Oficinas de Espiritualidade - Textos
O QUE É
ESPIRITUALIDADE?
TEXTO 01
Espiritualidade
– é uma opção, nunca uma imposição. Significa vibrar em si certas cordas sutis
que religam a uma ordem maior, que remetem a uma harmonia que transcende o
prosaico cotidiano. Reconhecer que este é um caminho que se apresenta a alguns
no decorrer de seu desenvolvimento pessoal e que muitas vezes dá um sentido ao
aparente caos dos (muitas vezes estranhos) acontecimentos que permeiam a vida de
cada um. Acreditamos que a verdadeira espiritualidade não está necessariamente
nos grandes eventos ou profecias, mas sim no pequeno gesto do dia a dia. O
verdadeiro homem espiritual não faz marketing pessoal, ele influencia o outro
apenas com sua presença simples e contagiante, fazendo o outro sentir a
espiritualidade que tem dentro de si
(http://www.ibpb.com.br/oinstituto_oquee.htm).
TEXTO 02
Ultimamente tem-se verificado
uma grande discussão em torno da palavra Espiritualidade, com laivos de grande
intolerância, por parte dos não crentes e das Religiões.
Não devemos confundir o
conceito de Espiritualidade, com algum dogma religioso. Espiritual é algo
profundo, que cada um de nós, de uma forma ou de outra, é capaz de compreender
intuitivamente, como sendo a fonte do Amor, da Bondade, da Beleza e da
Sabedoria.
Mas perante estes fatos, como
pode o homem laborar em algo que está para além da razão e do palpável?
Para isso, ele terá de utilizar
outras ferramentas de ação, que também elas, não podem pertencer ao mundo das
formas. Alfaias de níveis cada vez mais elevados e profundos, como o raciocínio
e a Intuição, alicerçados na Ética e na Simbólica, tornam possível, sentir,
viver e almejar a Ordem superior, para além das limitadas representações mentais
comuns e permitir avançar, cada vez mais, na Senda da Perfeição. Para isso
devemos progressivamente, trabalhar para alcançar estados, percepções e
conhecimentos traduzidos em Sabedoria, que devem ser retiradas das experiências
quotidianas, do simbolismo e das fabulosas e altamente inspiradoras histórias
míticas e místicas, e começar a trabalhar as Emoções, primeiro e indispensável
passo para a caminhada Iniciática.
Portanto, já aqui, ao
direcionarmos a atenção sobre as emoções, já estamos a trabalhar num plano
extra-físico, não palpável, mas que sabemos e sentimos, como algo que na
realidade existe e é extremamente importante para a vivência humana.
Um projeto por mais complexo
que seja foi inicialmente trabalhado pela mente humana antes da sua
concretização material. Aqui temos a noção exata, de que, trabalhamos
inicialmente noutras Esferas, neste caso no Plano Mental e só depois passamos ao
concreto, ao palpável, ao físico.
Certamente que a nossa
evolução, exigirá posteriormente, a atenção para Planos cada vez mais sutis do
que o Mental. A Intuição e a Meditação abrem caminhos nessa perspectiva.
Os excessos provocados pelas
Religiões ou pelo fanatismo de fundamentalistas religiosos, não invalidam a
existência de Estados Diferenciados da Realidade, como admite atualmente a
ciência, e cairmos no outro extremo radical, o materialismo puro, desconexo da
Realidade e dos propósitos da Vida.
O trabalho do Homem deve ter
dois níveis, interligados. Um de matriz Espiritual, introspectivo, de
auto-observação constante e de busca contínua pela perfeição; o outro, um
Serviço de ação e transformação direta no mundo concreto. Para isso, toda a ação
deve ser guiada por princípios éticos. O objetivo deste Trabalho dual (Ação
guiada) traduz-se num crescimento pessoal e consequentemente, numa mais valia,
para a evolução da própria Humanidade, libertando-a mais rapidamente das amarras
do sofrimento, da ignorância e da inércia.
Paz a todos os Seres,
Jorge Moreira (http://jorgemoreirashakti.blogspot.com/2006/03/espiritualidade.html)
TEXTO 03
Espiritualidade: a mudança interior,
in LEONARDO BOFF. Espiritualidade um Caminho de Transformação.
TEXTO 04
Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs. Paulus/EditoraVozes : São
Paulo/Petrópolis, 2002.
A noção de e. é moderna e não se encontra como tal nos antigos. Estes
preferiam falar de teologia espiritual, de ascese e de mística ou, simplesmente,
de vida cristã e evangélica. Aqui nos limitaremos a oferecer indicações sobre a
vida ascética e espiritual.
Os primeiros dois séculos.
Das comunidades judaico-cristãs possuímos certo número de escritos, como a
Didaqué, as
Odes de Salomão, a
Carta de Barnabé, o
Pastor de Hermas, que
espelham a vida espiritual por elas vivida. A Didaqué descreve as
práticas da vida cristã no quadro da tradição judaica e evangélica: jejuns,
orações, obras. As Odes de Salomão refletem uma exaltação mística, um
fervor espiritual surpreendente para aquela época. A Carta de Barnabé
apresenta uma e. do batismo, uma leitura tipológica da Sagrada Escritura, em que
o autor configura a perfeição cristã como o novo templo habitado pelo Espírito
Santo (c. 16). Dá ele este conselho: o cristão não trabalha pela salvação na
tristeza, mas é filho da alegria (4,11). O Pastor
de Hermas cancela a imagem de uma
igreja idealizada. Tem consciência das exigências do batismo, mas também das
quedas que sobrevêm. Realista, combate os rigoristas, não quer levar ao
desespero os pecadores, chamados, também eles, à construção da torre, contanto
que façam penitência (Sim. VI, 3,4,6). Pede que sejam observados estes
escritos judaico-cristãos, em particular a Didaqué, acentuam a
escatologia, que polariza toda a vida espiritual: as comunidades estão vivamente
voltadas para a volta de Cristo, por elas considerada iminente.
Com Inácio de Antioquia, a e. toma duas direções complementares: uma
eclesial, a outra individual. O bispo é antes de tudo um homem da igreja. A vida
espiritual se desenrola na igreja, na assembléia, sede privilegiada da oração,
na eucaristia, na obediência e na união com o bispo. A alma de toda vida
espiritual é Cristo, nossa vida, nossa vida eterna, nossa vida inseparável (Eph.
3,2; Magn. 1,2; Smym. 4,1). Cristo é o conteúdo de todas as
suas cartas. A vida espiritual consiste em revestir-se de Cristo, de sua paixão,
de sua morte, para compartilhar da ressurreição. A eucaristia é ao mesmo tempo
este mistério e esta esperança. O martírio lhe parece ao mesmo tempo uma
liturgia e a via mais curta para encontrar Cristo e o Pai. Em Inácio e em
Policarpo vemos formar-se uma teologia espiritual do martírio, confissão da fé,
presença de Cristo, prolongamento da paixão e da eucaristia, testemunho
eclesial, afirmação da futura ressurreição atestada pelos Atos e pelas Paixões
dos mártires.
Os Apologistas preocupam-se
mais em apresentar o cristianismo aos pagãos do que em expor a vida espiritual.
Pelo menos Justino testemunha sobre a vida sacramental e comunitária dos fiéis.
Os cristãos, iluminados por Cristo, conhecem a verdade e possuem a graça de
levar uma vida virtuosa (/I Apol. 10,3). Sua vida disto é testemunho até
ao martírio.
A Carta a Diogneto não apenas ilustra a vida cristã, mas também
mostra sua ação no mundo: os cristãos são a alma do mundo (Diogn. 6), por
irradiarem o amor de Deus pelo homem, que é a razão de ser da criação: "Se
amamos a Deus, imitaremos seu terno afeto" (10,4-5).
Ireneu em toda a sua obra descreve a progressiva ascensão para o
conhecimento de Deus. Lentamente Deus prepara o homem para acolher o Verbo. O
homem nasceu criança e imperfeito: "Era preciso antes do mais que ele fosse
criado, crescesse e adquirisse forças, depois se multiplicasse, e, enfim,
conseguisse seu pleno desenvolvimento para chegar à glória e então ver seu
Senhor" (Adv. haer. IV, 38,3). Lenta ascensão, que é purificação e
transformação do homem todo para receber a incorruptibilidade (Demonstr. 7).
A literatura apócrifa, por sua vez, embora tendenciosa e às vezes
manipulada por correntes heterodoxas, revela singular fervor espiritual. Aí
encontramos valores religiosos incontestáveis: irrupção da redenção no mundo
através de Cristo, recuperação universal do cosmo mediante a ressurreição,
confiança inabalável em Cristo e em seu poder, devoção amorosa a Jesus, presente
em todo lugar, fé numa escatologia que se realiza, exaltação da mulher-virgem.
Temos aqui alguns elementos essenciais da fé e da vida cristã.
A partir do séc. II, a Igreja é obrigada a defender, contra os exageros
dos encratitas e das seitas, a legitimidade do matrimônio e o convite a uma vida
perfeita dirigido a todos.
O terceiro século.
Dois centros principais brilham no séc. III: Alexandria e Cartago. A Igreja se
desenvolve não obstante a perseguição sempre mais violenta, conservando seu
espírito de vigilância e de preparação para o martírio. A caridade vivida
comunitariamente se manifesta em formas e iniciativas concretas. Tertuliano é um
polemista e um moralista mais do que um mestre de espiritualidade; seria errado,
no entanto, ter em menor consideração sua obra ascética, que desenvolve os
seguintes temas espirituais: batismo, oração, martírio, paciência, castidade,
expressando um ideal voltado até o heroísmo e o martírio.
A obra literária, bem como a ação de Cipriano, é sobretudo pastoral e
espiritual. Seus temas preferidos são: a Igreja una, a oração, o martírio, a
vigilância. "O reino de Deus começa a estar muitíssimo próximo de nós. A
recompensa da vida, a alegria da salvação eterna, o júbilo perpétuo, a posse do
paraíso perdido uma vez: tudo isto vai-se avizinhando à medida que o mundo
passa". Os escritos de Cipriano estarão entre os mais lidos durante toda a
história da Igreja.
A obra inteira de Clemente, não obstante suas preocupações metafísicas,
tem em mira guiar o gnóstico, ou seja, o fiel iluminado, para a perfeição. O
perfeito modelo a ser imitado é Cristo (Ped. I, 2,4). O povo cristão é um
povo de meninos que é preciso conduzir a uma fé límpida. "E necessário um
exercício incessante para que a gnose se tome hábito e, uma vez alcançada a
perfeição mediante o hábito místico, esta permanece estável graças à caridade"
(Strom. VI, 9,78).
Toda a obra de Orígenes é dominada pela vida espiritual. Seu ponto de
referência principal é a inabitação divina, que toma o justo templo de Deus e do
Espírito. Encontramos aqui a tríplice presença, cara a Orígenes, de Deus e de
Cristo na Escritura, na Igreja, no cristão. Mais do que presença, há união, que
é ao mesmo tempo o impulso e o termo da ascensão espiritual. União que tem seu
último resultado no êxtase. Saindo das imagens bíblicas particularmente
preferidas, Orígenes descreve as purificações que preparam o encontro, para além
do exílio e do pecado, para encontrar a unidade interior (De oro 21,2) e
chegar a Deus. Ascese essencialmente escatológica, enquanto prepara o dia
eterno,
De Nicéia a Calcedônia.
Para os Padres da idade áurea basta traçar em grandes linhas as correntes
espirituais, guiados pela temática. A catequese batismal, ao mesmo tempo
doutrinal, ascética e litúrgica, tem um lugar considerável. E o convite à
conversão e à fé através da vida evangélica (Cir. de Jer., Cato I). O
grande número de sermões batismais que nos chegaram prova () empenho dos Padres
na preparação à fésólida e tomada compreensível (cf. Agost, De catechizandis
rudibus).
A Quaresma é tempo de retiro para a Igreja inteira: preparação para os
catecúmenos, reconciliação para os pecadores, mobilização e aprofundamento da fé
para todos. Os Discursos e o Hexaemeron de Basílio nos mostram o
povo mobilizado. A pregação dos Padres revela a importância por eles dada à
perfeição dos leigos: "Aos casados como aos monges Jesus pregou as
Bem-aventuranças" (J. Crisóst., ln Mat. hom. 7,7; cf. também Agost.,
De sermone in monte).
A pregação no Oriente e no Ocidente nos oferece os elementos de uma
doutrina espiritual para o povo cristão. Nutrida pela Escritura e pela liturgia,
ela se esforça por explicar a santificação de todos os estados de vida,
especialmente do matrimônio e da fanu1ia. O lar doméstico "é uma pequena
igreja", diz João Crisóstomo. Modestas terracotas com frases tiradas da Bíblia e
da liturgia, inscrições com versículos dos salmos permitem seguir a irradiação
desta catequese. As reminiscências litúrgicas nos ostraka e em papiros,
como as aclamações, as doxologias, o Trisagion, o maranatha, o
Kyrie eleison mostram a influência exercida pela liturgia sobre a piedade
dos fiéis.
As cartas de direção intensificam, a seu modo, este trabalho espiritual,
principalmente em relação a leigos influentes, homens e mulheres, quer se trate
de Basílio, de João Crisóstomo, de Agostinho ou de Paulino de Nola. Será preciso
acrescentar os escritos para as virgens e para as viúvas (Viller-Rahner, 41-42).
O fervor dos mártires continua especialmente entre as virgens e os
monges, que se multiplicam e se diversificam, sobretudo depois da paz
constantiniana, assumindo as formas mais variadas e radicais. Os escritos por
eles inspirados (a Vita S. Antonii, os Apoftegmas) têm
notável influência tanto no Oriente quanto no Ocidente. João Cassiano fixa seu
ensinamento doutrinal e adapta seu gênero de vida. A Vita Martini,
escrita por Sulpício Severo, ocupa análogo lugar no Ocidente. A época
constantiniana dá livre curso ao culto dos mártires, depois ao dos santos, que
passam a encontrar um lugar importante na vida espiritual das comunidades. Culto
que, por sua vez, dá vida a uma literatura, em que a legenda invade a história.
Hagiografia que será o alimento de gerações cristãs.
Um grande movimento de peregrinações começa no séc. IV, ampliando-se
sempre mais: Egéria poderia ser, a este respeito, sua padroeira e seu modelo.
No Oriente e no Ocidente desenvolve-se a teologia espiritual herdada de
Orígenes. Gregório de Nissa é justamente dito "o pai da mística". Sua influência
incide especialmente sobre a doutrina espiritual de Diádoco de Fótice e de
Máximo o Confessor. O Pseudo-Dionísio, logo e muitas vezes traduzido para o
latim, introduz esta teologia mística no Ocidente, onde dominará entre os
Vitorinos e S. Boaventura.
De seu lado, Agostinho, com sua teologia da graça, sua Regra para os religiosos, seu itinerário para Deus, exerce uma influência duradoura na Idade Média. Um de seus discípulos, Gregório Magno, fornecerá nos Moralia, nas Homilias e na Regula pastoralis o maná às gerações cristãs.
TEXTO 05
MONDONI, Danilo. Teologia da Espiritualidade Cristã. Edições Loyola : São Paulo,
2000.
A palavra espiritualidade é considerada por muitos como filha da modernidade, pois sua origem remete-se à escola espiritual francesa do século XVII, como designação da relação pessoal do humano com Deus. No entanto, em sua forma "abstrata", remonta à época patrística, pois aí se encontra um texto - por séculos atribuído a Jerônimo, mas que em realidade pertence a Pelágio - no qual aparece a frase: "Age ut in spiritualitate proficias", designando com esta expressão o conceito de espiritualidade como vida segundo o Espírito de Deus e como progressão aberta a realizações ulteriores; no século VI, Dionísio, o Pequeno, traduzindo o tratado de Gregório de Nissa Sobre a criação do homem, verteu o termo grego pneumatiké pelo latino spiritualitas, com a seguinte explicação: "Consiste na perfeição da vida segundo Deus".
No judaísmo o termo ruah (espírito, respiração, vento, ou seja, tudo aquilo que dá vida e ânimo) designa uma dupla dimensão: a força da vida individualizada e o poderio de Javé que atua especialmente sobre seu povo como dom profético e como sabedoria personificada. Da experiência cristã surge a afirmação da pessoa divina do Espírito Santo e a visão da espiritualidade da própria existência.
Na Bíblia não se encontra uma teoria sobre a espiritualidade, mas sim seus conteúdos, especialmente em Paulo. Encontramos com freqüência o convite a viver como "homens espirituais" (1 Cor 2,13; Gl 6,1; Rm 8,9), a viver "na perfeição da santidade, espírito, alma e corpo" (1Ts 5,23). Com esta exortação Paulo queria sintetizar o estilo de vida do cristão: a vida cristã devia ser entendida como vida dominada pelo Espírito do ressuscitado, como vida de membros da Igreja, como abertura existencial a toda humanidade e como espera da plenitude futura para o ser humano e para o cosmo (Rm 8).
O cristianismo do primeiro milênio não conheceu a cisão entre dogmática e espiritualidade. A palavra da Escritura era portadora e suporte da fé cristã: a letra significava a superfície, a alegoria era a realidade dogmática e salvífica expressa pela letra, a moral consistia na apropriação pessoal desta realidade, e a tropologia mostrava a orientação à salvação escatológica.
Do século IX ao século XI, espiritualidade indica realidade e atividade que não provêm da natureza, mas da graça do Espírito Santo presente no ser humano. A partir do século XII, a homogeneidade de significado se decompõe: "espiritualidade" mantém o sentido de sobrenatural, mas também passa a designar aquilo que não é material; quando seu uso se associa ao discurso da vida devota e interior, equivale a vida afetiva ou interior.
A partir de fins do século XII e durante todo o século XIII, na Igreja Católica do ocidente, o discurso teológico tende a revestir uma forma científica, que se distancia sempre mais da teologia concebida como comentário do texto sacro e aproxima-se da pesquisa filosófica: o teólogo esforça-se em determinar os conteúdos objetivos do texto sacro por meio de questões, ao passo que o monge entrega-se à meditação das Escrituras. A teologia, distinta da exegese, subdivide-se em especulativa ou dogmática, prática ou moral, afetiva ou espiritual. A geração dos grandes escolásticos é o último exemplo da unidade entre teólogo e santo, pois até então resultava incoerente a separação entre saber e experiência de fé, magistério e vida espiritual, pastor e doutor.
O termo francês spiritualité já era empregado desde o século XII. A partir do século XVII foi usado tanto para designar as relações afetivas com Deus (Francisco de Sales), como para referir-se ao conhecimento interno e direto do divino ou sobrenatural (círculo elitista ligado à Madame de Guyon). Mas a crise do quietismo fez com que o argumento fosse desprezado, sobretudo o setor da mística; nesse mesmo século a espiritualidade dividiu-se em ascética e mística.
O renascimento da terminologia se deu desde fins do século XIX, e no XX, graças a autores como de Guibert, Pourrat, Bremond, Vernet: espiritualidade passou a designar a vida espiritual enquanto experiência vivida, e também o nome de uma disciplina acadêmica.
A cátedra universitária de espiritualidade foi instituída em Roma a partir de 1917, porém os tratados, no sentido de sistematizações lógico-formais, remontam ao século XVII. Os pioneiros dessa cátedra foram os dominicanos, seguidos depois pelos jesuítas, franciscanos e carmelitas. Num primeiro momento preferiu-se chamá-Ia cátedra de ascética e mística. Evoluindo-se, conseguiu a dignidade de ensino obrigatório nas faculdades teológicas católicas (Pio XI na Deus scientiaram Dominus, de 31 de maio de 1931, propôs a criação da cátedra de teologia ascética e mística em todas as faculdades teológicas).
No século XX, introduziu-se o uso de "espiritualidades", no sentido de escolas espirituais.
O mérito de se ter chegado à teologia espiritual pertence aos dominicanos, jesuítas e carmelitas, por meio das reflexões sobre suas escolas de espiritualidade. Em 1919 o dominicano Bernadot lançou a revista Vie Spirituelle; em 1920 o jesuíta De Guibert fundou a Revue d'ascétique et mystique (em 1972 o nome foi mudado para Revue d'histoire de la spiritualité); os carmelitas lançaram a Rivista di vita spirituale. O último passo, a partir de 1950, foi a fundação de institutos de espiritualidade.
O dominicano Garrigou-Lagrange empenhou-se em ampliar os horizontes da teologia tomista em função da vida espiritual, especialmente contra a teoria das duas vias de santidade - ascética e mística -, defendendo uma única linha de ascese que dessem boca na vida mística. O jesuíta Erich Przywara foi um dos que conduziram a teologia espiritual ao confronto com o pensamento contemporâneo. O carmelita Gabriel de Santa Maria Madalena valorizou teologicamente o aspecto psicológico da vida espiritual e levou adiante o discurso acerca da pretensão de se considerar a teologia espiritual uma ciência autônoma; tal problemática nasceu no pós-guerra, mas somente com as reflexões de Jean Mouroux e Balthasar se pôde ver como a teologia espiritual pode fazer do vivido cristão seu objeto próprio e formal.
TEXTO 06
MÍSTICA E ESPIRITUALIDADE
O texto que segue é parte de um artigo escrito por ocasião de um curso para
missionários populares da Diocese de Porto Velho – RO.
[...]
3. Espiritualidade
O que é espiritualidade? Qual sua ligação com mística?
Espiritualidade não é, em primeiro lugar, um conjunto de rezas e devoções. Não
as exclui, mas vai além. Pessoa espiritual não é aquela que fala a toda hora o
nome de Jesus ou que só anda citando a Bíblia. É muito mais.
Aliás, a Bíblia não usa a palavra espiritualidade, usa outra
expressão: vida segundo o Espírito. Nesse sentido Jesus tinha muita
espiritualidade: deixou-se conduzir pelo Espírito do Pai, no cotidiano da vida e
nos momentos das grandes decisões (cf. Lc 3,21; 4,1.14). Na hora da despedida,
comunicou o seu Espírito aos discípulos: "Recebam o Espírito Santo..." (Jo
20,22). As primeiras comunidades mais autênticas eram aquelas que se deixavam
conduzir pelo Espírito de Jesus (cf. At 4,31;13,2), a ponto de dizer:
"Decidimos, o Espírito Santo e nós..." (At 15,28).
Foi o apóstolo Paulo que forjou a feliz expressão: vida
segundo o Espírito. Ele afirma que, fundamentalmente, há duas maneiras de viver
a vida: segundo o Espírito de Jesus e segundo a carne.
Vida segundo o Espírito de Jesus
é vida guiada e iluminada pelos mesmos sentimentos e opções de Jesus.
Vida segundo a carne
é vida conduzida segundo o espírito do anti-Reino de Jesus, que é o reino do
ódio, do aproveitamento, da ganância, da divisão, de todo tipo de mal que
estraga a vida e o sentido da vida (cf. Rm 8,1-17; Gl 5,13-26).
Espiritualidade, portanto, é um estilo de vida; é uma maneira
de vivê-la. A vida pode ser vivida de várias maneiras. com critérios e pontos de
vista diferentes. Há a maneira, por exemplo, de quem quer explorar, do
ganancioso, do corrupto, do violento, do acomodado. Espiritualidade cristã é
viver o dia-a-dia conforme o Evangelho de Jesus. É ter os mesmos sentimentos e
posturas de Jesus, como o apóstolo Paulo lembrava à comunidade cristã de Filipos
(Fl 2,5). Por exemplo, que espiritualidade de Jesus aparece no evangelho segundo
Marcos, cap. 10,13-16? Diz o texto que Jesus ficou zangado ao ver algumas
crianças - símbolo das pessoas humildes, pobres, sem voz e sem vez - serem
marginalizadas e desprezadas. Ao mesmo tempo, Jesus abraçou as crianças com
ternura e com solidariedade, tomando a defesa delas. Esses sentimentos e
posturas de Jesus, inclusive a ira, constituem a sua espiritualidade. Agora, o
que fazer para que essa espiritualidade de Jesus seja fonte inspiradora para a
nossa vida de hoje? Será que nós também, diante da corrupção e da mentira, não
devemos ficar zangados? E isso é espiritualidade!
Vale a pena insistir: espiritualidade vai além de rezas,
devoções, celebrações e missas. É um estilo de vida e esse estilo deve ser
vivido no cotidiano. Espiritualidade se vive no ônibus, na estrada, em casa, na
rua, no trabalho, no sindicato, nas lutas populares, nas relações sociais, na
escola, na prefeitura, no falar, no ver, no julgar, no agir, em tudo. É ter os
mesmos sentimentos de Jesus, dentro dessas realidades cotidianas. A gente
percebe se uma pessoa é espiritual ou não, não tanto pelas vezes que invoca o
nome de Jesus ou pelo número de orações que faz, e sim caso se deixe orientar
pelos mesmos sentimentos e opções de Jesus, dentro do cotidiano da vida. Vale a
pena conferir, por exemplo, Mateus 25,31-46.
E tem mais: viver a vida segundo o Espírito de Jesus não
significa esquecer nossas culturas, nosso jeito de ser e viver. Todos os
seguidore(a)s de Jesus são convidados a ter os mesmos sentimentos de Jesus, mas
cada um segundo sua condição e situação concreta: como homem ou mulher, casado
ou solteiro, negro ou índio, paraense ou paulista. Jesus não pediu à samaritana
que deixasse de ser samaritana, e sim convidou-a a adorar o Pai "em espírito e
verdade", como samaritana (Jo 4,23-24).
Agora, é bom lembrar também que não é qualquer cultura ou
estilo de vida que serve para viver segundo o Espírito de Jesus. No tempo de
Jesus, por exemplo, havia o estilo de vida dos doutores da lei, dos herodianos,
dos sacerdotes do templo. Jesus não se encarnou nem se identificou naqueles
tipos de cultura, e sim na cultura dos camponeses pobres da Galiléia e, segundo
essa cultura, ele foi questionando, iluminando, convidando todos à conversão.
Para o seguidor de Jesus, nenhuma cultura é algo absoluto, intocável; tudo deve
ser iluminado e questionado pelos valores do Evangelho.
Mística e espiritualidade são inseparáveis. A mística gera
convicções profundas e estas sustentam nossas opções fundamentais, que, por sua
vez, orientam nossa vida cotidiana. A espiritualidade traz e traduz para o
dia-a-dia a nossa intimidade profunda com a pessoa e o projeto de Jesus. A
espiritualidade está orientada pela mística: tal mística, tal espiritualidade;
tal experiência de Jesus, tal conseqüência no nosso dia-a-dia. Não adianta falar
de mística, de convicções, se o meu dia-a-dia está em outro rumo. Nossa vida
cotidiana deve estar na linha das convicções e das opções.
Mas, então, se espiritualidade é um estilo de vida, por que
rezar? Por que ir ao culto, à missa e às devoções? Por que meditar a Palavra de
Deus? Já falamos disso, ao lembrarmos a oração na vida de Jesus. Sim. orações,
cultos, missas, Palavra de Deus não estão fora da espiritualidade; são
importantes momentos abastecedores. Sem esses momentos não há espiritualidade
que se sustente. Afinal, para ter os mesmos sentimentos de Jesus, eu preciso
conhecê-lo e saber estar com ele e com sua maneira de se relacionar com o mundo.
Ainda: espiritualidade não significa copiar, ao pé da letra, a
vida de Jesus. Isso não é fidelidade, e sim uniformidade; é falta de
criatividade, de consciência crítica sobre nossa vida de hoje. Os tempos
mudaram. Trata-se é de ter e viver hoje os sentimentos, as atitudes e as
posturas básicas de Jesus. A concretização fica por conta da gente, conforme a
vida que vivemos, aqui e agora. Fazer isso significa entrar na dinâmica do
seguimento de Jesus Cristo.
4. Espiritualidade missionária
E o que é a espiritualidade missionária? Se a espiritualidade
é uma maneira de viver o nosso cotidiano, então significa que há várias
espiritualidades, porque o cotidiano da vida pode ser vivido de maneiras
diferentes. Melhor ainda: há uma espiritualidade única, aquela do seguimento de
Jesus, mas essa nós a podemos viver de maneiras diferentes, conforme as
situações em que estamos e as opções de vida que fizemos. Por isso, há
espiritualidades específicas: para pessoas casadas, para pessoas de congregação
religiosa, para militantes cristãos, para grupos de jovens, para CEBs, para
profissionais, para trabalhadores etc.
Toda verdadeira espiritualidade é, também, missionária; é
voltada para a missão. Porém, queremos aqui aprofundar um pouco mais a
espiritualidade que deve acompanhar aqueles que assumiram, de uma maneira
especial, o serviço missionário. Vamos, primeiro, buscar luzes e inspirações na
vida de Jesus missionário.
Jesus tinha um sonho, um grande sonho: vida e liberdade para
todos! (cf. Jo 8,31-32; 10,10). Queria que todos vivessem unidos, iguais, em
comunhão com o Pai (cf. Jo 17,21). Esse sonho não era fantasia. Jesus
transformou o sonho em um projeto possível, viável. Encarnou e situou, no tempo
e no espaço, esse sonho e deu-lhe um nome: Reino de Deus. Essa é uma das
expressões que mais aparecem nas conversas e nas práticas de Jesus. Fez desse
projeto o sentido da sua vida. Abraçou-o como missão.
Jesus não se pertenceu, mas pertenceu a essa missão, tão bem
resumida nas palavras do profeta Isaías, que Jesus a leu e assumiu publicamente
durante um culto na sinagoga de Nazaré (cf. Lc 4,14-21). Jesus organizou toda a
sua vida e o seu dia-a-dia em função dessa missão. Seu tempo, suas andanças,
seus gestos, suas decisões, suas relações com as pessoas e com a sociedade eram
orientados pela missão. Tudo o que fazia e dizia tinha a marca da missão. Por
causa da missão, Jesus usou táticas e estratégias. Nunca, por exemplo, dormiu
dentro da cidade de Jerusalém. Preferia dormir fora, por questões de segurança
também (cf. Lc 21,37-38). Várias vezes, chegou até a esconder-se (cf. Jo
7,1-5.10-13). Conforme o evangelho segundo João, passou uns dias na
clandestinidade, pouco antes de ser preso (cf. Jo 11,53-54). Mas, na hora em que
a fuga teria sabor de traição ou de covardia, ficou e enfrentou: "Quem estão
procurando?... Sou Eu!..." (cf. Jo 18,4-5). Sempre foi fiel à missão e assumiu
todas as conseqüências. Sua intimidade com o Pai e sua vida de oração eram
marcadas pela missão (cf. Jo 17,11-19). Conflitos, perseguições, ameaças e morte
aconteceram por causa da fidelidade à missão (cf. Mc 12,12; Jo 10,38-39). Suas
alegrias vinham da missão (Lc 10,21). Ele viveu, realmente, uma autêntica
espiritualidade missionária.
Em Síntese: mística e espiritualidade
A mística pessoal
é o que marca, sela, dá originalidade à todo o nosso ser.
Se revela no nosso olhar sobre o mundo, no jeito que sentimos, no jeito que
acolhemos a Outra Pessoa, nas nossas mãos que junto com outras constróem, no
nosso grito indignado diante de uma situação injusta, no nosso parar para
contemplar e embebedar-se da alegria de estar vivos, ao final de um dia de luta.
“É existencial. A necessidade de encontrar o sentido para suas
vidas e as respostas para os problemas que surgem quotidianamente, leva os
jovens a buscar e aproximar-se de Jesus Cristo Libertador, que chegam de muitas
diversas maneiras.
Encarnada que leva os jovens a inserirem-se em seus meios e a
responder as exigências que surgem das situações de pobreza, injustiça e
violência a que são submetidos.
Jesus não pede “cumpra a lei e a tradição”. Ele pede que
mudemos o modo de pensar e agir. Este é o chamado a conversão que a chegada do
Reino traz consigo ( Cf. 10º Encontro latino-americano da PJ - Conclusões ).
Espiritualidade
é o que faz com que “vivamos segundo o Espírito” (1 cor 12, 3; Rom. 8,9)
, é marcada no cotidiano de nossa existência.
Enfim, nós, as Mulheres e os Homens, Jovens e Adultos, cada Pessoa que se sentir motivada a cultivar a espiritualidade no cotidiano, está convidada a ser Pastoras e Pastores da Alegria. Afinal, a esperança e a fé fazem de nós Pessoas corajosas, testemunhas, sinais vivos e presentes do Reino entre nós.
BIBLIOGRAFIA:
Cabarrús, Carlos Rafael,
Crescer bebiendo del proprio pozo. Ed.
4, Serendipitd Maior, Vol. 07. Bilbao : Desclée De Brauwer, 2000.
Cabarrús, Carlos Rafael,
Cuaderno de Bitácora, para acompañar
caminhantes – Guia psico-histórico-espiritual. Serendipitd Maior, Vol. 12.
Bilbao : Desclée De Brouwer, 2000.
Estudos da CNBB – PJB,
Marco Referencial da Pastoral da Juventude
do Brasil.
Corti, Renato, Moioli, G. e Serenthà, L.,
A direção Espiritual hoje.
S. Paulo : Paulinas, 2002.
Mosconi, Luís,
Santas missões populares. Ed. 8. São
Paulo : Paulinas, 2003.