Conjuntura da Semana. A política econômica
do governo Dilma Rousseff Fonte:
http://www.ihu.unisinos.br/ A conjuntura da semana é uma (re)leitura das ‘Notícias
do Dia’ publicadas, diariamente, no
sítio do IHU. Particularmente, a
análise dessa semana toma como referência principal a
revista IHU On-Line, edição nº
356. A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto
Humanitas Unisinos - IHU, pelos colegas do
Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores -
CEPAT - com sede em Curitiba, PR, parceiro estratégico do
Instituto Humanitas Unisinos - IHU. Sumário: A política econômica do governo Dilma
Rousseff Eis a análise. Depois de três meses é possível descrever as linhas
fundamentais da política econômica do governo da presidenta
Dilma Rousseff? A resposta a essa pergunta é o tema da
Revista IHU On-Line, edição nº
356. Participam do debate economistas e analistas sociais de diferentes
vertentes teóricas:
Fernando Cardim de Carvalho (UFRJ),
Luiz Gonzaga Belluzzo (Unicamp),
José Luis Oreiro (UnB),
David Kupfer (UFRJ),
Reinaldo Gonçalves (UFRJ)
e
Francisco de Oliveira (USP). A essas vozes, são agregadas outras a partir de matérias,
artigos, reportagens e entrevistas publicadas diariamente nas “Notícias
do Dia” no sítio do Instituto
Humanitas Unisinos – IHU. Grosso modo, e tomando a
Revista IHU On-Line como
referência, pode-se dizer que há três vertentes de análise sobre os
rumos da economia no governo Dilma Rousseff:
1) aqueles que consideram “uma
boa supresa” o início do governo Dilma e avaliam como
corretas as medidas adotadas até o momento, compatíveis com a conjuntura
internacional e as pressões internas, embora sugiram algumas correções; 2) aqueles que avaliam o início
do governo como o “mais do mesmo”, ou seja, a continuidade de uma
política econômica refém dos interesses do capital financeiro e das
oligarquias produtivas e; 3) aqueles que veem continuidade
em relação ao governo anterior, porém com a introdução de algumas
modificações. No primeiro grupo situam-se José Luis Oreiro
(UnB), Fernando Cardim (UFRJ) e Luiz Gonzaga
Belluzzo (Unicamp), no segundo grupo estão Francisco de
Oliveira (USP) e Reinaldo Gonçalves (UFRJ) e
no terceiro grupo encontra-se David Kupfer (UFRJ). É
evidente que essa matização pode incorrer num certo simplismo, mas ajuda
na compreensão mais geral de visões diferenciadas em relação aos
indicativos e perspectivas na área economica do governo Dilma
Rousseff. Entre os temas mais espinhosos da economia e que tem sido
objeto de preocupação da presidenta e sua equipe econômica, os
economistas entrevistados pela IHU On-Line citam: a
inflação, os juros, o câmbio, o ajuste fiscal, a política industrial e a
relação comercial com a China. Esses temas interagem entre si e decisões
tomadas em um dos “nós” interferem nos demais. Sobre a essência do
modelo adotado por Dilma, todos concordam que ele é de
coloração
desenvolvimentista, ou seja, nele o Estado joga
um papel importante na regulação e indução do crescimento econômico, bem
como na estratégia de crescimento – ramos de atividade que merecem o
apoio do Estado. A polêmica fica por conta de quem essas decisões
beneficiam. Entre os entrevistados há também certa concordância de que as
perspectivas de crescimento do país para os próximos anos é na faixa de
4% a 5%, um crescimento insuficiente, mas também longe de ser
considerado desastroso. Aqui, outro debate surge: Crescimento econômico
é suficiente para resolver os problemas sociais do país? Continuidades e descontinuidades Entre os analistas que consideram que Dilma
começou bem está
Fernando Cardim de Carvalho. O
professor da UFRJ afirma que está positivamente
surpreendido com a administração de Dilma: “Eu temia
que a presidenta, por inexperiência política, podia acabar dominada
pelos grupos que povoam seu governo, e perdesse as rédeas da
administração federal. Isso não aconteceu, pelo contrário. Por outro
lado, há mudanças visíveis, embora de consequências ainda não
inteiramente claras, como, por exemplo, a mudança na diretoria do Banco
Central em favor de funcionários de carreira em lugar de egressos de
mercados, cuja agenda nunca se sabe realmente qual é, ou que, no mínimo,
tornam a autoridade monetária mais sensível do que deveria ser às
demandas e visões do mercado”. Segundo ele, “ainda é muito cedo para avaliar resultados, mas a
presidente está mostrando liderança e decisão, tanto mais importantes
quando nos lembramos que não voamos mais em céu de brigadeiro no
contexto internacional”. Outro que avalia que Dilma tem sido uma “boa
supresa” é o economista da Universidade de Brasília – UnB,
José Luis Oreiro: “Tenho gostado dos discursos da
presidenta Dilma, ao contrário do anterior. Ela tem se
comportado de uma maneira mais equilibrada em relação ao seu
antecessor”. Segundo ele, “a mudança na gestão do Banco Central, uma das
primeiras medidas anunciadas pela presidente eleita, favorece uma
política mais alinhada com a da equipe econômica, o que indica uma
‘reforma silenciosa’”. O economista da Unicamp,
Luiz Gonzaga Belluzzo avalia que
a equipe econômica está agindo bem e acrescenta: “A política
macroeconômica está equilibrada e razoável”. Outros economistas têm
feito elogios às primeiras medidas econômicas de
Dilma: Yoshiaki Nakano – diretor da Escola de Economia
da Fundação Getúlio Vargas, Octávio de Barros –
economista-chefe do Bradesco e Delfim Netto. Os
economistas elogiam sobretudo o pragmatismo da presidenta. “O governo é
técnico e menos ideológico do que poderíamos esperar do PT”,
diz
Nakano. Por sua vez, o economista
Reinaldo Gonçalves da
UFRJ e o sociólogo
Francisco Oliveira da
Usp, ambos entrevistados pela IHU On-Line,
estão entre as vozes dissonantes. Destacam que os primeiros cem dias do
governo Dilma indicam que ela é “mais do mesmo” e
prosseguirá, em continuidade ao governo Lula, com uma
política econômica refém e dócil aos grandes interesses econômicos –
financeiro, produtivo e agronegócio. Na opinião de Reinaldo
Gonçalves, Dilma governará “via arranjos com as oligarquias, os
bancos, as grandes empreiteiras e o setor de agronegócio”. Chico de Oliveira, por sua vez,
diz que “quem melhor definiu os primeiros meses do governo Dilma
foi o Ministro da Economia, Guido Mantega, ao dizer que
a presidente não era nem o primeiro, nem o segundo, mas o terceiro
mandato de Lula. Isso quer dizer que em linhas gerais,
a presidenta Dilma segue as linhas econômicas que estão
estabelecidas desde Fernando Henrique Cardoso”. Entre os críticos da política econômica do governo
Dilma encontra-se o economista
José Eli da Veiga, professor da
Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA)
da USP. Eli da Veiga diz que várias
medidas colocadas em prática pelo governo Dilma não
foram apresentadas na campanha eleitoral. “E nem na do Serra.
Só estavam no programa da Marina Silva”, diz o
professor, que participou da elaboração das propostas da candidata do
PV. O economista cita particularmente o controle dos
gastos públicos logo no início do governo: “Se o Serra
tivesse ganho e estivesse fazendo isso, cortando verbas etc., estaria
sendo acusado de neoliberal pelo PT na oposição”. Ainda na política econômica, Eli da Veiga
considera “muito ruim” que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)
seja mantido como um dos pilares do governo. “O Brasil não pode de jeito
nenhum ter esse tipo de visão de que o que interessa é fazer obras e com
isso buscar crescimento. A ideia de que com crescimento se resolve tudo
é uma visão antiga que ainda predomina”, diz. Para o professor, há obras
do PAC que não deveriam ser incentivadas. Exemplo claro
é a estrada que liga Porto Velho a Manaus. “O ministro dos Transportes (Alfredo
Nascimento) é do Amazonas e quer porque quer essa obra, que é
uma barbaridade do ponto de vista ambiental e não tem justificativa
econômica”, afirma o economista. Entre posições polarizadas tem-se a opinião do economista e
especialista em política industrial
David Kupfer
para quem “a política econômica do início do governo
Dilma é essencialmente a mesma do começo do governo
Lula. A grande diferença, é que em 2003, havia uma
crise política de credibilidade, que provocou uma explosão
inflacionária, e desta vez não há nada similar. A sucessão foi
absolutamente tranquila. Portanto, do ponto de vista econômico, pode se
questionar se o ajuste fiscal é efetivamente necessário. Mas, do ponto
de vista político é mais fácil entendê-lo”. Inflação. Foco central das políticas econômicas Um crescimento de 4% a 5% é o previsto pela maioria dos
economistas para esse ano e próximos. O curioso, é que embora o
crescimento econômico seja um mantra para todo governo e base ideológica
do desenvolvimentismo, o governo de Dilma Rousseff
nesse início de governo vem adotando medidas de desaceleramento da
economia com medo do recrudescimento da inflação. De acordo com
David Kupfer, a equipe econômica
está cada vez mais preocupada em conter a inflação”. Segundo ele, “a
preocupação do alto escalão faz sentido porque o retorno da inflação
pode corroer o poder de compra das famílias brasileiras e matar ‘a
galinha dos ovos de ouro’ do modelo de consumo, que está na essência do
mecanismo de crescimento da economia brasileira”. A inflação, ao lado dos juros e do câmbio, está entre os
principais nós a serem desatados pela presidenta e se relaciona com as
decisões de contigenciamento fiscal, salário mínimo, aumento de juros,
desvalorização ou não do real e relação comercial com outros países.
Segundo a maioria dos analistas, o governo de Dilma Rousseff
começou atormentado com o risco da volta inflacionária e uma série de
medidas adotas nesses primeiros meses estão relacionadas a esse tema.
Ainda mais: a possibilidade de crescimento ou não dependerá de como
serão enfrentadas essas variáveis econômicas numa conjuntura
internacional de turbulências. O receio à volta da inflação em patamares altos é o que tem
justificado, segundo o governo, medidas de
contingenciamento fiscal e, entre as principais,
o
não aumento do salário mínimo e o corte no
orçamento. “Não aumentar ainda mais o salário foi bom neste ano”, afirma
José Luis Oreiro. Segundo ele,
“o governo apenas seguiu a regra que ele havia negociado com as centrais
sindicais. Isso é positivo porque no momento em que se tem uma pressão
inflacionária na economia brasileira, a elevação do salário mínimo
aumentaria as pressões inflacionárias, obrigando o Banco Central a
aumentar ainda mais a taxa de juros”. David Kupfer considera que ajuste
fiscal é compreensível do ponto de vista político: “Todo governante
aperta o cinto no início para gerar recursos para, quando as eleições
estiverem mais próximas, ter caixa a fim de poder fazer um governo mais
exuberante. Isso tende a ser assim na democracia”. Mas, diz ele, “também
cabe considerar que o governo anterior abriu espaço para uma exacerbação
de demandas da sociedade e agora há a necessidade de contê-las para
devolver ao gestor a capacidade de atribuir prioridades. Essa leitura
política torna mais compreensível que o novo governo tenha optado por
anunciar um ajuste fiscal como seu cartão de visitas”. Para
Belluzzo, a posição do governo
de fixar o salário mínimo em 545,00 reais se justifica. Em sua opinião,
a equipe econômica está utilizando os recursos necessários para conter a
inflação e a prioridade, neste momento, é “acomodar a economia para não
fazer com que esse choque internacional das commodities transite pelo
mercado de trabalho”. Neste sentido, “o governo está defendendo a
necessidade de modular o crescimento em vez de jogar a economia na
recessão”. O economista
Fernando Cardim, também não vê o
corte no orçamento como algo drástico. Segundo ele, “há que se chamar a
atenção para dois pontos. O primeiro é que o corte, na verdade, é um
corte no ‘aumento’ previsto para os gastos, não um corte propriamente
dito”, e “segundo, e mais importante, é lembrar-se que o gasto público
no Brasil desses últimos anos compreende dois elementos: despesas com a
provisão de serviços públicos, investimentos do governo e, no nosso
caso, as medidas de redistribuição de renda, que são permanentes; mas há
também despesas de natureza anticíclica, quando o governo expandiu
gastos e reduziu impostos para combater os impactos locais da crise
internacional, ao final de 2008, início de 2009”. Opinião distinta dos economistas citados tem
José Reinaldo e
Francisco de Oliveira. Segundo o
economista da UFRJ na entrevista à revista IHU
On-Line, “as primeiras ações de Dilma
demonstram três elementos. O primeiro é que o ajuste em 2010 agravou
desequilíbrios macroeconômicos (contas externas, endividamento das
famílias e empresas, bolha de preços de imóveis, pressão inflacionária,
etc.). O segundo é que este ajuste foi influenciado enormemente pelo
oportunismo do governo Lula em ano de eleições gerais.
E o terceiro é que no governo Dilma é mantida a
‘síndrome de prefeito do interior’”. Ou seja, diz José Reinaldo, “arrocho nos dois
primeiros anos de governo e extrema liberalidade no final do mandato.
Assim, comprime-se a base para se obter resultados mais visíveis no
período de reeleição. Em resumo, é a captura da gestão macroeconômica
pelo oportunismo eleitoral”. O sociólogo Francisco de Oliveira, por sua
vez, afirma que “Dilma segue as linhas econômicas que
estão estabelecidas desde Fernando Henrique Cardoso”.
Segundo ele, a inflação não é um problema e o arrocho no salário mínimo
foi um erro. “O governo poderia ter sido mais generoso, sabido. Teve a
chance de conquistar o apoio firme dos setores da classe trabalhadora
sem acrescentar nada à inflação, pois ela está sob controle. A inflação
está sob controle justamente pela opção do governo de não expandir o
gasto, além da vigilância do Banco Central”, diz ele e reafirma: “Dilma
deu um passo político equivocado. Não necessitava desse rigor. O
acréscimo que se propunha era irrelevante do ponto de vista das contas
governamentais. A decisão dela mostra inexperiência política e a mania
de que é preciso gerir as contas do governo. Isso não é tarefa do
presidente e, sim, do Ministério da Fazenda, do Banco Central. Ela
mostra e confirma, nos primeiros meses de governo, a inabilidade
política que os especialistas assinalaram”. Juros e câmbio. Política heterodoxa?
Política de juros e câmbio são duas outras “dores de cabeça” de
Dilma Rousseff no início do seu governo e estão
associados ao problema da inflação. O professor
David Kupfer da UFRJ,
diz que “o governo está elevando a taxa de juros e também recorrendo
adicionalmente a outros tradicionais instrumentos da política monetária,
hoje chamados de macroprudenciais, mas permanece o objetivo final de
frear o ritmo de crescimento da economia com a decisiva contribuição da
valorização do real. Não se conseguiu ainda desenhar uma mudança
relevante na linha mestra da política macroeconômica que permita ao país
escapar dessas restrições ao crescimento rápido e sustentável”. A elevação da taxa de juros para frear o aquecimento da
economia e controlar a inflação tem efeitos colaterais. Segundo
José Luis Oreiro, é evidente que governo está adotando medidas
para conter a inflação e “o ajuste fiscal é uma tentativa neste
sentido”. Em sua opinião, “a maneira mais rápida de desacelerar a
economia é aumentar a Selic”. No entanto, diz ele,
“isso reforça o problema na apreciação do câmbio, que, por sua vez,
prejudica ainda mais o equilíbrio das contas externas do Brasil”. Para
Oreiro, “Dilma
deveria fazer, neste início de governo, um choque fiscal na economia
junto com uma nova política cambial e uma reforma do sistema de metas de
inflação de tal maneira a sinalizar para o mercado que a taxa de juros,
a partir de agora, será muito mais baixa e com isso o câmbio pode ser
mais alto do que é hoje, sem que isso comprometa a extensão das metas de
inflação”. O economista
Belluzzo, considera que “o
Brasil é um dos países que está sofrendo o choque inflacionário, que em
boa medida decorre da rápida elevação dos preços das commodities.
No entanto, o Brasil é o país que usou o conjunto de instrumentos mais
amplo, como medidas de controle do crédito, manteve a política do Banco
Central parecida com o que vinha sendo feito, embora a taxa de juros no
Brasil seja absurdamente alta diante do mundo. Dilma
está prometendo maior rigor fiscal, embora o Brasil tenha uma situação
de dívida e de déficit bastante confortável se formos comparar com
outros países”. “A política macroeconômica está equilibrada e razoável”,
afirma o economista da Unicamp. A forma como o governo vem tratando a política de juros vem
sendo considerada como heterodoxa por muitos. O jornalista
Vinícius Torres Freire
comenta o relatório do Banco Central publicado no final do mês de março,
o qual reafirma que “não vai aumentar as taxas de juros se puder contar
com outros meios, próprios ou não, de reduzir a inflação, como medidas
alternativas de controle de crédito, a política fiscal e o arrefecimento
da inflação devido a fatores que não controla (como choques de preços,
como os de commodities)”. A nomeação de
Alexandre Tombini, funcionário
de carreira do BC, e não de alguém egresso do mercado
financeiro é visto como indicativo de que a fórmula de sempre – elevação
de taxas de juros – para combater a inflação dividirá espaço com outras
variáveis. A jornalista
Claudia Safatle comenta que “o
sistema bancário ainda não se conformou com a inovação na política
monetária introduzida por Tombini, que combina aumento
dos juros com medidas prudenciais (de regulação do crédito e dos
riscos). Até então, nos oito anos de governo Lula, os
bancos viveram uma situação confortável. Seus economistas conheciam bem
o raio de atuação do BC, que tinha um objetivo - controlar a taxa de
inflação - e um instrumento - a taxa básica de juros (Selic)”. Opinião diferente tem
Francisco de Oliveira, para quem
“a elevação da taxa de juros é irrelevante”. Segundo ele, “não se
combate mais inflação elevando taxas de juros, sobretudo com a
porcentagem que foi anunciada”. O sociólogo destaca ainda que “o corte
fiscal é para inglês ver” e continua: “Dilma não tem
muito o que fazer. Como dizem, em time que está ganhando não se mexe.
Ela pegou uma economia em expansão e não tem muita alternativa, a não
ser tocar o barco do jeito que está indo”. Na opinião de
Fernando Cardim, “o câmbio é, de
longe, nosso maior problema. Não é um problema de fácil solução. Um real
desvalorizado é essencial para promover exportações líquidas, mas ainda
mais para impedir a desindustrialização visível seja na penetração de
importações de manufaturas, seja no desaparecimento dessa classe de bens
da nossa pauta de exportações. Uma eventual desvalorização descontrolada
do real poderia reforçar a inflação doméstica, algo intolerável para a
sociedade brasileira”. Segundo ele, “exige-se do governo, no momento, não apenas a
clareza para identificar os problemas, mas também uma habilidade extrema
para manejá-los de forma eficaz”. O problema cambial – excessiva valorização do real – é
explosivo e estaria provocando
divisões internas no governo de como enfrentá-lo.
Na semana passada, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social – BNDES,
Luciano Coutinho, criticou numa
reunião fechada com empresários a estratégia usada pelo governo para
lidar com a valorização do real em relação ao dólar. Coutinho
disse aos empresários que o governo desistiu de conter o dólar num
patamar de R$ 1,65 porque o câmbio pode ajudá-lo a combater a inflação,
apesar dos prejuízos que o real forte traz às indústrias que enfrentam a
competição das importações. Outros temas associados aos anteriores são discutidos pelos
entrevistados da revista IHU On-Line tendo como pano de
fundo as possibilidades da continuidade do crescimento econômico ou, até
mesmo, uma retomada ainda mais forte. Os gargalos na infraestrutura
brasileira, a relação comercial com a China, a política industrial
brasileira e as opções estratégicas de investimentos do Estado
brasileiro, são discutidas pelos entrevistados. Política industrial em baixa –
Commodities em alta A política industrial é um tema recorrente nas entrevistas. Há
um consenso que se trata do setor que mais agrega valor, amplia a massa
salarial, melhora a balança comercial, estimula a pesquisa e torna a
economia competitiva. Logo, uma política industrial agressiva seria
desejável. O problema, entretanto, diz
Kupfer é o fato de que “o modelo
de estabilização brasileiro não é pró-indústria”. Segundo ele, “é um
modelo que ajusta, um pouco nas costas da indústria, a necessidade de
ter compensações para determinados custos que são crescentes no país.
Como a indústria trabalha com comercializáveis, o que se pode fazer é
achatar o preço da indústria, expondo-a a concorrência internacional e,
adicionalmente, induzindo um processo de valorização cambial. Em
síntese, o governo está barateando o preço do produto industrial, o que
ajuda a controlar a inflação”. Em sua análise, “será inevitável que a indústria vá passar por
uma nova rodada de perda de competitividade nos próximos anos. O que tem
de estar claro é que a indústria acaba arcando com os efeitos nocivos de
um modelo de combate a uma inflação que o Brasil está importando dele
próprio, pois boa parte dela vem de aumentos de preços de
matérias-primas que são exportadas pelo Brasil”. Para o economista, um dos maiores especialistas em política
industrial no país, a indústria brasileira ainda não está preparada para
crescer e competir. Segundo ele, “o problema da inovação no Brasil é
amplo e tem raízes tanto na estrutura da indústria quanto no
comportamento das empresas e do governo (...) são raízes estruturais e
comportamentais”, afirma. O risco é o país ficar refém de uma economia de commodities.
“O Brasil não pode, de jeito nenhum, se apoiar exclusivamente na
exportação de commodities, virar exportador de matérias-primas
e abandonar outros setores”, diz Belluzzo. Segundo ele,
“isso não quer dizer que o país não deva aperfeiçoar a cadeia de
exportação de commodities e dar mais valor agregado a ela, o que é
perfeitamente possível, ou seja, industrializar o campo. Mas o país não
pode abandonar o projeto de industrialização por conta da valorização
cambial”, afirma. Outro que tem reafirmado os riscos de uma economia primária é o
economista José Reinaldo. Em sua opinão, “o Brasil está
andando para trás e comprometendo sua capacidade de desenvolvimento
dinâmico e sustentável no longo prazo com investimentos focados em
agronegócio, mineração e petróleo, e, portanto, desindustrialização e
reprimarização”. China. O dragão a ser enfrentado Associado ao problema da industrialização tem-se a relação com
a agressiva política econômica da China, que tem interesse em importar
commodities do país e exportar produtos manufaturados. Um
comunicado recente do Instituto de
Pesquisas Econômica Aplicada – Ipea,
intitulado As relações bilaterais Brasil-China: a ascensão da China
no sistema mundial e os desafios para o Brasil, afirma que a China
já é o maior importador dos produtos brasileiros desde 2009 quando
deslocou os Estados Unidos, absorvendo 15,2% do total exportado pelo
Brasil. O comunicado destaca a concentração das exportações brasileiras
em produtos básicos, e aponta que, apesar do Brasil estar em superávit
em sua balança comercial com a China, sendo um importante fornecedor de
alimentos, petróleo e matérias-primas, corre o risco de estagnar a médio
e longo prazo como grande exportador de commodities. O texto sugere que o Brasil deveria usar o investimento chinês
para potencializar a infraestrutura e agregar valor à produção no
território nacional para os segmentos do agronegócio, do minério e aço e
do petróleo. Para a manufatura (automóveis, eletroeletrônica,
motocicletas e equipamentos) faz-se necessário requerer um maior
conteúdo local (firmas brasileiras) na produção de peças e componentes. “A China tem procurado o Brasil para exploração primária
agrícola e mineral. Evidentemente, não há uma razão clara que nos leve a
imaginar que o país irá mudar de postura. Então, a relação do Brasil com
a China é complexa e, embora nesse momento a China esteja ajudando o
equilíbrio comercial brasileiro, tende a se tornar conflitiva com o
passar do tempo. E quando essa fase de auge do ciclo das commodities
reverter e a China não gerar tanto superávit para o Brasil, esses
conflitos tenderão a se aguçar”, diz o economista
David Kupfer. “Imagino – diz ele - que há
uma percepção dos formuladores da política externa brasileira nesta
questão e, evidentemente, todo o movimento da política externa
brasileira já reflete esse desafio chinês. Imagino que a aproximação de
Brasil e EUA é uma forma de buscar meios para que os dois países tentem
neutralizar essa ameaça chinesa”.
Reinaldo Gonçalves vai na mesma
linha: “O que a China quer é controlar fontes fornecedoras de
matérias-primas e criar mercados para seus bens e serviços de alto valor
agregado”. Segundo o economista, “a criação de
grupo de estudos dentro do Executivo é um
indicador de que nada de relevante será feito. A relação bilateral
China/Brasil já foi bem estudada e o principal resultado é que esta
relação reproduz o modelo centro/periferia. Ou seja, a China é centro e
o Brasil é periferia. A China apresenta-se como altamente competitiva e
exportadora de bens e serviços intensivos em tecnologia, capital,
mão-de-obra qualificada e alto valor agregado, enquanto o Brasil
destaca-se como exportador de produtos primários. Ou seja, no século XXI
o Brasil terá com a China o mesmo tipo de relação que ele tinha com o
Reino Unido no século XIX e com os Estados Unidos no século XX”. Na opinião de
Luiz Gonzaga Belluzzo, o Brasil
tem se defender da China. Comenta ele: “A China é uma produtora global e
o Brasil não pode pensar em competir com esse país. O Brasil tem de se
proteger em duas mãos: ampliar as relações comerciais com a China nos
setores em que interessa; e impor barreiras, porque os chineses têm
condições de proteger a sua indústria e incentivá-la a exportar”. Belluzzo insiste que “o Brasil
precisa se defender (...) e manter uma estrutura industrial resistente,
forte e aproveitando, inclusive, esse projeto do pré-sal para
internalizar muita coisa na área de metal-mecânica, de informática, por
conta da demanda que vai nascer da exploração do pré-sal”. “Aí, vai – alerta ele – ser preciso uma política de governo
para fazer com que a Petrobras use seu poder de compra para incentivar
as indústrias brasileiras. Já imaginou esse país urbanizado do jeito que
é, com as conexões que a urbanização tem com a indústria, retroceder
para um país produtor exportador de commodities? Seria um desastre”. Interditando uma retomada do crescimento econômico, o país tem
ainda gargalos na infraestrutura, opina
David Kupfer. Segundo ele, “o
Brasil está engargalado pelos problemas de infraestrutura há muito tempo
e a velocidade com que está se construindo infraestrutura no país não é
suficiente”. O economista comenta que “o problema é que o investimento
no Brasil tem ocorrido de forma lenta e com períodos de maturação muito
grandes: as obras demoram demais para serem decididas, concebidas,
projetadas, executadas e ficarem prontas. As razões para isso são
conhecidas e remetem a problemas da natureza da relação público/privado,
das questões de regulamentações jurídicas e a todo o embrulho
administrativo e burocrático que existe no país atualmente. Há obras do
primeiro PAC que já deveriam estar mais do que prontas,
mas ainda estão a 30, 50% do caminho”, diz o economista da UFRJ. Crescer economicamente resolve os problemas sociais? Esse é
outro tema abordado nas entrevistas da IHU On-Line. A
tese de que o crescimento por si só incide na resolução dos problemas
estruturais da sociedade brasileira é refutada pelos entrevistados. Na opinião de Kupfer, “a diferença entre
crescimento econômico e desenvolvimento não é uma questão numérica, pois
um país pode crescer 5% sem desenvolver ou crescer 3%, desenvolvendo.
Desenvolvimento é crescimento mais alguma coisa. No caso específico do
governo Lula, percebemos que a preocupação esteve
focada em destravar o crescimento econômico. Principalmente o segundo
governo Lula buscou crescimento econômico, mas não teve
um foco claro na mudança estrutural”. Agora, diz o economista, “o discurso de campanha da
Dilma sinalizou para uma nova fase em que se buscaria mudança
estrutural. Mas para ter a mudança estrutural de fato precisamos de um
Estado com capacidade de planejar, uma política econômica baseada em
planejamento. A questão é que planejar significa fazer escolhas, ou
seja, financiar determinadas ações e não outras, apoiar certas
iniciativas (...)”. Para
Fernando Cardim, “certamente,
crescer de 4 a 5% para o Brasil é insuficiente e para resolver
minimamente os problemas que o país tem e é abaixo do seu potencial. Nós
temos escala, recursos, estrutura para crescer muito mais e transformar
efetivamente a face da sociedade brasileira. Mas isso não cai do céu. É
preciso promover investimentos, aumentar o nível educacional da
população, melhorar dramaticamente a eficiência com que o governo opera,
que é ainda muito baixa, diminuir nossa fragilidade externa antes que
ela se torne um problema real, etc. É uma lista enorme de demandas; mas
desenvolvimento é mesmo exigente”, diz ele. O economista
Reinaldo Gonçalves é cético
sobre as perspectivas de que o crescimento econômico contribua para o
enfrentamento dos problemas estruturais do país. Segundo ele, o
crescimento que se assiste privilegia alguns grupos. Diz ele: “O governo
Dilma seguirá a mesma linha do governo Lula
via arranjos com as oligarquias, os bancos, as grandes empreiteiras e o
setor de agronegócio. Não houve qualquer transformação relevante nas
relações, estruturas e processos políticos no Brasil nos anos
Lula. O mesmo ocorrerá no governo Dilma. Os
setores dominantes (com destaque para o das commodities)
beneficiaram-se dos elevados e favoráveis financiamentos do Banco do
Brasil e do BNDES. A reprimarização da economia
brasileira e os arranjos com as oligarquias regionais expressam e
reforçam estruturas, processos e relações políticas retrógradas”. Na linha de raciocínio de Reinaldo Gonçalves
vai
Francisco de Oliveira, para quem
o grande programa social no país é o Bolsa Família, um programa que
“melhora a atual situação das famílias, mas não muda essencialmente nem
o modelo econômico, nem as variáveis macroeconômicas fundamentais”. O
recente aumento do valor do Bolsa Família segundo o sociólogo, “é mais
um ato político do que econômico”. Em sua opinião, “Dilma
não elevou o valor do programa para aquecer a economia, expandir o
consumo. Ela entra na cola de um sucessor de alta popularidade e não vai
querer trombar com o eleitorado. Dilma está presa à
armadilha do êxito”. Conjuntura da Semana em frases De onde saíram? "De onde saiu a arma que estava com esse garoto? Como foi feita
a fiscalização?" -
Alice Ribeiro, do Instituto Sou da Paz, reforça a
ideia do desarmamento ao indagar sobre a tragédia do atirador da escola
no Realengo - O Estado de S. Paulo, 08-04-2011. O que está sentindo? Onde, como, de quem, quando, por quanto e com que facilidade
ele comprou aquela arma para trucidar meninos e, sobretudo, meninas? E
você que votou a favor do armamento, o que está sentindo?” –
Eliane Cantanhêde, jornalista – Folha de
S. Paulo, 08-04-2011. Estigma "Rotular Wellington como doente mental é estigmatizar 46
milhões de brasileiros.Esse é o número de pessoas que precisam de
atendimento psiquiátrico no país. A grande maioria delas não é perigosa.
Chamar Wellington de louco é preconceito" -
Antônio Geraldo da Silva, presidente da
Associação Brasileira de Psiquiatria - Folha de S. Paulo,
08-04-2011. Dilma, Lula e FHC “(O discurso de Aécio Neves) nem amarrota o tapete vermelho por
onde passeia Dilma Rousseff. Esta que tem a sorte de Lula e o estilo
racional de FHC. Porque poucas vezes vimos alguém adotar medidas
impopulares (salário mínimo, taxa Selic, corte de emendas populares,
corte de obras para municípios) e aumentar sua popularidade, como
ocorreu com ela” –
Rudá Ricci, sociólogo – no seu blog, 06-04-2011. Paz “(Dilma) trouxe uma sensação de paz ao país. Depois de uma
campanha eleitoral tisnada pela ferocidade e de um tempo dominado pelas
paixões em torno de Lula, veio a calma” –
Elio Gaspari, jornalista – Folha de S.
Paulo, 06-04-2011. Evangelhos “Pela primeira vez em muitas décadas, tem-se a impressão de que
o Brasil é governado por uma pessoa que chega cedo ao serviço, cuida do
expediente e vai para casa sem que precise propagar evangelhos ou
alimentar tensões” –
Elio Gaspari, jornalista – Folha de S.
Paulo, 06-04-2011. Profeta na Praça da Sé “Há três meses, (José Serra) no Twitter, nos jornais, onde for,
ele não faz outra coisa a não ser atacar o governo Dilma. Ninguém o leva
a sério. Parece até um pouco aqueles profetas pregando o fim dos tempos
na praça da Sé” –
Fernando de Barros e Silva, jornalista –
Folha de S. Paulo, 06-04-2011. Dilma segundo o MST "Até hoje nossa presidente não apresentou meta de assentamento.
Ninguém foi chamado para debater a estruturação de assentamentos e a
situação dos acampados. Por isso, vamos intensificar as ocupações em
todo o Brasil" -
Evanildo Costa, da direção do MST na Bahia -
Folha de S. Paulo, 04-04-2011. A calhar “Com o Código Florestal no meio do caminho, foi definido que
Aldo Rebelo será um dos vice-líderes do governo na Câmara. A outra vaga
ficará com Virgílio Guimarães (PT-MG)” –
Renata Lo Prete, jornalista – Folha de S. Paulo,
07-04-2011. Dúvida “Dúvida: Jackson Lago foi cassado para que o país se torne
efetivamente melhor, ou porque não teve a mídia, o dinheiro, os
advogados e as vantagens que a adversária Roseana teve a vida inteira?”
–
Eliane Cantanhêde, jornalista – Folha de
S. Paulo, 05-04-2011. Lei Áurea ”Maria do Rosário, dos Direitos Humanos, informa: "Em oito
anos, 40 mil pessoas que trabalhavam no Brasil na condição de escravas,
foram libertadas". Com esta estatística, a ministra está brigando pela
aprovação da PEC do trabalho escravo. Que prevê confisco e
desapropriação de terras onde forem encontrados trabalhadores nessa
situação” –
Sônia Racy - O Estado de S. Paulo,
03-04-2011. Orgulho "Tivemos o caso de um skinhead que, flagrado quando ia atacar
uma vítima, foi detido e trazido ao Decradi. O rapaz estava eufórico.
Dizia que, enfim, conseguira se igualar ao irmão e teria um quadro no
quarto com seu próprio BO por agressão” -
Margarette Correa Barreto, delegada que integra a
força-tarefa paulista para cuidar das modalidades de ataque a gays e
negros em São Paulo – Folha de S. Paulo, 03-04-2011. Terrível "Ele chegou e tivemos três greves. Não temos boa opinião dele e
não posso imaginar quem tenha. O que veem no Brasil, um homem que
quebrou as greves e venceu? O recompensam?" -
Patrick Veinot, vice-presidente do braço local do
forte sindicato internacional Metalúrgicos Unidos (USW), em Sudbury,
sobre Tito Martins, cogitado para substituir Roger Agnelli no comando da
Vale, que tem uma filial no Canadá - Folha de S. Paulo,
02-04-2011. Headhunter "A decisão de levar para o governo o vice-presidente da CUT,
José Lopez Feijóo, foi selada há dois meses, em reunião entre Lula,
Dilma e ministros. O ex-presidente elogiou o sindicalista, disse que ele
estava em busca de novos desafios e sugeriu a contratação" -
Renata Lo Prete, jornalista – Folha de S.
Paulo, 01-04-2011. Nada do que pensávamos “Velhos comunistas se recusam a aceitar o fracasso do comunismo
aplicado a não ser como uma anomalia russa, uma prática que sabotou a
teoria. Neoliberais não param de entoar seus mantras como se sua
repetição encantatória banisse todas as evidências que os contradizem.
Não é fácil admitir que nosso universo não é nada do que estávamos
pensando” –
Luís Fernando Verissimo, escritor – Zero Hora,
03-04-2011. Smirnoff “E o Corinthians? Quer contratar o jogador holandês Seedorf! E
o Adriano entendeu Smirnoff. "O quê? Smirnoff? Eu vou jogar com
Smirnoff” –
José Simão, – Folha de S. Paulo,
07-04-2011. Engarrafamento “O paulista no engarrafamento: "Que trânsito de merda! Não vou
conseguir chegar a tempo na concessionária pra comprar outro carro". Por
isso que tem estas manchetes: "Congestionamento na 25 de março vai até a
23 de maio". Dois meses de congestionamento” –
José Simão, humorista – Folha de S. Paulo,
06-04-2011. Pena alternativa "Pena alternativa pro Bolsonaro: varrer a avenida Paulista após
a Parada Gay! Com a língua" -
José Simão, humorista - Folha de S. Paulo,
05-04-2011.
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