Reforma agrária reproduz sem-terra?
Antonio Carlos Ribeiro*
Será que a Reforma Agrária efetivamente se “tornou reprodutora de
sem-terra”, como afirmou Ivaldo Gehlen, sociólogo e professor da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em entrevista ao
Jornal Zero Hora (03/04/2011)? As afirmações dele levantam mais
argumentos contrários do que parecem sustentar, especialmente na
sociedade gaúcha, que sempre liderou o avanço do movimento no país.
Se efetivamente a reforma agrária empacou no RS, as razões seriam a
diminuição da pressão da sociedade? O movimento esgotou suas propostas?
As lideranças exauridas? O fato de jovens procurarem áreas diversas de
atuação sustenta o argumento? Que a agricultura familiar tenha crescido
e seja ecologicamente mais correta, a sociedade já sabe. Assim como o
grande investimento das empresas na defesa da natureza seja em
publicidade.
Por ser uma região dos antigos estancieiros, os proprietários se
organizam, ao menos militarmente. A Brigada Militar ajudou e até ganhou
mídia - com repressão, violência e até gente assassinada - no governo
anterior. A propósito, o Ministério Público ficou famoso na mídia
nacional, por engavetar mais que por investigar. E até corpo de
ex-assessor da governadora apareceu boiando no lago Paranoá, na capital
federal.
Dizer que os proprietários ganharam força no judiciário pode ser
plausível. Entre as denúncias do wikileaks, surgiu uma fala do
embaixador americano John Danilovich dizendo que "os tribunais são o elo
frágil no sistema brasileiro; uma vez que o caso chegue lá, será preciso
um bocado de pressão para fazê-lo avançar”. A Justiça não protestou e o
chefe de Estado também não.
O diplomata estadunidense disse ainda que "é a lentidão do governo
federal e dos tribunais, em confiscar e redistribuir essas terras, e a
percepção de que juízes locais favoreceram de forma desnecessária os
proprietários de terras, que incitaram o recente ciclo de tensões". Com
agentes da CIA trabalhando junto com o corpo diplomático, deve saber de
fatos que o sociólogo desconhece.
A pesquisa do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
(INCRA) constatou apenas “uma melhora na vida de quem foi assentado”? E
que outra razão teria feito Porto Alegre conquistar o direito de
hospedar dois encontros do Fórum Social Mundial? Que permaneça a
situação de dificuldade, compreende-se como normal diante do noticiário
sobre o governo Ieda Crusius. É possível que mídia nacional tenha acesso
a informações que a grande mídia regional não publicou?
Margarida Pressburger, que ocupa recentemente uma vaga no Subcomitê de
Prevenção da Tortura da ONU, referiu-se a Paulo Vannuchi, chamando-o de
“um grande ministro”, que só não fez mais porque foi tolhido e afirmou
categoricamente que “o Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) é uma
obra-prima, pela forma como foi originalmente redigido”. Lembrou que ele
sofreu muita pressão, da Igreja Católica, das Forças Armadas e dos
ruralistas, ex-delegados e policiais, conhecidos no Congresso como
“bancada da bala”.
Justo quando o Supremo Tribunal Federal sucumbiu ao parecer de Eros Grau
que, torturado, submeteu-se mais uma vez, agora por vontade própria. Por
isso, o país foi punido pela Corte Interamericana de Direitos Humanos
(CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA). A ministra Maria do
Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos (SDH), “disse que as famílias
têm de receber seus desaparecidos. A presidente Dilma vai cumprir a
sentença”.
Apesar disso, os índices de produtividade dos assentamentos da região
centro-oeste do Rio Grande do Sul são referência mundial. Mas isso não
quer dizer que o sul do Estado não tenha produzido nada ou que seus
produtos “não servem como modelo de atração”, como alegou. Repassou os
dados antes da entrevista?
O discurso de Gehlen é típico do intelectual de bem com o discurso
condicionado ao veículo e de mal com os fatos, sobretudo quando
instrumentalizado pela mídia que perdeu as eleições locais e nacionais,
e sem grande repercussão na mídia nacional, mesmo a ideologicamente
aliada.
*Teólogo, jornalista e professor universitário no Rio de Janeiro
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