Oficinas de Espiritualidade - Textos para a Oficina de 31 de agosto.

Oficinas de Espiritualidade Inaciana
Centro Burnier Fé e Justiça

Texto 1

A Linguagem de Deus

 

o sei se você visitou um país onde se fala uma língua diferente da sua. É aquele sufoco para se comunicar, especialmente quando você precisa marcar um compromisso, tirar uma passagem ou transmitir um recado. Passamos a “falar” com as nossas os, rosto e os gestos mais enesperados!

s acreditamos que Deus sempre nos acompanha e escuta. Ora, gostaríamos de sentir que Ele nos está ouvindo mesmo e perceber claramente o que Ele nos quer comunicar.

Todas as religiões tem seus mestres, gurus ou diretores espirituais para ajudar com a sua experiência espiritual. Santa Teresa de Ávila e o Jo da Cruz tiveram o dom de partilhar e explicar experiências que a maioria de nós nem somos capazes de formular.

É consoladora esta afirmação: o Deus que busco já me buscava antes! Esta verdade é o que dá ânimo aos missionários e sempre que iniciamos qualquer tarefa desafiadora. Deus está trabalhando nestas pessoas e realidades. Eu devo, apenas, acompanhar a sua ação, fazendo a minha parte.

Es certo isto que diz um místico árabe: durante trinta anos caminhei à procura de Deus e quando, no fim deste tempo, abri os olhos, descobri que era Ele quem me procurava.

Você já sentiu que Deus lhe falou “muitas vezes e de modos diversos”. Temos a impreso que umas vezes nos fala mais de fora para dentro ou desde fora”, numa linguagem mediata, através da natureza, pessoas, Igreja, Escrituras e de seu Filho Jesus Cristo.

Outras vezes temos a sensação que Deus nos fala mais de dentro para fora ou desde dentro, numa linguagem direta e imediata. Mais do que palavras, sentimos “moções ou movimentos interiores de paz, alegria, ânimo, vontade de amar e servir...

É muito importante prestar atenção ao que se passa dentro de s para poder acolher e cultivar aqueles impulsos e sentimentos profundos que nos conduzem a Deus e a servir aos outros. Não é fácil achar pessoas e ambientes que ajudem a desenvolver esta familiaridade com Deus. Lembro a exclamação de um amigo no final de um retiro realizado anos atrás em Brasília: E eu nem sabia que essas tais de moções” existiam!

 

Hb 1,1: Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Filho...

 

At 17,28: Pois nele vivemos, nos movemos e existimos...

 

O Deus que busco já me buscava antes!”

Pe. Manuel E. Iglesias S.J.
Equipe
de Espiritualidade Inaciana, BH

 

Texto 2: Deus e a Revelação

Um conceito não-fundamentalista da revelação

Em: Queiruga, Andres Torres. Do Terror de Isaac ao Abbá de Jesus. Por uma nova imagem de Deus. Paulinas, pg 31-37.

a) Deus fala sempre e a todos

Seria o caso de fazer uma série de preâmbulos, tanto de caráter histórico como de reflexão filosófico-teológica, com o intuito de situar-se no novo paradigma. No entanto, como quase sempre acontece, o mais eficaz é certamente jogar-se de cabeça, partindo do mais elementar, isto é, daquilo que de mais simples e certo chegamos a saber de Deus (graças justamente ao processo real da revelação). "Deus é amor" (110 4,8.16): por amor nos criou e por amor vive, como um "Pai/Mãe", voltado sobre nossa história, a fim de ajudar-nos e salvar-nos a todos e a todas, desde o começo e sem nenhum tipo de discriminação. Se de alguma coisa temos certeza como cristãos, é precisamente desse amor universal, incondicionado e irrestrito.

Pois bem, ao pôr em crise a concepção tradicional, a nova situação cultural permite que levemos a sério essa verdade fundamental. Se Deus cria por amor - e só por amor - todas as pessoas, é óbvio que quer dar-se a todas, dar-se sempre e dar-se totalmente. Além do mais, é isso o que a mais elementar experiência humana nos ensina: nenhum pai ou mãe, normais e decentes, regateiam o amor a seus filhos, negando-lhes o bem que lhes podiam proporcionar ou fazendo-os esperar sem motivo; nem amam algum deles, discriminando os demais; nem amam alguns desde o começo, esperando longo tempo para demonstrar seu carinho pelos outros.

Se observássemos algo semelhante em algum caso da vida real, só nos restariam duas hipóteses: ou se trata de pais desnaturados, ou há algo que os impede de demonstrar e de exercer seu amor. No caso específico de Deus, a primeira hipótese está, evidentemente, descartada. É óbvio que só se pode pensar na segunda: algo torna impossível que Deus possa revelar-se plenamente, a todos e sempre. O que impede muitos de tomarem em consideração essa hipótese é que têm a impressão de que, se assim o fizessem, estariam negando a grandeza e a onipotência divinas.

No entanto, tal conseqüência não é inevitável: pode acontecer - e é o que de fato acontece - que uma revelação evidente, universal e ubíqua, desde o próprio começo da humanidade, seja efetivamente impossível não por parte de Deus, mas por parte do homem. O contrário já seria estranho a priori, pois Deus é muito grande, e nós, muito pequenos; Deus é transcendência absoluta, e nós, mundanalidade relativa. Se a comunicação, mesmo entre iguais, é sempre muito difícil e sujeita a equívocos, como não deveria sê-lo entre Deus e os homens? Olhando bem, assombroso não é o fato de a revelação ser tão difícil, mas muito mais o fato de ela ser simplesmente possível.

Esclareçamos um pouco mais esse ponto, partindo de um ângulo um tanto diferente. Ninguém pensa que Deus deixa de ser onipotente porque "não pode" fazer um lindo círculo quadrado; não que ele simplesmente não possa: é que compreendemos que um círculo-quadrado é impossível, ou melhor, é nada, e que, por isso mesmo, a suposição carece de sentido. Na revelação, isso parece ser menos claro, mas não é difícil compreender que se trata de uma estrutura idêntica.

Pensemos em um exemplo (confesso que cada vez mais gosto dos exemplos nessas questões, a fim de evitar elevadas especulações... nas nuvens): por mais inteligente que uma mãe possa ser e por mais que ame seu filhinho de um ano, poderá ensinar-lhe o teorema de Pitágoras? E se "não pode", isso quer dizer que é tola e que não sabe ou não ama seu filho? Da mesma forma, tem sentido dizer que Deus não é onipotente porque "não pode" revelar-se em absoluto a um embrião de seis meses nem a uma criança de onze semanas? Ou, indo mais além, tem sentido perguntar por que Deus não revela os mistérios mais altos de sua transcendência a uma horda primitiva do paleolítico inferior, perseguida pela fome, pelos animais e pela intempérie? Repito: em tais circunstâncias, não é que Deus não seja onipotente, mas sim que é impossível que essas pessoas possam entender determinadas verdades ou, mais simplesmente, interessar-se por elas.

Se, apesar da cruel brevidade dessas reflexões, olharmos a partir delas o processo da revelação na história, tudo mudaria de figura, tomando-se mais claro, mais cálido, mais humano e... mais divino. Não estamos diante de um Deus "mesquinho" ou "caprichoso", o qual, porque quer, restringe inicialmente sua revelação a um só povo e, além disso, começa tarde (tardíssimo, sabemos hoje pela paleontologia: não quatro mil anos, como se pensava então, mas provavelmente mais de dois milhões de anos); além disso, ele o faz a conta-gotas e dizendo de forma obscura o que poderia dizer claramente. De imediato, compreendemos que ocorre exatamente o contrário: Deus, voltado com todo o seu amor sobre a humanidade, luta contra nossa ignorância e nossa pequenez, contra nossos instintos e resistências, contra nossos mal-entendidos e perversões, para ir abrindo-nos seu coração e iluminar para nós seu rosto, para manifestar-nos a profundidade de nosso ser e a esperança de nosso destino.

Quando realmente assumimos essa perspectiva, a própria Bíblia adquire uma nova luz e tudo se entende melhor. Suas dúvidas e obscuridades, seus avanços e vacilações são vistos agora como fruto da luta amorosa de Deus para tomar compreensível seu desígnio salvífico, aproveitando-se das diversas circunstâncias e valendo-se de todos os meios. Nunca é ele quem se nega - embora em alguns casos isso apareça expressamente nos textos da Bíblia -, e sim os homens e as mulheres, que ( ainda) não sabem, ou não podem, ou não querem escutar e deixar-se guiar.

Ao mesmo tempo, aprende-se a ver que, "enquanto isso", Deus não havia abandonado os demais povos, mas desde o começo da humanidade está com todos e com cada um, manifestando-se a eles na medida do possível, isto é, na medida em que eles, em sua circunstância e com suas possibilidades culturais, são capazes de compreender e se decidem a aceitar. As religiões representam justamente o resultado dessa presença; por isso, como mostra a fenomenologia da religião, todas se consideram reveladas; e na realidade o são, como enfim o Concílio Vaticano II reconheceu (o são precisamente - da mesma forma que o Antigo Testamento em suas distintas etapas - na medida em que lhes é possível ser em seu lugar e em seu momento).

Por isso, nesse sentido preciso, devemos dizer que todas as religiões são verdadeiras, embora o sejam de maneira provisória e limitada, muitas vezes por meio de deformações e até de perversões, mas notando que isso ocorre em todas, também na bíblica, como o indicávamos no princípio; e a história mostra que nem sequer depois de sua culminação em Cristo consegue livrar-se de abusos, deformações e inquisições. O fato de que algumas religiões avancem mais do que outras não se deve a um "favoritismo" divino, mas à necessidade da história finita (do mesmo modo que nem todos nascemos igualmente sãos ou inteligentes).

Deus - como um pai e uma mãe com seus filhos e filhas - pensa em todos, e de sua parte entrega-se totalmente a todos; a desigualdade provém da acolhida humana. Todavia, ainda assim, seu amor busca a igualdade. Qualquer avanço em um ponto representa, definitivamente, uma vantagem para os demais. Por essência, toda revelação concreta tem por vocação chegar a todos, jamais permanecendo como propriedade exclusiva daquele que a alcança; no momento mesmo de ser captada por alguém, já pertence, por direito, à humanidade. Tal é também a razão pela qual, quando culmina em Cristo - como cremos nós, cristãos -, a revelação se torna universal. É isso que nos torna todos humildes e nos convoca à colaboração, ajudando-nos e enriquecendo-nos uns aos outros. Daí a enorme importância do diálogo entre as religiões.

Resumindo, para que não percamos o fio condutor da reflexão: Deus, como amor infinito e sempre ativo, entregasse e trata de manifestar-se a todos, desde o começo e na máxima medida possível; as restrições provêm unicamente da limitação humana, que ou não pode ou resiste à sua revelação. Por isso, deve-se ter muito cuidado com expressões tais como o "silêncio de Deus". Podem ter certo fundamento subjetivo, porquanto isso é o que pode parecer-nos em algum momento; objetivamente falando, porém, são lesivas para o amor de um Deus que não tem outro interesse a não ser o de manifestar-se a nós. Autêntica resposta de filhos é justamente confiarmos que Deus não nos abandona jamais, embora as circunstâncias pareçam dizer o contrário (Cristo na cruz é o exemplo supremo).

Peço desculpas pelos inevitáveis antropomorfismos da exposição, que o leitor saberá situar devidamente. E acima de tudo estou consciente - porque já me objetaram isso muitas vezes - de que essa proposta pode soar a otimismo leibniziano, pretendendo ainda dizer a Deus o que ele deve fazer. Mas basta parar um pouco para compreender que se trata de uma falsa impressão, e que representa exatamente o contrário disso. Há otimismo, certamente; mas só naquilo que diz respeito a Deus; e aí não importa a objeção, porque o certo é que sempre ficaremos infinitamente aquém na hora de reconhecer e expressar sua bondade e seu amor. No entanto, pela mesma razão, não há soberba, mas, no fundo, profunda humildade: não dizemos a Deus qual deve ser sua conduta, mas reconhecemos seu amor e nos esforçamos por crer realmente nele, mesmo com todas as aparências em contrário.

Desse lado, portanto, o problema jamais vai estar. É em nós mesmos que não confiamos. E aqui, sim, não só cabe como se impõe todo o realismo do mundo: basta abrir os olhos para ver que o homem realmente pode falhar e falha, que é pequeno e necessitado, submetido ao lento crescimento da história, sempre em luta contra a ignorância, o instinto e o egoísmo, a tal ponto que, muito mais do que otimista, a proposta poderia parecer de um pessimismo exacerbado. Isso, contudo, também seria falso, pois a impotência e a limitação - reconhecidas sem rodeios - são vistas sempre em relação viva com o amor de Deus, que as sustenta e as apóia. Essa relação constitui justamente a essência íntima da revelação e define a trama de sua história.

 

Texto 3: A palavra de Deus e a Bíblia

 

Em: Palavra na Vida 237. Texto de Luiz Carlos ARAÚJO (Org). Metodologia de aprendizagem bíblica. CEBI, pp. 7-11.

No CEBI, nos foi dada a compreensão de que Deus se comunica através dos acontecimentos. Trata-se de uma percepção privilegiada, que revoluciona os fundamentos da Teologia da Revelação.

Esta compreensão de como Deus se comunica tem conseqüências extremamente esclarecedoras, a começar pelo entendimento da ação de Deus no mundo. Neste sentido, a Bíblia, se mal interpretada, pode nos confundir, dando a impressão de que Deus age e se revela com interferências diretas nos fenômenos da natureza e na história da humanidade.

Se assim fora, Deus agiria como agem os demais seres, só que com maior poder, ou melhor, com a sua onipotência. O ser humano pode secar um açude. Deus pode secar oceanos. Deus seria uma causa onipotente, mas agiria igual aos outros seres, interferindo diretamente na realidade para modificá-la. Se assim age, Ele é um ser como os outros, só muito grande, infinito. O seu agir e conseqüentemente o seu ser não seriam de fato diferentes. Ele seria infinitamente poderoso, mas não seria infinitamente diferente. Estaria, de fato, no mesmo nível das causas naturais e humanas. Em outras palavras, não seria Deus.

Por trás da afirmação de que Deus se comunica através dos acontecimentos está outra afirmação: Deus age através dos acontecimentos. Eis o que isso significa: Deus age e se comunica através dos acontecimentos, como eles são e como, de fato, acontecem. Por isso, sua ação é misteriosa, porque se dá, sem Ele modificar diretamente a realidade, porque tudo o que acontece, do jeito que acontece, é ação de Deus e comunicação de Deus.

Aqui convém parar um pouco. Este entendimento da ação de Deus pode modificar a nossa visão de Deus e mudar a nossa vida. Vou repetir: tudo o que acontece, do jeito que acontece, é ação de Deus e comunicação de Deus. É ação de Deus e palavra de Deus. A este ponto vale lembrar que a primeira manifestação e, portanto, a primeira palavra de Deus é a própria criação. Nela, Deus se revela como a fonte da vida, conservador e promotor de tudo que existe.

Obviamente, os acontecimentos, simplesmente como eles são, nada nos podem dizer sobre as características específicas da ação de Deus nem sobre o que Ele está querendo nos comunicar. Portanto, quando dizemos: "É Deus que está me avisando...", "Foi Deus que me mostrou esse caminho...", "Foi Deus que me protegeu...", tudo isso é interpretação da nossa fé.

Deus fala continuamente através de todos os acontecimentos, mas a sua palavra só acontece, quando alguém a escuta, ou seja, quando alguém a interpreta devidamente. Qualquer palavra só acontece quando alguém efetivamente escuta aquele que fala. Com a revelação de Deus não é diferente.

Nem todos, porém, ouvem ou entendem o que Deus está comunicando. A questão, então, se concentra na seguinte pergunta: quem tem ouvidos capazes de ouvir a palavra de Deus, expressa nos acontecimentos? A resposta vem da primeira carta de Paulo aos coríntios (2,11): "As coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus". É preciso, pois, ter o Espírito de Deus para ter a sensibilidade capaz de captar a comunicação de Deus. Ou, como nos alerta João: "Quem é de Deus, ouve as palavras de Deus" (Jo 8,47).

E ouvir significa interpretar, entender a mensagem. Por isso, várias vezes nos evangelhos, se apresenta o desafio: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça" (Mc 4,9; 4,23; 7,16; Mt 11,15; 13,9; 13,43; Lc 8,8; 14,35). A palavra de Deus ressoa nos acontecimentos, como eles são e do jeito que se apresentam. É preciso, então, interpretá-Ios enquanto mensagem de Deus, o que não é possível, senão àqueles que se deixam guiar pelo Espírito de Deus, o qual habita o íntimo da consciência.

O que, porém, é importante observar é que não tem sentido pensar que Deus revele diretamente o que Ele é ou como Ele é. É impossível revelar ao nosso poder de concepção o jeito próprio de Deus ser, porque a natureza de Deus está além de nossa capacidade de conceber. Tal mensagem não poderia sequer chegar ao nosso entendimento. Um Deus concebido pelo ser humano é um Deus diminuído, um Deus à medida do homem. Refiro-me à nossa capacidade finita de conceber, a qual não pode senão formar conceitos de coisas finitas. Isso não quer dizer, como veremos a seguir, que não possamos atingir um certo conhecimento de Deus, através de outra via, diferente da nossa atividade de conceber.

Na verdade, o que Deus nos revela, através dos acontecimentos,

é o seu caminho, ou melhor, aqueles caminhos possíveis da nossa história, que Ele indica como sendo os caminhos d'Ele para nós. Indica um caminho bem concreto, a ser seguido. Mas não basta ouvir sua palavra, que aponta um caminho. É preciso seguir o caminho revelado, pois somente no momento em que se assume o caminho mostrado por Deus é que sua palavra se torna realidade e realiza sua missão transformadora.

Essa prática do caminho que Deus mostra, mediante a luz do Espírito, ou seja, mediante a consciência aberta à mensagem dos acontecimentos da vida, é a principal fonte da revelação de Deus. A revelação de Deus se dá ao assumirmos os seus caminhos. Convém, pois, seguir a advertência profética da Bíblia: "Se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração" (Hb 3,7-11; ver SI 95,7-8).

Quem, em sua vida, procura com fidelidade ouvir a palavra de Deus e seguir o caminho que ela indica vai-se tornando semelhante a Deus. Por identificação com os seus caminhos, vai adquirindo a sensibilidade do seu Espírito, vai experimentando a sabedoria divina, vai "conhecendo" a visão de Deus sobre o mundo e sobre a vida. Esta é a via possível de comunhão com Deus e de conhecimento de Deus. Estas pessoas podem dar testemunho dos caminhos de Deus e através desse testemunho se tornam palavra de Deus para o mundo. São suas profetisas e seus profetas. Por isso, dizemos que Jesus foi a palavra de Deus, o Profeta de Deus.

Chegamos assim a identificar duas maneiras importantes e interrelacionadas de Deus se comunicar: ou diretamente através dos acontecimentos, ou pela mediação de profetas e profetisas, que pela sua vivência dos caminhos de Deus, mostrados nos acontecimentos, e pelo seu testemunho, apontam e convidam ao acolhimento desses caminhos. Neste segundo caso, é necessário atenção, porque os caminhos de Deus para profetas e profetisas não necessariamente são idênticos aos caminhos de Deus para nós. As nossas circunstâncias de vida podem ser diferentes, o que implica caminhos de Deus diferentes. Todavia, as suas vivências e seus testemunhos sobre caminhos de Deus servem de luz e inspiração para entendermos que caminhos Deus está revelando para nós.

Nós cristãos reconhecemos, nas nossas origens, um povo profético que, de Abraão a Jesus, entre fidelidades e infidelidades, reuniu em sua história um conjunto considerável de vivências da escuta da palavra de Deus, nos acontecimentos da vida, e de testemunhos de caminhos revelados por Deus. A Bíblia é uma história dessas vivências e desses testemunhos, que chegaram até nós, através de uma coleção de livros.

Não podemos deixar de considerar que, também no caso da Bíblia, a origem e a principal fonte das vivências e dos testemunhos proféticos são os acontecimentos através dos quais Deus se revelou e se revela. Nem podemos esquecer que, sem a mediação do Espírito, que habita a consciência, não é possível perceber a comunicação de Deus, nem nos acontecimentos nem mediante os testemunhos proféticos.

Parece que podemos tirar dessas considerações iniciais três conclusões relativas à leitura da Bíblia:

O profetismo do povo de Israel, que chegou até nós através da Bíblia, tem um lugar e um papel privilegiados na vida das comunidades cristãs. Mas esse precioso e inestimável testemunho bíblico, para ser aproveitado criteriosamente, é preciso que seja lido com a consciência de que nele não buscamos caminhos a imitar, mas inspiração e luz para perceber que caminhos Deus aponta para nossa vida. Sendo assim, devemos procurar entender com lucidez que importância se deve atribuir ao aprofundamento do sentido original do texto. Obviamente, essa importância é grande. Mas existe o risco de alguém se iludir pensando que saber muito sobre a Bíblia e conseguir entender "o mais perfeitamente possível" o sentido histórico-literário do texto é o que mais importa para uma leitura proveitosa da palavra de Deus na Bíblia. Ora, "o mais perfeitamente possível" é sempre imperfeito. E, às vezes, basta um pouco de conhecimento verdadeiro sobre o significado original do texto para nos inspirar sobre algum caminho que Deus esteja mostrando para a nossa vida. O que mais importa é isso, porque é o que nos pode aproximar de Deus.

A segunda conclusão óbvia é que, sem a ação do Espírito, que abre o nosso coração para o entendimento das coisas de Deus, a leitura da Bíblia em nada nos ajudará a perceber os caminhos de Deus para a nossa vida.

Em terceiro lugar, portanto, quanto mais nos tornamos sensíveis à inspiração do Espírito, acolhendo a palavra de Deus nos acontecimentos da vida e nos testemunhos dos muitos profetas e das muitas profetisas que encontramo-nos mais inesperados lugares do mundo, mais a leitura da Bíblia nos pode iluminar e encantar. Daí nasce a possibilidade do diálogo entre a vida e a Bíblia, de que fala o CEBI.

Perguntas

      . Em que medida essas convicções estão sendo vivenciadas nas várias instâncias de formação?

      . Essas convicções de fato são transmitidas através de palavras?

      . Só através de palavras?

      . Que procedimentos utilizados expressam a vivência dessas convicções?

 

Texto4: Clamor e lamento.

Em: Roteiros para Reflexão V. Livro dos Salmos, pp.36-42

Crise de

Nem sempre é fácil guardar a fé. Há muitas coisas que conspiram contra a fé e nos podem levar a descrer de Deus e dos outros. Diante da mortalidade infantil, do abandono das crianças que vivem na rua, da violência e miséria que reinam nas grandes cidades, muita gente duvida da existência de um Deus justo e misericordioso. Talvez o desafio maior seja a prosperidade dos corruptos e opressores em contraste com a vida difícil daqueles que procuram ser fiéis. Onde está o Deus que "escuta o clamor dos pobres oprimidos"? Essa contradição que aparece claramente nos Salmos de lamento continua gritante nas desigualdades sociais de um país como o nosso. Os poderosos, cada vez mais arrogantes, só estão preocupados com os lucros e com o avanço da tecnologia que está nas mãos deles, enquanto aumenta o número dos excluídos e marginalizados. Com o devastador neoliberalismo, idolatrado pelos países ricos e pelos ricos dos países pobres, parece que não há mais espaço para a fé em Deus, Senhor da história. As próprias instituições eclesiásticas, que parecem acomodar-se para sobreviver, vão perdendo também a credibilidade.

Os Salmos e o clamor do povo

1. EU GRITO! ELE OUVE!

A novidade da Bíblia não está na dor que faz gritar. O grito de dor existe em todos os povos. A novidade da Bíblia está na certeza de que Deus ouve o grito reprimido do povo oprimido. Na Bíblia, o grito não é para acordar, pois Deus está sempre acordado e atento. Ele mesmo disse: "Eu vi a miséria do meu povo. Ouvi o seu clamor, por causa dos seus opressores. Conheço as suas angústias. Desci para libertá-lo e fazê-lo ir para uma terra boa e vasta" (Ex 3,7-8). Ele vê, ouve, conhece, desce, liberta e conduz. O grito do Povo de Deus nasce de dupla fonte: da dor que faz gritar e da fé em que Deus sempre ouve. Os Salmos são a expressão desse grito de fé:

"Para Deus a minha voz: eu grito!

Para Deus a minha voz: Ele me ouve!" (SI 77,2).

Na raiz dos Salmos está a nova experiência que a humanidade fez, através do povo de Israel, de que Deus se coloca do lado dos oprimidos e os liberta da opressão, dando-lhes esta garantia: "Eu estou com vocês!" (Ex 3,12). Esta experiência de Deus produziu a resistência ao sistema de dominação e deu aos pequenos e oprimidos a coragem de enfrentar até o faraó.

Há um mútuo entendimento entre Deus e o povo. De um lado, Deus diz: "Eu vou ter de protegê-lo, porque ele conhece o meu Nome. Se me invocar, eu vou ter de atendê-lo" (SI 91,14-15). De outro lado, o povo diz: "Eu grito e tu me respondes" (SI 17,6).

Vale a pena ir lendo os Salmos e anotar os versículos em que se expressa essa convicção de que Deus ouve o nosso grito. Essa convicção aparece com tanta freqüência que se pode dizer que é o fio condutor que percorre e unifica os 150 Salmos. Aqui está, para os pequenos e oprimidos, a garantia de que não estão gritando em vão.

 

2. AS INVOCAÇÕES DO NOME DO SENHOR

A nova experiência de Deus foi expressa no nome de YHWH, que significa: "Eu estou com vocês!" E o nome definitivo. "Este é o meu nome para sempre! E com este nome que eu quero ser invocado de geração em geração" (Ex 3,15). O profeta Jeremias diz: "Tu estás em nosso meio, pois teu nome foi invocado por nós!" (Jr 14,9; 15,16). A invocação do Nome estava no centro da fé do Povo de Deus. Está também no centro e na raiz dos Salmos.

Os Salmos, na sua variedade, são como os galhos de uma árvore frondosa. Todos nascem do mesmo tronco. O tronco é a invocação do Nome que pode ter sete sentidos, misturados entre si, em inumeráveis combinações, nos 150 Salmos.

1. YHWH - Ele está conosco!

Grito de louvor que descobre e celebra a presença de Deus (cf. SI 46,4.8.12).

2. YHWH - Ele esteve conosco!

Grito de ação de graças depois da experiência da libertação (cf. SI 34,5; 105,1-5; 107,1-3).

3. YHWH - Ele estará conosco!

            Grito de confiança, na certeza de ser atendido (cf. SI 16,8-11).

4. YHWH - Ele está ou não está conosco?

            Grito de dúvida e pedido de socorro da fé em crise (cf. SI 3,3; 42,4; 22,2-3).

5. YHWH - Ele esteja conosco!

Grito e apelo de confiança, em momento de aflição (cf. SI 6,4-5; 77,8-13).

6. YHWH - Ele está vivo e atuante, ao contrário dos ídolos.

            Grito de compromisso e de fidelidade (cf. SI 115, 17-21; 101,1-8).

7. YHWH - Possamos estar contigo!

            Grito de desejo de estar sempre com Deus (cf. SI 23,6; 27,4).

São sete significados do mesmo Nome, sete invocações modulando o mesmo clamor, em situações diferentes e dirigidas ao mesmo Deus: YHWH! Deste Nome tão breve, de apenas quatro letras, nascem os Salmos em todas as direções da vida e em todas as formas e gêneros literários. Este Nome é invocado em prosa e verso, em todas as modalidades e modulações, com todos os instrumentos, em todas as situações e momentos da vida. Ao longo das páginas da Bíblia, aparece quase 6.000 vezes. É a raiz do grito do povo, o eixo dos Salmos.

3. O GRITO DOS POBRES - A ESPIRITUALIDADE DOS PEQUENOS

Entre os Salmos, há muitos lamentos e a maioria deles é individual. Os Salmos acolhem os problemas das pessoas, sobretudo o sofrimento. O sofrimento precisa expressar-se em lamento para que a pessoa não fique sufocada pela solidão e tente despertar a solidariedade dos outros.

Os Salmos de lamento mostram como as pessoas sofriam: perseguições constantes, sem alívio, sem ninguém para socorrer (SI 142,2-5); tentações e pressões para abandonar o compromisso com a comunidade (SI 73,2-14); angústia de quem pensava estar firme e, de repente, perde a coragem (SI 30,7-8), etc. Mostram também como as pessoas reagiam para não tropeçarem nas dificuldades (SI 73,16-28).

Os Salmos refletem a espiritualidade dos pequenos, simples, direta e espontânea. Espiritualidade dos que só sabiam dizer: "Deus é grande!" (SI 35,27; 40,17). "Maior do que as trevas que me envolvem!" (cf. SI 139, 12). Agarrados a esta fé, sem teorias nem altas elucubrações, atravessavam o túnel das dificuldades em busca da luz da salvação.

A teimosia da fé dos pequenos se traduz no grito que repercute nos Salmos. Grito incômodo para quem é obrigado a escutá10. Incômodo até para Jesus e os apóstolos (cf. Mt 15,21-24). Incômodo até para Deus, conforme a comparação que Jesus fez da viúva que incomoda o juiz (Lc 18,6-7). Mas os pequenos conhecem o segredo do coração de Deus e sabem que podem gritar: "Eu te louvo, Pai, porque escondeste essas coisas aos entendidos e doutores, mas as revelaste aos pequenos!" (Mt 11,25).

Jesus veio evangelizar os pobres (Lc 4,18). Viveu pobre com os pobres e morreu como o último dos pobres, totalmente desamparado (Me 15,37). Mas Deus escutou o seu grito e o ressuscitou da morte. "Nos dias de sua vida terrestre, Jesus apresentou pedidos e súplicas, com veemente clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte. Ele foi atendido por causa da sua obediência" (Hb 5,7).

 

Texto 5: A Ação do Espírito Santo

Em: Roteiros de Reflexão VIII. Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos, pp. 94-99

1. NA HUMANIDADE E NA VIDA DO POVO DE DEUS

Em hebraico e em grego, a mesma palavra designa vento e espírito. O Espírito Santo é como o vento: "Sopra onde quer, ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai (Jo 3,8). Na criação, o Espírito pairava sobre as águas (Gn 1,2). Identificado com a Sabedoria, presidia a toda a obra criadora (Pr 8,22-31). Está em todos como um sopro de vida (Gn 2,7). Tem força criadora e renova a face da terra (SI 104,30). Consegue revitalizar os ossos secos dispersas (Ez 37,1-14).

Desde o começo, o Espírito está presente na vida e na história do Povo de Deus. Guia-o pelo deserto para a terra prometida (Nm 11,25-29). Orienta Moisés nas decisões (Nm 17,16; 27,16; Dt 34,9). Suscita os profetas, leva-os a enfrentar os reis e a denunciar os crimes dos poderosos (Mq 3,8; Ez 2,2; Is 42,1). O Espírito não se deixa manipular. Eis por que o falso profeta deve ser punido com rigor (Dt 13,2-6) e são muito severas as críticas contra os falsos profetas (cf. Dt 18,19-22; Jr 5,31; 14,14; 23,11-14; 28,15-16). O verdadeiro profeta é animado pela liberdade do Espírito!

Pela ação do Espírito, a Palavra se faz carne (10 1,14; cf. Lc 1,35). Faz vibrar de alegria a Maria e Isabel (Lc 1,41). Desce sobre Jesus na hora do batismo (Mc 1,10). Unge-o para a missão de Messias (Lc 4,18). Leva-o para o deserto (Lc 4,1). Na força deste mesmo Espírito, Jesus volta para a Galiléia e começa a atividade evangelizadora (Lc 4,14). É nele que Jesus se alegra quando vê os pobres aceitarem a Palavra de Deus (Lc 10,21). É este Espírito que Jesus promete como o grande dom messiânico (At 1,5.8; Lc 24,49; Jo 11,26; 16,13). Ele realiza a profecia de Joel (At 2,17-18). Ressoa o eco do desejo formulado por Moisés ainda nos primórdios da história do Povo de Deus: "Quem dera que todo o povo de YHWH fosse profeta e recebesse o Espírito de YHWH!" (Nm 11,29).

Pode-se dizer que, se os evangelhos tratam da encarnação do Filho de Deus em Jesus de Nazaré, o livro dos Atos trata da encarnação do Espírito de Deus na comunidade. Os teólogos antigos, tributários do dualismo da filosofia grega, ensinavam que o "Espírito Santo é a alma da Igreja", portanto o Espírito "se faz carne" na Igreja. A partir de Pentecostes é o Espírito de Jesus, o Espírito Santo, que anima a vida e a história das comunidades. Ele dirige realmente todos os seus passos.

 

2. NA VIDA DAS COMUNIDADES

No dia de Pentecostes, é a efusão do Espírito Santo que transforma os apóstolos. Antes, medrosos, ficam de portas fechadas. Agora abrem as portas e enfrentam a multidão (At 2,14). Antes, conformam-se com a decisão do Sinédrio e de Pilatos que condenam Jesus à morte (Lc 24,20). Agora, levantam a cabeça e dizem: "Devemos obedecer mais a Deus do que aos homens" (At 5,29). Antes, Pedro se acovarda diante de uma empregada (Lc 22,56). Agora, dá um testemunho corajoso diante da multidão (At 2,32; 3,13) e do Sinédrio (At 4,10).

Este Espírito está presente nas comunidades e traz alegria e consolação em meio às dificuldades (At 9,31; 13,52). Ele orienta nos momentos decisivos: na hora da entrada dos gentios (At 11,15; 10,44-45.47; 15,8), na hora de tomar a iniciativa da missão e de enviar missionários (At 13,2.4), na hora da perseguição diante dos tribunais (At 4,31).

Está presente também naqueles que coordenam as comunidades (At 20,28): nos apóstolos (At 5,32; 15,28), nos diáconos (At 6,3). Está presente em Pedro, quando enfrenta o Sinédrio (At 4,8), quando toma a decisão de batizar os gentios (At 10,9; 11,12) e de não lhes impor a Lei de Moisés (At 15,8). Está presente em Paulo, quando enfrenta o mago Elimas (At 13,9), quando se ergue para anunciar a Boa Nova (At 13,16) ou quando, depois da última viagem, voltou a Jerusalém, onde foi preso (At 20,22-23).

Ele está presente nos missionários que vão anunciar a Boa Nova (At 13,4). Acompanha-os nas viagens (At 16,6.7), tanto na ida como na volta (At 20,22-23). Ele convoca Felipe para evangelizar o etíope (At 8,29) e o arrebata para levá-lo a Azot (At 8,31). Age em Estêvão, tomando sua palavra irresistível (At 6,5.10; 7,55). Atua através de tantas outras pessoas: de Barnabé, enviado para coordenar a primeira comunidade entre gentios (At 11,24); de Ábapo, o profeta que anuncia fome para a região (At 11,28) e pensão para Paulo (At 21,11); de Ananias, o anfitrião de Paulo, o perseguidor convertido, na comunidade (At 9,17); das quatro filhas profetisas de Felipe (At 21,9), como já atuara através de Maria (Lc 1,35) e de Isabel (Lc 1,41).

O Espírito é maior do que todas. as instituições. Vento livre, sopra onde quer. Não se limita ao âmbito das Igrejas. Na casa de Cornélio, manifesta-se mesmo antes do batismo (At 10,44-48) e atua através de Apolo quando este ainda só tinha o batismo de João Batista (At 18,25). Enche a vastidão da terra (SI 104,29). Como a Palavra de Deus, não pode ser algemado (2Tm 2,9) nem pelas hierarquias eclesiásticas nem pelas igrejas, mas há sinais inconfundíveis de sua presença em todas as religiões e em todas as culturas.

Um dos maiores pecados é resistir ao Espírito (At 7,51), tentá-lo e mentir a ele (At 5,3.9), querer comprá-lo (At 8,19). O Espírito não se compra nem se vende (At 8,20), mas se adquire com oração (Lc 11,13). Ele se comunica de muitas maneiras, por exemplo, pela imposição das mãos (At 8,17-18; 19,6), pela conversão e batismo (At 2,38), pela oração (At 8,15).

3. O ESPÍRITO NO EVANGELHO DE LUCAS E NO LIVRO DOS ATOS

No Evangelho de Lucas, a palavra Espírito ocorre 36 vezes, praticamente o dobro dos outros evangelhos. No livro dos Atos, ocorre 70 vezes. Isto já mostra o particular interesse do autor pelo tema do Espírito. Nos dois primeiros capítulos do evangelho, o Espírito Santo é citado sete vezes. No resto do evangelho, a menção ao Espírito Santo é acrescentada ao texto paralelo dos outros sinóticos (cf. Lc 4,1.14.18; 10,21; 11,13).

No livro dos Atos, o Espírito aparece antes de tudo como um poder (At 1,8; 10,38), enviado por Jesus (At 2,33) para a difusão da Boa Nova. Do Espírito é que vêm os carismas: dons de línguas (At 2,4), milagres (At 10,38), profecia (At 11,27; 13,1; 15,2; 21,9-10), sabedoria (At 6,3.5.10). O Espírito dá a força de anunciar a Jesus, apesar das perseguições (At 4,8.31; 5,32; 6,10), e dá testemunho (At 1,8; 2,32; 3,15; 4,33; 5,32; 13,31; 22,15). O Espírito intervém nas decisões mais importantes: admissão dos gentios na Igreja (At 8,29.39; 10,19.44-47; 11,12-16; 15,8) sem serem obrigados às observâncias legais (At 15,28); missão de Paulo aos gentios (At 13,2ss.; 16,6-7; 19,1-6).

4. AÇÃO DO ESPÍRITO POR MEIO DA BÍBLIA

A Bíblia é uma espécie de manual que tem a receita para que possamos captar o que o Espírito nos fala hoje. Não basta a leitura da Bíblia em si. É preciso que esteja ligada à realidade e feita em comunidade. A comunidade é como o tronco para o galho. Cortado do tronco, o galho seca. No tronco da comunidade é que está o Espírito Santo, fonte da vida. Como diz Paulo; "A letra mata, mas é o Espírito que comunica a vida" (2Cor 3,6).

“A letra mata". O que significava e o que significa? Significava não querer perceber que o Antigo Testamento estava orientado para desembocar em Jesus Cristo (2Cor 3,13). Significa fechar-se em si, como um caramujo, indiferente à realidade, respirando a ideologia dominante, sem perceber que Deus atua através da história e tem um projeto de vida plena cuja construção depende de nós.

"O Espírito que dá vida". O que significava e o que significa? Significava interpretar o Antigo Testamento à luz da Ressurreição de Jesus, presente na comunidade e tirando o véu que encobre a vista do leitor (2Cor 3,14-16). Significa ter consciência de que a Bíblia é o patrimônio da Igreja da qual fazemos parte e na qual atua o mesmo Espírito. Quando lemos a Bíblia, o mesmo Espírito' que a inspirou nos ajuda a olhar a nossa realidade com os olhos da fé. Sem ele não podemos alcançar o sentido que a Bíblia tem para nós (Jo 16,12-13; 14,16). Ele nos revela o sentido "espiritual".

5. A QUE COMPARAR A AÇÃO DO ESPÍRITO SANTO?

Pode ser comparada com a chuva: cai do céu, penetra no chão e faz germinar a semente que produz a planta (Is 50,10-11). A planta resulta, ao mesmo tempo, da chuva e do chão, do céu e da terra. A ação da .Bíblia resulta ao mesmo tempo da inspiração divina e do nosso esforço. É Palavra do Deus do Povo e Palavra do Povo de Deus.

Pode ser comparada com o sol: os seus raios invisíveis fazem a planta crescer de baixo para cima.

Ou como o vento de Deus: move as flores, propaga o perfume, espalha as sementes. Assim, intercomunica o perfume das comunidades e faz nascer novas comunidades.

Como disse alguém da periferia do Recife (PE): "A ação do Espírito Santo é como o lixão. Os meninos vão lá, tocam fogo e o lixo fica queimando dias a fio. Vem a chuva, parece que apagou. Mas no dia seguinte, reaparece a fumaça. Vem o caminhão da prefeitura, joga lixo em cima. Parece que apagou. No dia seguinte, o filete de fumaça é a prova de que o fogo continua. O Espírito Santo é o fogo de Deus no lixo da humanidade. Ninguém consegue apagar!"

 

Texto 6: O Meio Ambiente Amazônico

Tea Frigério (Fragmentos do texto apresentado no Seminário das CEBs, em Porto Velho, Jan 07)

O texto bíblico, que consideramos Texto Sagrado, nasce de constantes releituras da experiência fundante do povo de Israel, isto é, da libertação da opressão do Egito. Por sua vez, as releituras são provocadas pelo contexto histórico, pela situação existencial que o povo estava vivendo e que exigia uma atualização da Palavra, a fim de que falasse para os novos tempos. Isso vale para o Primeiro Testamento, como para o Segundo Testamento.

O texto bíblico nos faz pensar em tecido, em uma grande colcha de retalhos tecida a partir de um retalho fundamental. Texto originário, texto fundante que tem um padrão inicial e com o tempo vai se alargando, enriquecendo. O padrão inicial inspira novos trançados, repetindo, inovando, introduzindo novos desenhos, símbolos. As tecelãs e os tecelões usam novos fios, novas cores. Às vezes prevalecem os tons escuros. Outras vezes, os tons luminosos, tons de desespero e de esperança. Tons que falam das experiências da vida: dor e paixão, crueldade e doação, opressão e liberdade, egoísmo e solidariedade, indiferença e luta, choro e alegria. Texto, tecido que articula a experiência da fé como resposta humana a desafios históricos ou à interpelação divina na história.

Texto fundante que reconhecemos na experiência do êxodo, que identificamos como experiência de libertação. O êxodo, a fé no Deus libertador, é a semente que vai desabrochar, florescer, frutificar nas múltiplas experiências do povo ao longo da história. É luz que ilumina histórias antigas e as relê na variedade de nomes com que o povo vai identificar o Senhor, na experiência de Jesus de Nazaré e das Comunidades.

A rigor, esta experiência nos convida a ir além, pois o Deus do êxodo é libertador porque é o Deus da vida, o Deus presente na vida, é Deus-Vida.

A Vida é o fio condutor. Voltando à imagem do texto-tecido, a vida é o fio-cor que perpassa toda trama do desenho, toda a colcha de retalhos. A cor-vida é o fio condutor de toda releitura, é o padrão que compõe o nosso Texto Sagrado.

Texto Sagrado que consideramos Palavra de Deus. Texto Sagrado que não é livro fechado, mas que se esparrama na história. Fonte que nos convida a escutar a Palavra de Deus no nosso cotidiano, na nossa história. Escuta que ilumina e alimenta criativamente nosso pensar, nosso agir, que nos torna capazes de reler e assim continuar a escrever o Texto Sagrado. A colcha de retalhos não está concluída, pois estamos ainda tecendo, estamos ainda escrevendo.

A Vida é o fio que perpassa todo o Texto Sagrado. A Vida é o trançado que compõe a trama da Amazônia.

Tomando emprestadas as palavras de Norman Myers, podemos dizer: “Não compreenderemos inteiramente a vida enquanto não compreendermos as florestas tropicais”. As florestas tropicais estão entre os mais antigos ecossistemas terrestres. Isso vale por excelência para a Amazônia onde a vida se manifesta nas centenas, senão milhares de inter-relações entre as espécies, nos gratificando com sua explosão vital. A Amazônia tem a sua vocação nitidamente florestal. Por isso, temos que encará-la como fonte inesgotável de vida, luz, renascimento, regeneração e amor. Um milagre em cada amanhecer. (...)

A voz de Euclides da Cunha nos alerta: “Realmente, a Amazônia é a última página, ainda a escrever-se, do Gênesis”.

Gerard Thaissen em seu livro a Formação da Religião Cristã, baseando-se nas ciências da religião, diz que toda religião se organiza ao redor de três elementos fundante: mito, ética e rito. A partir disso, analisa como o Movimento de Jesus se torna Religião Cristã.

Mircea Eliade, em seu livro Aspectos do Mito, aponta cinco aspectos como constitutivos do mito:

1.       Constitui a história de atos dos seres sobrenaturais;

2.       Que esta história é considerada verdadeira e sagrada;

3.       Que o mito se refere sempre a uma criação, conta como algo começou a existir, ou como um comportamento, uma instituição ou um modo de trabalhar foram fundados; é por isso que os mitos constituem os paradigmas de todo ato humano significativo;

4.       Que conhecendo o mito conhece-se a origem das coisas…;

5.       Que, de uma maneira ou de outra, vive-se o mito no sentido em que se fica imbuído de força sagrada e exultante dos acontecimentos evocados e ritualizados.

 

Texto 7

Mito da Terra sem Males[1] - Tradição Guarani Nhandeva[2].

Nhanderuvuçú (Nosso Grande Pai) surgiu primeiro, com uma luz resplandecente, semelhante ao sol, no peito. Trouxe a eterna cruz de madeira e colocou-a na direção leste. Sobre o suporte da cruz, deu à terra o seu princípio. Em seguida trouxe a água. Quando Nhanderuvuçú desceu à terra, devido à maldade dos seres humanos, exortou Guyraypotý, o grande pajé, a realizar uma dança, pois a terra estava na iminência de se tornar má. Este obedeceu-lhe, passando toda a noite em danças rituais. Durante quatro anos, ele a executava com sua família. Quando se ouviu no oeste o trovão da destruição, a terra passou a desmoronar. Quando Guyraypotý parou de dançar, moveu-se o esteio que sustentava a terra, provocando um incêndio devastador[3].

Guyraypotý caminhou com sua família para o leste, em direção ao mar. No começo ainda plantavam roças. Aos poucos, não deu mais tempo para plantar e esperar a colheita. Todos teriam morrido de fome se Guyraypotý não fizesse aparecer a alimentação: pisou contra uma árvore e fez aparecer jabuticabas para comerem. E disse: “Deixem um galho para aqueles que virão depois de nós”. Quando alcançaram a Serra do Mar, seu primeiro cuidado foi construir uma casa de tábuas para que, quando viessem as águas, ela pudesse resistir. Terminada a construção, retomaram as danças rituais e os cantos.

Disse Guyraypotý: “Não tenham medo quando a água se precipitar para resfriar a superfície da terra”. E veio a chuva. O perigo tornava-se cada vez mais iminente, pois o mar, como que para apagar o grande incêndio, rolava sobre a superfície incandescente da terra. Quanto mais subiam as águas, mais Guyraypotý e sua família dançavam[4].

As águas revoltas chegaram na casa e estavam prestes a serem tragados. Guyraypotý começou a chorar, mas sua mulher lhe falou: “Suba no telhado da casa! Não tenha medo, meu pai, abre teus braços para que os pássaros ameaçados pelas águas possam pousar[5]”.

Quando a água atingiu a altura dos joelhos dos presentes, impedindo que se batesse a taquara de dança no chão da casa, a mulher de Guyraypotý continuou batendo a taquara ritmadamente contra o esteio da casa, sem interromper seu canto.

Guyraypotý entoou então o Nheengaraí, o canto solene Guarani, e a casa logo se desprendeu do chão, se moveu e girou, flutuando na superfície das águas, subiu e subiu até, finalmente, chegar aos céus[6] com todos os que nela estavam. Atravessando os portais celestes, a casa entrou na terra sem males.

Para refletir:

1. Que sentimentos o mito provoca em nós e o que nos faz lembrar?

2. Que semelhança e diferenças há em relação aos relatos bíblicos da criação de Gn 1-11?

3. O que podemos concluir desta comparação?



[1] Recopilado por Aloir Pacini, antropólogo jesuíta e publicado na Revista de Espiritualidade ITAICI, dezembro de 2001.

[2] Esta narração do mito numa linguagem mais atual e acessível é uma apropriação pessoal que fui adaptando das pesquisas de Curt Nimuendajú Unkel do começo do século XX: As lendas da criação e da destruição do mundo como fundamentos da religião dos Apapocúva-Guarani. Hucitec e Edusp. 1987. Os outros sub-grupos Guarani atualmente conhecidos são os Mbyá e os Kaiowá.

[3] Nhanderuvuçú havia criado a terra e depois construído a casa na conjunção da eterna cruz de madeira. Colocou uma viga no sentido leste-oeste, e outra, por cima, no sentido norte-sul. Pisou sobre o ponto de cruzamento dessa cruz de madeira e encheu os quadrantes de terra. Quando a extremidade oriental do braço inferior da cruz foi puxada para leste, a terra perdeu seu suporte (esteio) ocidental e um fogo subterrâneo começou a devorar o subsolo a partir da borda ocidental da terra. A cruz missioneira que marcou as Missões do Paraguai entre os Guarani possui duas vigas no sentido leste-oeste, indicando duas dimensões da vida, ou seja, o tempo de ligação intensa e direta com a terra e o tempo cultural da casa, as duas são necessárias para chegar na terra sem males.

[4] Os Guarani acreditam que o corpo pode tornar-se leve com o jejum e a dança e assim ascender ao zênite e ingressar no paraíso pelos portais celestes. Esta cosmologia, com uma forte afirmação da imortalidade e da imanência do divino no humano, é o segredo da filosofia Tupi-Guarani.

[5] Nos braços se sentariam os pássaros bons, os que não comem carne e suas penas são utilizados para os rituais. Estes deveriam ser erguidos para o alto com o impulso dos braços e, talvez, levar os humanos para os céus.

[6] Este lugar para onde foram chama-se Yvý marãeý, a “terra sem males”. Outros mitos dizem que este lugar pode ser encontrado além do mar. Ali não é necessário fazer roça, as plantas nascem por si próprias. Ali não há sofrimento, as pessoas não envelhecem e nem morrem.