Norte-americanos contrastam visões sobre agricultura em MT

 

* Por Keka Werneck, da Assessoria de Imprensa do Centro Burnier Fé e Justiça

 

Um grupo de 16 norte-americanos se reuniu domingo (20 de abril) com o Fórum Matogrossense de Desenvolvimento Sustentável (Formad) para saber qual a visão ambientalista da dinâmica agrícola em Mato Grosso, especialmente do plantio de soja em grande escala e os impactos dessa prática sobre a vida das pessoas, dos índios e das populações tradicionais.

Cientistas, pesquisadores ligados a universidades, servidores públicos, produtores rurais e ativistas de organizações não-governamentais vieram de diversas regiões dos Estados Unidos.

A proposta da visita, como explicaram os próprios visitantes, atende a interesses de ordem econômica, ambiental e política, porém eles garantiram que não têm intenção comercial.

“Viemos observar as contradições entre a visão econômica e ambiental”, disse Julia, uma ativista, com a ajuda da intérprete.

Representaram o Formad o Centro Burnier Fé e Justiça (CBFJ) e a operação Amazônia Nativa (Opan).

A reunião começou com uma rápida apresentação de todos e todas presentes.

Em seguida, Adriana Werneck e Lola Campos, da Opan, explicaram geograficamente e politicamente a disposição de Mato Grosso no Brasil e os conflitos locais.

Adriana Werneck destacou os impactos da extração ilegal da madeira, da agricultura de larga escala, alimentada por venenos usados desmesuradamente, e das grandes obras, como hidrelétricas.

Lola Campos explicou que a Opan é a ONG indigenista mais antiga do Brasil, tem 43 anos e surgiu no período da Ditadura Militar, com o propósito de lutar pela democracia e pelos Direitos Humanos, focando nas questões indígenas.

Conforme Lola, o Brasil é o país do mundo onde há maior diversidade linguística se os mais de 130 povos indígenas forem levados em conta. “Sim, porque no Brasil, muitas vezes parece que os índios não existem”.

Em Mato Grosso, vivem 35 povos indígenas em reservas, segundo Lola, a cada dia mais pressionadas pelo desmatamento no entorno e por outros interesses econômicos, como mineração por exemplo. Ela apontou no mapa onde fica o Parque Nacional do Xingu e destacou a preocupação com a Usina Belo Monte. “É uma ameaça clara aos povos do Xingu”.

“Temos claro que o projeto político de desenvolvimento do Governo Federal para Mato Grosso é ser um Estado do Agronegócio fundamentalmente e nossa luta é que se reconheça a diversidade que há aqui para não passarem por cima arrasando tudo”, disse Lola.

Ainda conforme ela, o Formad é uma reação conjunta de movimentos sociais de diversas naturezas, unificados pelas questões socioambientais preocupantes. “Mas isso é um desafio”, reconheceu.

Inácio Werner expôs as impressões do Centro Burnier Fé e Justiça com foco na agricultura familiar, conceituada e regulamentada pela lei federal 11.326, de 2006. Segundo Inácio, a produção familiar de alimentos está acuada pelas monoculturas, especialmente se soja, que concentra terras e não resolve o problema da fome. Ele também chamou a atenção para o plantio da cana de açúcar que em Mato Grosso só não expandiu mais, para atender ao apelo dos biocombustíveis, porque aqui é proibido plantar cana no Pantanal e na Amazônia.

Werner também chamou a atenção para a persistência do trabalho escravo, mantido essencialmente em usinas e grandes propriedades rurais de Mato Grosso.

E lembrou a especulação imobiliária de terras em Mato Grosso, atraindo estrangeiros. Em relação ao interesse de norte-americanos, a região do Araguaia tem sido a preferida. Mas também a Amazônia.

Os convidados demonstraram estar muito chocados com o uso excessivo de agrotóxicos em Mato Grosso, campeão nacional nessa prática, já que boa parte deles planta alimento orgânico. E ficaram ainda mais impressionados com situação em Lucas do Rio Verde. Se no Brasil é consumido por ano 5 litros de veneno por pessoa, o que já é excessivo, em Mato Grosso, sobe para 33 litros e em Lucas para 114 litros. “Além da contaminação do solo e do subsolo e do adoecimento das pessoas agora pesquisas já indicam a contaminação de 100% do leite materno em Lucas”, destacou Inácio Werner.

Werner reforçou a gravidade dessa situação lembrando que pesticidas já proibidos nos Estados Unidos e na Europa há muito tempo só serão proibidos no Brasil em 2015.

O uso de venenos na agricultura também ocorre, em menor escala, nos Estados Unidos. Testes apontam que o uso está 57% acima do que seria aceito como normal.

A viagem do grupo de norte-americanos foi organizada pelo Instituto da Agricultura e do Comércio dos EUA. Muitos deles estão envolvidos com a produção e políticas públicas voltadas para o etanol e agrocombustíveis. Daí o interesse pelo Brasil, especialmente Mato Grosso.




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