Oficinas de Espiritualidade - Textos para a Oficina de 31 de agosto.
Texto 1
A Linguagem de Deus
Não
sei
se
você
já
visitou
um
país
onde
se
fala
uma
língua
diferente
da
sua.
É
aquele
sufoco
para
se
comunicar,
especialmente
quando
você
precisa
marcar
um
compromisso,
tirar
uma
passagem
ou transmitir
um
recado.
Passamos
a “falar”
com
as
nossas
mãos,
rosto
e os
gestos
mais
enesperados!
Nós
acreditamos
que
Deus
sempre
nos
acompanha
e
escuta.
Ora,
gostaríamos
de
sentir
que
Ele
nos
está
ouvindo
mesmo
e
perceber
claramente
o
que
Ele
nos
quer
comunicar.
Todas
as
religiões
tem
seus
mestres,
gurus
ou
diretores
espirituais
para
ajudar
com
a
sua
experiência
espiritual.
Santa
Teresa
de
Ávila
e
São
João
da
Cruz
tiveram
o
dom
de
partilhar
e
explicar
experiências
que
a
maioria
de
nós nem
somos
capazes
de
formular.
É
consoladora
esta
afirmação:
o
Deus
que
busco
já
me
buscava
antes!
Esta
verdade
é o
que
dá
ânimo
aos
missionários
e sempre
que
iniciamos
qualquer
tarefa
desafiadora.
Deus
já
está
trabalhando
nestas
pessoas
e realidades.
Eu
devo,
apenas,
acompanhar
a
sua
ação,
fazendo
a
minha
parte.
Está
certo
isto
que
diz
um
místico
árabe:
“durante
trinta
anos
caminhei
à
procura
de
Deus
e
quando,
no
fim deste
tempo, abri
os
olhos,
descobri
que
era
Ele
quem
me
procurava”.
Você
já
sentiu
que
Deus
lhe
falou
“muitas
vezes
e
de
modos
diversos”.
Temos
a
impressão
que
umas
vezes
nos
fala
mais
“de
fora
para
dentro”
ou
“desde
fora”,
numa linguagem
mediata,
através
da natureza,
pessoas,
Igreja,
Escrituras
e de
seu
Filho
Jesus
Cristo.
Outras
vezes
temos
a
sensação
que
Deus
nos
fala
mais
“de
dentro
para
fora”
ou
“desde
dentro”,
numa
linguagem
direta
e imediata.
Mais
do
que
palavras,
sentimos
“moções”
ou
movimentos
interiores
de
paz,
alegria,
ânimo,
vontade
de
amar
e
servir...
É
muito
importante
prestar
atenção
ao
que
se
passa
dentro
de
nós
para
poder
acolher
e
cultivar
aqueles
impulsos
e sentimentos
profundos
que
nos
conduzem
a
Deus
e
a
servir
aos
outros.
Não é
fácil
achar
pessoas
e
ambientes
que
ajudem
a desenvolver
esta
familiaridade
com
Deus.
Lembro
a
exclamação
de
um
amigo
no
final
de
um
retiro
realizado
anos
atrás
em
Brasília:
“ E
eu
nem sabia
que
essas
tais
de
“moções”
existiam!”
Hb
1,1:
“Muitas
vezes
e
de
modos diversos
falou
Deus,
outrora,
aos
Pais
pelos
profetas; agora,
nestes
dias
que
são os
últimos,
falou-nos
por
meio
do
Filho...”
At
17,28:
“Pois
nele
vivemos,
nos
movemos
e
existimos...”
“O
Deus
que busco
já
me
buscava
antes!”
Pe.
Manuel
E.
Iglesias
S.J.
Equipe
de Espiritualidade
Inaciana,
BH
Em: Queiruga, Andres Torres. Do Terror de Isaac ao Abbá de Jesus. Por uma nova imagem de Deus. Paulinas, pg 31-37.
Seria o caso de fazer uma série de preâmbulos, tanto de caráter histórico como
de reflexão filosófico-teológica, com o intuito de situar-se no novo paradigma.
No entanto, como quase sempre acontece, o mais eficaz é certamente jogar-se de
cabeça, partindo do mais elementar, isto é, daquilo que de mais simples e certo
chegamos a saber de Deus (graças justamente ao processo real da revelação).
"Deus é amor" (110 4,8.16): por amor nos criou e por amor vive, como um
"Pai/Mãe", voltado sobre nossa história, a fim de ajudar-nos e salvar-nos a
todos e a todas, desde o começo e sem nenhum tipo de discriminação. Se de alguma
coisa temos certeza como cristãos, é precisamente desse amor universal,
incondicionado e irrestrito.
Pois bem, ao pôr em crise a concepção tradicional, a nova situação cultural
permite que levemos a sério essa verdade fundamental. Se Deus cria por amor - e
só por amor - todas as pessoas, é óbvio que quer dar-se a todas, dar-se sempre e
dar-se totalmente. Além do mais, é isso o que a mais elementar experiência
humana nos ensina: nenhum pai ou mãe, normais e decentes, regateiam o amor a
seus filhos, negando-lhes o bem que lhes podiam proporcionar ou fazendo-os
esperar sem motivo; nem amam algum deles, discriminando os demais; nem amam
alguns desde o começo, esperando longo tempo para demonstrar seu carinho pelos
outros.
Se observássemos algo semelhante em algum caso da vida real, só nos restariam
duas hipóteses: ou se trata de pais desnaturados, ou há algo que os impede de
demonstrar e de exercer seu amor. No caso específico de Deus, a primeira
hipótese está, evidentemente, descartada. É óbvio que só se pode pensar na
segunda: algo torna impossível que Deus possa revelar-se plenamente, a todos e
sempre. O que impede muitos de tomarem em consideração essa hipótese é que têm a
impressão de que, se assim o fizessem, estariam negando a grandeza e a
onipotência divinas.
No entanto, tal conseqüência não é inevitável: pode acontecer - e é o que de
fato acontece - que uma revelação evidente, universal e ubíqua, desde o próprio
começo da humanidade, seja efetivamente impossível não por parte de Deus, mas
por parte do homem. O contrário já seria estranho a priori, pois Deus
é muito grande, e nós, muito pequenos; Deus é transcendência absoluta, e nós,
mundanalidade relativa. Se a comunicação, mesmo entre iguais, é sempre muito
difícil e sujeita a equívocos, como não deveria sê-lo entre Deus e os homens?
Olhando bem, assombroso não é o fato de a revelação ser tão difícil, mas muito
mais o fato de ela ser simplesmente possível.
Esclareçamos um pouco mais esse ponto, partindo de um ângulo um tanto diferente.
Ninguém pensa que Deus deixa de ser onipotente porque "não pode" fazer um lindo
círculo quadrado; não que ele simplesmente não possa: é que compreendemos que um
círculo-quadrado é impossível, ou melhor, é nada, e que, por isso mesmo, a
suposição carece de sentido. Na revelação, isso parece ser menos claro, mas não
é difícil compreender que se trata de uma estrutura idêntica.
Pensemos em um exemplo (confesso que cada vez mais gosto dos exemplos nessas
questões, a fim de evitar elevadas especulações... nas nuvens): por mais
inteligente que uma mãe possa ser e por mais que ame seu filhinho de um ano,
poderá ensinar-lhe o teorema de Pitágoras? E se "não pode", isso quer dizer que
é tola e que não sabe ou não ama seu filho? Da mesma forma, tem sentido dizer
que Deus não é onipotente porque "não pode" revelar-se em absoluto a um embrião
de seis meses nem a uma criança de onze semanas? Ou, indo mais além, tem sentido
perguntar por que Deus não revela os mistérios mais altos de sua transcendência
a uma horda primitiva do paleolítico inferior, perseguida pela fome, pelos
animais e pela intempérie? Repito: em tais circunstâncias, não é que Deus não
seja onipotente, mas sim que é impossível que essas pessoas possam
entender determinadas verdades ou, mais simplesmente, interessar-se por elas.
Se, apesar da cruel brevidade dessas reflexões, olharmos a partir delas o
processo da revelação na história, tudo mudaria de figura, tomando-se mais
claro, mais cálido, mais humano e... mais divino. Não estamos diante de um Deus
"mesquinho" ou "caprichoso", o qual, porque quer, restringe inicialmente
sua revelação a um só povo e, além disso, começa tarde (tardíssimo, sabemos hoje
pela paleontologia: não quatro mil anos, como se pensava então, mas
provavelmente mais de dois milhões de anos); além disso, ele o faz a conta-gotas
e dizendo de forma obscura o que poderia dizer claramente. De imediato,
compreendemos que ocorre exatamente o contrário: Deus, voltado com todo o seu
amor sobre a humanidade, luta contra nossa ignorância e nossa pequenez, contra
nossos instintos e resistências, contra nossos mal-entendidos e perversões, para
ir abrindo-nos seu coração e iluminar para nós seu rosto, para manifestar-nos a
profundidade de nosso ser e a esperança de nosso destino.
Quando realmente assumimos essa perspectiva, a própria Bíblia adquire uma nova
luz e tudo se entende melhor. Suas dúvidas e obscuridades, seus avanços e
vacilações são vistos agora como fruto da luta amorosa de Deus para tomar
compreensível seu desígnio salvífico, aproveitando-se das diversas
circunstâncias e valendo-se de todos os meios. Nunca é ele quem se nega - embora
em alguns casos isso apareça expressamente nos textos da Bíblia -, e sim os
homens e as mulheres, que ( ainda) não sabem, ou não podem, ou não querem
escutar e deixar-se guiar.
Ao mesmo tempo, aprende-se a ver que, "enquanto isso", Deus não havia abandonado
os demais povos, mas desde o começo da humanidade está com todos e com cada um,
manifestando-se a eles na medida do possível, isto é, na medida em que
eles, em sua circunstância e com suas possibilidades culturais, são capazes de
compreender e se decidem a aceitar. As religiões representam justamente o
resultado dessa presença; por isso, como mostra a fenomenologia da religião,
todas se consideram reveladas; e na realidade o são, como enfim o Concílio
Vaticano II reconheceu (o são precisamente - da mesma forma que o Antigo
Testamento em suas distintas etapas - na medida em que lhes é possível ser em
seu lugar e em seu momento).
Por isso, nesse sentido preciso, devemos dizer que todas as religiões são
verdadeiras, embora o sejam de maneira provisória e limitada, muitas vezes
por meio de deformações e até de perversões, mas notando que isso ocorre em
todas, também na bíblica, como o indicávamos no princípio; e a história mostra
que nem sequer depois de sua culminação em Cristo consegue livrar-se de abusos,
deformações e inquisições. O fato de que algumas religiões avancem mais do que
outras não se deve a um "favoritismo" divino, mas à necessidade da história
finita (do mesmo modo que nem todos nascemos igualmente sãos ou inteligentes).
Deus - como um pai e uma mãe com seus filhos e filhas - pensa em todos, e de
sua parte entrega-se totalmente a todos; a desigualdade provém da acolhida
humana. Todavia, ainda assim, seu amor busca a igualdade. Qualquer avanço em um
ponto representa, definitivamente, uma vantagem para os demais. Por essência,
toda revelação concreta tem por vocação chegar a todos, jamais permanecendo como
propriedade exclusiva daquele que a alcança; no momento mesmo de ser captada por
alguém, já pertence, por direito, à humanidade. Tal é também a razão pela qual,
quando culmina em Cristo - como cremos nós, cristãos -, a revelação se torna
universal. É isso que nos torna todos humildes e nos convoca à colaboração,
ajudando-nos e enriquecendo-nos uns aos outros. Daí a enorme importância do
diálogo entre as religiões.
Resumindo, para que não percamos o fio condutor da reflexão: Deus, como amor
infinito e sempre ativo, entregasse e trata de manifestar-se a todos, desde o
começo e na máxima medida possível; as restrições provêm unicamente da limitação
humana, que ou não pode ou resiste à sua revelação. Por isso, deve-se ter
muito cuidado com expressões tais como o "silêncio de Deus". Podem ter certo
fundamento subjetivo, porquanto isso é o que pode parecer-nos em algum
momento; objetivamente falando, porém, são lesivas para o amor de um Deus
que não tem outro interesse a não ser o de manifestar-se a nós. Autêntica
resposta de filhos é justamente confiarmos que Deus não nos abandona jamais,
embora as circunstâncias pareçam dizer o contrário (Cristo na cruz é o exemplo
supremo).
Peço desculpas pelos inevitáveis antropomorfismos da exposição, que o leitor
saberá situar devidamente. E acima de tudo estou consciente - porque já me
objetaram isso muitas vezes - de que essa proposta pode soar a otimismo
leibniziano, pretendendo ainda dizer a Deus o que ele deve fazer. Mas basta
parar um pouco para compreender que se trata de uma falsa impressão, e que
representa exatamente o contrário disso. Há otimismo, certamente; mas só naquilo
que diz respeito a Deus; e aí não importa a objeção, porque o certo é que sempre
ficaremos infinitamente aquém na hora de reconhecer e expressar sua
bondade e seu amor. No entanto, pela mesma razão, não há soberba, mas, no fundo,
profunda humildade: não dizemos a Deus qual deve ser sua conduta, mas
reconhecemos seu amor e nos esforçamos por crer realmente nele, mesmo com todas
as aparências em contrário.
Desse lado, portanto, o problema jamais vai estar. É em nós mesmos que não
confiamos. E aqui, sim, não só cabe como se impõe todo o realismo do mundo:
basta abrir os olhos para ver que o homem realmente pode falhar e falha, que é
pequeno e necessitado, submetido ao lento crescimento da história, sempre em
luta contra a ignorância, o instinto e o egoísmo, a tal ponto que, muito mais do
que otimista, a proposta poderia parecer de um pessimismo exacerbado. Isso,
contudo, também seria falso, pois a impotência e a limitação - reconhecidas sem
rodeios - são vistas sempre em relação viva com o amor de Deus, que as sustenta
e as apóia. Essa relação constitui justamente a essência íntima da revelação e
define a trama de sua história.
Em: Palavra na Vida 237. Texto de Luiz Carlos ARAÚJO (Org). Metodologia de aprendizagem bíblica. CEBI, pp. 7-11.
No
CEBI,
nos foi dada a compreensão de que Deus se comunica
através
dos acontecimentos. Trata-se de uma percepção privilegiada, que
revoluciona os fundamentos da Teologia da Revelação.
Esta compreensão de como Deus se comunica tem conseqüências extremamente
esclarecedoras, a começar pelo entendimento da ação de Deus no mundo. Neste
sentido, a Bíblia, se mal interpretada, pode nos confundir, dando a impressão de
que Deus age e se revela com interferências
diretas
nos fenômenos da natureza e na história da humanidade.
Se
assim fora, Deus agiria como agem os demais seres, só que com maior poder, ou
melhor, com a sua onipotência. O ser humano pode secar um açude. Deus pode secar
oceanos. Deus seria uma causa onipotente, mas agiria igual aos outros seres,
interferindo diretamente na realidade para modificá-la. Se assim age, Ele é um
ser como os outros,
só muito grande, infinito. O seu agir e conseqüentemente o seu ser não
seriam de fato
diferentes.
Ele seria infinitamente poderoso, mas não seria infinitamente diferente.
Estaria, de fato, no mesmo nível das causas naturais e humanas. Em outras
palavras, não seria Deus.
Por trás da afirmação de que Deus
se comunica através dos acontecimentos está outra afirmação: Deus
age através
dos acontecimentos. Eis o que isso significa: Deus age e se comunica
através dos acontecimentos, como eles
são e como, de
fato, acontecem. Por isso, sua ação é misteriosa, porque se dá, sem Ele
modificar diretamente a realidade, porque tudo o que
acontece, do jeito que acontece, é ação
de
Deus e comunicação
de
Deus.
Aqui convém parar um pouco. Este
entendimento
da ação de Deus pode modificar
a nossa visão
de Deus e mudar a nossa vida. Vou repetir:
tudo o que acontece, do jeito
que acontece,
é
ação de Deus e comunicação de Deus. É ação
de
Deus
e palavra
de Deus. A este ponto
vale lembrar
que a primeira manifestação
e, portanto,
a primeira palavra
de Deus é a própria criação. Nela, Deus se revela como a fonte da vida,
conservador e promotor de tudo que existe.
Obviamente, os
acontecimentos, simplesmente como eles são, nada nos podem dizer sobre as
características específicas da ação de Deus nem sobre o que Ele está querendo
nos comunicar. Portanto, quando dizemos: "É Deus que está me avisando...", "Foi
Deus que me mostrou esse caminho...", "Foi Deus que me protegeu...", tudo isso é
interpretação da nossa fé.
Deus fala continuamente
através de todos os acontecimentos, mas a sua palavra só acontece, quando alguém
a escuta, ou seja, quando alguém a interpreta devidamente. Qualquer palavra só
acontece quando alguém efetivamente escuta aquele que fala. Com a revelação de
Deus não é diferente.
Nem todos, porém, ouvem ou
entendem o que Deus está comunicando. A questão, então, se concentra na seguinte
pergunta: quem tem ouvidos capazes de ouvir a palavra de Deus, expressa nos
acontecimentos? A resposta vem da primeira carta de Paulo aos coríntios (2,11):
"As coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus". É preciso,
pois, ter o Espírito de Deus para ter a sensibilidade capaz de captar a
comunicação de Deus. Ou, como nos alerta João: "Quem é de Deus, ouve as palavras
de Deus" (Jo 8,47).
E ouvir significa
interpretar, entender a mensagem. Por isso, várias vezes nos evangelhos, se
apresenta o desafio: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça" (Mc 4,9; 4,23; 7,16; Mt
11,15; 13,9; 13,43; Lc 8,8; 14,35). A palavra de Deus ressoa nos acontecimentos,
como eles são e do jeito que se apresentam. É preciso, então, interpretá-Ios
enquanto mensagem de Deus, o que não é possível, senão àqueles que se deixam
guiar pelo Espírito de Deus, o qual habita o íntimo da consciência.
O que, porém, é importante
observar é que não tem sentido pensar que Deus revele diretamente o que Ele é ou
como Ele é. É impossível revelar ao nosso poder de concepção o jeito próprio de
Deus ser, porque a natureza de Deus está além de nossa capacidade de conceber.
Tal mensagem não poderia sequer chegar ao nosso entendimento. Um Deus concebido
pelo ser humano é um Deus diminuído, um Deus à medida do homem. Refiro-me à
nossa capacidade finita de conceber, a qual não pode senão formar conceitos de
coisas finitas. Isso não quer dizer, como veremos a seguir, que não possamos
atingir um certo conhecimento de Deus, através de outra via, diferente da nossa
atividade de conceber.
Na verdade, o que Deus nos revela, através dos acontecimentos,
é o seu caminho, ou melhor, aqueles caminhos possíveis da nossa história, que
Ele indica como sendo os caminhos d'Ele para nós. Indica um caminho bem
concreto, a ser seguido. Mas não basta ouvir sua palavra, que aponta um caminho.
É preciso seguir o caminho revelado, pois somente no momento em que se assume o
caminho mostrado por Deus é que sua palavra se torna realidade e realiza sua
missão transformadora.
Essa prática do caminho que Deus mostra, mediante a luz do Espírito, ou seja,
mediante a consciência aberta à mensagem dos acontecimentos da vida, é a
principal fonte da revelação de Deus. A revelação de Deus se dá ao assumirmos os
seus caminhos. Convém, pois, seguir a advertência profética da Bíblia: "Se
ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração" (Hb
3,7-11; ver SI 95,7-8).
Quem, em sua vida, procura com fidelidade ouvir a palavra de Deus e seguir o
caminho que ela indica vai-se tornando semelhante a Deus. Por identificação com
os seus caminhos, vai adquirindo a sensibilidade do seu Espírito, vai
experimentando a sabedoria divina, vai "conhecendo" a visão de Deus sobre
o mundo e sobre a vida. Esta é a via possível de comunhão com Deus e de
conhecimento de Deus. Estas pessoas podem dar testemunho dos caminhos de Deus e
através desse testemunho se tornam palavra de Deus para o mundo. São suas
profetisas e seus profetas. Por isso, dizemos que Jesus foi a palavra de Deus, o
Profeta de Deus.
Chegamos assim a identificar duas maneiras importantes e interrelacionadas de
Deus se comunicar: ou diretamente através dos acontecimentos, ou pela mediação
de profetas e profetisas, que pela sua vivência dos caminhos de Deus, mostrados
nos acontecimentos, e pelo seu testemunho, apontam e convidam ao acolhimento
desses caminhos. Neste segundo caso, é necessário atenção, porque os caminhos de
Deus para profetas e profetisas não necessariamente são idênticos aos caminhos
de Deus para nós. As nossas circunstâncias de vida podem ser diferentes, o que
implica caminhos de Deus diferentes. Todavia, as suas vivências e seus
testemunhos sobre caminhos de Deus servem de luz e inspiração para entendermos
que caminhos Deus está revelando para nós.
Nós cristãos reconhecemos,
nas nossas origens, um povo profético que, de Abraão a Jesus, entre fidelidades
e infidelidades, reuniu em sua história um conjunto considerável de vivências da
escuta da palavra de Deus, nos acontecimentos da vida, e de testemunhos de
caminhos revelados por Deus. A Bíblia é uma história dessas vivências e desses
testemunhos, que chegaram até nós, através de uma coleção de livros.
Não podemos deixar de
considerar que, também no caso da Bíblia, a origem e a principal fonte das
vivências e dos testemunhos proféticos são os acontecimentos através dos quais
Deus se revelou e se revela. Nem podemos esquecer que, sem a mediação do
Espírito, que habita a consciência, não é possível perceber a comunicação de
Deus, nem nos acontecimentos nem mediante os testemunhos proféticos.
Parece que podemos tirar
dessas considerações iniciais três conclusões relativas à leitura da Bíblia:
O profetismo do povo de
Israel, que chegou até nós através da Bíblia, tem um lugar e um papel
privilegiados na vida das comunidades cristãs. Mas esse precioso e inestimável
testemunho bíblico, para ser aproveitado criteriosamente, é preciso que seja
lido com a consciência de que nele não buscamos caminhos a imitar, mas
inspiração e luz para perceber que caminhos Deus aponta para nossa vida. Sendo
assim, devemos procurar entender com lucidez que importância se
deve
atribuir ao aprofundamento do sentido original do texto. Obviamente, essa
importância é grande. Mas existe o risco de alguém se iludir pensando que saber
muito sobre a Bíblia e conseguir entender "o mais perfeitamente possível"
o sentido histórico-literário do texto é o que mais importa para uma leitura
proveitosa da palavra de Deus na Bíblia. Ora, "o mais perfeitamente possível"
é sempre imperfeito. E, às vezes, basta um pouco de conhecimento verdadeiro
sobre o significado original do texto para nos inspirar sobre algum caminho que
Deus esteja mostrando para a nossa vida. O que mais importa é isso, porque é o
que nos pode aproximar de Deus.
A segunda conclusão óbvia é
que, sem a ação do Espírito, que abre o nosso coração para o entendimento das
coisas de Deus, a leitura da Bíblia em nada nos ajudará a perceber os caminhos
de Deus para a nossa vida.
Em terceiro lugar, portanto,
quanto mais nos tornamos sensíveis à inspiração do Espírito, acolhendo a palavra
de Deus nos acontecimentos da vida e nos testemunhos dos muitos profetas e das
muitas profetisas que encontramo-nos mais inesperados lugares do mundo, mais a
leitura da Bíblia nos pode iluminar e encantar. Daí nasce a possibilidade do
diálogo entre a vida e a Bíblia, de que fala o CEBI.
Perguntas
. Em que
medida essas convicções estão sendo vivenciadas nas várias instâncias de
formação?
. Essas
convicções de fato são transmitidas através de palavras?
. Só através
de palavras?
. Que
procedimentos utilizados expressam a vivência dessas convicções?
Em: Roteiros para Reflexão V. Livro dos Salmos, pp.36-42
Crise de
fé
Nem sempre é fácil guardar a fé. Há muitas coisas que conspiram contra a fé e
nos podem levar a descrer de Deus e dos outros. Diante da mortalidade infantil,
do abandono das crianças que vivem na rua, da violência e miséria
que reinam nas grandes cidades, muita gente duvida da existência de um Deus
justo e misericordioso. Talvez o desafio maior seja a prosperidade dos corruptos
e opressores em contraste com a vida difícil daqueles que procuram ser fiéis.
Onde está o Deus que "escuta o clamor dos pobres oprimidos"? Essa contradição
que aparece claramente nos Salmos de lamento continua gritante nas desigualdades
sociais de um país como o nosso. Os poderosos, cada vez mais arrogantes, só
estão preocupados com os lucros e com o avanço da tecnologia que
está
nas mãos deles, enquanto aumenta o número dos excluídos e marginalizados. Com o
devastador neoliberalismo, idolatrado pelos países ricos e pelos ricos dos
países pobres, parece que não há mais espaço para a fé em Deus, Senhor da
história. As próprias instituições eclesiásticas, que parecem acomodar-se para
sobreviver, vão perdendo também a credibilidade.
1. EU GRITO! ELE OUVE!
A novidade da Bíblia não está na dor que faz gritar. O grito de dor existe em
todos os povos. A novidade da Bíblia está na certeza de que Deus ouve o grito
reprimido do povo oprimido. Na Bíblia, o grito não é para acordar, pois Deus
está sempre acordado e atento. Ele mesmo disse: "Eu vi a miséria do meu povo.
Ouvi o seu clamor, por causa dos seus opressores. Conheço as suas angústias.
Desci para libertá-lo e fazê-lo ir para uma terra boa e vasta" (Ex 3,7-8). Ele
vê, ouve, conhece, desce, liberta e conduz. O grito do Povo de
Deus nasce de dupla fonte: da dor que faz gritar e da fé em que Deus sempre
ouve. Os Salmos são a expressão desse grito de fé:
"Para Deus a minha voz: eu grito!
Para Deus a minha voz: Ele me ouve!" (SI 77,2).
Na raiz dos Salmos está a nova experiência que a humanidade fez, através do povo
de Israel, de que Deus se coloca do lado dos oprimidos e os liberta da opressão,
dando-lhes esta garantia: "Eu estou com vocês!" (Ex 3,12). Esta experiência de
Deus produziu a resistência ao sistema de dominação e deu aos pequenos e
oprimidos a coragem de enfrentar até o faraó.
Há um mútuo entendimento entre Deus e o povo. De um lado, Deus diz: "Eu vou ter
de protegê-lo, porque ele conhece o meu Nome. Se me invocar, eu vou ter
de atendê-lo" (SI 91,14-15). De outro lado, o povo diz: "Eu grito e tu me
respondes" (SI 17,6).
Vale a pena ir lendo os Salmos e anotar os versículos em que se expressa essa
convicção de que Deus ouve o nosso grito. Essa convicção aparece com tanta
freqüência que se pode dizer que é o fio condutor que percorre e unifica os 150
Salmos. Aqui está, para os pequenos e oprimidos, a garantia de que não estão
gritando em vão.
2. AS INVOCAÇÕES
DO NOME DO SENHOR
A nova experiência de Deus foi expressa no nome de YHWH, que significa: "Eu
estou com vocês!" E o nome definitivo. "Este é o meu nome para sempre! E com
este nome que eu quero ser invocado de geração em geração" (Ex 3,15). O
profeta Jeremias diz: "Tu estás em nosso meio, pois teu nome foi invocado
por nós!" (Jr 14,9; 15,16). A invocação do Nome estava no centro da fé do
Povo de Deus. Está também no centro e na raiz dos Salmos.
Os Salmos, na sua variedade, são como os galhos de uma árvore frondosa. Todos
nascem do mesmo tronco. O tronco é a invocação do Nome que pode ter sete
sentidos, misturados entre si, em inumeráveis combinações, nos 150 Salmos.
1. YHWH - Ele está conosco!
Grito
de louvor que descobre e celebra a presença de Deus (cf. SI
46,4.8.12).
2. YHWH - Ele esteve conosco!
Grito
de ação de graças depois da experiência da libertação (cf. SI
34,5; 105,1-5; 107,1-3).
3. YHWH - Ele estará conosco!
Grito
de confiança, na certeza de ser atendido (cf. SI 16,8-11).
4. YHWH - Ele está ou não está conosco?
Grito
de dúvida e pedido de socorro da fé em crise (cf. SI
3,3; 42,4; 22,2-3).
5. YHWH - Ele esteja conosco!
Grito
e apelo de confiança, em momento de aflição (cf. SI
6,4-5; 77,8-13).
6. YHWH - Ele está vivo e atuante, ao contrário dos ídolos.
Grito
de compromisso e de fidelidade (cf. SI 115, 17-21; 101,1-8).
7. YHWH - Possamos estar contigo!
Grito
de desejo de estar sempre com Deus (cf. SI 23,6; 27,4).
São sete significados do mesmo Nome, sete invocações modulando o mesmo clamor,
em situações diferentes e dirigidas ao mesmo Deus: YHWH! Deste Nome tão breve,
de apenas quatro letras, nascem os Salmos em todas as direções da vida e em
todas as formas e gêneros literários. Este Nome é invocado em prosa e verso, em
todas as modalidades e modulações, com todos os instrumentos, em todas as
situações e momentos da vida. Ao longo das páginas da Bíblia, aparece quase
6.000 vezes. É a raiz do grito do povo, o eixo dos Salmos.
3. O GRITO DOS POBRES
- A ESPIRITUALIDADE DOS PEQUENOS
Entre os Salmos, há muitos lamentos e a maioria deles é individual. Os Salmos
acolhem os problemas das pessoas, sobretudo o sofrimento. O sofrimento precisa
expressar-se em lamento para que a pessoa não fique sufocada pela solidão e
tente despertar a solidariedade dos outros.
Os Salmos de lamento mostram como as pessoas sofriam: perseguições constantes,
sem alívio, sem ninguém para socorrer (SI 142,2-5); tentações e pressões para
abandonar o compromisso com a comunidade (SI 73,2-14); angústia de quem pensava
estar firme e, de repente, perde a coragem (SI 30,7-8), etc. Mostram também como
as pessoas reagiam para não tropeçarem nas dificuldades (SI 73,16-28).
Os Salmos refletem a espiritualidade dos pequenos, simples, direta e espontânea.
Espiritualidade dos que só sabiam dizer: "Deus é grande!" (SI 35,27; 40,17).
"Maior do que as trevas que me envolvem!" (cf. SI 139, 12). Agarrados a esta fé,
sem teorias nem altas elucubrações, atravessavam o túnel das dificuldades em
busca da luz da salvação.
A teimosia da fé dos pequenos se traduz no grito que repercute nos Salmos. Grito
incômodo para quem é obrigado a escutá10. Incômodo até para Jesus e os apóstolos
(cf. Mt 15,21-24). Incômodo até para Deus, conforme a comparação que Jesus fez
da viúva que incomoda o juiz (Lc 18,6-7). Mas os pequenos conhecem o segredo do
coração de Deus e sabem que podem gritar: "Eu te louvo, Pai, porque escondeste
essas coisas aos entendidos e doutores, mas as revelaste aos pequenos!" (Mt
11,25).
Jesus veio evangelizar os
pobres (Lc 4,18). Viveu pobre com os pobres e morreu como o último dos pobres,
totalmente desamparado (Me 15,37). Mas Deus escutou o seu grito e o ressuscitou
da morte. "Nos dias de sua vida terrestre, Jesus apresentou pedidos e súplicas,
com veemente clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte. Ele foi
atendido por causa da sua obediência" (Hb 5,7).
Em: Roteiros de Reflexão VIII. Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos, pp. 94-99
1. NA HUMANIDADE E NA VIDA
DO POVO DE DEUS
Em hebraico e em grego, a mesma palavra designa vento e espírito. O Espírito
Santo é como o vento: "Sopra onde quer, ouves o seu ruído, mas não sabes de onde
vem nem para onde vai (Jo 3,8). Na criação, o Espírito pairava sobre as águas (Gn
1,2). Identificado com a Sabedoria, presidia a toda a obra criadora (Pr
8,22-31). Está em todos como um sopro de vida (Gn 2,7). Tem força criadora e
renova a face da terra (SI 104,30). Consegue revitalizar os ossos secos
dispersas (Ez 37,1-14).
Desde o começo, o Espírito
está presente na vida e na história do Povo de Deus. Guia-o pelo deserto para a
terra prometida (Nm 11,25-29). Orienta Moisés nas decisões (Nm 17,16; 27,16; Dt
34,9). Suscita os profetas, leva-os a enfrentar os reis e a denunciar os crimes
dos poderosos (Mq 3,8; Ez 2,2; Is 42,1). O Espírito não se deixa manipular. Eis
por que o falso profeta deve ser punido com rigor (Dt 13,2-6) e são muito
severas as críticas contra os falsos profetas (cf. Dt 18,19-22; Jr 5,31; 14,14;
23,11-14; 28,15-16). O verdadeiro profeta é animado pela liberdade do Espírito!
Pela ação do Espírito, a
Palavra se faz carne (10 1,14; cf. Lc 1,35). Faz vibrar de alegria a Maria e
Isabel (Lc 1,41). Desce sobre Jesus na hora do batismo (Mc 1,10). Unge-o para a
missão de Messias (Lc 4,18). Leva-o para o deserto (Lc 4,1). Na força deste
mesmo Espírito, Jesus volta para a Galiléia e começa a atividade evangelizadora
(Lc 4,14). É nele que Jesus se alegra quando vê os pobres aceitarem a Palavra de
Deus (Lc 10,21). É este Espírito que Jesus promete como o grande dom messiânico
(At 1,5.8; Lc 24,49; Jo 11,26; 16,13). Ele realiza a profecia de Joel (At
2,17-18). Ressoa o eco do desejo formulado por Moisés ainda nos primórdios da
história do Povo de Deus: "Quem dera que todo o povo de YHWH fosse profeta e
recebesse o Espírito de YHWH!" (Nm 11,29).
Pode-se dizer que, se os
evangelhos tratam da encarnação do Filho de Deus em Jesus de Nazaré, o livro dos
Atos trata da encarnação do Espírito de Deus na comunidade. Os teólogos antigos,
tributários do dualismo da filosofia grega, ensinavam que o "Espírito Santo é a
alma da Igreja", portanto o Espírito "se faz carne" na Igreja. A partir de
Pentecostes é o Espírito de Jesus, o Espírito Santo, que anima a vida e a
história das comunidades. Ele dirige realmente todos os seus passos.
2. NA VIDA DAS COMUNIDADES
No dia de Pentecostes, é a
efusão do Espírito Santo que transforma os apóstolos. Antes, medrosos, ficam de
portas fechadas. Agora abrem as portas e enfrentam a multidão (At 2,14). Antes,
conformam-se com a decisão do Sinédrio e de Pilatos que condenam Jesus à morte (Lc
24,20). Agora, levantam a cabeça e dizem: "Devemos obedecer mais a Deus do que
aos homens" (At 5,29). Antes, Pedro se acovarda diante de uma empregada (Lc
22,56). Agora, dá um testemunho corajoso diante da multidão (At 2,32; 3,13) e do
Sinédrio (At 4,10).
Este Espírito está presente
nas comunidades e traz alegria e consolação em meio às dificuldades (At 9,31;
13,52). Ele orienta nos momentos decisivos: na hora da entrada dos gentios (At
11,15; 10,44-45.47; 15,8), na hora de tomar a iniciativa da missão e de enviar
missionários (At 13,2.4), na hora da perseguição diante dos tribunais (At 4,31).
Está presente também naqueles
que coordenam as comunidades (At 20,28): nos apóstolos (At 5,32; 15,28), nos
diáconos (At 6,3). Está presente em Pedro, quando enfrenta o Sinédrio (At 4,8),
quando toma a decisão de batizar os gentios (At 10,9; 11,12) e de não lhes impor
a Lei de Moisés (At 15,8). Está presente em Paulo, quando enfrenta o mago Elimas
(At 13,9), quando se ergue para anunciar a Boa Nova (At 13,16) ou quando, depois
da última viagem, voltou a Jerusalém, onde foi preso (At 20,22-23).
Ele está presente nos
missionários que vão anunciar a Boa Nova (At 13,4). Acompanha-os nas viagens (At
16,6.7), tanto na ida como na volta (At 20,22-23). Ele convoca Felipe para
evangelizar o etíope (At 8,29) e o arrebata para levá-lo a Azot (At 8,31). Age
em Estêvão, tomando sua palavra irresistível (At 6,5.10; 7,55). Atua através de
tantas outras pessoas: de Barnabé, enviado para coordenar a primeira comunidade
entre gentios (At 11,24); de Ábapo, o profeta que anuncia fome para a região (At
11,28) e pensão para Paulo (At 21,11); de Ananias, o anfitrião de Paulo, o
perseguidor convertido, na comunidade (At 9,17); das quatro filhas profetisas de
Felipe (At 21,9), como já atuara através de Maria (Lc 1,35) e de Isabel (Lc
1,41).
O Espírito é maior do que
todas. as instituições. Vento livre, sopra onde quer. Não se limita ao âmbito
das Igrejas. Na casa de Cornélio, manifesta-se mesmo antes do batismo (At
10,44-48) e atua através de Apolo quando este ainda só tinha o batismo de João
Batista (At 18,25). Enche a vastidão da terra (SI 104,29). Como a Palavra de
Deus, não pode ser algemado (2Tm 2,9) nem pelas hierarquias eclesiásticas nem
pelas igrejas, mas há sinais inconfundíveis de sua presença em todas as
religiões e em todas as culturas.
Um dos maiores pecados é
resistir ao Espírito (At 7,51), tentá-lo e mentir a ele (At 5,3.9), querer
comprá-lo (At 8,19). O Espírito não se compra nem se vende (At 8,20), mas se
adquire com oração (Lc 11,13). Ele se comunica de muitas maneiras, por exemplo,
pela imposição das mãos (At 8,17-18; 19,6), pela conversão e batismo (At 2,38),
pela oração (At 8,15).
3. O ESPÍRITO NO EVANGELHO
DE LUCAS E NO LIVRO DOS ATOS
No Evangelho de Lucas, a
palavra Espírito ocorre 36 vezes, praticamente o dobro dos outros
evangelhos. No livro dos Atos, ocorre 70 vezes. Isto já mostra o particular
interesse do autor pelo tema do Espírito. Nos dois primeiros capítulos do
evangelho, o Espírito Santo é citado sete vezes. No resto do evangelho, a menção
ao Espírito Santo é acrescentada ao texto paralelo dos outros sinóticos (cf. Lc
4,1.14.18; 10,21; 11,13).
No livro dos Atos, o Espírito
aparece antes de tudo como um poder (At 1,8; 10,38), enviado por Jesus (At 2,33)
para a difusão da Boa Nova. Do Espírito é que vêm os carismas: dons de línguas (At
2,4), milagres (At 10,38), profecia (At 11,27; 13,1; 15,2; 21,9-10), sabedoria (At
6,3.5.10). O Espírito dá a força de anunciar a Jesus, apesar das perseguições (At
4,8.31; 5,32; 6,10), e dá testemunho (At 1,8; 2,32; 3,15; 4,33; 5,32; 13,31;
22,15). O Espírito intervém nas decisões mais importantes: admissão dos gentios
na Igreja (At 8,29.39; 10,19.44-47; 11,12-16; 15,8) sem serem obrigados às
observâncias legais (At 15,28); missão de Paulo aos gentios (At 13,2ss.; 16,6-7;
19,1-6).
4. AÇÃO
DO ESPÍRITO POR MEIO DA BÍBLIA
A Bíblia é uma espécie de
manual que tem a receita para que possamos captar o que o Espírito nos fala
hoje. Não basta a leitura da Bíblia em si. É preciso que esteja ligada à
realidade e feita em comunidade. A comunidade é como o tronco para o galho.
Cortado do tronco, o galho seca. No tronco da comunidade é que está o Espírito
Santo, fonte da vida. Como diz Paulo; "A letra mata, mas é o Espírito que
comunica a vida" (2Cor 3,6).
“A letra mata". O que
significava e o que significa? Significava não querer perceber que o Antigo
Testamento estava orientado para desembocar em Jesus Cristo (2Cor 3,13).
Significa fechar-se em si, como um caramujo, indiferente à realidade, respirando
a ideologia dominante, sem perceber que Deus atua através da história e tem um
projeto de vida plena cuja construção depende de nós.
"O Espírito que dá vida". O
que significava e o que significa? Significava interpretar o Antigo Testamento à
luz da Ressurreição de Jesus, presente na comunidade e tirando o véu que encobre
a vista do leitor (2Cor 3,14-16). Significa ter consciência de que a Bíblia é o
patrimônio da Igreja da qual fazemos parte e na qual atua o mesmo Espírito.
Quando lemos a Bíblia, o mesmo Espírito' que a inspirou nos ajuda a olhar a
nossa realidade com os olhos da fé. Sem ele não podemos alcançar o sentido que a
Bíblia tem para nós (Jo 16,12-13; 14,16). Ele nos revela o sentido "espiritual".
5. A QUE COMPARAR A AÇÃO
DO ESPÍRITO SANTO?
Pode ser comparada com a
chuva: cai do céu, penetra no chão e faz germinar a semente que produz a planta
(Is 50,10-11). A planta resulta, ao mesmo tempo, da chuva e do chão, do céu e da
terra. A ação da .Bíblia resulta ao mesmo tempo da inspiração divina e do nosso
esforço. É Palavra do Deus do Povo e Palavra do
Povo
de Deus.
Pode ser comparada com o sol:
os seus raios invisíveis fazem a planta crescer de baixo para cima.
Ou como o vento de Deus: move
as flores, propaga o perfume, espalha as sementes. Assim, intercomunica o
perfume das comunidades e faz nascer novas comunidades.
Como disse alguém da
periferia do Recife (PE): "A ação do Espírito Santo é como o lixão. Os meninos
vão lá, tocam fogo e o lixo fica queimando dias a fio. Vem a chuva, parece que
apagou. Mas no dia seguinte, reaparece a fumaça. Vem o caminhão da prefeitura,
joga lixo em cima. Parece que apagou. No dia seguinte, o filete de fumaça é a
prova de que o fogo continua. O Espírito Santo é o fogo de Deus no lixo da
humanidade. Ninguém consegue apagar!"
Tea Frigério (Fragmentos do texto apresentado no Seminário das CEBs, em Porto
Velho, Jan 07)
O texto bíblico, que
consideramos Texto Sagrado, nasce de constantes releituras da experiência
fundante do povo de Israel, isto é, da libertação da opressão do Egito. Por sua
vez, as releituras são provocadas pelo contexto histórico, pela situação
existencial que o povo estava vivendo e que exigia uma atualização da Palavra, a
fim de que falasse para os novos tempos. Isso vale para o Primeiro Testamento,
como para o Segundo Testamento.
O texto bíblico nos faz
pensar em tecido, em uma grande colcha de retalhos tecida a partir de um retalho
fundamental. Texto originário, texto fundante que tem um padrão inicial e com o
tempo vai se alargando, enriquecendo. O padrão inicial inspira novos trançados,
repetindo, inovando, introduzindo novos desenhos, símbolos. As tecelãs e os
tecelões usam novos fios, novas cores. Às vezes prevalecem os tons escuros.
Outras vezes, os tons luminosos, tons de desespero e de esperança. Tons que
falam das experiências da vida: dor e paixão, crueldade e doação, opressão e
liberdade, egoísmo e solidariedade, indiferença e luta, choro e alegria. Texto,
tecido que articula a experiência da fé como resposta humana a desafios
históricos ou à interpelação divina na história.
Texto fundante que
reconhecemos na experiência do êxodo, que identificamos como experiência de
libertação. O êxodo, a fé no Deus libertador, é a semente que vai desabrochar,
florescer, frutificar nas múltiplas experiências do povo ao longo da história. É
luz que ilumina histórias antigas e as relê na variedade de nomes com que o povo
vai identificar o Senhor, na experiência de Jesus de Nazaré e das Comunidades.
A rigor, esta experiência nos
convida a ir além, pois o Deus do êxodo é libertador porque é o Deus da vida, o
Deus presente na vida, é Deus-Vida.
A Vida é o fio condutor.
Voltando à imagem do texto-tecido, a vida é o
fio-cor que perpassa toda trama do
desenho, toda a colcha de retalhos. A
cor-vida é o fio condutor de toda releitura, é o padrão que compõe o nosso
Texto Sagrado.
Texto Sagrado que
consideramos Palavra de Deus. Texto Sagrado que não é livro fechado, mas que se
esparrama na história. Fonte que nos convida a escutar a Palavra de Deus no
nosso cotidiano, na nossa história. Escuta que ilumina e alimenta criativamente
nosso pensar, nosso agir, que nos torna capazes de reler e assim continuar a
escrever o Texto Sagrado. A colcha de retalhos não está concluída, pois estamos
ainda tecendo, estamos ainda escrevendo.
A Vida é o fio que perpassa
todo o Texto Sagrado. A Vida é o trançado que compõe a trama da Amazônia.
Tomando emprestadas as palavras de Norman Myers, podemos dizer:
“Não compreenderemos inteiramente a vida
enquanto não compreendermos as florestas tropicais”. As florestas tropicais
estão entre os mais antigos ecossistemas terrestres. Isso vale por excelência
para a Amazônia onde a vida se manifesta nas centenas, senão milhares de
inter-relações entre as espécies, nos gratificando com sua explosão vital. A
Amazônia tem a sua vocação nitidamente florestal. Por isso, temos que encará-la
como fonte inesgotável de vida, luz, renascimento, regeneração e amor. Um
milagre em cada amanhecer. (...)
A voz de Euclides da Cunha nos alerta: “Realmente, a Amazônia é a última página,
ainda a escrever-se, do Gênesis”.
Gerard Thaissen em seu livro a Formação da
Religião Cristã, baseando-se nas ciências da religião, diz que toda religião
se organiza ao redor de três elementos fundante: mito, ética e rito. A partir
disso, analisa como o Movimento de Jesus se torna Religião Cristã.
Mircea Eliade, em seu livro Aspectos do
Mito, aponta cinco aspectos como constitutivos do mito:
1.
Constitui a história de atos dos seres sobrenaturais;
2.
Que esta história é considerada verdadeira e sagrada;
3.
Que o mito se refere sempre a uma criação, conta como algo começou a existir, ou
como um comportamento, uma instituição ou um modo de trabalhar foram fundados; é
por isso que os mitos constituem os paradigmas de todo ato humano significativo;
4.
Que conhecendo o mito conhece-se a origem das coisas…;
5.
Que, de uma maneira ou de outra, vive-se o mito no sentido em que se fica
imbuído de força sagrada e exultante dos acontecimentos evocados e ritualizados.
Nhanderuvuçú (Nosso Grande Pai) surgiu primeiro, com uma luz resplandecente,
semelhante ao sol, no peito. Trouxe a eterna cruz de madeira e colocou-a na
direção leste. Sobre o suporte da cruz, deu à terra o seu princípio. Em seguida
trouxe a água. Quando Nhanderuvuçú desceu à terra, devido à maldade dos seres
humanos, exortou Guyraypotý, o grande pajé, a realizar uma dança, pois a terra
estava na iminência de se tornar má. Este obedeceu-lhe, passando toda a noite em
danças rituais. Durante quatro anos, ele a executava com sua família. Quando se
ouviu no oeste o trovão da destruição, a terra passou a desmoronar. Quando
Guyraypotý parou de dançar, moveu-se o esteio que sustentava a terra, provocando
um incêndio devastador[3].
Guyraypotý caminhou com sua
família para o leste, em direção ao mar. No começo ainda plantavam roças. Aos
poucos, não deu mais tempo para plantar e esperar a colheita. Todos teriam
morrido de fome se Guyraypotý não fizesse aparecer a alimentação: pisou contra
uma árvore e fez aparecer jabuticabas para comerem. E disse: “Deixem um galho
para aqueles que virão depois de nós”. Quando alcançaram a Serra do Mar, seu
primeiro cuidado foi construir uma casa de tábuas para que, quando viessem as
águas, ela pudesse resistir. Terminada a construção, retomaram as danças rituais
e os cantos.
Disse Guyraypotý: “Não tenham
medo quando a água se precipitar para resfriar a superfície da terra”. E veio a
chuva. O perigo tornava-se cada vez mais iminente, pois o mar, como que para
apagar o grande incêndio, rolava sobre a superfície incandescente da terra.
Quanto mais subiam as águas, mais Guyraypotý e sua família dançavam[4].
As águas
revoltas chegaram na casa e estavam prestes a serem tragados. Guyraypotý começou
a chorar, mas sua mulher lhe falou: “Suba no telhado da casa! Não tenha medo,
meu pai, abre teus braços para que os pássaros ameaçados pelas águas possam
pousar[5]”.
Quando a água atingiu a
altura dos joelhos dos presentes, impedindo que se batesse a taquara de dança no
chão da casa, a mulher de Guyraypotý continuou batendo a taquara ritmadamente
contra o esteio da casa, sem interromper seu canto.
Guyraypotý entoou então o
Nheengaraí, o canto solene Guarani, e a casa logo se desprendeu do chão, se
moveu e girou, flutuando na superfície das águas, subiu e subiu até, finalmente,
chegar aos céus[6]
com todos os que nela estavam. Atravessando os portais celestes, a casa entrou
na terra sem males.
1. Que sentimentos o mito provoca em nós e o que nos faz lembrar?
2. Que semelhança e diferenças há em relação aos relatos bíblicos da criação de
Gn 1-11?
3. O que podemos concluir desta comparação?
[1]
Recopilado por Aloir Pacini, antropólogo jesuíta e publicado na Revista
de Espiritualidade ITAICI, dezembro de 2001.
[2]
Esta narração do mito numa linguagem mais atual e acessível é uma
apropriação pessoal que fui adaptando das pesquisas de Curt Nimuendajú
Unkel do começo do século XX: As lendas da criação e da destruição do
mundo como fundamentos da religião dos Apapocúva-Guarani. Hucitec e
Edusp. 1987. Os outros sub-grupos Guarani atualmente conhecidos são os
Mbyá e os Kaiowá.
[3]
Nhanderuvuçú havia criado a terra e depois construído a casa na
conjunção da eterna cruz de madeira. Colocou uma viga no sentido
leste-oeste, e outra, por cima, no sentido norte-sul. Pisou sobre o
ponto de cruzamento dessa cruz de madeira e encheu os quadrantes de
terra. Quando a extremidade oriental do braço inferior da cruz foi
puxada para leste, a terra perdeu seu suporte (esteio) ocidental e um
fogo subterrâneo começou a devorar o subsolo a partir da borda ocidental
da terra. A cruz missioneira que marcou as Missões do Paraguai
entre os Guarani possui duas vigas no sentido leste-oeste, indicando
duas dimensões da vida, ou seja, o tempo de ligação intensa e direta com
a terra e o tempo cultural da casa, as duas são necessárias para chegar
na terra sem males.
[4]
Os Guarani acreditam que o corpo pode tornar-se leve com o jejum e a
dança e assim ascender ao zênite e ingressar no paraíso pelos portais
celestes. Esta cosmologia, com uma forte afirmação da imortalidade e da
imanência do divino no humano, é o segredo da filosofia Tupi-Guarani.
[5]
Nos braços se sentariam os pássaros bons, os que não comem carne e suas
penas são utilizados para os rituais. Estes deveriam ser erguidos para o
alto com o impulso dos braços e, talvez, levar os humanos para os céus.
[6]
Este lugar para onde foram chama-se Yvý marãeý, a “terra sem
males”. Outros mitos dizem que este lugar pode ser encontrado além do
mar. Ali não é necessário fazer roça, as plantas nascem por si próprias.
Ali não há sofrimento, as pessoas não envelhecem e nem morrem.