Código Florestal: 'falta harmonia, conhecimento sistêmico e sobram
dispersão e desinformação'. Entrevista especial com Dieter Wartchow
Fonte: IHU
Link:
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=42541
Para o pesquisador
Dieter Wartchow, o novo
código florestal deveria ser baseado em fatos, dados e informações
resultantes de estudos científicos. “Na abordagem natural usada nas
discussões em torno do Novo Código
Florestal,
falta harmonia, conhecimento sistêmico e sobram dispersão e
desinformação. As discussões direcionam-se para os sintomas do problema
e são pautadas por ações ou posições fragmentadas, as quais, na maioria
dos casos, representam um ponto de vista corporativista, de seu
interesse”, apontou ele na entrevista que concedeu à
IHU On-Line por e-mail.
Dieter Wartchow é engenheiro
graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul com
especialização em Hidrologia Aplicada pelo Instituto de Pesquisa
Hidráulica. Na UFRGS fez o mestrado em Hidrologia Sanitária. É doutor em
Engenharia Sanitária e Ambiental pela Universidade Stuttgart (Alemanha).
Atualmente, é professor na UFRGS.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Que outra abordagem é
possível para o Código Florestal?
Dieter Wartchow – Uma abordagem
baseada em fatos, dados e informações resultantes do estudo e
conhecimento científico. Esta abordagem científica estimularia, a
partir da seriedade dos propósitos do Novo Código Florestal, maior
participação da sociedade e permitiria um direcionamento do debate para
as causas do problema. Na abordagem natural usada nas discussões em
torno do Novo Código Florestal, falta harmonia,
conhecimento sistêmico e sobram dispersão e desinformação. As discussões
direcionam-se para os sintomas do problema e são pautadas por ações ou
posições fragmentadas, as quais, na maioria dos casos representam um
ponto de vista corporativista, de seu interesse. Criou-se uma grande
discussão onde o que parece ser certo para alguns, para outros parece
errado. Defende-se e busca-se salvaguardar a destruição já feita e não o
que deve ser feito para garantir a sustentabilidade da vida. Neste
tabuleiro de xadrez, cada um está a defender o seu quadrado, quando
todos são importantes.
IHU On-Line – Em que aspectos o novo
código florestal compreende a economia e a ecologia de forma integrada e
equilibrada?
Dieter Wartchow – No
Novo Código Florestal falta sinergia entre economia e ecologia.
Estudar e cuidar da “casa” pode significar um processo de
desenvolvimento econômico mais duradouro e sustentável. Neste, nota-se
certo cartesianismo nos percentuais e números propostos, visto que, a
natureza tem características singulares de acordo com o bioma e região.
IHU On-Line – Qual é a melhor
alternativa para preservar o princípio do ambiente sustentável com
desenvolvimento?
Dieter Wartchow – Vou
parafrasear o educador Paulo Freire,
no qual “Não há saber maior ou menor, mas sim, saberes diferentes”.
Talvez devêssemos discutir e buscar com criatividade novas tecnologias,
e não temer uma mudança de comportamento. Plantar de forma diferente,
reconhecer a vulnerabilidade da natureza e da biodiversidade e dos
riscos de sua irreversibilidade. Também devemos dar à natureza o que é
da natureza, por exemplo, adequando nossas atitudes ao tempo que a
natureza precisa para renovar o ciclo da água. Permitir o acesso
democrático à informação sobre as causas, conseqüências de um pobre
manejo florestal. Sermos educandos e educadores. Não sermos indiferentes
e participar na construção de um mundo melhor para todos.
IHU On-Line – Você é favorável ao
aprimoramento do texto antes da votação? Quais alterações devem ser
realizadas?
Dieter Wartchow – Sim, mas até
onde? Por que não se trabalha sobre o antigo, que parece ser melhor do
que o
novo? A proteção das fontes, das zonas úmidas ao longo dos cursos
d’água e das áreas de recarga deve integrar a proposta do Novo Código
Florestal. Além disso, segundo a
Agência Nacional de Água – ANA, apoiada por estudos
internacionais e realizados no Brasil, deve-se compreender o papel das
matas e das áreas ciliares na proteção da biodiversidade e da qualidade
e quantidade dos nossos mananciais de água e manter faixa de mata ciliar
com largura mínima de 30 metros. Não menos do que isto. A assistência
técnica e a extensão rural são de vital importância para o
assessoramento das atividades rurais nos assentamentos e pequenas
propriedades rurais. Desta dependem a manutenção dos habitats para a
fauna, a biodiversidade, a prevenção contra erosão e a retenção de água.
Quanto às APPs nas encostas íngremes, elas também deveriam ser mantidas
e consideradas como serviço ambiental passível de remuneração
compensatória.
IHU On-Line – O presidente da Câmara
garantiu que o projeto do código somente será encaminhado para votação
quando houver acordo sobre a proposta. É possível vislumbrar um acordo
entre agricultores e os
movimentos sociais contrários as mudanças?
Dieter Wartchow – Um
acordo entre os interlocutores do agronegócio, da agricultura familiar,
agricultores, pecuaristas e os movimentos sociais contrários às
mudanças propostas no Novo Código Florestal não vai cessar as críticas
das partes envolvidas. Um acordo para quais objetivos e metas?
Deveríamos observar e dialogar mais com a natureza. A natureza que nos
assiste não tem voz para pedir socorro e não fala para mostrar novos
caminhos.
IHU On-Line – O presidente da CeCafé,
Guilherme Braga, afirma que o Novo Código Florestal pode condenar
pequenos sítios e a agricultura familiar. Para a
Via Campesina, relacionar agricultura familiar a mudanças no Código
Florestal é falácia. Já um estudo feito pela Embrapa mostra que os
produtores familiares serão os principais beneficiados. Em um contexto
de desinformação, como lidar com constatações tão divergentes?
Dieter Wartchow – Através da
pesquisa do conhecimento científico e do desenvolvimento de atitudes
solidárias e sérias para preservar de fato a
Floresta Amazônica Brasileira, a
Mata Atlântica, os biomas do
cerrado, pantanal e
pampa. Como todos os atores participantes do debate dizem querer
proteger o meio ambiente e as florestas, deveria-se cobrar destes uma
declaração de moratória, para evitar a agressão às APPs, às matas e
florestas. A discussão sobre o
Novo Código Florestal está acontecendo devido ao desrespeito da
legislação brasileira e da Constituição Federal, principalmente, do Art.
225, onde fica claro o direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado e o dever do
Poder Público e da coletividade de defendê-lo e preservá-lo para as
presentes e futuras gerações. Melhorar e ampliar a fiscalização contra
os
crimes ambientais.
IHU On-Line – Considerar as Áreas de
Preservação Permanente (APPs) como Reserva Legal evitaria prejuízos para
algumas propriedades? Qual seria a melhor proposta para a consolidação
de ocupações em APPs?
Dieter Wartchow – Não sou
favorável à consolidação de ocupações em APPs,
considerando que a maioria destas áreas oferecem risco às pessoas. Um
sistema de informações geográficas, hidrológicas, geológicas, e outras
informações relevantes poderia ser um bom instrumento para ao menos
estas ocupações serem de conhecimento do poder público. Estes dados e os
indicadores deveriam falar a linguagem do povo, para serem bem
entendidas e interpretadas. Em sendo inevitável ou em se percebendo que
a ocupação não oferece risco às pessoas e/ou relaciona-se com um sistema
local de produção (ex.: plantio de uva), poder-se-ia analisar o
potencial em transformar quem nelas trabalha em “cuidadores” do
ambiente, educando-os e buscando desenvolver e capacitá-los para novas
atividades locais de produção.
IHU On-Line – O Novo Código
Florestal dá conta de atender a uma produção agrícola com qualidade
econômica, ecológica e ambiental dentro dos preceitos atuais da ciência?
Dieter Wartchow – Sim e não, se
forem considerando os milhões de hectares de áreas mal aproveitadas ou
ociosas; o uso da terra para produzir com elevada produtividade e também
com baixa produtividade, portanto, com potencial para a ampliação da
produção agrícola. A qualidade econômica pouco tem a ver com o
Novo Código Florestal, pois é o mercado que
estabelece os preços das commodities e as condições climáticas que
impacta a produtividade para cima ou para baixo. Ecológica e
ambientalmente, o Novo Código Florestal pode contribuir
para melhorar a qualidade de vida promovendo impactos benéficos sobre a
atmosfera (ar), litosfera (solo) e hidrosfera (água), que podem ser
considerados reservatórios comunicantes de vida.
IHU On-Line – A proposta do novo código
florestal dá conta de um cenário de mudanças climáticas, crise
energética e crise alimentar?
Dieter Wartchow – Quando
especialistas discutem sobre o aquecimento global e sua relação com o
crescimento dos níveis de carbono equivalente (CO2 equiv.),
também estamos falando sobre as mudanças climáticas e seus efeitos sobre
a produção de alimentos e sobre a vida em nosso planeta. Este tema,
portanto associa ação local e efeito global. Florestas serão muito úteis
para absorver gás carbônico e produzir oxigênio. A proposta do
Novo Código Florestal poderá contribuir na diminuição dos
riscos de geração de energia das hidroelétricas, pois é cientificamente
comprovado que florestas e matas ciliares contribuem para a diminuição
da erosão e melhora das vazões dos rios. Os sedimentos depositados no
fundo das barragens ocupam o espaço que deveria ser destinado para
armazenamento de água, além de poderem ser precursores da proliferação
de algas tóxicas. A previsão de se poder usar parte da Reserva
Legal para o plantio de árvores exóticas potencializa a queima
da madeira para diversas atividades econômicas. O modelo de exportar
água virtual e de usar madeira da floresta amazônica e do cerrado
brasileiro como fonte de energia para a indústria do aço precisa ser
reavaliado. A crise alimentar relaciona a falta de acesso aos alimentos
pela população pobre, e não especificamente uma crise de produção de
alimentos.
IHU On-Line – O novo código está sendo
avaliado pelo que induz em termos de dinâmica social e cultural no país?
Dieter Wartchow – Não acredito
que a dinâmica social e cultural do país tenha importância preponderante
na discussão em torno do Novo Código Florestal.
Geralmente, é a ordem econômica que domina as ações políticas e
determina quais concessões podem ser feitas ao povo e ao meio ambiente.
Transformar um problema em uma oportunidade requer informações
cientificamente analisadas em vez de informações desencontradas. Devemos
procurar não acomodar situações e com conhecimento, habilidade e
atitude, devemos também buscar equacionar este tema, que lida com nossa
vida. Salvemos um grande potencial de futuro do Brasil, nossas florestas
e nossa água.
Para ler mais:
|