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Wanderlei Pignati: 13 metais pesados, 13
solventes, 22 agrotóxicos e 6 desinfetantes na água que você bebe
por Manuela Azenha, de Cuiabá (MT) Há cinco anos, Lucas do Rio Verde, município de Mato Grosso, foi
vítima de um acidente ampliado de contaminação tóxica por pulverização
aérea. Wanderlei Pignati, médico e doutor na área de toxicologia, fez
parte da equipe de perícia no local. Apesar de inconclusiva, ela
revelava índices preocupantes de contaminação. Em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Pignati passou
então a dirigir suas pesquisas à região Centro-Oeste. Professor na
Universidade Federal do Mato Grosso, há dez anos ele estuda os
impactos do agronegócio na saúde coletiva. É o estado onde mais se
aplica agrotóxicos e fertilizantes químicos no Brasil, país campeão no
consumo mundial dessas substâncias. Pignati alerta que três grandes
bacias hidrográficas se localizam no Mato Grosso, portanto quando
se mexe com agrotóxico no estado, a contaminação da água produz impacto
enorme. O projeto de pesquisa coordenado por Pignati tem o compromisso de
levar às populações afetadas os dados levantados e os
diagnósticos. Para ele, é fundamental promover um movimento social de
vigilância sanitária e ambiental que envolva não só entidades do
governo, mas a sociedade civil organizada e participativa. Diferentemente da União Européia, aqui a legislação não acompanha a
produção de conhecimento científico acerca do tema. Segundo Pignati, a
legislação nacional, permissiva demais, limita a poluição das indústrias
urbanas e rurais, enquanto paralelamente a legaliza. As portarias de potabilidade da água, por exemplo, ampliaram cada vez
mais o limite de resíduos tóxicos na água que bebemos. E na revisão da
portaria que está prestes a acontecer, pretende-se ampliar ainda mais. Pignati condena a campanha nacional em prol do álcool e do biodiesel,
energias que considera altamente prejudiciais e poluentes para o país
que as produz: “Se engendrou toda uma campanha para dizer que o
biodiesel viria da mamona, do girassol, de produtos que incentivariam a
agricultura familiar, mas é mentira, vem quase tudo do óleo de soja”. Assim como a
pesquisadora cearense Raquel Rigotto (leia aqui a entrevista dela ao
Viomundo), Pignati também questiona a confiabilidade do
“uso seguro dos agrotóxicos”, um aparato de normas e procedimentos
que mesmo se contasse com estrutura para seu funcionamento ideal, ainda
assim não garantiria o manejo absolutamente seguro dos venenos. Para Pignati, a falta de investimento na vigilância à saúde e ao
ambiente no Brasil é uma questão de prioridade: “Tem muito dinheiro para
vigilância, mas não para o homem. Existe um verdadeiro SUS que cuida de
soja e gado, produtos para exportação”. Viomundo – Desde o acidente de Lucas do Rio Verde, o que o
senhor vem pesquisando? Wanderlei Pignati – Na verdade, faz mais de dez anos
que pesquisamos os impactos do agronegócio ao homem e ao ambiente. Na safra de 2009 pra 2010, Mato Grosso usou 105 milhões de litros de
agrotóxico. O Brasil usou 900 milhões, quase 1 bilhão de litros de
agrotóxicos. É o maior consumidor do mundo. E Lucas do Rio Verde usou 5
milhões em 2009. Aonde vai parar esse volume todo? É isso o que temos
pesquisado. Estudamos a contaminação das águas e para isso a gente trabalha com
bacias. No Mato Grosso, você tem várias bacias. A bacia do Pantanal, que
é do rio Paraguai e nasce aqui no estado. Tem a bacia do Araguaia, uma
de suas grandes nascentes é o rio Morto, aqui em Campo Verde. E a bacia
do Amazonas em Lucas do Rio Verde, cujas nascentes são os rios Verde e
Teles Pires. Portanto, quando você mexe com agrotóxico e fertilizante químico no
Mato Grosso, está mexendo com as três grandes bacias do Brasil: a do
Araguaia, a Amazônica e a do Pantanal. A bacia do Pantanal é uma questão
mais séria ainda porque ela vai atingir outros países, como Paraguai,
Argentina e Uruguai. Tem três grandes bacias e três biomas no estado: o
pantanal, o cerrado e a floresta. As nascentes dos rios dessas bacias estão dentro das plantações de
soja. É o mesmo caso da bacia do Xingu, o maior parque índigena do
Brasil. As suas nascentes estão nos municípios em volta, onde está
cheio de plantação de soja, de milho e algodão. Queriam implantar mais
uma série de usinas de açúcar e álcool no entorno do pantanal, mas veio
um decreto do presidente proibindo. O agronegócio não respeita essa
questão das bacias e nem das nascentes dos rios. Essa problemática é o
que estudamos. Em Lucas do Rio Verde, em 2006, houve um acidente agudo que saiu na
mídia. Na mídia daqui, saiu pouco porque é muito comprometida com quem a
paga, que na época era o governador Blairo Maggi. Ele tem a mídia sob
controle. Na época, estavam dissecando soja em torno das
plantações, que se estendem até a beira da cidade. Planta-se e
pulveriza-se com trator ou com avião. Em Lucas, pulverizava-se a soja
transgênica, que é muito pior para o ambiente do que a soja normal. Viomundo – A maioria da soja já é transgênica? Wanderlei Pignati – No Mato Grosso, 80% dessa última
safra já é. No Rio Grande do Sul, é 95%. Agora está entrando muito milho
transgênico também. Aqui, tira-se a soja e planta-se o milho. São duas
safras grandes de plantação aqui. Viomundo – Os transgênicos exigem mais agrotóxicos? Wanderlei Pignati –A soja transgênica sim, porque
não é resistente à praga, ela é resistente a um agrotóxico, que é o
glifosato. Esse é um agrotóxico bastante usado, que a Monsanto patenteou
com o nome de Roundup. Na soja comum, você não pode usar o
glifosato depois de ela ter nascido, porque ele mata o mato e a
soja também. Mata minhoca, fungo, bactérias sensíveis a ele. Por
biotecnologia, pegaram uma bactéria resistente ao glifosato e injetaram
o DNA dessa bactéria no DNA da soja. Então, o glifosato só era usado antes da soja nascer para matar as
ervas daninhas. Agora, como é resistente, aplica-se o glifosato a cada
quinze dias e o uso dele foi multiplicado na soja. Depois, precisa
madurar e dissecar a soja rapidamente para plantar o milho. No
meio natural, demora um mês e pouco. Com esse dissecante, em três dias a
soja madura, seca e a máquina já pode entrar na plantação. Isso para
aproveitar as chuvas da segunda safra e plantar o milho. Mas para
dissecar agora já não se pode usar o glifosato, porque a soja é
resistente a ele. Então usa-se outro tipo de agrotóxico, o diquat
ou o paraquat, classificado como classe 1, extremamente tóxico.
O glifosato é classe 4, tóxico também, mas pouco. O paraquat é
proibido na União Européia. Além de multiplicar o uso do glifosato, você agora usa um agrotóxico
extremamente tóxico como secante [da soja]. E não é toxico só para o
humano, ele é altamente perigoso para o ambiente, porque mata tudo
quanto é coisa, abelha, pássaro. E no caso de Lucas, eles estavam
dissecando a soja de avião, usando diquat e paraquat
em torno da cidade. Uma nuvem foi para dentro da cidade e queimou todas as plantas
medicinais. Tinha um horto de plantas medicinais com mais de 100
canteiros que abastecia várias cidades. Foram queimadas as hortaliças e
plantas ornamentais da cidade também. Deu um surto agudo de vômito,
diarréia e alergia de pele em crianças e idosos. Os médicos
classificaram como rotavirose. Nós da Universidade Federal do Mato Grosso fomos chamados pelo
Ministério Público de Lucas do Rio Verde e do estado para fazer uma
perícia. A gente viu que a coisa era bastante séria, um acidente sério
que acontece todo dia. É a chamada deriva de agrotóxico. É previsível,
porque os agronômos sabem que tem vento, o vento não está parado. Então,
você passa agrotóxico perto da cidade e o vento vai levá-lo para lá. O pessoal se esconde por trás da palavra “deriva” para dizer que
aquilo foi um acidente, mas é um acontecimento prevísivel. Passar um
agrotóxico extremamente tóxico a partir de um avião é mais previsível
ainda. Mesmo quando o agrotóxico já está no solo, ele depois se
evapora. Jogar veneno é um ataque quase de guerra. Não se trata de
pesticida ou defensivo agrícola. Na legislação, está como agrotóxico. O
trabalhador que está passando o agrotóxico pode estar protegido com
todos os EPI (equipamento de proteção individual), mas e o ambiente? Vai
colocar EPI nas outras plantas? Querem matar os insetos, o fungo, a erva
daninha. Então teria de colocar EPI nos outros animais, como no
peixe e no cavalo. O uso seguro do agrotóxico é altamente questionável. Pode ser seguro
para o trabalhador, isso se ele usar todos os EPI. Mesmo assim, tem toda
uma questão da eficiência e eficácia desses EPI. Sou também médico do
trabalho e a gente vê isso. A eficiência e eficácia do EPI é de 90%, se
[os trabalhadores] usarem máscara com o filtro químico adequado. E o
resto do vestimento? Agrotóxico penetra até pelo olho! Pela mucosa, pela
pele. Então teria que ter até um cilindro de oxigênio para respirar
igual a um astronauta. O filtro pega 80% ou 90% dos tipos de agrotóxico.
Hoje, você tem mais de 600 tipos de princípios ativos e são 1.500 tipos
de produtos formulados. Tem agrotóxicos novos com moléculas muito
pequenas que passam pelo filtro. Então, com toda a proteção ideal, você
protege o trabalhador. Mas, e o ambiente? Os resíduos vão sair na água, depois na chuva, vão ficar no ar, vão
para o lençol freático. A gente viu isso na cidade, depois fizemos uma
perícia mas ficou inconclusiva. Por isso, resolvemos fazer uma pesquisa
junto com a Fiocruz. Ao mesmo tempo, estava-se articulando pesquisas em
outros estados aqui da região Centro-Oeste. O nome da nossa pesquisa é
“Avaliação do risco à saúde humana decorrente do uso do agrotóxico na
agricultura e pecuária na região Centro-Oeste”. A gente pegou dois
municípios e um município-controle, em que quase não se usa agrotóxico. Viomundo – As pesquisas em Lucas do Rio Verde já estão
bastante avançadas? Wanderlei Pignati – Já. Talvez a análise do leite
materno tenha sido um dos últimos tópicos, mas a gente continua com
sapos e com peixes. Em outros munícipios, a gente não fez o teste
do leite, por exemplo. Mas isso porque Lucas é o maior produtor de milho
no estado do Mato Grosso, terceiro em produção de soja. Então achamos
que era necessário o trabalho. Analisamos o leite materno de 62 mulheres
em Lucas, 20% das nutrizes amamentando no ano passado. Todas as amostras
revelaram algum agrotóxico. Mas o que mais deu nessas amostras é um
derivado de DDT, que se usava na agicultura até 1985 e na saúde pública,
até 1998, para combater a malária. Só que ele é cumulativo, entra na gordura e não sai mais. O segundo
que mais deu foi endossulfam, 40%. É um clorado proibido faz 20 anos na
União Européia. E por ser um clorado também fica acumulado na gordura.
Retirar o leite é uma maneira de analisar os resíduos de agrotóxico na
gordura, menos agressiva que uma biópsia. Quando a mulher fabrica o
leite, as gorduras mais antigas vão para o leite. Depois desse acidente, despertou na população um movimento de querer
saber o que está acontecendo. Viomundo – E depois que a perícia averigua a causa do
acidente, o que acontece? Wanderlei Pignati – Algumas coisas você comprova na
hora, outras demoram anos. Fazemos análise de resíduo de agrotóxico na
água, no solo, na chuva, no leite. Para avaliar o leite, a gente começou há três anos a desenvolver uma
técnica para analisar dez agrotóxicos de uma só vez. Uma substância
isolada é custosa em termos de dinheiro e tempo e, analisando dez
substâncias, a chance de encontrar resíduos é maior. Das amostras,
100% deram pelo menos um tipo de agrotóxico. Pegamos os 27 tipos de
agrotóxicos mais consumidos na região do Mato Grosso e fizemos as
análises. Dentre os 27 mais consumidos, você não tem o glifosato, por
exemplo, que é o herbicida mais usado no país, porque não tínhamos
tecnologia no Brasil para analisá-lo. Hoje tem, mas é muito cara. Os
únicos que fazem esse exame são meia dúzia de laboratórios. Periodicamente a gente levanta dados, tem as dissertações de alunos.
No nosso grupo de estudos, tem uma aluna que estuda resíduo de
agrotóxico em leite, outra que estudou agrotóxicos e câncer. Onde tem a
maior incidência de câncer aqui no MT? Justamente nas regiões
produtoras do estado. Em torno de Sinop: Lucas do Rio Verde, Sorriso,
Nova Mutum, que são os municípios no entorno. A região de Tangará da
Serra, Sapezal, Campos Novos dos Parecis, que são os grandes produtores
de soja. E a região de Rondonópolis, Primavera, Campo Verde, Itiquira,
onde se produz muito algodão. São as grandes regiões produtoras onde tem maior incidência de
câncer, má formação, intoxicação aguda. Você tem 80% a 90% desmatado
nesses lugares. Se está desmatado, é porque está se plantando soja,
milho e algodão até a beira das casas. Mato Grosso produz 50% do algodão
do Brasil e é justamente a cultura que mais usa agrotóxico. No Mato
Grosso, em média, um hectare de soja usa dez litros de agrotóxico:
herbicida, inseticida, funigicida e o dissecante. O milho usa seis
litros. A cana, quatro litros e o algodão, vinte. Como a gente tem grande produção de soja — são seis mihões de
hectares de soja no Mato Grosso –, dá 60 mihões de litros de agrotóxico
na soja. Obtemos esses números no INDEA [Instituto de Defesa
Agropecuária do Estado de Mato Grosso], onde todo receituário agronômico
e uso de agrotóxico é registrado. Na maioria dos estados não tem, mas
deveria haver esse banco de dados. São 40 municípios que consomem 80%
desses 100 milhões de litros de agrotóxicos. No geral, ocorre uma contaminação, inclusive da chuva, que tem muito
agrotóxico presente. Ele evapora, depois desce, principalmente no
período de chuva, que é quando mais se usa agrotóxico. Na entressafra,
chove pouquíssimo. Então, quase ninguém está plantando. O agrotóxico
evapora, desce e vai para toda região, não só para aquele município onde
foi aplicado. Vai para o ar também. Se você está pulverizando a alguns
metros de uma escola, esse ar vai para os alunos, para os professores. E
os poços artesianos a alguns metros de uma grande plantação de soja,
milho ou algodão também se contaminam. Com o tempo, o agrotóxico vai penetrando no solo e sai no poço, mesmo
que esteja a 50, 60, 70 metros de profundidade. Isso é o que a gente
chama de poço semi-artesiano e a maioria é assim. Uma região de cerrado
tem pouco abastecimento por córrego, é mais por poço artesiano que as
cidades e comunidades rurais se abastecem. Encaminhamos o relatório dessa pesquisa para o CNPq [Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico]. Lá em Lucas, a
gente já fez uma audiência pública na Câmara Municipal, onde
apresentamos esses dados. Estavam presentes vários professores,
vereadores, os secretários da saúde, educação e agricultura. As
Secretaria da Agricultura e do Meio Ambiente são juntas em 140 dos 141
municípios de Mato Grosso. O grande poluidor do meio ambiente — a
agricultura químico-dependente, que desmata e usa muito agrotóxico e
fertilizante químico – tem o mesmo gestor e fiscalizador que o
meio ambiente. A maioria dos secretários da agricultura é de
fazendeiros, eles não vão denunciar a poluição dos colegas deles. Aqui
no estado, a única exceção é Cuiabá, mas é onde não tem agricultura. O MP [Ministério Público] está elaborando um termo de ajuste de
conduta. Em Campo Verde também teve uma audiência pública para
estabelecer uma legislação com os dados parciais que a gente já tinha e
fazer uma legislação que determinasse a distância mínima para
pulverização no entorno da cidade. O promotor recebeu o relatório e está
preparando um ajuste de conduta também. Esses lugares são semelhantes entre si, porque são dos 40 municípios
do estado que consomem 80% dos agrotóxicos, dos fertilizantes químicos e
das sementes. A dinâmica é parecida nesses 40 municípios. Desmata-se e
pulveriza-se até a beira do córrego, no entorno dele e nas nascentes. As
comunidades rurais e a própria cidade ficam ilhadas no meio das
plantações. No pasto, usa-se muito herbicida e inseticida e isso vai entrar no
ciclo da carne. Os outros suínos e as aves são contaminados pela soja e
pelo milho, porque a ração desses animais é à base desses produtos.
Dessa maneira, os resíduos do agrotóxicos vão parar nos alimentos. O Ministério da Saúde analisou 20 tipos de alimentos e 30% pelo
menos deram algum tipo de agrotóxico. A maioria dos agrotóxicos
analisados — foram mais de cem – é autorizado aqui no
Brasil. Uma boa parte, uns 14, está sob revisão. Dois ou três foram proibidos
e o endossulfam, bastante usado aqui e muito tóxico, vai ser proibido a
partir de julho de 2013. Metamidofois, outro fosforado, que dá muito problema no sistema
nervoso, psiquiátrico, até doença de Parkinson, vai ser proibido a
partir de julho do ano que vem. Esses são proibidos há vinte anos na
União Europeia e aqui quando é proibido, é só partir de 2013. Sabe-se
que o metamidofós é cancerígeno, neurotóxico e mesmo assim só será
proibido a partir de julho do ano que vem. Viomundo – Já existe conhecimento científico suficiente para
uma política mais incisiva? Por que é tão permissiva a legislação
brasileira em relação aos agrotóxicos? Wanderlei Pignati – Você tem a lei do agrotóxico, a
Lei 7.802 de 1989, depois regulamentada pelo decreto 4074, de
2002. Mas existem alguns furos. Primeiro, quem está fiscalizando?
É um volume imenso de agrotóxicos, todos permitidos no Brasil. Teria de
haver alguns critérios. E os critérios que existem, como a distância
mínima de 500 metros de nascente de água, casas, criação de animais,
ninguém respeita. Viomundo – Mas os critérios no Brasil são diferentes? Por que
os proibidos lá fora, aqui são permitidos? Wanderlei Pignati – São diferentes. Os mais tóxicos
são proibidos lá e aqui permitidos. Isso por causa da nossa dependência
econômica. Quem governa o Brasil? Aqui, no Mato Grosso, os grandes
governantes são fazendeiros, assim como no Goiás. Falo de governantes
não só do executivo, mas do legislativo também. Deputados estaduais, os
veradores, uma boa parte é fazendeiro e comprometido com esse modelo de
desenvolvimento. Não querem mudar agora o Código Florestal para devastar mais ainda?
Aqui, no Mato Grosso, 80% estão devastados por quê? Na região Amazônica
também. Segundo a lei, teria que desmatar 20% e preservar 80% nas áreas
de floresta, de preservação permanente. No cerrado, você pode desmatar
70% e deixar 30%. Os agrotóxicos são fabricados lá fora e vêm para o Brasil. O
compromisso dos empresários que vendem esses produtos não é com a saúde.
E o grande fazendeiro quer saber de matar o que ele chama de praga. A gente tem que inverter isso, quem é a praga que começou a desmatar,
depois a usar um monte de veneno? Dá para produzir sem o veneno? Dá, é o
modelo da agroecologia. Entra no modelo dos orgânicos. O maior produtor de açúcar e álcool orgânico é o Brasil. É produzido
numa cidade do interior de São Paulo, Sertãozinho. São 16 mil hectares
de cana num processo industrial semelhante ao outro, tem máquina
cortando mas sem usar uma gota de fertilizante químico ou agrotóxico.
Começou 30 anos atrás, selecionando as sementes, as mudas de cana
resistentes. Montou-se um laboratório próprio, com biólogo, engenheiro,
para eles mesmos selecionarem ao invés de comprar sementes já
selecionadas. Diferentemente dos outros produtores, que dependem da meia dúzia de
empresas que dominam toda indústria de semente de soja, milho, algodão,
feijao, arroz. Essas empresas não fazem seleção para não usar agrotóxico
ou fertilizante químico, se não como vai ficar a indústria deles, de
fertilizante e agrotóxico? O mesmo dono da patente da semente é o dono
do agrotóxico e do fertilizante químico. E mais ainda: é o mesmo
que produz o medicamento, da indústria química. Hoje, uma boa parte de medicação que a gente usa para tratar pessoas
que tiveram infecção aguda, câncer ou uma outra doença neurológica,
psiquiátrica, é produzido por quem produz fertilizante químico e
agrotóxico. É um complexo químico-industrial, estão todos ligados. É um tanto esquizofrênico para essa sociedade que se diz
desenvolvida. Tem que ser outro modelo de desenvolvimento, isso porque
eu estou discutindo a área agrícola sem entrar na indústria urbana, que
é semelhante. Existe uma legislação para limitar a poluição e uma legislação
paralela para legalizá-la. Os jornalistas perguntam quanto que é o
limite máximo permitido de agrotóxico no litro d’água? A gente já chegou
a esse grau de não questionamento, de não se indignar, de acatar isso. Se você pegar a Portaria 518 de 2004, do Ministério da Saúde, que
chama-se Portaria da Potabilidade da Água, dá pra ver o que é permitido
ter na água hoje. A gente fala muito de coliformes fecais. Mas e
os agrotóxicos são permitidos? E os solventes? E metais pesados? Todos
eles são permitidos. O litro de água que você bebe hoje, de acordo com essa portaria, pode
ter 13 tipos de metais pesados, 13 tipos de solventes, 22 tipos de
agrotóxicos diferentes e 6 tipos de desinfetantes. Hoje, a questão mais
importante na contaminação da água não é mais a bactéria, mas toda essa
contaminação química. Viomundo – Essas portarias de potabilidade da água aumentaram
cada vez mais o limite de contaminação. Por quê? Wanderlei Pignati – Se você comparar essa portaria
com a da Uniao Européia, vai ver que aqui tem 22 tipos de agrotóxicos
enquanto lá pode ter, no máximo, cinco. Os limites lá são ínfimos. Enquanto lá você pode ter 20 microgramas de glifosato, aqui pode ter
500 microgramas. E ainda querem subir para mais. A primeira portaria, de
1977, podia ter 12 agrotóxicos, 10 metais pesados, zero solventes
e zero derivados de desinfetantes. A seguinte já é de 1990. A
vigente é de 2004. Isso acompanha o crescimento da população urbana e
rural, que se reflete na água. Os agrotóxicos são a poluição
rural. Não se faz um tratamento adequado da água, só tiram os
coliformes, botam cloro e fazem um tratamento primário. Esse tratamento,
de 100 anos atrás, é feito por decantação. Você coloca o produto, ele decanta, vai todo para o fundo, aí você
aspira. É como limpar uma piscina. E os produtos químicos que ficaram
dissolvidos na água? Quem usa muito solvente são as indústrias urbanas.
Metais pesados são usadas nas indústrias urbanas e na agricultura
também, junto com os fertilizantes químicos. Aquilo se acumula durante
anos e sai na água. A portaria da potabilidade da água reflete a
legalização da poluição urbana e rural. Viomundo – Como o desenvolvimento urbano e rural foi
crescendo, as portarias foram permitindo cada vez mais? Wanderlei Pignati – Sim, porque essas substâncias
vão sendo usadas cada vez mais. Depois, na revisão da portaria, já
querem aumentar o limite. Querem tirar alguns agrotóxicos antigos e
colocar outros novos. É uma sociedade sem muita informação e sem muita
indignação. A grande mídia fala de limite máximo de resíduo como se
fosse uma banalidade. Tudo isso é permitido na água? O leite da vaca tem
um monte de coisa permitida também, agrotóxicos que são muito usados no
pasto e vão parar na carne e no leite. Agora, quando é carne para exportar e existe esse limite de resíduo,
aí fazemos as análises. Às vezes, volta soja e carne porque não foram
aprovados pelo nível de resíduo de lá [do país importador]. Alguém ja
viu incinerar aqueles vários navios de soja que voltaram? Depois que o
produto saiu da indústria e foi para o supermercado daqui, seja carne,
frango, soja, milho, quem fiscaliza? A vigilância sanitária do município ou do estado tem que ir fazer as
análises, e não se faz isso de maneira rotineira. Quando fazem análise
de algum produto, analisam o coliforme fecal. Vêem se aquele produto
entrou em putrefação. Mas vai fazer análise de resíduo de agrotóxico,
que é cara? Viomundo – Não fazem as análises por falta de estrutura? Wanderley Pignati – Por falta de estrutura, mas não
tem estrutura porque não tem investimento. Mas para exportar não fazem
as análises? E para cuidar da saúde do boi e da soja? Existe muito
dinheiro para a vigilância à saúde no Brasil, mas não para o homem.
Existe a vigilância do boi e da soja. O SUS do boi e da soja. A
vigilância do boi e da soja tem escritórios do governo do estado nos 142
municipios, com agrônomo, veterinário. Tem mais de 20 carros. Quem é que
faz toda a estrutura para vacinar 27 milhões de cabeças de gado do Mato
Grosso? Fazem campanha, o veterinário vai todo mês na fazenda ver se vacinou
ou não contra febre aftosa. O fazendeiro compra a vacina, tudo bem, que
é o custo menor. Aqui,no Mato Grosso, você tem 500 mil crianças abaixo
de cinco anos e qual é a cobertura contra sarampo, hepatite, meningite,
tuberculose? Vacinou quantos por cento das crianças? As 27 milhões de
cabeças [de gado] estão todas vacinadas, do contrário não são
exportadas. A infraestrutura é com o dinheiro público, mas os bois são
de dinheiro privado. Com a soja, é a mesma coisa. Tem toda uma estrutura
para não espalhar a ferrugem, que é um fungo da soja. Os agrônomos da
Saúde tiram amostra, orientam os fazendeiros, fazem análise. O boi para
exportar recebe cuidado, mas o que fica aqui e vai parar no
supermercado, não. Viomundo – O Mato Grosso é o maior produtor agrícola e maior
consumidor de agrotóxico do país. O senhor acha que a alta produtividade
de Mato Grosso depende do agrotóxico? Wanderlei Pignati – As duas coisas estão ligadas.
Cada vez se consome mais. Há dez anos, o hectare de soja consumia 8
litros e não 10 litros de agrotóxico, como hoje. Porque hoje você tem
uma série de plantas já resistentes aos vários tipos de agrotóxicos.
Então, primeiro você usa mais para ver se resolve.Depois, você troca por
outro mais tóxico. Viomundo – Mas é viável eliminar os agrotóxicos? Wanderlei Pignati – Se você partir do sistema e
começar a substituir a semente, sair desse domínio da semente, lógico
que é viável, em grande escala. Como acontece em Sertãozinho, o maior
produtor de açúcar orgânico do mundo. Eles exportam 99,9% dos produtos
para União Européia. Hoje em dia a UE está preferindo nossos produtos
orgânicos. Hoje tem algumas fazendas produzindo soja orgânica ou mesmo a
soja tradicional, não transgênica, que já consome menos agrotóxico. A UE prefere a soja não transgênica não só por causa do gene da
bactéria que foi colocado junto com o da soja, mas também por causa dos
resíduos do agrotóxico. Tem um nível de glifosato maior e depois, para
dissecar, é usado o diquat ou paraquat, que é proibido na UE. Na China,
na Índia, nos países do Oriente Médio e da África, esses produtos
entram. Vamos levar a poluição para os nossos irmãos da África, da Ásia,
que lá não tem controle nenhum. A sociedade precisa abrir os olhos e se
mobilizar. Viomundo – O governo Lula manteve esse modelo de
desenvolvimento? Wanderlei Pignati – Manteve, inclusive incentivou
muito. Ele entrou dizendo que faria reforma agrária e fez praticamente
nada. Ele fez 10% do que foi prometido. Em relação aos fazendeiros,
ajudou o investimento na produção do biodiesel, da cana, ajudou a
arrumar os portos, as estradas, mantendo algumas coisas do Fernando
Henrique Cardoso. Por exemplo, manteve a antiga lei Kandir, em que os
produtos rurais são isentos de imposto de exportação e do ICMS, então
produzem soja e não fica um tostão aqui. Só produto industrializado é
que paga imposto. Então, por que a gente produz tanta soja, exporta e
mantém pouca industrialização aqui? A carne é a mesma coisa, se você industrializar o que tem no
frigorífco e transformar em salsicha, linguiça, aí paga imposto. E ainda
vieram os governos estaduais, acabando com o ICMS. Agrotóxico não paga ICMS, mas medicamento paga. Carros usados na
agricultura, como tratores, não pagam ICMS aqui em Mato Grosso. São um
monte de benesses que os governos federal e estadual deram ao
agronegócio. Para a agricultura familiar, deu um pouquinho, para não
dizer que não deu nada. Deram 95% aos grandes e 5% para a agricultura
familiar. Essa assistência técnica que o governo dá para os grandes produtores
de boi e soja não tem nos assentamentos rurais. O governo manteve o
modelo e ampliou mais ainda com o negócio do biodiesel, do álcool,
dizendo que é a energia mais limpa do mundo. É mais limpa quando está
dentro do navio, pronta para exportar, pois aqui dentro o álcool é a
energia mais suja do mundo. E agora o biodiesel. Tem que desmatar,
usar agrotóxico, fertilizante químico, é o que mais emprega trabalho
escravo, é o que mais está matando trabalhador na zona rural, inclusive
de exaustão. Polui com os detritos dessas indústrias rurais. Nossa gasolina tem que ter 20% de álcool e se consome muito nos
carros a álcool. Agora, por decreto governamental, o diesel é 5%
biodiesel. E de onde vem? Se engendrou toda uma campanha para dizer que
viria da mamona, do girassol, de produtos que incentivariam a
agricultura familiar. Mentira, hoje, 95% vem do óleo de soja. O Mato
Grosso é um dos maiores produtores de biodiesel. Você pega o óleo de
soja, que é um alimento, e transforma em óleo para ser misturado com o
diesel lá em Paulínia [São Paulo]. O Lula incentivou isso. A maior
indústria de biodiesel do Brasil fica aqui em Barra do Bugres e há
dois anos o Lula veio aqui inaugurar. Agora já tem dezenas no país todo.
Assim como o álcool, com o qual poderia se produzir açúcar e outros
alimentos em vez de ser produzido para carros. Viomundo – Do governo Dilma pode se esperar alguma
mudança? Wanderlei Pignati – É continuidade do governo que
prioriza o desenvolvimento industrial urbano e rural nesse mesmo modelo.
Pode piorar ainda mais se passar essa reforma do Código Florestal. Não é
o governo da Dilma, é de vários partidos, como foi o do Lula. Um monte
de empresários que permitem e mantêm esse modelo. A gente pensou que o
governo Lula fosse mudar, não digo acabar com o capitalismo, mas, pelo
menos, mudar um pouco essa correlação. Melhorar a agricultura familiar,
ir no sentido da agroecologia, dar o mesmo privilégio de financiamento
para os grandes e pequenos produtores. Nada disso aconteceu. Viomundo – Lula ampliou o sistema de crédito para a
agricultura familiar. O senhor não acha o suficiente para inverter o
rumo do desenvolvimento? Wanderlei Pignati – Ele ampliou no orçamento, mas no
financeiro, quem conseguiu pegar? Grande parte dos assentamentos não tem
uma legalização que pode ir lá pegar o financiamento. E se conseguir
pegar, cadê a assistência técnica para ele produzir? A agricultura
familiar vive um drama. Os pequenos produtores podem pegar 10 mil reais
e o grande pega 10 milhões, 20 milhões. Desses 10 milhões de reais, ele
vai investir oito e com os outros dois milhões, ele compra apartamento,
outras coisas. O pequeno, que pegou 10 mil reais para produzir, é com muito
sacrifício, bota toda a família para trabalhar. São políticas iguais
para o grande e para o pequeno — e não funciona assim. Tem de ter uma
estrutura de crédito, de manejo, de assistência, que hoje não há. O
grande produtor tem seus agrônomos. O pequeno, não. Fica sendo uma
política mais demonstrativa, “dei tantos milhões”. Mas quantos pegaram?
E os que pegaram o financiamento, quantos cumpriram aquilo? O pequeno
gosta de cumprir. Os grandes não precisam, porque depois vem a anistia,
eles não pagam impostos.
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