ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS
POR GILBERTO VIEIRA DOS SANTOS
O Fórum tem realizado diversos seminários e encontros nas grandes
regiões do Brasil para debater e amadurecer enfrentamentos ao fato que
pouco negam: o planeta está aquecendo e as consequências, muitas já
sentidas, tendem a atingir em breve populações pelo mundo todo.
Embora já tenha sido publicado um manifesto e uma Carta
Compromisso elaborada a partir dos temas debatidos pelos mais de cem
participantes, creio que é sempre interessante um olhar sobre este tema,
para o qual espero contribuir. Tantarei fugir do estilo "relatório", já
que não é este o objetivo aqui.
Poderia começar apontando para os problemas já elencados e sobre
os quais muitos vem se dedicando há anos: a impressão de que o clima
esta descontrolado. Foi notícia pelo mundo a seca na Amazônia em 2005 e
2010, as chuvas concentradas em várias regiões do país com efeitos
desastrosos para populações fragilizadas, nas encostas dos morros no Rio
de Janeiro e neste caso, também atingindo à classe média invasora de
ambientes que deveriam ser destinados à preservação e não especulação
imobiliária. As enchentes assustam e vem causando inúmeros danos aos
moradores que fora empurrados para as áreas de risco, para os espaços
que lhes restou. Certamente estes fenômenos metereológicos não são
casuais e inúmeros estudos vem sendo realizados que apontam o
aquecimento global como causa destas mudanças climáticas. O grupo de
cientistas que compõe o Painel Intergovernamental de Mudanças
Climáticas, IPCC, vem demonstrando estes fatos através de seus
relatórios. Embora interesses escusos questionem os relatórios do IPCC,
dizendo serem fantasiosos e exagerados, creio ser um tanto difícil negar
a importância destes relatórios. Para o quarto, publicado em 2007, por
exemplo, foram consultados 2.500 cientistas em mais de 130 países. O
relatório final foi assinado por 450 cientistas. Será que há tantos
cientistas loucos no mundo? E se concentram justo em um órgão das Nações
Unidas?
Este é um lado da análise do que se debateu nestes dias entre as
pessoas que vieram de várias cidades brasileiras e de outros países de
Aby Yala, mais popularmente conhecida como América Latina. O outro lado
foi a manifestação da contradição. Enquanto todos os dados nos indicam
para a necessidade de mudança de rumos, vimos como o governo federal se
preocupa com os desafios do aquecimento global através de seu Plano
Nacional de Mudanças Climáticas que tem na base, para o enfrentamento da
situação a construção de hidrelétricas - no Plano Decenal de Energia - e
a ampliação da produção de agrocombustíveis. E ainda chama de energia
limpa. Certamente devem pensar que não são sujas as obras que
desalojaram várias famílias, inundaram ou inundarão terras férteis,
vilas, cidades; não deve ser suja para o governo a prostituição de
jovens nos canteiros de obras, os 'vale prazer' distribuidos pelas
empresas construtoras das barragens, as mortes nas obras, a situação de
escravidão de diversos trabalhadores neste setor. Não deve ser suja para
o governo os mais de oito litros de água que perde por dia um cortador
de cana, que realiza esforços que encurta sua vida, o trabalho escravo
de muitos destes; não deve ser suja para o governo o etanol produzido
pela cana queimada, mesmo com a inserção de máquinas, já que a queima
aumenta o teor de sacarose e produz mais álcool. Também, no cúmulo da
contradição, o Plano de Mudanças Climáticas do governo federal prevê a
inserção no obsurdo mercado de carbono, através dos mecanismos de
Redução de Desmatamento e Degradação (REDD). Na prática os maiores
poluidores mundiais como China e Estados Unidos vão pagar para que
preservemos as matas, enquanto não reduzem em nada suas emissões. E vão
empurrando com a nossa barriga o protocolo de Quioto. Aliás, poderão até
reduzir com a energia limpa do etanol produzido no Brasil em
uma usina construída sobre território do povo Guarani Kaiowa, utilizando
mão-de-obra escrava que cortará a cana queimada e sua limpa
emissão de CO2. Poderá ser mais limpa ainda, se o agrocombustível que
alimentará a insustentável frota de veículos destes países for produzido
pela soja transgênica produzida em Lucas do Rio Verde, ou |