“Virá que eu vi: Contornos de um projeto em
construção”
Fonte: IHU
Link:
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=41319
"O 'bem viver' é um conceito de vida não só contrário aos parâmetros
do crescimento econômico, mas também ao individualismo, à relação
calculista de custo-benefício, à relação utilitarista entre os seres
humanos e natureza, contrário à mercantilização de todas as esferas da
vida e à violência culturalmente não mais controlada". O comentário é do
teólogo
Paulo Suess, assessor do Conselho indigenista missionário –
Cimi, em artigo no sítio do Cimi,
11-03-2011.
Eis o artigo.
“E aquilo
que nesse momento se revelará aos povos
surpreenderá a todos não por ser exótico,
mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
quando terá sido o óbvio”.
(Caetano Veloso)
Sumak kawsay como projeto
No imaginário da humanidade, nos rostos sofridos dos pobres e nos muros
dos sistemas existem fendas, às vezes até rupturas, pelas quais passam
raios de luz e instantes de felicidade. São espaços em que se articulam
utopias com esperanças de um mundo com vida plena, sem fome e desprezo.
De algumas dessas rachaduras sistêmicas irromperam as discussões
constitucionais na Bolívia e no Equador em torno do paradigma planetário
de origem quéchua: o sumak kawsay, que significa “bem viver”.
Neste momento histórico, em que assistimos o esgotamento de um ciclo
civilizatório, as discussões sobre a real possibilidade do bem viver
prosseguem também em outros países.
O sumak kawsay, como horizonte utópico, é um paradigma crítico
e autocrítico em construção que visa a uma plataforma pluricultural e
multisetorial. Ele aponta para o êxodo de uma situação escravizante e
propõe um caminho transformador. Nem todos querem um novo caminho que
será árduo. Uns privilegiam a situação escravizante e outros se acomodam
à escravidão sendo reconciliados com a precarização da vida por medidas
de mitigação. Enquanto os programas de erradicação da pobreza de
governos progressistas são financiados pela mais valia da exploração do
trabalho e pela exportação de recursos naturais não renováveis, estes
programas perpetuam a miséria que pretendem eliminar.
O paradigma do bem viver com seu horizonte utópico não é um receituário
nem pode ser a descrição de um programa de governo em seus detalhes.
Sumak kawsay é a visão de outro mundo possível. Nesse mundo, a
humanidade faz parte da natureza, mas não se dilui nela. Pelas
conquistas culturais, a humanidade não se emancipou da natureza, mas
acrescentou elementos essenciais a essa natureza, como liberdade e
igualdade, dignidade e autonomia, solidariedade e esperança, valores e
sentido.
Acrescentou, porém, na história de sua evolução cultural também uma
pulsão destrutiva face à natureza e à própria espécie humana. Essa
pulsão ultrapassa a mera destrutividade natural, porque, ainda como
barbárie, é cultural. Portanto, os acréscimos culturais da humanidade
podem ser utilizados para progresso e dominação, para civilização e
barbárie. Com esse saber crucial, o paradigma planetário do sumak
kawsay procura traçar pistas de um novo equilíbrio, que poderíamos
chamar de reconciliação entre humanidade e natureza, ou aliança das
vítimas da barbárie humana.
Por sua natureza reparadora e seu horizonte utópico, a proposta do sumak
kawsay não foi impulsionado por superpotências do mundo globalizado.
Irrompeu da memória histórica e cultural de países pequenos e setores
explorados, da Bolívia e do Equador, países e setores marcadamente
indígenas, considerados periféricos no que se refere à economia e ao
prestígio internacionais. Na história humana, o radicalmente novo,
revolucionário e messiânico é sempre gestado na periferia e nas
fronteiras dos impérios.
Discernimento, transformação, limite
Quais são os eixos do horizonte utópico incorporados ao paradigma
constitutivo e fundacional do sumak kawsay que procura não simplesmente
reproduzir uma tradição quéchua milenar, mas expor essa tradição às
potencialidades do mundo moderno?
O bem viver deve ser visto como aprendizado histórico, como alternativa
para o desenvolvimento humano e econômico de hoje e como nova síntese
consensual entre o saber tradicional, a história republicana, a
sociedade democrática e o sonho de uma vida que permita amalgamar
finitude e dignidade, materialidade e espiritualidade. O horizonte
utópico do sumak kawsay cumpre duas tarefas, uma tarefa crítica
– o discernimento voltado ao passado e esclarecido pelas potencialidades
patológicas e destrutivas que bloqueiam o futuro da humanidade; e uma
tarefa transformadora, que se inspira nas potencialidades produtivas e
humanizadoras de hoje. A primeira, a crítica, é de advertência; a
segunda, a transformadora, vai descrever a beleza de um novo amanhecer e
a moldura de um quadro do qual consegue mostrar apenas as primeiras
pinceladas.
Onde o sumak kawsay do ano 2012 ultrapassa esse limite das
“primeiras pinceladas”, onde começa a fornecer um quadro do futuro já
desenhado em muitos detalhes além de princípios e valores, aí vai
decepcionar, não somente filhos e netos, mas também os contemporâneos,
porque terá incorporado criatividade e esperança num quadro previsível,
mensurável e pragmático. A construção do bem viver para todos não é um
processo linear planejado em escritórios. Ele “surpreenderá a todos não
por ser exótico, mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando
terá sido o óbvio”.
Crítica sucinta do modelo em curso
O sumak kawsay faz uma crítica radical ao modelo de
desenvolvimento baseado no crescimento, na aceleração da produção, na
acumulação dos lucros e na exportação de recursos naturais. Comunidades
indígenas, cujos territórios são atravessados pelas novas fronteiras
demarcadas por empresas mineradoras e pelo agronegócio (soja, cana de
açúcar), sofrem, hoje, o impacto mortal do extrativismo.
O “bem viver” não deve ser confundido com bem-estar na expectativa de
crescimento e consumo ilimitados, mas antes como freio de emergência e
busca de um novo modelo pós-extrativista. Por criar dependência no setor
de energia, de minérios, de pesca e agropecuária, o extrativismo impede
a autonomia dos Estados e a liberdade das nações. O extrativismo em
qualquer de suas expressões é incompatível com o paradigma do bem viver.
No campo energético, quem pensa o futuro da humanidade precisa
substituir o gasto de fontes não renováveis, estigmatizar a deterioração
ambiental e pensar na construção de uma economia pós-petroleira.
A destruição ambiental está baseada na luta dos humanos contra a
natureza. Os povos indígenas, que desde a colonização têm sido
considerados “los naturales”, foram incorporados nessa destruição da
natureza.
O “bem viver” é um conceito de vida não só contrário aos parâmetros do
crescimento econômico, mas também ao individualismo, à relação
calculista de custo-benefício, à relação utilitarista entre os seres
humanos e natureza, contrário à mercantilização de todas as esferas da
vida e à violência culturalmente não mais controlada.
Virá que eu vi
A natureza não é adversária, mas irmã e aliada. O Direito
Natural visa não só à dignidade humana, mas também à dignidade da
natureza como aliada do “bem viver” da humanidade. O sumak kawsay
reconhece a natureza como sujeito de direitos.
Os seres humanos fazem parte da natureza. Portanto, o “bem viver” supera
as dicotomias cartesianas entre res cogitans e res extensa, entre
natureza e humanidade, e entrelaça o tempo linear com o tempo circular,
o mito com a história e a objetividade da produção com a subjetividade
da “mãe terra”, que é matriz, matrix e mater. Sumak kawsay ou
“bem viver” é possível quando as pessoas vivem em comunidade entre si e
com a natureza.
Ao considerar a natureza como sujeito e não como objeto, ao tratá-la
como aliada e não como serva, o sumak kawsay propõe a
incorporação da natureza à história, não como força produtiva, mas como
relação recíproca entre aliados que são seres sociais e naturais ao
mesmo tempo.
No “bem viver”, o valor de uso da mercadoria está acima do valor de
troca, fraudado pela mais-valia, expropriada pelo capital. A
revalorização da pessoa humana e da natureza faz parte daquela sabedoria
divina que a humanidade recebeu por muitos caminhos.
Reino, resistência, rebeldia
A construção do sumak kawsay se faz por meio da prática de uma
cidadania radical, que zela pelas condições materiais e espirituais dos
cidadãos. A pluriculturalidade desse projeto vai além da cultura quéchua
e aponta para as múltiplas contribuições de uma aliança ampla pela vida.
O cristianismo como projeto de vida tem uma contribuição importante, mas
não hegemônica, a dar para o bem viver. Interpreta a sabedoria presente
nos diferentes caminhos de resistência e rebeldia do Reino nas
rachaduras do sistema opressor e da sociedade alienada. Essa sabedoria
atravessa a história e faz, sempre de novo, nascer a vida e conviver a
humanidade. A sabedoria do Reino, como sabedoria do bem conviver de
todos, exige o despojamento que desestabiliza o sistema pelo desapego
consentido de privilégios da sociedade de classe. O desapego, como
exercício de se livrar do desnecessário para que todos possam usufruir o
necessário, ultrapassa a esfera do privado e do individual. O
desprendimento, em sua forma individual, pode ser compreendido como
conversão e ascese, em sua forma comunitária ou sociopolítica, como
ruptura e solidariedade.
Os horizontes utópicos do Reino e do sumak kawsay podem somar
as suas energias críticas e criativas diante daquilo que ainda não é. Os
novos espaços de bem viver e de conviver não serão estruturados pela
prosperidade do mais e do melhor, mas por um horizonte de felicidade e
dignidade, de sentido e esperança.
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