Da Líbia para a América Latina

 

* Por Gibran Lachowski

 

Assunto no noticiário há vários dias, as turbulências envolvendo o governo de Gaddafi, na Líbia, devem estimular uma mirada além. Longe de negar os problemas até mesmo de sangue, mas o caso líbio, que veio após o egípcio, que ocorreu depois do tunisiano, não pode ser motivo para atirar pedras contra Cuba, Venezuela, Bolívia ou outro país da América Latina.

No entanto, vez por outra, jornalista ou entrevistado se saem com coisas do tipo: “Gaddafi e Chávez comungam de pensamentos parecidos”; “Cuba também é uma ditadura”. E por aí vai.

Como se não houvesse diferença entre os países mencionados e, assim, numa sentença só fosse possível eliminar diferenças de processos históricos e culturais.

Sabemos nós, aliás, que na Venezuela há possibilidade de realização de referendo durante o mandato do presidente em exercício, cujo resultado pode resultar na saída antecipada ou manutenção do mesmo. Isso ocorreu com Chávez, e ele permaneceu.

Tal dispositivo para fins eleitorais não existe na maioria das democracias do mundo, entre elas a do Brasil e a dos Estados Unidos.

Falar de Cuba sem dar o devido peso ao boicote econômico imposto pelo governo estadunidense há décadas é, no mínimo, ignorar o óbvio.

No entanto, associações do tipo são mencionadas em programas televisivos de debates e entrevistas. Algumas vezes há até insinuações nos mais sisudos, em que quem apresenta só apresenta, não comenta.

Sabemos, também, que considerável parcela do noticiário internacional é alimentado por meia dúzia de agências, entre elas, a Reuters (francesa) e a BBC (inglesa). Não há em meio ao conglomerado midiático unidades latino-americanas, africanas e do Oriente Médio (excetuando-se a Al Jazeera) com semelhante poder de fogo, pelo menos ainda.

Por isso é necessário avaliar cada recente revolta popular como algo único, que tem suas nuances e implicações. Pois ir a reboque do noticiário, sem fazer leitura crítica, pode significar reproduzir um discurso intervencionista, belicista e, mais à frente, resgatar o infeliz “sentimento de vira-lata” que por muito tempo campeou a América Latina.

Daí veremo-nos diante, novamente, da ideia de que não damos conta de nos cuidar, de que precisamos de G8 a nos dizer o que fazer, de que nossas democracias populares são, na verdade, coronelismos disfarçados e mais um monte de preciosidades estereotipadas.

Perante a situação, nada melhor do que equiparar noticiários, selecionar melhor as informações, questionar quem repassa os dados (ainda que diante do jornal, numa conversa de mão única), estimular discussão com compadres e comadres... Assim a gente macera o assunto e extrai o sumo.   

     

* Gibran Lachowski é jornalista, professor e coordenador do curso de Comunicação da Faculdade Cenecista de Rondonópolis. E tem o bloguedogibran.blogspot.com    

 

 

 







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