O silêncio como forma de censura
Nessa nova sociedade-rede, uma forma disfarçada de censura é o silêncio
da grande mídia em relação a determinados temas. Considerando que a
grande mídia ainda é a principal mediadora e construtora dos espaços
públicos, um tema deliberadamente omitido está sendo sonegado e excluído
desse espaço, vale dizer, da possibilidade de fazer parte do
conhecimento e do debate público.
Por Venício A. de Lima/Revista Fórum
Em debate recente cujo tema foi "Censura e liberdade de expressão: por
uma outra mídia", promovido pela Secretaria de Audiovisual do
Mininstério da Cultura e pelo programa de pós-graduação em Psicologia da
Universidade Federal Fluminense, realizado no Rio de Janeiro, tentei
argumentar que, contrariamente ao "eixo discursivo" dominante na grande
mídia, o Estado não é o único censor e, muitas vezes, nem sequer o mais
importante. Existem várias formas de censura e, por óbvio, diferentes
censores (ver, no Observatório, "A
privatização da censura").
Estamos nos referindo à censura da palavra, da expressão que é um
direito humano fundamental da pessoa, do indivíduo, do cidadão. Esta
censura é anterior à existência não só de Gutenberg – vale dizer, da
possibilidade de se imprimir – como é muito anterior à existência da
instituição que passou a ser conhecida como "imprensa" e hoje chamamos
de "mídia".
A "cultura do silêncio"
No Brasil, onde a "imprensa" tardia chegou somente no século 19,
lembrei-me de trecho conhecido do Padre Antonio Vieira que, em sermão
pronunciado na Bahia, ainda em 1640, afirmava:
"Bem sabem os que sabem a língua latina, que esta palavra – infans,
infante – quer dizer o que não fala. Neste estado estava o menino
Batista, quando a Senhora o visitou, e neste permaneceu o Brasil muitos
anos, que foi, a meu ver, a maior ocasião de seus males. Como o doente
não pode falar, toda a outra conjectura dificulta muito a medicina.
(...) O pior acidente que teve o Brasil em sua enfermidade foi o
tolher-se-lhe a fala: muitas vezes se quis queixar justamente, muitas
vezes quis pedir o remédio de seus males, mas sempre lhe afogou as
palavras na garganta, ou o respeito, ou a violência; e se alguma vez
chegou algum gemido aos ouvidos de quem o devera remediar, chegaram
também as vozes do poder, e venceram os clamores da razão".
Apoiado neste diagnóstico precoce de Vieira, o educador Paulo Freire, em
vários de seus escritos, fala da nossa herança colonial de "mutismo" e
mais tarde da "cultura do silêncio" dos oprimidos, impedidos de ter voz,
mergulhados na submissão pelo silêncio (cf. Venício A. de Lima;
Comunicação e Cultura: as idéias de Paulo Freire; Paz e Terra, 2ª.
ed., 1984).
Não seria essa uma forma histórica de censura na medida em que a
"cultura do silêncio" nega a boa parte da população sua liberdade
fundamental de palavra, de se expressar? E quem seria, neste caso, o
censor?
No Brasil colonial, certamente o Estado português e os muitos aliados
que se beneficiavam da opressão aos povos nativos e aos escravos
africanos. A própria sociedade era também "censora", na medida em que
convivia culturalmente com a exclusão de vários segmentos de qualquer
participação civil. Por exemplo, as mulheres.
Silêncio como censura
Nada disso é novidade, mas certamente ajudará, sobretudo aos jovens de
uma sociedade onde nascem novas formas interativas de comunicação – as
TICs – a compreender a verdadeira dimensão de conceitos como censura e
liberdade de expressão.
Nessa nova sociedade-rede, uma forma disfarçada de censura é o silêncio
da grande mídia em relação a determinados temas. Considerando que a
grande mídia ainda é a principal mediadora e construtora dos espaços
públicos, um tema deliberadamente omitido está sendo sonegado e excluído
desse espaço, vale dizer, da possibilidade de fazer parte do
conhecimento e do debate público.
Um exemplo recente dessa censura disfarçada foi o silêncio sobre as
manifestações populares que mobilizaram centenas de milhares de pessoas
por várias semanas em Madison, a capital do importante estado americano
de Wisconsin (ver
aqui
matéria do New York Times).
Ao mesmo tempo em que sociedades autoritárias explodem no Oriente Médio,
fruto de mobilizações populares – com ampla, mas seletiva, cobertura da
grande mídia ocidental –, trava-se na mais poderosa democracia do mundo
a primeira de uma série anunciada de batalhas entre sindicatos de
trabalhadores do serviço público e governos estaduais. Os próximos
estados serão Ohio, Michigan, Iowa e Indiana.
Está em jogo não só o poder de barganha desses sindicatos, como o valor
das aposentadorias e seus planos de saúde. Na verdade, a corda está
arrebentando do lado dos trabalhadores e eles estão reagindo. Não se
sabe até onde a resistência sindical conseguirá envolver e mobilizar
também outros setores da sociedade que sofrem as conseqüências da crise
econômica de 2008. E, menos ainda, quais conseqüências essas
mobilizações poderão produzir não só nos EUA como em outros países.
Você leitor(a), conhece a cobertura que essas manifestações mereceram na
grande mídia brasileira?
Censura x liberdade de
expressão x liberdade de imprensa
A discussão de temas como censura, liberdade de expressão e liberdade de
imprensa é sempre oportuna entre nós. O historiador Aloysio Castelo de
Carvalho no seu A Rede da Democracia (NitPress/Editora da UFF,
2010) – onde fica demonstrado o conluio dos jornais O Globo, O Jornal
e Jornal do Brasil, unidos para derrubar o governo
democrático de João Goulart, em 1964 – adverte:
"A liberdade de imprensa é um eixo discursivo dos jornais quando eles
querem se valorizar como único canal de expressão da opinião pública".
As novas gerações precisam conhecer a história da censura no Brasil e
incluir aí não só a censura exercida pelo Estado, mas outras formas de
censura: aquela que vem de nossa herança colonial de "cultura do
silêncio" e também a censura disfarçada exercida pelo silêncio
deliberado em relação a certos temas, pratica rotineira na grande mídia.
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