ENTREVISTA
‘Acabou o clube do Bolinha e da Luluzinha’, diz Gloria María
Qual é a luta central das mulheres contemporâneas?
Um
dos aspectos é o enfrentamento à violência doméstica, mas tem também uma
outra questão importante que é a geração de renda, até porque se a
mulher não tem renda dificilmente ela consegue fugir de situações
violentas, porque depende do parceiro para sobreviver. Então, uma coisa
está relacionada à outra, está tudo engendrado. E, quando você observa
as mulheres agredidas que dão entrada na Casa de Amparo, por exemplo, a
gente verifica o ânimo das mulheres para diversas lutas. As mulheres se
preocupam muito com o cuidado da vida, segurança, meio ambiente, ela
consegue ver melhor que a terra é de todos.
Mas não é toda mulher que tem essa visão.
Com certeza não, mas quando a gente as ajuda a compreender que a tarefa
delas é fundamental, essa visão amplia. Quando começam a se perceber melhor já querem
estudar e disputar um espaço de participação. Eu fico feliz quando vejo
essa tomada de consciência.
Uma data para marcar o dia da mulher é algo importante?
É
simbólico, mas, como toda data, está mercantilizada. Compra-se um
presente para a mulher ou flores, um cartão...e daí os anúncios de motel
para comemorar o dia já fazem a gente virar logo logo objeto novamente.
Por isso que nós, do Fórum de Articulações de Mulheres de Mato Grosso,
decidimos fazer formação política esse mês, porque isso é que é
transformador.
A
luta das mulheres é contra os homens?
Não tem nada a ver isso. Lutamos pela igualdade de condições e não somos
iguais. Não queremos ser superiores e nem tampouco ser tratadas como
inferiores. O papel do homem é estar discutindo com a gente como podemos
construir, juntos, um novo modelo de sociedade, que não privilegie nem
homens nem mulheres, mas ambos.
Os
homens, porém, têm resistência para entrar nessa luta, mesmo os
militantes. Seria porque se sentem como se estivessem perdendo
hegemonia?
Com certeza, mas também há muitos homens solidários. Tem até uma
campanha nacional chamada Laço Branco – Homens pelo fim da violência
contra a mulher (veja aqui).
O
que a mulher tem a ver com questão ambiental?
Ela tem um papel protagonista e é mais flexível para adotar práticas
ambientalmente sustentáveis. Os movimentos de mulheres camponesas estão
discutindo fortemente os prejuízos dos agrotóxicos, falando sobre as
águas, a terra como nossa casa, como nos relacionarmos com os recursos
naturais. A mulher é mais aberta ao novo, ao que precisa ser mexido. A
gente avalia a vida como está. As mulheres se dispõem a isso e sabem que
ainda podem melhorar, se permitem filosofar, discutir, se angustiar. Os
homens, coitados, não podem falar das suas fragilidades, são cobrados
pelo sustento do lar, mas não deve ser assim. Os problemas, tanto
ambientais, quanto os de casa, e outros, devem ser pensados junto,
partilhados entre mulheres e homens.
Como o movimento de mulheres vê a forma como a mídia usa a imagem
feminina?
A
mídia está em discussão em todos os movimentos sociais. No caso do
movimento de mulheres, o que criticamos é a venda da mulher como objeto.
Vai vender um carro, a mulher vai junto? Vai vender cerveja, a mulher
vai junto? Isso é muito ruim, atenta contra os direitos de cidadã da
mulher, de ser humano. E é uma visão estreita da complexidade feminina.
E
no trabalho, continuamos a receber salários menores do que os homens?
Sim, em tarefas iguais. E não se trata de capacidade. Me parece que
ainda reina uma visão de que o salário da mulher é para ajudar em casa,
complementar o orçamento doméstico. No entanto, milhares de casas são
sustentadas por um contingente enorme de mulheres, e, em muitos casos,
sozinhas.
Por isso é tão importante pensar em renda para as mulheres?
Muito importante sim, para que ela seja mulher, mãe, trabalhadora, possa
atuar em seu sindicato, no movimento de trabalhadores e contra assédio
moral e sexual, práticas que atingem essencialmente mulheres.
No
campo e na cidade, a realidade das mulheres é a mesma?
No
campo, a discriminação ainda é maior. Elas trabalham junto com o marido,
mas ainda administram muito pouco. Temos um relato de uma mulher que chamou umas
amigas para uma reunião e o marido chegou se indispondo porque ela fez
frangos para comerem sem falar com ele. Frangos que ela trata. Elas
trabalham tanto quanto eles, mas ter direito a decidir, para muitas,
ainda é um desafio. E muitas delas não se
percebem como trabalhadoras rurais. Assim como as donas de casa. Você
pergunta a elas: você trabalha? Elas respondem: não, eu fico em casa.
Daí você pergunta: mas você fica em casa à toa? E elas respondem: não!
Eu arrumo, lavo, cozinho, faço tudo. Uma das grandes injustiças e a dona
de casa não ter aposentadoria, depois de uma vida dedicada ao lar. A
casa é um espaço de trabalho secundarizado, justamente por causa do
machismo. Fica subentendido que o espaço público é para homens e os
espaços particulares para as mulheres.
E
na política eleitoral, partidária?
Pouca participação das mulheres ainda, apesar das cotas. Os partidos
ainda não valorizam a participação da mulher, muitas vezes convidam
mulheres só para preencher as cotas (Veja mais sobre isso
aqui).
Quem toma as decisões ainda são os homens.
E
como tudo isso que você falou desemboca nos Direitos Humanos, pelos
quais você também luta?
O
primeiro direito é o direito a ter direitos. A mulher também tem direito
a não sofrer violência, em alguns casos até a morte, tem direito a viver
em ambiental saudável, direito à vida digna. Se os Direitos Humanos são
desrespeitados, com relação à mulher mais ainda, porque vivemos ainda em
uma sociedade patriarcal, machista, racista. Portanto os direitos da
mulher são feridos, das mulheres negras duplamente e imagine então das
índias, que quase não têm voz. Então temos que garantir esses direitos à
sexualidade, direitos sexuais, direitos reprodutivos, direito de estudar
e se formar, etc. E estamos chamando os homens para esse avanço. Acabou
o clube do Bolinha e da Luluzinha. Temos que construir juntos uma
sociedade igualitária. |