Os 100 dias de Dilma Rousseff e a questão
ambiental Fonte:
http://www.ihu.unisinos.br/ Passados três meses, a presidente Dilma não
mostrou ao que veio. Apesar de um artigo seu publicado na Folha de
S.Paulo indicar preocupação com o tema ambiental, ela ainda não se
posicionou na disputa entre ambientalistas e ruralistas pelo
Código Florestal, ainda não deu início à
construção de um marco legal para impulsionar as energias renováveis no
país, não respondeu de maneira firme aos desmandos e à soberba da
burocracia nuclear brasileira e ainda não foi capaz de explicar como
ficam as emissões brasileiras, como previsto no Plano Nacional de
Mudanças Climáticas, com o advento da exploração do pré-sal. A análise é do sítio do Greenpeace,
10-04-2011. É certo que a fragmentação partidária não ajuda muito a
presidente na missão de transformar o Brasil em um gigante da economia
verde. São nada menos que dez partidos de peso político na base
governista na Câmara dos Deputados, disputando cada um seu espaço:
PT (88), PMDB (79), PP
(41), PR (41), PSB (34), PDT
(28), PTB (21), PSC (17),
PCdoB (15) e PRB (8). Muitos deles, como PMDB e PP,
estão recheados de ruralistas com interesses contrários aos da agenda
verde. Muitos deles trabalham para enfraquecer a proteção ambiental por
meio da desfiguração do Código Florestal e do Sistema Nacional de
Unidades de Conservação, e ainda trabalhando pela manutenção (e até
crescimento) de fontes poluidoras na matriz energética brasileira. Além,
é claro, do forte lobby nuclear que há décadas habita os corredores do
Congresso e aprisiona o país em uma perigosa aventura atômica. Dormindo com o inimigo Durante a campanha eleitoral, a presidente Dilma
respondeu a um questionário do movimento ambientalista. Nele, afirmou
que vetaria mudanças no Código Florestal que levasse a anistia a
desmatadores e diminuísse reserva legal e áreas de proteção permanente (APPs). Ela sempre tão ciosa da sua autoridade e do entrosamento das
diferentes áreas do seu governo, precisa esclarecer quem apita nessa
discussão. Atualmente, o líder do governo na Câmara dos Deputados,
Candido Vacarezza, e o ministro da Agricultura, Wagner
Rossi, estimulam a votação do projeto do deputado Aldo
Rebelo (PCdoB-SP), que pretende enfraquecer a proteção das
florestas brasileiras, anistiando quem desmatou ilegalmente e ampliando
os limites do que pode ser cortado nas áreas de preservação permanente,
situadas nas margens dos rios. A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira,
disse que “o MMA vem debatendo a questão em cima de
três eixos: manutenção das APPs e da reserva legal sem
desmatamento; resolução da questão dos passivos ambientais, oferecendo
saída para cada uma delas; e as oportunidades que o código venha a
oferecer permitindo compensações dentro do mesmo bioma e da mesma bacia
hidrográfica, estimulando a silvicultura com, por exemplo, o Pagamento
por Serviços Ambientais”. Do outro lado o ministro da Agricultura,
Wagner Rossi, afirmou por diversas vezes que o
relatório do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) sobre o
novo Código Florestal merece "nota dez": "Não é preciso discutir melhor.
Quem discute melhor é o Congresso Nacional”, diz ele. A presidente precisa entrar em cena e deixar claro qual é a
proposta do governo para o Código Florestal. Descaso em relação às renováveis Apesar da mensagem com pinceladas verdes ao Congresso na
abertura do ano legislativo, o governo ainda não trabalhou para
impulsionar a votação do projeto de lei das energias renováveis, parado
na Mesa Diretora da Câmara dos Deputados desde 2009. O projeto é vital para o florescimento de um mercado para as
energias limpas, renováveis e seguras no país, como eólica e solar. Em
março de 2010, o Greenpeace, esteve com a presidente
Dilma, então chefe da Casa Civil, pedindo o empenho
pela aprovação da lei e ouviu que o tema seria tratado pelo governo. Enquanto prosseguimos sem um marco legal para renováveis, o
governo desperdiça R$ 12 bilhões com a construção de
Angra 3,
abandona em nossos canaviais um potencial de geração de 28 mil
megawatts, o equivalente a duas usinas hidrelétricas de Itaipu,
e não consegue construir as linhas de transmissão para os 20 parques
eólicos do Rio Grande do Norte, onde serão investidos R$ 8,3 bilhões até
2013. Limpando a barra A equipe de Dilma previa sua ida à inauguração
da
usina térmica de Candiota 3 (RS), no início desse
ano, mas a presidente mudou de ideia em cima da hora. O projeto faz
parte de um acordo internacional firmado entre China e Brasil e está
localizado no município de mesmo nome, que ficou 150 dias sem chuva no
último verão. O investimento em térmicas é totalmente contrário às
iniciativas tomadas para reduzir a emissão de gases-estufa, que levam ao
aquecimento global. A recusa de Dilma em ir ao evento
demonstra que ela pelo menos sabe que ligar sua imagem a uma fonte
altamente poluente é negativo. Mas nem por isso repensou o projeto, nem
o crescimento da geração térmica na matriz energética brasileira, em
detrimento ao investimento em fontes renováveis. Abrolhos com petróleo Logo no início de seu mandato, Dilma foi
informada de que a sentença judicial que impedia a exploração de
petróleo e gás no entorno do principal parque nacional marinho
brasileiro, Abrolhos, tinha sido derrubada. O ato deixou o local de reprodução de baleias jubarte, maior
área de recife de coral do Atlântico Sul, vulnerável a acidentes
semelhantes ao ocorrido no Golfo do México no ano passado. Já se
passaram três meses e nenhuma providência foi tomada para tornar a
região dos Abrolhos uma zona livre de exploração de petróleo. Soberba atômica Como desdobramento da recente tragédia no Japão, governos do
mundo inteiro, a exemplo da Alemanha, anunciaram a suspensão da
construção de novas usinas nucleares e a desativação das antigas,
tranquilizando seus cidadãos. No Brasil, entretanto, o desastre foi classificado de mero
“incidente” pelo ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio
Mercadante, que também afirmou que as usinas de Angra 1
e 2 são seguras e não representam riscos para o país. Isso não é verdade. Angra 2 funciona sem
licença ambiental permanente, um laboratório com material radioativo foi
soterrado por um deslizamento de terra onde as usinas estão instaladas e
o plano de evacuação em caso de acidente é pífio, pois sequer existem
rotas seguras para garantir a retirada da população que mora em Angra
dos Reis (RJ). Se um acidente nuclear, como o que ocorreu no Japão,
acontecesse no Brasil, a evacuação deveria englobar até 1,5 milhão de
pessoas, em 27 municípios do Rio de Janeiro e São Paulo. Como não consegue comprovar que tem um plano de segurança para
suas atividades nucleares, o governo recebeu recentemente do Ministério
da Economia da Alemanha o aviso da suspensão do financiamento de € 1,3
bilhão para a construção de Angra 3. Reação ruim às catástrofes Seguindo a infame tradição brasileira de correr atrás do
prejuízo, após a tragédia no Rio de Janeiro no início deste ano, o
governo anunciou o estabelecimento de um sistema nacional de prevenção e
alerta de desastres naturais, que deve ser concluído em quatro anos – ou
seja, há o risco de não ser um marco deste governo. Parece inacreditável, mas ainda carecemos no país de um
levantamento das áreas de risco. Números iniciais – e aparentemente
subestimados – apontam aproximadamente 500 áreas de risco, com cerca de
5 milhões de pessoas. Além disso, qualquer ação para minimizar os danos de eventos
extremos, que tendem a se intensificar com o aquecimento global, só será
bem sucedida se houver uma ampla reformulação da Defesa Civil
brasileira. Hoje ela é completamente sucateada, desaparelhada e
despreparada, e o desembolso de recursos para municípios atingidos por
catástrofes é freado por burocracias intermináveis. A ex-secretaria
nacional de Defesa Civil, Ivone Valente, reconheceu
publicamente que os auxílios destinados a comunidades afetadas por
catástrofes acabam não se convertendo em melhorias ou prevenção a novos
eventos. O Fundo Nacional de Mudanças Climáticas destinou R$ 10 milhões
para o desenvolvimento do sistema nacional de alerta. O fundo,
entretanto, nem começou a sair do papel. Dito e meio feito Na sua mensagem ao Congresso Nacional, a presidente se
comprometeu a implementar a Política Nacional de Mudanças Climáticas.
Foi aprovada a proposta de aplicação de recursos para 2011: R$ 200
milhões em financiamento e R$ 29 milhões em doação de recursos. Ao mesmo tempo, descobriu-se que o Programa de Agricultura de
Baixo Carbono (ABC), que poderia dar um grande
incentivo ao controle das emissões de gases-estufa produzidos por
atividades agrícolas, até hoje não gastou um só centavo dos R$ 2 bilhões
destinados. Lançado em junho de 2010, ele visa a recuperar 15 milhões de
hectares de pastagens degradadas, entre outras atividades, o que
ajudaria o país a cumprir seu compromisso internacional de redução em
36,8% a 38,9% de suas emissões até 2020. Corte no orçamento Dilma ordenou um corte de R$ 50
bilhões no orçamento de 2011. O Ministério do Meio Ambiente, que já tem
o menor orçamento entre todos os ministérios, recebeu uma tesourada de
40%: foi de R$ 1.078.490 para R$ 680.335, um dos cinco enxugamentos mais
drásticos entre seus pares. Esse corte vai dificultar as operações de combate ao
desmatamento e medidas positivas como o programa Mais Ambiente. Isso
também vai dificultar o cumprimento das metas brasileiras de redução de
emissões de CO² - metas essas que foram reafirmadas por Dilma
na sua mensagem ao Congresso na abertura dos trabalhos legislativos em
1º de fevereiro. Licenças 'fantasmas' Para tentar adiantar a obra da usina de Belo Monte, foi emitida
uma licença de instalação de canteiro de obra para o consórcio vencedor
do leilão. Esse tipo de licença não existe no Sistema de Licenciamento
Federal. Expedientes estranhos como esse provocaram um grande
constrangimento internacional ao Brasil, com o pedido da Comissão
Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), da
Organização dos Estados Americanos (OEA), pela
suspensão imediata da obra.
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