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Um momento propício para ouvir o clamor da Terra e da humanidade
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A compreensão cristã de um Deus amoroso é desafiada por catástrofes
naturais tais como as que ocorreram no
Japão.
Este é um momento propício para repensar a relação da humanidade com a
Terra.
A opinião é de Mary Colwell, jornalista e escritora britânica,
especializada em história natural e meio ambiente, consultora da
Conferência dos Bispos da Inglaterra e do País de Gales para
questões ambientais. O artigo foi publicado na revista The Tablet,
19-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Uma das primeiras áreas a serem varridas pelo tsunami no Japão
foi a diocese católica romana de Sendai, que serve a cerca de 11 mil
católicos. Ninguém sabe quantos estão no crescente número de mortos. A
90 milhas do epicentro do terremoto e a oeste de Sendai
encontra-se o local da aparição de Nossa Senhora de Akita, onde a
Virgem Maria apareceu a uma religiosa japonesa, a Irmã Agnes
Sasagawa. Em três aparições em 1973, ela disse ter previsto um
número tão grande de "calamidades" que iria acabar com grande parte da
humanidade. Essa é uma região bem acostumada a terremotos, que ocorrem a
cada 40 anos, mais ou menos, e por isso os alertas de eventos extremos
não são tão surpreendentes. As placas da Terra ainda não acabaram de se
deslocar, as correntes térmicas que conduzem o movimento ainda estão
agitadas, e, até o dia em que a Terra esfriar, a humanidade irá
experimentar terremotos, e alguns deles serão devastadores.
"Contemplar a beleza da
criação
é um estímulo para reconhecer o amor do Criador, aquele Amor que move o
sol e as outras estrelas", disse o Papa Bento XVI na sua Mensagem
para a Celebração do Dia Mundial da Paz, no dia 1º de janeiro de
2010. É difícil reconhecer esse amor vendo as imagens da televisão. Pelo
contrário, o que vemos é um planeta que absolutamente não leva a
humanidade em consideração.
Eu tenho participado de muitos encontros ambientais católicos em que o
tema baseia-se em responder ao chamado a sermos "zeladores da Criação".
A mensagem subjacente é de que a natureza deve ser gerida de forma a que
sejamos respeitosos e compartilhemos seus recursos com sabedoria. A
Terra é tratada como a vítima, e a humanidade, como os opressores
gananciosos que causaram os problemas e devem consertar as coisas.
Então, sem aviso, este belo, mas mal utilizado, planeta esmaga as nossas
cidades, destrói nossas usinas nucleares e traumatiza as pessoas em todo
o mundo. Milhares de pessoas são mortas, e ficamos confusos com relação
à natureza, a Deus e ao nosso papel na Terra.
Os psicólogos reconhecem isso como dissonância cognitiva, uma sensação
de tensão que nasce da manutenção de dois pontos de vista conflitantes
ao mesmo tempo. Os sentimentos desconfortáveis aumentam com a
importância que damos a essas visões conflitantes, e tentamos encontrar
formas para reduzir a ansiedade. Uma delas é descartar a ideia de que a
Terra é uma provedora vivificante que reflete o rosto de Deus, e, ao
contrário, é uma ameaça que deve ser superada. A "zeladoria" é
rejeitada, e o foco se torna totalmente centrado no homem.
A Igreja Ortodoxa Grega tem uma visão mais realista da
interligação entre natureza e humanidade. Ao invés de estarem no topo da
cadeia, os seres humanos são considerados como parte do
processo contínuo da Criação.
As pessoas não são zeladoras que gerenciam e organizam, mas sim
sacerdotes da Criação, cujo papel é santificar a natureza, e que estão
abertos ao mistério do processo criativo. Quando Jó clamou a Deus
em agonia, querendo saber o motivo do seu sofrimento, Deus o colocou em
seu lugar:
Onde estavas quando lancei os fundamentos da Terra? Fala, se estiveres
informado disso. Quem lhe tomou as medidas, já que o sabes? Quem sobre
ela estendeu o cordel? Sobre que repousam suas bases? Quem colocou nela
a pedra angular, sob os alegres concertos dos astros da manhã, sob as
aclamações de todos os filhos de Deus? (Jó 38, 4-7).
A Igreja tem um papel ímpar neste momento, por causa dos muitos
problemas ambientais difundidos que ameaçam provocar desastres no
futuro: mudanças climáticas, perda de habitat, sobrepesca, poluição, e
assim por diante. Todos esses problemas provocados pelo ser humano têm o
potencial de causar inundações, seca e fome.
Em julho de 2010, cientistas da Universidade Tohoku, em Sendai,
publicaram suas descobertas após o tsunami na Indonésia. Eles
estudaram os mangues que ainda estavam intactos ao redor das margens
costeiras e concluíram que os manguezais podem reduzir o impacto de uma
onda de tsunami de cinco metros de altura em até 80%, especialmente se a
vegetação for velha e estabelecida. Formações costeiras como salinas,
lodaçais e recifes de corais amortecem a força das ondas e reduzem
consideravelmente as enchentes. No entanto, as pessoas arrancam
constantemente a vegetação das áreas costeiras e constroem portos e
cidades à beira-mar. A costa leste do Japão é uma das regiões mais
densamente povoadas do mundo. Quem se pronunciou contra esse
desenvolvimento?
Este poderia ser um momento para retomar o contato com Deus e examinar o
papel da humanidade na Terra. As pessoas não podem controlar os
movimentos das placas tectônicas, mas podem, sim, reduzir os efeitos dos
desastres naturais e mudar seu curso para diminuir as ameaças no futuro.
A Igreja tem uma escolha: seguir o rastro das catástrofes e assumir o
papel de consoladora das vítimas – um papel valioso –, ou também
oferecer insights e inspiração para uma nova relação com a natureza.
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