MÍDIA – Sensibilidade Por Gibran Lachowski E quando uma pessoa do outro lado da linha te
diz que ouviu o programa e te pede uma informação, você tenta ajudar,
mas não consegue? Parece que dá um vazio no peito, uma sensação de
inutilidade, incapacidade. Porém em seguida a sensatez volta à cena e te
aponta uma companheira para curtir o momento: a compreensão. A compreensão de que a sociedade funciona –
ou deveria – de modo conjugado, sistêmico, sendo que cada qual tem de
fazer a sua parte afim de que os resultados saiam a contento. O que vivenciei Em resumo, uma mulher, idosa pela voz que
ouvi, ligou após o programa de radiojornal e perguntou sobre o passe
livre em Rondonópolis. Tínhamos acabado de dar notícia a respeito. Ela
disse que pagava por dia R$ 4,40 de transporte coletivo para a filha ir
ao colégio e que precisava conseguir o benefício. Respondi-lhe de modo sintético que bastava
entregar os documentos necessários à prefeitura. E me propus a
repetir-lhe o número de telefone da Secretaria Municipal de Transporte.
Foi quando ela me respondeu que não estava nem com papel nem com caneta
à mão e que falava de um orelhão. Perguntei-lhe se tinha um telefone celular,
pois poderia entrar em contato em seguida. Ela falou que o esposo
possuía o aparelho e que chegaria em casa por volta do meio-dia.
Pedi-lhe o número. “Eu não me lembro de cabeça, meu filho”. Sem saber o que fazer, por fim disse-lhe que
procurasse depois o número da Secretaria de Transporte e entrasse em
contato para saber direitinho que documentos entregar. E ela me
respondeu: “Secretaria de Transporte? Não é a secretaria do colégio,
não?”. “Não. É a secretaria da prefeitura. A senhora
precisa ligar lá e pedir informação”, falei. “Ai, meu Deus. Eu pensei
que fosse a secretaria do colégio”, disse-me a mulher.
E segundos depois terminamos a conversa. A sensação Fiquei chateado por não ter resolvido o
problema da dona, que parecia tão fácil, a priori, e que, realmente, era
de importante natureza. Entretanto, no mesmo milinstante, tive outros
dois pensamentos. Primeiro: a prefeitura tem de se esforçar
mais em socializar as informações relativas à obtenção do passe livre.
Isso me deixou mais tranqüilo, pois assim reparti minha “culpa” com o
poder público. Contudo aí entra, por conseqüência, o papel
do radiojornal, de externar esse entendimento, seja por meio de
comentário ou entrevista com alguém da prefeitura, o que ainda não
fizemos (risos). Segundo pensamento no mesmo milinstante: a
situação pela qual eu acabava de passar me enriquecia, principalmente
porque eu fora tocado pela humanidade da voz daquela mulher e, ainda que
não tivesse conseguido ajudá-la, ela me havia dado condições de tentar
estender-lhe a mão. Longe de ser piegas, é muito importante que a
sensibilidade esteja próxima do fazer jornalístico\comunicativo. Digo
isso porque já presenciei muitas cenas em que jornalistas ignoraram
apelos (telefônicos ou ao vivo) da população, como se dar espaço ao povo
que procura informação ou que quer apenas comentar algo fosse perda de
tempo, procedimento menor na profissão. Não é menor, afirmo firmemente! E não se
trata de ser assistencialista, apesar de que o termo anda desgastado e
hoje em dia, após a importância reconhecida mundialmente do Bolsa
Família, carece-se pensar muito para não incorrer em arrogância ou
ultra-ideologização. Necessário é sentir Enxergar a mulher ao telefone como cidadã
corresponde a ser jornalista, ter noção de sua responsabilidade social,
de construção de uma sociedade mais justa, respeitosa, democrática e
irmã. Isso não afasta, de modo algum, a importância
das coberturas jornalísticas que exigem uma postura mais distanciada, a
saber, aquelas carregadas de documentos, dificuldades de todos os
tamanhos para a confirmação de dados e tudo o mais. Enfim, sensibilizar-se faz parte da profissão
de jornalista, estimula-nos a perceber pautas onde não brota nem
pedregulho e nos alimenta sonhos maravilhosos, destes que somos até
incapazes de pronunciar. * Gibran Lachowski é jornalista, professor
e coordenador do curso de Comunicação da Faculdade Cenecista de
Rondonópolis. E tem o
bloguedogibran.blogspot.com |