,16; Mt4,2; Jo 4,7; 19,28-30; Jo 4,6; Mc 4,38

Ensina-me a ser compassivo com os que sofrem, com os pobres, com os paralíticos, com os leprosos, com os cegos; mostra-me como manifestavas tuas emoções profundas até derramar lágrimas ou como quando sentiste aquela mortal angústia que te fez suar sangue. E, sobretudo, (Mt 26,37-39), quero aprender o modo como manifestastes aquela dor máxima na Cruz, sentindo-te abandonado pelo Pai.

Mt9,36;14,14; 15,32;20,34; Lc 7,13; Lc 19-41; Jo 11,33; 35,38; Mt 27,46

Esta é a imagem que contemplou no Evangelho, ser nobre, sublime, amável, exemplar; que teria a perfeita harmonia entre vida e doutrina; que fez exclamar a teus inimigos; “és sincero, ensinas o caminho de Deus com franqueza, não te importa com nada, não tens acepção de pessoas, aquela maneira varonil, dura para contigo mesmo, com privações e trabalho; mas com os demais, cheio de bondade e amor e desejo de servi-los.

Mt 22,16

M 8,20;20,28

Fil 2,7

Eras duro, no entanto, para com aqueles que tem más intenções, mas também é verdade que com tua amabilidade atraías às multidões até o ponto que se esqueciam de comer; que os enfermos estavam seguros de tua piedade para com eles; que teu conhecimento da vida humana te permitia falar em parábolas ao alcance dos humildes e pequenos; que ias semeando amizade em todos, especialmente com teus amigos prediletos, como João ou aquela família de Lázaro, Marta e Maria, que sabias preencher de serena alegria uma festa familiar como Caná.

Mt 3,20;9,36

Jo15,15; 13,23;

19,26;

11,36;

2,1

Teu contato constante com o Pai na oração antes de amanhecer, ou enquanto os demais dormiam era consolo e alento para pregar o Reino

Mt  26, 36-41

Ensina-me teu modo de olhar, como olhaste Pedro para chamá-lo ou para levantá-lo; ou como olhaste ao jovem rico que não se decidiu a seguir-te, ou como olhaste bondosamente as multidões agrupadas em torno de Ti, ou com ira quando teus olhos se fixaram nos insinceros.

Mt 16,18

Mc 22,62

Mc 10,21-23;
3,34;5,31-32

Queria conhecer-te como és; e tua imagem sobre mim bastará para mudar-me. O Batista ficou subjugado no seu primeiro encontro contigo. O Centurião de Cafarnaum se sente obscurecido por tua bondade; e um sentimento de estupor e maravilha (Mt 8,27;9,33; Mc 5,15) invade àqueles que são testemunhas da grandeza de teus prodígios. O mesmo pasmo sobrevém aos teus discípulos; e os capangas (“esbirros”) do horto caem atemorizados. Pilatos se sente inseguro e sua mulher se assusta. O centurião que te vê morrer descobre tua divindade na tua morte.

Mt 3,14;8,8
Mt 7,37
Lc 4,36;5,26
Mc 1,27
Mt 13,54
Jo 18,6;19,8
Mc 27,19

Desejaria ver-te como Pedro, quando pasmado e surpreendido com a pesca milagrosa, toma consciência de sua condição de pecador na tua presença. Queria ouvir tua voz na sinagoga de Cafarnaum , ou no monte ou quando te dirigias à multidão “ensinando com autoridade”, uma autoridade que somente podia vir do Pai.

Lc 5,8-9

Jo 6,35-59; Mt 5,2

Mt 1,22; 7,29; Lc 4,22-32

Faça com que aprendamos de Ti, nas grandes e nas pequenas coisas, seguir o exemplo de total entrega ao amor do Pai e aos homens, irmãos nossos, sentindo-nos bem próximos de Ti.

Dá-nos esta graça, dá-nos o “sensus Christi” que vivifique toda nossa vida e nos ensina – inclusive nas coisas exteriores – a proceder segundo o teu espírito.

Ensina-nos “teu modo” para que seja “nosso modo” no dia-a-dia e possamos realizar o ideal que Tu tens sonhado para nós, colabores teus na obra da Redenção.

Pedimos a Maria, tua Mãe Santíssima, de quem nasceste, com quem viveste 33 anos e que tanto contribuiu a plasmar e formar teu modo de ser e de proceder que forme em nós, outros tantos Jesus como Tu.

Outros textos:

·         Jo 15,1-17 - Permanecei no meu amor

·         Jo 4,1-42 – Encontro da Samaritana com Jesus

·         Mt 9,13-16 – Como Jesus acolhe os (as) excluídos (as)