Do direito das mulheres negras se sentirem mulheres
* Por Neusa Baptista
Há cerca de duas semanas, cortei curtinho meu cabelo. O cabelo, aliás,
me surpreende a cada dia com sua capacidade de revelar e provocar. Foi o
que aconteceu desta vez.Por onde eu andava, cabeças masculinas e
femininas se viravam para ver meu cabelo. A princípio, pensei comigo
mesma: o que foi que eu fiz? Sentia-me menos mulher e ao mesmo tempo
pensava: agora preciso me vestir com muita feminilidade, pois com este
cabelo curto, posso passar por homem. De repente me vi numa loja de 1.99
em meio a tic tacs, lacinhos, brincos coloridos e outras coisas. Na
ânsia de mostrar o quão feminina era, tornei-me mais feminina mesmo. Em
atos e palavras. Por que isso não tinha acontecido antes? Com meu cabelo
crespo e curto, recebi muitos olhares de reprovação, riso, espanto. Além
de crespo, ainda curto! Pasmem! Comentei com meu cabeleireiro (Jair
Vip’s, um beijo!) que “mulher de cabelo curto sofre preconceito” e ele
ficou espantado!
Aos poucos, fui me acostumando e aprendendo a ‘dominar’ o meu curtinho,
de modo que ele parecesse ao mesmo tempo, natural e bem cuidado.
Engraçado, é só a gente começar a se achar bonita que as pessoas em
volta fazem coro! O contrário também acontece, claro. Quer que os outros
falem bem de você? Comece a falar bem de você. E isso não pode ser do
tipo “Eu sou o máximo”, mas do tipo “ Nós podemos ser o máximo juntos”.
Piegas né? Não consegui pensar em nada melhor. rs. Enfim.
O meu cabelo curtinho me obrigou a pensar mais em minha feminilidade. E
isso se deu ainda somado ao fato de ele ser crespo. Isto é, geralmente,
os homens negros utilizam o cabelo raspado e as mulheres alisado.
Portanto, o fato de eu ser negra não me ajudava muito mesmo. Mas se tem
uma coisa que eu gosto é de chamar a atenção para o meu cabelo! Sério.
Quando meu cabelo não chama a atenção, eu acho que ele não cumpriu seu
papel, que é o de ser mensageiro de algo positivo sobre a negritude.
Enfim. Tal como ocorreu há muitos anos com o meu penteado rastafári, o
curto que a princípio parecera ‘feio’ e ‘masculino’ se revelou, na
verdade, versátil, irreverente, delicado e feminino!
Mas a meu ver, isso só aconteceu porque era crespo, e porque eu sou
negra, e sou mulher. Muitos papéis, significados, lugares, atitudes a
tomar… Para pra pensar: se a mulher branca (ou não negra) já tem
problemas, pensa na negra. Pensa. Então, por isso quando vejo uma mulher
negra se destacando, não sei da vida íntima dela, mas imagino que deva
ter enfrentado alguns obstáculos que poderiam ter sido evitados se o
País fosse menos racista, machista etc.
* Neusa Baptista é jornalista da Central Única das Favelas (Cufa) em
Mato Grosso |