Oficinas de Espiritualidade - Textos para a Oficina de 06 de setembro.
Ø Em preparação à Oficina Inaciana para o dia 06 de setembro de 2008. FAVOR TRAZER A BÍBLIA.
João Inácio Wenzel, SJ
O passado e o presente se fundem na leitura popular da Bíblia. Por leitura popular entendemos a leitura que busca na Bíblia a água viva que alimenta a experiência libertadora do Deus da vida. Experiência que faz a pessoa sair de si e se abrir às necessidades das outras pessoas.
Ao ler ou escutar a experiência de Deus do povo da Bíblia, o povo de hoje faz uma nova experiência de Deus. Dizia uma liderança de comunidade: “Eu não era muito ligada nas coisas de Deus, mas um dia, quando estava muito mal, ao ouvir a leitura do apocalipse 12, sobre Maria, senti uma forte comoção interna, minha pele ficou toda arrepiada, as pernas bambas... Senti Deus através de Maria”.
Não é raro encontrar pessoas que, ao ler a Bíblia, encontram uma formulação para a sua própria experiência de vida. Certo dia, uma pessoa da oficina de espiritualidade, desafiada a explicitar como Deus age em sua vida, começou a contar a seguinte história: “Um dia, ao sair da missa, indo em direção ao carro, foi abordada por assaltantes que tomaram meu carro e me forçaram a entrar e me levaram para fora da cidade. Não sabia onde estava. Tinha certeza de que iriam me matar. Surpreendi-me que fiquei calma, conversei com os assaltantes o tempo todo, procurando acalmá-los. De repente mandaram-me descer num lugar ermo, e saí caminhando descalça...” Seu relato ficou interrompido pela emoção. Depois respirou fundo e continuou: “Vocês sabem! Aconteceu comigo o que diz o Salmo 91”. Ela não disse mais nada e todos permaneceram em silêncio. Ela não encontrou palavras para expressar como Deus agiu nela, nessa dura experiência. Se nós quisermos saber o que se passou com ela precisamos ir ao salmo: “Meu refúgio, minha fortaleza, meu Deus em quem confio... Ele te livrará do laço do caçador... Não temerás os temores da noite... Ele me invocará e lhe darei resposta...”
Neste caso, a leitura que se faz da Bíblia se funde de tal maneira que já não sabemos se somos nós que lemos a Bíblia ou se é a Bíblia que lê e interpreta a nossa vida.
No entanto, essas experiências não são isoladas. Muitas vezes pessoas que participaram de assembléias ou conferências que definem linhas de ação pastoral resumem a sua experiência na seguinte expressão: “foi uma forte experiência de Deus”. Os bispos que participaram do Concílio Vaticano Segundo, ao apresentarem a “Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação de Deus” recorrem a uma expressão da primeira carta de João, para transmitirem a experiência que vivenciaram: Aquilo que vimos e ouvimos nós agora anunciamos a vocês... (1 Jo 1,3). A letra, as palavras, são as mesmas usadas, mas o contexto é totalmente diferente. João se referia a uma pequena comunidade da Ásia, no fim do primeiro século. Os bispos, por usa vez, a milhões de católicos do século XX. Mudaram os autores, os destinatários, o lugar e a data, mas parece que é com estas palavras que melhor conseguem expressar a experiência do Espírito que vivenciaram no Concílio.
Os exemplos acima ilustram bem o jeito de o povo ler a Bíblia. Nela encontramos três grandes convicções: A Bíblia é Palavra de Deus, ilumina a situação que se vive e ajuda a compreender como Deus nos fala hoje. Contamos nossa experiência de vida e concluímos: “Foi Deus”; “só por Deus!” Lemos a Sagrada Escritura solenemente nas lituras e concluímos dizendo: “Palavra de Deus”; “Palavra da Salvação”. Mas onde está a fonte da Palavra? Quando que “a letra morta”, no dizer de Paulo apóstolo, se torna Palavra Viva? Como sentimos ou percebemos que Deus nos fala pela Palavra escrita na Bíblia ou nos acontecimentos da vida?
Responder a essas perguntas exige de nós ir em busca da fonte de vida que encontramos na relação dialética entre a Palavra da Escritura e a experiência de vida. A experiência de Deus que fazemos na vida nos remete à Palavra revelada e a Palavra da escritura se torna fonte de vida. Lemos a Bíblia e nos reconhecemos sendo parte dela. Interpretamos os textos e nos percebemos sendo interpretados por eles.
Isso não quer dizer que a Bíblia deva ser usada como mera embalagem para apresentar e dar razão às nossas idéias. Pelo contrário, isso exige de nós sermos fiéis ao passado e ao presente, ao texto e ao povo. Em outras palavras, exige de nós uma fidelidade criativa, para responder aos desafios dos nossos tempos.
O critério básico para esta fidelidade é a opção pela vida: Defender e promover a vida em todas as instâncias e em todas as relações. Não se trata de suscitar no ouvinte um mero bem estar, pois este também pode ser causado por outra circunstância e dele desfrutam também os inimigos da humanidade. Trata-se de estarmos atentos aos sinais do Espírito, tanto quando ele nos desafia ou suscita indignação diante da realidade, quanto nos faz cantar as suas maravilhas pelas surpresas da vida.
O método Ver, Julgar e Agir em muito contribui para uma nova visão da revelação de Deus. Parte-se do ver a situação do povo e, somente então, após uma análise crítica da realidade, com a ajuda da Bíblia, procura-se julgar ou iluminar esta situação. Assim, a fala ou a revelação de Deus não vem da Bíblia, mas dos fatos iluminados pela Bíblia. E são estes que levam a agir de maneira nova (C. Mesters. Palavra na Vida 222, p.9). Desta forma, o objetivo primeiro da leitura bíblica não é conhecer a Bíblia, mas interpretar a vida com a ajuda da Bíblia.
Esta forma de ler a Escritura também a encontramos na metodologia dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio. Para meditar ou contemplar um texto bíblico, Inácio propõe ao exercitante a composição vendo o lugar. Com isso somos desafiados a ver o contexto, inserir-nos e até mesmo participar dele, como se isso que está sendo narrado na Bíblia estivesse acontecendo conosco. Neste momento não interessa o estudo do texto, o conhecimento bíblico em si, mas o entendimento do que Deus nos quer revelar. Por isso Inácio insiste tanto em sentir e saborear intimamente a Palavra tirando dela proveito. É como se dissesse: é ali que se encontra a fonte da Palavra, a fonte da vida. Sentindo e saboreando se vai experienciando a sabedoria de Deus e o que Deus nos quer falar. Ao contemplar os mistérios da vida, paixão, morte e ressurreição de Cristo, santo Inácio insiste no pedido da graça do “conhecimento interno do Senhor, para que mais o ame e o siga” (EE 104). Não é um conhecimento intelectual sobre a vida de Cristo, mas em “sentir e saborear” a presença do Senhor para crescer afetivamente no amor que se manifesta no seguimento. As palavras “sabor” e “saber” contêm a mesma raiz - Sofia. Desta forma, a Palavra saboreada se faz carne e habita no meio de nós (Jo 1,14).
Segundo esse sentir e saborear da Palavra Inácio convida o exercitante a dar um passo a mais em sua oração, fazendo um colóquio, dirigindo-nos diretamente à fonte da Palavra agradecendo ou pedindo mais luz para compreender a Sua vontade ao nosso respeito; ou seja, simplesmente deixar que “o próprio Espírito interceda por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8,26b).
Deus nos fala sempre. A questão está em perceber, ouvir e discernir o que está a nos dizer. Nem tudo o que vivenciamos é suscitado pelo espírito de Deus. Muita coisa também é suscitada pelos afetos desordenados. Por isso é preciso estar atento para fazer o exame após cada experiência vivida, para perceber de onde veio esse movimento interno e a que leva.
Certamente um bom critério para sabermos se estamos ouvindo a Palavra e sendo fiéis a ela, é se nosso modo de proceder gera humanidade e se, ao mesmo tempo, nos deixamos humanizar. Pois quanto mais nos humanizamos, mais nos revestimos dos sentimentos daquele que se esvaziou a si mesmo e assumiu a condição de servo (cf. Fl 2, 5-11).
Como ler a Sagrada Escritura (TEXTO 2)
Já vimos anteriormente como Deus nos fala sempre, na vida e na sagrada escritura. A carta aos Hebreus reconhece as diversas linguagens e formas de Deus de revelar e insiste na experiência do encontro pessoal com Cristo. Assim começa a carta: “Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho...” (Hb 1,1-2).
Queremos agora aprofundar o método de leitura da Bíblia. A raiz da palavra método, em grego, traz em seu bojo a palavra caminho (odos). Não deixa de ser curioso o fato de os primeiros cristãos se chamarem como os “do caminho”. Trata-se do caminho do seguimento de Jesus. Portanto, o jeito de lermos a Bíblia está marcado pela experiência cristã da fé em Cristo. Procuramos ler a Bíblia crendo que Jesus realiza a nova aliança. Isso define a ótica de nossa leitura.
Mas antes de enveredar por este caminho, vamos abrir a Bíblia com algumas chaves de leitura: (1) A Bíblia é um conjunto de livros, (2) que nascem da realidade (3) da história de um povo (4) que lutou por vida e liberdade (5) na certeza de que Deus estava com Ele.
A palavra
Bíblia
vem do grego biblos e significa livro, no singular.
Bíblia
é uma
palavra grega que está no plural, e que significa
Livros. Embora seja
um volume só, a Bíblia contém muitos livros. É um conjuunto de livros, uma
verdadeira biblioteca.
Os livros
desta biblioteca estão organizados entre livros do Primeiro Testamento,
escritos antes de Cristo (a.C.) e os livros escritos depois de Jesus Cristo
(d.C.) que compõem, por sua vez o Segundo Testamento. Essa divisão
corresponde a duas grandes etapas da história do Povo de Deus: A primeira
aliança que tem como paradigma o êxodo, e Nova Aliança alicerçada na Páscoa
(êxodo definitivo) de Jesus.
Portanto,
a Bíblia é um conjunto de livros, separados por assuntos, escritos em
épocas diversas, por autores diferentes e em várias formas de
linguagem. É como uma colcha de retalhos: o tamanho dos livros é
diferente, também as origens, os autores, a época em que foram escritos e os
gêneros literários. Encontramos poesias, poemas, cânticos, textos em prosa,
novelas, cartas... Uma coisa, porém, mantém a unidade de todos estes
livros tão diferentes entre si: o Plano de Deus.
A
linguagem “Primeiro” e “Segundo” Testamentos querem evitar a idéia de que o
Antigo testamento já estaria superado pelo Novo. Somente se entende bem o
Novo Testamento, relacionado ao Antigo / Primeiro Testamento. O documento
Palavra de Deus (Dei Verbum), do Concílio Vaticano Segundo, deixa
isso bem claro: “Pois Deus, inspirador e autor dos livros de ambos os
Testamentos, de tal modo dispôs sabiamente que o Novo estivesse latente no
Antigo e o Antigo se tornasse claro no Novo. Com efeito, embora Cristo tenha
fundado a Nova Aliança em seu sangue
(cf. Lc 22,20; 1 Cor 11,25),
contudo os livros do Antigo Testamento, recebidos íntegros na pregação
evangélica, adquirem e manifestam sua completa significação no Novo
Testamento
(cf. Mt 5,17; Lc 24,27; Rm 16,25-26; 2 Cor 3,14-16),
e por sua vez o iluminam e explicam”
(DV 16).
A novidade
do Novo Testamento é o evento Cristo
Jesus que assumiu a condição humana, humilhou-se e foi obediente até morte,
resussitou como primícias dos que adormeceram
(cfe. Fl 2,7s; 1 Cor 15,20),
pois tudo o que está no segundo testamento já foi dito de alguma forma, no
primeiro testamento.
Encontramos Deus na natureza, a
vida das pessoas, com suas alegrias e sofrimentos, angustias e lutas, medos
e certezas, conquistas, derrotas e vitórias. Ali encontramos a Palavra de
Deus.
O apóstolo Paulo nos diz
claramente que não temos desculpas, pois a criação nos fala de Deus
(Rm 1,20-21). Vai ainda
além ao dizer que toda criação geme em dores de parto ansiando o dia da
libertação
(Rm 8, 22s).
Santo Agostinho explica que
Deus escreveu dois livros: O primeiro foi a Criação, a Vida; o segundo, a
Bíblia, para ajudar a entender o primeiro. Com isso podemos afirmar que a
VIDA é Palavra de Deus.
Segundo o profeta Isaías
(Is 55,10-11), não se
pode interpretar a Bíblia fora da vida. Olhamos para ela como se olhássemos
no espelho e enxergássemos melhor a nossa realidade. Ela é Palavra de Deus
dirigida para nós hoje, como cantamos na comunidade:
“Tua Palavra é
assim, não passa por mim sem deixar um sinal”.
O evangelista João diz que
“a Palavra se fez carne e habitou no
meio de nós”
(Jo 1,14). O apóstolo
Paulo iniste no mesmo ponto ao nos lembrar de que somos “templos do Espírito
Santo”
(1
Cor 6,19-20).
Portanto, a criação, a vida, a
história são o chão onde nasce a Palavra de Deus. O livro do Cântico dos
cãnticos nem se quer menciona Deus, mas a tradição interpreteou nestes
poemas de amor uma metáfora do amor de Deus para com os seres humanos.
Assim, há muitos textos que não falam explicitamente de Deus, mas falam da
vida do povo e de sua realidade. Procure, por exemplo, alguns dos textos
citados a seguir e tire você mesmo a conclusão:
Ex 1,8-14; Jz 6,1-6; Am 8,4-8;
Mq 3,1-8; Mt 20, 1-16; Mc 6,17-29; 1 Cor 11,17-22; Tg 5,1-6.
Por sua vez, a Palavra de Deus
é a luz que nos ajuda a entender a Criação, a História e o emaranhado da
Vida. Como diz o Salmo 119, versículo 105,
a Bíblia é luz para o nosso caminhar
que aquece os nossos sonhos em busca de mais vida e que orienta o sentido de
nossa vida.
Vamos até a Bíblia para que ela
ilumine hoje os passos de nossa caminhada, de modo que a
ação de Deus nos mova
na busca de mais vida; para perceber a
presença viva de Deus, seu sonho de vida e esperança, de paz e
solidariedade. Como diz Paulo na carta aos Coríntios:
“É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação”
(2Cor 6,2).
Os acontecimentos da vida do
povo foram guardados de pais para filhos, de geração em geração, primeiro de
forma oral, depois de forma ritual e finalmente em forma de texto, como
podemos visualizar nos seguintes textos:
Ex 12,24-27; Dt 6,20-25;
26,1-11; Sl 44,2; 78,1-4.
Temos de ter presente que a
Bíblia é um processo de elaboração e constante re-elaboração ao longo de
mais de dois mil anos de história e mais de mil anos de redação. Conforme
nos explica o documento da CNBB 86 – Crescer na leitura da Bíblia
(n. 28)
- o conteúdo da maior parte da
Bíblia, passou por várias fases:
·
Uma experiência foi vivida e compreendida como sinal da presença de Deus;
·
Longo período de transmissão oral, de forma celebrativa, e enriquecida com a
percepção de novos significados;
·
Registro por escrito do que era conhecido em tradição oral;
·
Uso do texto pela comunidade de fé, na oração e pregações.
·
Os textos são interpretados, relidos em novos contextos, com novas redações
e acréscimos. Assim são entendidos como alimento para a fé, como escritura
sagrada.
·
Por fim, dá-se o reconhecimento oficial, canônico.
O reconhecimento oficial,
canônico foi um processo longo. O cânon do Primeiro Testamento foi fixado no
ano 80 da era cristã, pelos rabinos judaicos, que omitiram os escritos em
grego. A primeira definição canônica para o Segundo Testamento se deu pelo
ano 200 da era cristã. Ali se omitiam as cartas aos Hebreus e duas de Pedro
e de Tiago. Somente no final do século quarto, em 393, no concílio reginal
de Hipona (África do Norte) se promulgou a primeira lista oficial que
continha os atuais livros da Bíblia católica. Esta lista foi confirmada
várias vezes em concílios posteriores.
Portanto, o cânon não foi
definido de um dia para outro. Na verdade, os livros sagrados foram
“canonizados de fato” primeiro pelo uso das comunidades, que neles
encontrava um referencial adequado de sua fé. A canonização oficial veio
como conseqüência desta caminhada[1].
Estes livros que entraram na
ista oficial canônica são reconhecidamente “suficientes” para orientar a fé,
mas é bom ter presente que estes não são “exclusivos”, porque não limitam a
revelação de Deus somente aos livros que constam no cânon. Deus sempre se
revelou na história da humanidade e sempre continuará se manifestando. Basta
a gente se perguntar:
Como
Deus tem se revelado em minha vida?
Não podemos ler a Bíblia como
livros de ciência ou livros de história. A Bíblia é interpretação da
história que reflete luz para a história de toda humanidade, desde o tempo
em que ela foi escrita até os dias de hoje. Facilmente identificamos
situações que o povo de Israel vivia com situações que nós vivemos hoje.
Na própria Bíblia encontramos
várias interpretações da mesma história. Por exemplo, no livro de Josué
(Js 11, 23; 21,43-45)
conta-se que a Terra Prometida foi conquistada completamente por Josué e
distribuída entre as doze tribos, ao passo que no livro dos Juizes conta-se
que ainda faltava muita terra para conquistar
(Jz 1,21.27-35).
Pode-se inclusive perceber uma
evolução do pensamento teológico.
No tempo em que se escrewveu o livro de Samuel pensava-se que era também
Deus o autor do mal
(2
Samuel 24,1);
Uns dois séculos mais tarde, quando se faz uma re-interpretação da história
o pensamento teológico havia evoluído. Agora, o mal já não vem mais de Deus,
mas vem de Satã
(1
Crônicas 21,1).
Esta releitura perpassa os dois
testamentos. A história de Abraão, por exemplo, é contada em primeira mão no
livro do Gênesis capítulos
A
Bíblia foi surgindo aos poucos, durante a história, narrando
acontecimentos não com o objetivo de narrar os fatos tal qual aconteceram,
mas com uma determinada intenção, para iluminar a caminhada e
provocar mudanças de vida, conversão. Portanto, se queremos entender
alguma coisa da Bíblia não devemos perguntar se tal fato aconteceu ou não do
jeito como está contado, mas “qual é a intenção de quem escreveu o
texto?” ou “o que o texto quer dizer?”ou
“qual sua mensagem?”
O apóstolo Paulo, na segunda
carta aos coríntios explique que “a
letra mata, o espírito é que faz viver”
(2
Cor 3,6). Sem o
espírito, a letra fica morta e faz morrer. E para entender a Bíblia e o
espírito que lhe dá vida, é preciso reviver a experiência de santidade que o
povo da Bíblia vivenciou.
Com o decorrer do tempo,
algumas expressões acabam ficando inadequadas. Para um povo oprimido, como
eram os judeus na Babilônia, ser vingativo parecia uma qualidade boa para
seu Deus
(Sl 137),
mas na realidade, eles confundiram suas próprias aspirações (vingança) com
as de Deus.
“A Bíblia não
apresenta fotografias ou filmagens dos acontecimentos. Sua interpretação dos
fatos vai além das aparências, da cara, da fachada. (...) A Bíblia nos
revela o sentido profundo que está dentro dos fatos, por trás das palavras.
Revela a presença misteriosa de Deus na vida, na história, nos fatos, nas
pessoas. Mais do que uma história de fatos, a Bíblia contém teologias da
história, isto é, reflexões de fé sobre a história”
(BOHN GASS, Porta de Entrada, p. 21).
A esperança e a luta por
melhores condições de vida, fartura e liberdade são uma constante que
perpassa toda a caminhada, resumida na palavra shalom que significa paz,
felicidade, vida plena. A fé na vida e certeza da vitória, garantida pela
promessa de Deus aos antepassados, fez com que a esperança se traduzisse num
projeto de vida a ser conquistado.
·
Ex 16,13-30; Mc 6,30-44
·
Lv 25,35-46; Lc 10,25-37
·
Ex 18,13-27; Jo 13,1-17
·
Is 1,10-20; Lc 13,10-17
Se, por um lado, o povo de Deus
tem encontrado na Bíblia ânimo para lutar contra as injustiças, por outro, a
Bíblia tem sido usada também para justificar a dominação. Foi, também, assim
na conquista das Américas. Uns usavam a Bíblia para justificar a dominação.
Outros encontravam na Bíblia força para defender corajosamente a vida dos
índios.
Na época da redação da Bíblia
também não foi diferente. Encontramos vários escritos de teólogos que
defendiam projetos de exclusão para legitimar em nome de Deus uma sociedade
injusta. Carlos Mesters dizia que “a
Bíblia como uma faca de dois gumes. Tanto pode ser usada como instrumento de
opressão e de morte, como também serve como instrumento de promoção e defesa
da vida”. Isso reforça a importância de não ler os textos ao pé da letra
e de termos critérios claros de interpretação da
Bíblia.
Lendo com atenção os textos da
Bíblia podemos facilmente perceber dois projetos em conflito: Um que que
defende privilégios e gera exclusão, geralmente ligado à monarquia, e o
projeto profético que defende uma sociedade em que a paz será fruto da
justiça.
Não é de estranhar que um
livro que levou mais de mil anos para ser escrito tenha diferentes
orientações, posições teológicas e modos de compreender Deus. A comunicação
de Deus respeita o processo humano de busca e compreensão da mensagem.
Compare, por exemplo, os seguintes textos e perceba as posições diferentes:
·
Sl
115, 17 e Ap 14,3;
·
Sl
37,25 e Ecl 7,15;
·
Lv
15, 19-30 e Pr 31,10-31
·
Dt
5,9-10 e Jo 9,1-3;
·
Ex
20,13 e Ex 19,12;
Como descobrir as diferentes linhas
presentes na Bíblia? Às vezes não é fácil. Por isso precisamos a oração que nos
abre ao Espírito de Deus e converte nosso coração à solidariedade com os pobres.
Para que serve, então, a Bíblia? No sentido utilitarista, não serve para nada. É como um amigo/a: instrumentalizado/a, perde a graça. A graça consiste em descobrir a riqueza de sua personalidade, com as suas contradições, com as marcas de sua história, suas aspirações e utopias. Assim como podemos encontrar algo de Deus em cada criatura humana, pois fomos criados/as à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27), assim também podemos encontrar diversas facetas de Deus ao longo das páginas da Bíblia, transmitidas alo longo de 3000 anos.
Leva-se tempo para penetrar no espírito de um amigo, e mais tempo ainda o viver no seu espírito. Assim também é a Bíblia. Para compreendê-la, é preciso curti-la e deixar-se curtir por ela, até que ela se torne o livro da vida.
A história da Bíblia mostra que Deus fala nossa língua. Ele está presente na curtição da palavra, ao que falamos e refletimos. Assim como Deus falou com Moisés face a face, como se fala a um companheiro (Ex 33,11), assim nós também podemos continuar a conversa com Deus hoje, como amigos. Jesus o confirma: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai” (Jo 15,15).
Qual foi o assunto da conversa na tenda? Moisés consultava a Deus a respeito dos problemas da vida do povo. Qual foi o assunto da conversa de Jesus em suas noites e madrugadas de oração? Segundo Lucas, antes de qualquer decisão importante passava tempo em lugares desertos para conversar com o Pai. Portanto, o que importa não é a letra da Bíblia, mas a vida. Deste modo, a Bíblia ilumina a vida e a vida ilumina a Bíblia.
A presença de Deus é descrita nos elementos da natureza: na Água (Gn 1,2; Jo 9, 6), na Terra (Ex 3, 5; Mt 6, 26.30), no Ar (Gn 2,7; Ex 14,21) e no Fogo (Ex 3, 2; 13,21; 14,24; Jo 8,12; At 2,3). Mas é, sobretudo, nos acontecimentos da vida, na caminhada, no enfrentamento dos conflitos, na luta por liberdade e na organização da comunidade o Povo de Deus sentia a presença de Deus, como podemos sentir no texto do Ex 2,23-3,15. Observe as maneiras diferentes de Deus se revelar no texto, a realidade do povo no Egito e de Moisés em Madiã, como se dá o chamado e como Moisés responde e o que significa invocar o nome de Deus.
O nome de Deus – YHWH (inefável, pronunciado Adonai / Senhor) - é compreendido como Emanuel Deus conosco (Is 7,14-14; Mt 1,23); Este é seu nome para sempre (Sl 135); Ele responde a quem o invocar (Sl 91,14-15; Is 42,8). Invocar seu nome é invocar a pessoa amada (1 Jo 4,16).
Depois da Sua ressurreição, o nome inefável de Deus é atribuído a Jesus (Jesus é o Senhor - At 2,36; Fl 2,11). Também no evangelista João nós encontramos o nome “Eu Sou”, na boca de Jesus: Eu sou a luz do mundo... Eu sou o bom pastor... Eu sou a porta... Eu sou o caminho, a verdade e a vida... O evangelista Mateus o confirma: “Estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20), especialmente quando a comunidade se reúne em seu nome (Mt 18,20).
Afirmar que a Bíblia é palavra de
Deus não se quer dizer de que ela tenha sido escrita por alguém que teve contato
telefônico direto com Deus, mas que Deus não está alheio à história humana. A
Bíblia não surge como um conjunto de livros ditados por Deus, mas como relatos
da experiênica do povo interpretados à luz da fé. Ao relatar essas experiências
os autores e as autoras tiveram de usar uma linguagem sujeita a todo as
vicissitudes da literatura humana. A palavra de Deus encarnou-se na palavra
humana. É “palavra de Deus na língua dos homens”, como diz uma canção da missa
da terra sem males. Deus, juntamente com e através dos “verdadeiros autores
humanos”, é o “autor” da Bíblia. É livro de Deus e dos homens, escrita por
ambos. Pelos homens e mulheres no papel, por Deus, na vida.
Se o simples fato de o linguajar dos jovens ser diferente dos pais, imagine a diferença do nosso jeito de pensar e falar do jeito de pensar e falar da época bíblica.
A Bíblia usa muitos símbolos, imagens e comparações. Até mesmo os números são carregados de simbolismo, como o número três, para indicar a divindade, o número quatro para indicar a humanidade e o número sete, que significa plenitude, perfeição, totalidade. Para falar de Deus o livro de Gênesis fala de um oleiro (Gn 2,7); para falar da misericórdia do Pai Jesus conta a parábola do “Pai Misericordioso” (Lc 15, 11-32); e para falar do Reino de Deus Jesus usa parábolas e comparações que falam em semente, trigo, grão de mostarda, rede, pérola, talento... (Mt 13).
O modo mais simples que o povo da Bíblia encontrou para falar de Deus foi descrevê-lo como se fosse humano: um Deus que tem mãos (Gn 7,16), olhos (Ex 3,7), boca (Gn 2,7), que fica zangado, que se arrepende (Gn 6,6), que usa escudo e lança...
É preciso levar em conta também a cultura do povo que escreveu a Bíblia. Costumam usar uma linguagem forte. Expressam-se por contrastes extremos. Usam uma linguagem emocional e simbólica, como em Mateus 5,29. Quando Jesus fala que no “céu há muitas moradas”, não está falando em condomínio com diferentes padrões de conforto...
Na mesma lógica precisamos entender a função do milagre no texto bíblico. “A grande preocupação, ao relatar um milagre, é evidenciar a presença de Deus num acontecimento e ensinar algo por meio do relato. A violação das leis naturais não tinha papel de destaque. O evangelho de João chama os milagres e sinais: são de fato sinais do que Deus quer para o mundo e para a ação de cada um de nós. Vale mais destacar a mensagem que o milagre comunica do que ficar somente deslumbrado com o lado extraordinário do evento[2]”.
No caso da multiplicação dos pães, a
mensagem que fica é: E o que estamos nós fazendo para repartir melhor o pão? No
caso
A Bíblia também conta muitas situações em que se esperava um milagre e o milagre não aconteceu: o clamor do povo para evitar o exílio da Babilônia, que profanaram a arca da aliança e não foram fulminados; na cruz as pessoas zombavam de Jesus por causa de um milagre esperado que não se realizou (Mt 27,42-43).
Tudo isso nos ensina que não podemos ler a Bíblia ao pé da letra, mas interpretar cada texto conforme a linguagem com que é expresso. Fundamentalmente são duas as formas literárias na Bíblia: prosa e poesia. A prosa é uma narrativa, uma descrição em forma linear, tal qual como falamos normalmente. Já a poesia é uma forma imaginativa de falar e escrever. É a arte de falar em versos e por imagens.
Vejamos como exemplo a história dos
discípulos de Emaús, em Lucas 24, 13-35.
O cenário:
Cléofas e Maria
(ela
estava ao pé da cruz, cf. Jo 19, 25)
voltam de Jerusalém, para onde haviam subido com Jesus, em direção a Emaús. Seu
coração está triste. Estão desapontados, pois aquele de quem esperavam a
libertação de Israel foi crucificado.
Como Jesus conseguiu mudar o
coração daqueles discípulos?
Jesus se aproxima, quer
saber de que estão falando, faz com que falem do motivo de sua tristeza.
Jesus caminha com eles e escuta com atenção o desabafo dos discípulos.
Somente então Jesus questiona a falta de fé à
luz da Bíblia, falando de textos que ajudam a compreender a situação
atual que estavam vivendo.
A explicação das Escrituras aqueceu
o coração dos discípulos, mas ainda não foi o suficiente para que o
reconhecessem. Isso somente irá acontecer quando oferecem hospitalidade a
quem pensavam ser de fora, e partilham o pão com ele. Somente então seu
coração, já aquecido pela Sagrada Escritura, faz abrir os olhos. Imediatamente
voltam para se encontrar com os outros discípulos
(v.
31).
Portanto, só estudar a Bíblia não é
suficiente para o entendimento pleno da Sagrada Escritura.
O entendimento só
acontece quando colocamos a palavra de Deus
Toda leitura é necessariamente uma
interpretação marcada pela experiência de vida que cada um leva em seu coração.
Com a leitura da Bíblia também é assim. Como saber se estamos fazendo a leitura
correta, segundo os olhos de Deus?
Buscaremos seguir a mesma
metodologia de leitura da Bíblia que a comunidade de Lucas tem utilizado,
conforme o texto dos discípulos de Emaús:
·
Partindo da realidade das pessoas
(estavam com o rosto triste),
·
preocupadas com a transformação da sociedade (eles esperavam a libertação de
Israel),
·
acolhendo as pessoas e repartindo o pão nas comunidades.
Ler a Bíblia significa, portanto,
escutar Deus no chão da realidade,
Podemos comparar a leitura da
Bíblia como uma mesa: 1) Ela precisa estar apoiada firme no chão da vida
pessoal e sofrida do povo. 2) A mesa é colocada no meio da sala para que as
pessoas possam sentar-se ao redor e partilhar o pão da vida, as idéias, os
sentimentos. Afinal, ler a Bíblia em comunidade tem mais sabor, pois é ela foi
elaborada em mutirão para ser lida em mutirão. 3) Nesta mesa da
comunidade não pode faltar a Bíblia, pois ela ilumina e aquece os
corações.
Se queremos apenas estudar a Bíblia
para ter maiores conhecimentos acabamos fazendo um estudo do texto
À luz da caminhada dos discípulos
de Emaús podemos dizer: queremos esquentar nossa esperança e torná-la realidade
no dia-a-dia criando relações de partilha e solidariedade. Ou seja, aquecer o
nosso coração com a reflexão da Palavra e reconhecer Jesus ressuscitado na
partilha, na solidariedade, na defesa e promoção da vida.
Vivemos uma época de grande busca e
valorização do sagrado. Reforça-se o devocionismo, misturam-se crenças e
práticas religiosas, cada um compõe a sua própria crença, onde a tendência é
“você decide”. Diante deste mundo plural e complexo, a Bíblia continua sendo
prestigiada em todos os ambientes. Sua grande força consiste em ser inspiradora
de projetos de vida. Este também é o critério central para lermos a Bíblia: a
defesa e a promoção da vida.
Se lemos a Bíblia comprometidos na
promoção e na defesa da vida, estamos no rumo certo da interpretação e
atualização da Palavra de Deus, pois esta é a chave dada pelo próprio Jesus que
sempre defende a vida, quer seja na doença, na exclusão, na pobreza ou na morte.
Veja como ele coloca os marginalizados no centro das atenções e aplica o
critério de “salvar uma vida” para passar por cima da lei do sábado
(Mc
3,3s), como nossas atitudes
para com os necessitados são o critério de nossa salvação
(Mt
25, 31-46)
e qual é finalidade de sua vinda
(Jo
10,10).
Esta mesma chave já está presente
no primeiro testamento, como apelo para seguir o caminho da justiça: optar entre
vida ou morte
(Dt
30, 15-20 e o Salmo 1).
Para concluir, queremos destacar algumas atitudes importantes a serem cultivadas, como sugere o documento da CNBB, número 65:
Ø Lembrar que temos em Jesus a melhor imagem do Pai, olhando o conjunto de sua vida e o significado de sua missão;
Ø Não tomar textos isolados como se fossem a idéia de Deus que a Bíblia quer comunicar no seu conjunto;
Ø Perceber como, por que e em que situação cada texto nasceu, para assim compreender melhor as motivações daquilo que está escrito;
Ø Analisar nosso próprio modo de imaginar Deus, para ver se não estamos muitas vezes fabricando um Deus à nossa moda e com isso achando desculpas para faltar com a caridade e ignorar o direito do próximo.
1.
BOHN GASS, Ildo (Org.),
Porta de Entrada. Coleção: Uma
Introdução à Bíblia, n. 1.
Paulus / CEBI, 2002.
2.
CNBB. Crescer na leitura da
Bíblia. Coleção Estudos da CNBB, 86. Paulus, 2003.
3.
Dei Verbum. Concílio
Vaticano II
4.
FRIGERIO, Tea. Introdução
geral ao estudo da Bíblia (Curso popular de Bíblia 1). São Leopoldo: CEBI, 2005.
5.
KONINGS, Johan. A Bíblia nas suas
origens e hoje. Vozes, 1998 (especialmente os capítulos 1 e 2, 7 e 8).
6.
VV.AA, História do Povo de Deus. (Roteiros de
Reflexão 1). São Leopoldo: CEBI, 1995.
[1] Veja capítulo 7
do livro de KONINGS, A Bíblia nas suas origens e hoje, Ed. Vozes, 1998,
pp
[2] Estudos da CNBB 86, n. 44.