Para impedir uma nova crise alimentar
Os países e regiões que enfrentam fome
precisam de maior margem de manobra para proteger a produção local de
alimentos, prevenir o dumping e estabilizar o abstgacimento. Parte desta
margem para definir políticas é hoje minada pelas regras da Organização
Mundial de Comércio. Os estoques de alimentos precisam ser vistos de
novo como ferramentas essenciais, tanto para enfrentar emergências
quanto para estabilizar os preços e o abastecimento, para os
agricultores e os consumidores. A concentração fundiária precisa ser
interrompida. O artigo é de Jim Harkness.
Jim Harkness - IATP (*)/CARTA MAIOR
Quando os preços globais dos alimentos
atingiram um pico, entre 2007 e 2008, 100 milhões de pessoas entraram no
contingente dos famintos, que ultrapassou pela primeira vez na História
a marca de 1 bilhão de seres humanos. Agora, apenas dois anos depois,
vivemos outra alta, e é provável que mais fome esteja à espreita.
A FAO, agência da ONU para Alimentos e Agricultura, acaba de publicar
seu índice de preços de alimentos, relativo a janeiro de 2011. No caso
de alguns produtos, ele chegou ao patamar mais alto (tanto em termos
nominais quanto deflacionados) desde que a agência passou a acompanhar a
variação das cotações, em 1990. Levantes populares relacionados a
alimentos já começaram a ocorrer na Argélia. Enquanto a História se
repete, e desenha-se a segunda grande crise de fome em dois anos, é
decisivo aprendermos a lição da primeira onda, e enfrentarmos suas
causas principais.
A segurança alimentar depende de tempo e mercados estáveis e previsíveis
e de acesso a recursos. Tudo isso foi abalado perigosamente nas duas
últimas décadas. Desde 1970, o aquecimento global causado pelo ser
humano provocou o aumento dos eventos climáticos extremos em todo o
mundo. Agricultores que costumavam enfrentar duas perdas de colheitas a
cada década agora sofrem inundações, secas ou grandes pragas a cada dois
ou três anos. Em 2010 e no início deste ano, alguns dos grandes
produtores mundiais de alimentos - Argentina, Austrália, China,
Paquistão e Rússia - viveram, todos, eventos climáticos que afetaram
fortemente as colheitas.
A segunda fonte de instabilidade é um mercado cada vez mais caótico. Em
nome do “livre” comércio, o governo dos Estados Unidos e o Banco Mundial
passaram as últimas três décadas forçando a abertura dos mercados dos
países pobres a importações baratas, que desorganizaram a produção. Em
cruel ironia, os países pobres também foram pressionados a cortar o
apoio a seus próprios agricultores e até a vender seus estoques de
emergência, sob a lógica de que seria mais eficaz simplesmente adquirir
comida no mercado internacional.
Em 2006, mais de dois terços das nações mais pobres dependiam de
importações de alimentos. Então, veio a onda de desregulação financeira
da década passada, que atraiu os especuladores para os mercados de
commodities e criou fundos de índices que atrelaram, como nunca antes,
os mercados de alimentos aos de petróleo e metais. Mas a “agregação”,
“alavancagem” e demais os “instrumentos inovadores” que deveriam reduzir
os riscos nestes mercados provocaram o efeito oposto. A consequência foi
um mercado global de alimentos altamente volátil, em que fatores não
relacionados com a produção e consumo reais de alimentos frequentemente
determinam os preços.
Este duplo golpe global, de instabilidade climática e financeira, não
atingiu a todos. A volatilidade é útil aos que atuam com muita força nos
mercados. Muitas empresas de agrobusiness estão registrando lucros
recordes agora - depois de já terem alcançado idêntico resultado durante
a última crise. Houve um pico de concentração de propriedade. Vastas
extensões de terras aráveis, nos países do Sul, têm sido compradas por
investidores estrangeiros e convertidas em plantações não-alimentares -
inclusive matérias-primas industriais e biocombustíveis.
Vale notar, também, que alguns países africanos não serão tão atingidos
desta vez. Eles optaram por estimular a produção local, ao invés de
confiar nos mercados globais. A maior parte dos agricultores pobres,
contudo, luta contra situações hostis. Não é de admirar que a fome tenha
se convertido numa nova norma.
Se de fato consideramos a desnutrição global algo inaceitável - e não
uma oportunidade de negócios - é preciso fazer grandes mudanças. Quase
todos no Banco Mundial, na ONU ou no G-20 reconhecem a necessidade de
apoiar os pequenos agricultores, especialmente mulheres, nos países que
enfrentam fome. Em termos globais, 70% da comida é produzida em imóveis
de menos de dois hectares, conduzidos em grande parte por mulheres.
A ajuda ao desenvolvimento, assim como as políticas governamentais dos
países do Sul, deveriam estar focadas em apoiar as conquistas de
produtividade destes agricultores, e sua capacidade de enfrentar as
crises. Ao invés de deixá-los impotentes diante das forças globais,
deveriam incorporar a sabedoria dos sistemas de produção tradicionais,
que, ao combinarem o melhor da ciência ecológica com o conhecimento
tradicional dos agricultores, encorajam práticas que reduzem o uso de
insumos caros, ampliam a produção e a renda dos trabalhadores. E a
produção para atender as necessidades locais deve ter prioridade em
relação às culturas de produtos exportáveis.
Há muito mais a fazer. Os países e regiões que enfrentam fome precisam
de maior margem de manobra para proteger a produção local de alimentos,
prevenir o dumping e estabilizar o abstgacimento. Parte desta margem
para definir políticas é hoje minada pelas regras da Organização Mundial
de Comércio.
Os estoques de alimentos precisam ser vistos de novo como ferramentas
essenciais, tanto para enfrentar emergências quanto para estabilizar os
preços e o abastecimento, para os agricultores e os consumidores. A
concentração fundiária precisa ser interrompida. Tornou-se ainda mais
importante apoiar a reforma agrária, que redistribuiu terra arável para
os pequenos produtores que desejam produzir alimentos.
Os governos precisam implementar regras rigorosas para reduzir as
operações financeiras especulativas com alimentos. Nos Estados Unidos, a
reforma financeira conhecida como Dodd-Frank foi um bom começo, mas os
lobistas de Wall Street estão agindo agressivamente para enfraquecê-la,
em sua tramitação pelo Congresso.
A desestabilização da oferta de alimentos ocorrida na última década pode
ser revertida. Mas isso só ocorrerá se aprendermos com o passado e
apoiarmos medidas inovadoras para ampliar a estabilidade e a segurança
dos agricultores, mercados e sistemas alimentares.
(*) Jim Harkness, professor de Sociologia do Desenvolvimento, é
presidente do
Instituto para Política Agrícola e de Comércio
(IATP, na sigla em inglês), um centro de estudos sediado nos EUA, e
voltado para o estudo de alternativas às políticas neoliberais.
Tradução: Antonio Martins (Outras
Palavras)
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