A carne é fraca e espera ser libertada
João Inácio Wenzel* O documentário
A CARNE É FRACA mostra
com imagens impactantes, que o aumento do consumo da carne no mundo e o
modelo de produção da mesma é o principal vilão da crise ecológica. Em
vez de ser um alimento forte, a carne é um alimento fraco, principal
causador do desmatamento da floresta amazônica, detonador da
biodiversidade, com consequências desastrosas para o planeta e a saúde
dos seus habitantes. As razões apresentadas pelo
documentário para não consumir produtos de origem animal são razões
éticas e de respeito à vida, de sustentabilidade do planeta e de saúde.
Os mesmos argumentos são também apresentados na Revista IHU On-line –
Vegetarianismo: uma opção ética. Com muitas informações e dados, ora
de pesquisas de institutos independentes, ora de órgãos oficiais, os
pesquisadores como Márcio Linck, autor do livro
Para Além do Ambientalismo – uma
História em Duas Décadas (2008), mostra que os impactos ambientais
assustadores, produzidos pela dieta ocidental à base de carne: “De
acordo com a Conservação Internacional, das 35 áreas onde a
biodiversidade é mais amaçada no mundo, 23 tem, como principal causa, a
pecuária. 2/3 dos desmatamentos das florestas tropicais do planeta se
devem à expansão da pecuária... Segundo o Instituto Nacional de
Pesquisas da Amazônia – INPA, 78% do desmatamento da Amazônia Brasileira
se deve à pecuária... Um em cada três bifes consumidos no Brasil vem da
Amazônia...” O relatório da Organização das Nações unidas para a
Agricultura e Alimentação (FAO) –
A Grande Sombra dos Estoques Vivos (2006), também aponta a pecuária
como responsável por 18% dos gases estufas; 37% do gás metano (que é 23
vezes mais poluente que o CO2); 65% do óxido nitroso NO2
(gases provenientes do esterco, 296 vezes mais nocivo que o CO2);
e 64% da amônia, que contribui para a chuva ácida e acidificação dos
ecossistemas. Com estes dados, o autor conclui que a fome poderia ser
combatida pelo vegetarianismo, uma vez que 30% das terras
agriculturáveis são ocupados pela pecuária e outros 33% das terras para
produzir grãos que alimentam os animais. “A quantidade de comida
consumida apenas pelo gado mundial (não incluindo suínos, caprinos e
aves) atualmente equivale às necessidades calórica de mais de 9 bilhões
de pessoas”. Os impactos causados por esse modelo
de produção de alimentos e agrocombustíveis, baseado na monocultura e do
agronegócio são outros capítulos da falácia da produção sustentável.
Todo veneno jogado na terra acaba sndo consumindo de um jeito ou de
outro, pelo ar que respiramos, pela água que bebemos e pelos alimentos
que consumimos, quer sejamos vegetarianas ou não. Segundo estudo
coordenado pelo médico e doutor de toxicologia,
Wanderlei Pignati, da UFMT, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz,
na safra de 2009 para 2010 foram jogados quase um bilhão de litros de
agrotóxicos na lavoura, o que equivale a cinco litros para cada
brasileiro. O Mato Grosso é o maior consumidor. Usou 105 milhões de
litros em 2009, dos quais 5 milhões foram jogados somente no município
de Lucas do Rio Verde. A pesquisa realizada neste município constatou a
presença de agrotóxicos em todas as amostras de leite materno recolhido
de 62 nutrizes. Foi constatada também a presença de agrotóxicos nos
poços artesianos e na água da chuva. Com isso se comprova de que não há
ações isoladas, nem neutras. O que se faz contra a natureza, reage
contra toda a humanidade. Se a questão da sustentabilidade já
toca o coração de quem assiste o documentário a Carne é Fraca, o
sofrimento infringido aos animais na produção e no abate sensibiliza
ainda mais. Dou razão a
Paul McCartney
que diz que, “se os frigoríficos tivessem paredes de vidro, todas as
pessoas seriam vegetarianas”. Nunca esqueço o dia que visitei um
frigorífico, em Maringá, em 1985. Fiquei semanas sem conseguir comer
carne, e comecei minha peregrinação rumo ao vegetarianismo. Ali está
apenas o desembocar de um processo produtivo em que galinhas, porcos,
vacas e bezerros são submetidos a um inferno vitalício, confinados em
cubículos, sem direito a um banho de sol, ar fresco, à prole, forçados a
crescer rápido, à base de anabolizantes, hormônios e antibióticos. O
stress que estes animais sofrem, e os remédios que eles são forçados a
engolir, repicam necessariamente nos consumidores destes alimentos. Fico pensando o que diria Jesus se
viesse hoje e visse a cadeia de produção de aves, ele que chorou de
compaixão pelos filhos de Jerusalém, usando a metáfora da galinha:
“Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne os
pintainhos debaixo das asas, mas não quiseste!” (Lc 13,34).
Possivelmente diria: “Não tem a galinha o mesmo direito de buscar a
felicidade do que vocês, os humanos? De chocar os seus ovos, de reunir
os pintainhos sobre suas asas, de conviver em família...?” A terceira linha de argumentação do
documentário para deixar de consumir produtos de origem animal, é a
saúde, como também procura mostrar a revista IHU On-line. Segundo
Claudia Lulkin, nutricionista vegana, “a alimentação vegetariana é
preventiva a todos os desequilíbrios chamados doenças da modernidade: as
hiperplasias, obesidade, diabetes, baixa do sistema imunológico, que
resultam em inflamações e alergias várias, envelhecimento precoce,
problemas de dentes, problemas de próstata, degeneração da constituição
física dos humanos”. Na mesma revista,
Adriano Caceres, servidor do Ibama, baseado em estudos feitos na
França, mostra que dietas com excesso de carnes, laticínios e açúcar
podem ser responsáveis por 30% de todos os tipos de câncer. Citando
outra pesquisa mostra que as carnes e os laticínios podem conter até 10
vezes mais resíduos de agrotóxicos encontrados nos vegetais. A realidade é tão dura que muitos
preferem nem pensar nisso e fazer de conta que isso não é comigo, e
continuar no mesmo ritmo de consumo. Em vez de enfrentar a realidade
assim como ela é e partir para outra, preferem fazer o que sugere o
refrão da música de
Jorge e Mateus: “a carne é fraca, o coração é vagabundo, mesmo assim
ainda bebo, e não te esqueço...”. Parece até que a culpa de beber todas
e não conseguir esquecê-la não é dele, mas da carne fraca, do coração
vagabundo... Mas quem decide ir para a balada e beber todas, todas as
noites? Quem se prejudica com isso? De quem é mesmo a responsabilidade?
Aonde este tipo de atitude vai levar? O refrão do
hino da Campanha da
Fraternidade de 2011, alerta que “nossa mãe terra geme de dor noite
e dia”. E pergunta: “Será de parto essa dor? Ou simplesmente agonia?!” A
resposta está em nossas mãos: “Vai depender só de nós!” O lema da campanha –
A criação geme em dores de parto
– é tirado de um trecho da carta de São Paulo aos romanos (Rm 8, 18-25).
Ali Paulo reconhece que os “sofrimentos atuais” (v.18) são causados pelo
ser humano que, por suas escolhas, “sujeitou a criação ao que é vão e
ilusório” (v. 20). Notemos que o ser humano é parte da criação e que, na
verdade, ele mesmo está se sujeitando ao ilusório. Mas ao mesmo tempo a
“própria criação espera ser libertada da escravidão da corrupção”
(v.21), “e não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do
Espírito, gememos em nosso íntimo a redenção de nosso corpo” (v.23).
Portanto, o ser humano não pode prescindir da criação. Sendo parte da
criação, compartilha da mesma expectativa. Como diz Nélio Schneider em
seu livro Humanidade e planeta
Terra: Quem precisa de quem? (2010): “a expectativa de toda criação
é que o ser humano corrija o seu percurso desastroso e, por meio desse
fato, possibilite a libertação de toda a criação, que então poderá
respirar aliviada numa nova realidade redimida”. * Padre jesuíta, Mestre em Teologia (FAJE/BH),
coordenador do Centro Burnier Fé e Justiça, e professor no Studium
Eclesiástico Dom Aquino Correia (SEDAC) |