|
By Rachel Moreno,
Pluralidade religiosa: EBC sai na frente - Enquanto o marco
regulatório das comunicações não vem, a decisão da EBC de
formular uma “política de produção e distribuição de conteúdos
de cunho religioso”, certamente passará a significar um momento
de inflexão não só na TV Pública, mas na televisão brasileira em
geral.
DEBATE ABERTO
Por Venício Lima
Em artigo publicado em agosto de 2010, celebrei decisão do
Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) que
abrira consulta pública para recolher contribuições de entidades
e pessoas físicas sobre a política de produção e distribuição de
conteúdos de cunho religioso através de seus veículos.
Ainda hoje a TV Brasil exibe o programa “Reencontro”, produzido
por igreja de orientação evangélica, aos sábados; e os programas
“A Santa Missa” e “Palavras de Vida”, de orientação católica,
aos domingos. Já a Rádio Nacional de Brasília transmite aos
domingos celebração de missa de orientação católica. Esses
programas são originários das emissoras que foram absorvidas
pela EBC após a sua criação e a regulamentação do Sistema
Público de Comunicação pela Lei nº. 11.652/2008.
Uma reclamação de telespectadores enviada à Ouvidoria da EBC,
provocou, à época, um parecer da Câmara de Educação, Cultura,
Ciência e Meio Ambiente do Conselho Curador que afirmava:
“Parece-nos impróprio que os veículos públicos de difusão
concedam espaços para o proselitismo de religiões particulares,
como acontece atualmente com os programas que vão ao ar na TV
Brasil aos sábados e domingos, dedicados à difusão de rituais ou
de proselitismo que favorecem a religião católica e a segmentos
de outras religiões cristãs. Tendo-se em vista o caráter plural
do “mapa religioso” brasileiro (...) trata-se de um
injustificado tratamento a religiões particulares, por mais
importantes que sejam, por maior respeito que mereçam. Em tese,
tais tratamentos, atualmente vigentes, só seriam corrigíveis, e
atenuadas, se todos os cultos e religiões recebessem espaços
equivalentes o que seria, obviamente, inviável.”
Diante desse Parecer, a Câmara de Educação, Cultura, Ciência e
Meio Ambiente sugeriu a substituição dos atuais programas por
outros sobre o fenômeno da religiosidade no Brasil, “de um ponto
de vista plural, assegurada a participação a todas as confissões
religiosas”.
EBC sai na frente
Depois de oito meses de discussões e
após a realização da Consulta Pública nº. 02/2010, entre 04 de
agosto e 19 de outubro de 2010, o Conselho Curador da EBC
aprovou, em sua reunião do dia 22 de março, resolução das
Câmaras de Educação e Cidadania e Direitos Humanos que determina
a suspensão dos programas religiosos da grade de programação da
empresa.
O tempo dos programas é de cerca de 2h45 minutos na grade de
programação da TV Brasil sem incluir as missas retransmitidas
pelas emissoras de rádio da EBC. Os responsáveis terão ainda
seis meses para retirar a programação do ar.
O próximo passo será dado pela diretoria executiva da EBC que
apresentará ao Conselho Curador uma proposta de formato de faixa
religiosa com produções que irão valorizar a diversidade e a
pluralidade das manifestações religiosas em nosso país.
Estado laico
A decisão pioneira e exemplar da EBC toca em questões que
obrigatoriamente deverão ser enfrentados pelo esperado marco
regulatório das comunicações. Em artigo publicado no Brasil de
Fato n. 416, João Brant, coordenador do Intervozes, lembra
algumas dessas questões:
1. manifestações religiosas devem ou não ser permitidas em
veículos de comunicação que são concessões públicas, como rádio
e TV?
2. se sim, deve ser permitido também o proselitismo religioso,
ou seja, a prática de tentar "vender seu peixe" e conquistar
fiéis?
3. como esse tipo de manifestação ajuda ou afeta a liberdade de
crença – que é maior do que a liberdade religiosa e inclui até o
direito de não se ter religião?
4. como garantir às distintas manifestações de fé o mesmo
direito, já que não chegam a 2% as denominações religiosas
presentes no Brasil que têm espaço em meios de comunicação?
5. deve-se impedir que esses espaços sejam usados para ataques a
outras religiões, como os que sofrem as denominações de matriz
africana?
6. deve-se permitir canais inteiramente controlados por grupos
religiosos, o que é proibido na maioria das democracias?
7. Deve-se permitir o arrendamento de espaço – ou mesmo de
canais inteiros – no rádio e na TV ou essa prática configura uma
verdadeira grilagem eletrônica, pela apropriação privada de um
espaço público?
Exemplo a ser seguido
Enquanto o marco regulatório das comunicações não vem, a decisão
da EBC de formular uma “política de produção e distribuição de
conteúdos de cunho religioso”, certamente passará a significar
um momento de inflexão não só na TV Pública, mas na televisão
brasileira em geral.
Somos um Estado laico e a EBC, sendo uma empresa pública de
comunicação, deve se transformar não só em referência de
qualidade, mas também de cumprimento dos preceitos
constitucionais para os outros sistemas de “radiodifusão sonora
e de sons e imagens” previstos na Constituição.
Venício Lima. Professor Titular de Ciência Política e
Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de
Regulação das Comunicações – História, poder e direitos, Editora
Paulus, 2011.
|