Saúde Popular, Ética e Espiritualidade
Por João Inácio Wenzel* Contam os anais da história que no antigo oriente
havia médicos contratados para cuidar da saúde da família. E quando
alguém da família ficava doente, o médico deixava de receber salário,
porque não estava fazendo bem o seu trabalho. Quão distante ficamos desta visão holística da
saúde em nossos tempos modernos. A saúde não é mais vista em sua
integridade e integralidade. Saúde é vista como ausência de doenças. A
ênfase não está mais no cuidado da vida, das pessoas e do que nos
envolve, mas em tratar doenças. Saúde virou mercadoria que se garante
com planos de saúde. Na impossibilidade de pagar estes, se recorre ao
SUS. A saúde está compartimentada em mil e uma
especialidades. Para cada doença um/a especialista. Cada um/a sabe muito
bem cuidar de determinadas doenças ou órgãos. Mas será possível tratar
uma doença sem encarar as suas causas e a complexidade do jogo da vida e
tudo aquilo que a envolve? Felizmente os impulsos pela vida e os apelos em
defesa e promoção da vida vem resistindo e ganhando terreno a cada dia,
quer seja pela recuperação do conhecimento de práticas de medicina
popular de domínio comum, como a fitoterapia e a geoterapia, bem como a
valorização de novas práticas populares como a utilização da homeopatia
e a introdução de ciências orientais, como a acupuntura. Tal resistência
também se acontece no embate político, na compreensão do conceito de
saúde e com a contribuição da bioética. A Organização Mundial da Saúde
assume a seguinte conceituação: “Saúde é um estado de completo bem-estar
físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença”. A diferença
é enorme. Há uma preocupação não simplesmente com a doença física, mas
também com as suas causas e o seu contexto social. Mas há um limite: O
que se entende mesmo por “bem estar”? Poder aquisitivo, qualidade de
vida, frequentar o shopping? Pode-se estar bem quando as pessoas a nossa
volta estão mal? Fadigadas, estressadas, sempre correndo atrás de coisas
e mais coisas, com medo de ser assaltada/o, violentada/o?... A concepção dialética da saúde e doença do médico
panamenho Dr. José Renan Esquivel, supera a visão parcelar e fragmentada
do Corpo Humano, como vem apresentado no documento base da Associação
Brasileira de Homeopatia Popular - ABHP: “Partimos do fato que a
célula mais sã é a célula com capacidade de defender-se dos vírus,
tóxicos, bactérias e contra tudo que a agride, da mesma forma, o homem
saudável deve organizar-se contra tudo o que o agride, vírus, bactérias,
tóxicos, e até mesmo contra o próprio homem...” “Para nós, o conceito de saúde atinge desde a
menor célula do corpo até a grande organização da sociedade. Ora, se
Saúde é o ‘resultado das condições de organização de uma determinada
sociedade’, na sociedade enferma em que vivemos - saúde não é bem-estar,
Saúde é Luta” “Quando uma célula é incapaz de dar e receber, e
de estabelecer contínuas trocas com o meio no qual vive, ela se
deteriora. Se uma pessoa humana se fecha no seu mundo, sem distribuir,
sem intercambiar, sem se relacionar, estará a caminho da loucura e da
autodestruição...” Ao lado deste conceito que relaciona a saúde da
pessoa com a saúde da sociedade e do planeta, ganha força outro
paradigma que vem das tradições milenares dos povos indígenas da América
Latina: o princípio do Bem-Viver e do Viver bem[1],
incluídos nas assembleias nas Constituições do Equador e da
Bolívia em 2008 e 2009, e que pode ser traduzido como “vida em
plenitude”. “Quando se fala de
vida em plenitude, está se fazendo uma referência a viver em harmonia
entre o material e o espiritual, consigo mesmo e com a Mãe Terra. Em
última instância, saber conviver com tudo o que nos rodeia, com a
comunidade”, afirma
Katu Arkonada (Revista IHU Online 340). Neste conceito,
o que importa não é ter a melhor casa, carro do ano, acesso aos últimos
lançamentos, conforto, “qualidade de vida” como ter mais coisas, mas a
capacidade de criar relações humanas de qualidade, geradoras de
humanidades. Portanto, não dá para falar em saúde, em cuidar da própria
saúde sem cuidar da saúde dos outros e da saúde do planeta. Na Bíblia Hebraica a palavra que mais se aproxima
deste paradigma de Bem-Viver é a palavra Shalom, geralmente traduzida
por paz. Perguntar alguém como vai - como está o teu shalom – significa
perguntar algo que tem a ver com a sua condição existencial, abrangente
e integral, que inclui a saúde. Jesus assumiu este shalom como missão
sua: “Eu vim para que todos tenham vida plena” (Jo 10,10). As pessoas
percebiam nele uma força dinâmica (dynamis) que cura e liberta. Uma
força curadora que pode ser ativada pela fé. Ele mesmo dizia à pessoa
restabelecida: “Tua fé te salvou”. São pessoas populares que se põem em
movimento para buscar o toque curador, por vezes intermediado por
pessoas da comunidade. Justamente as pessoas excluídas pelo convívio
salutar da comunidade, com os leprosos e as mulheres com fluxos de
sangue, eram as que recebiam mais cuidados e com quem expressava mais
afeto e misericórdia. Dizia-lhes, como traduz muito bem André Churaquy:
“Em marcha os pobres em espírito..., em marcha os que choram...” Para
Jesus, eles não são “pacientes” objetos de cura, e sim sujeitos do
processo que interagem com o terapeuta. Houve um caso em que uma mulher
conseguiu tocar suas vestes por detrás, sem ninguém notar, e ela
sentiu-se curada. Jesus também sentiu uma força dinâmica sair dele e
quis saber quem a tocou. Quando ela se apresenta e conta tudo o que
aconteceu em sua vida, Jesus a chama de Filha: “minha filha, a tua fé te
salvou; vai em paz e estejas curada desse teu mal” (Mc 5,34). Jesus não
queria apenas sua cura física, mas quis também a sua cura sociocultural.
Quis devolvê-la à comunidade como exemplo de fé e de lutadora de
dignidade. O que Jesus fez não foi declinar um código moral,
mas estabelecer novas relações com as pessoas que as restabeleciam por
inteiro, beneficiando-as em sua saúde corporal, psíquica, social,
cultural, política e religiosa. É assim que vive e expressa a justiça
divina, ou como diríamos hoje, sua ética terapêutica. Hoje esta reflexão é avivada pela discussão dos
princípios éticos, especialmente a bioética. Há certo consenso entre
princípios como a beneficência, a autonomia e a justiça. O primeiro vem
do pai da medicina ocidental, Hipócrates de Cós (460-377 aC), que disse
que a finalidade da medicina é
“aliviar o sofrimento do doente, diminuir a violência das suas
doenças...” (Ueti, 2009, p. 16). Esse princípio milenar da beneficência é
complementado pelo segundo, a autonomia[2].
O médico não mais o único sujeito que faz o diagnóstico e determina
sozinho o tipo de tratamento que o “paciente” – objeto - deve sofrer,
mas ambos, médico e pessoa adoecida são sujeitos autônomos que
estabelecem uma relação de parceria e amadurecem juntos as decisões e as
escolhas cabíveis, respeitando os direitos de cada um. O terceiro princípio que ajuda a humanizar as
relações é o da justiça. Saúde é para todos e não somente para quem tem
condições de pagar planos de saúde. Há, porém, um quarto princípio particularmente
significativo para nós latino-americanos: o princípio da alteridade, o
respeito à diversidade de gênero, de etnia, cor, sexualidade, de
ciclista e pedestre... Pensar e agir a partir da vida dos pobres e
excluídos e da situação de violência social que as pessoas estão
submetidas é a única forma de não excluir ninguém. Princípio que também
é estendido para o respeito à diversidade dos seres vivos e o respeito
ao planeta terra. Todas as espécies têm direito à vida. Por último, um princípio que é caro aos cristãos: a
sacralidade da vida humana, que vem a concepção de sermos “criados a
imagem e semelhança de Deus”, assumidos pelo “Verbo que se faz carne e
habitou no meio de nós”. Não há mais espaço para o sagrado separado da
vida. No momento em que Jesus entrega o seu Espírito, “o véu do templo”
que separava o santo dos santos, “se rasgou do alto a baixo”. Agora
sagrada é a vida. Há um fato narrado por Marcos que representa bem
como Jesus aplica este princípio ético na sua comunidade em Cafarnaum
(Mc 3,1-6). Estava em meio a Assembleia um homem da mão paralisada.
Jesus o chama para o meio, justamente onde se costumava ler e explicar a
sagrada escritura. Depois de fazer a pergunta retórica se é permitido,
no sábado, salvar a vida ou matar, pede que ele estenda a mão. Desta
forma, Jesus colocou a Bíblia e o doente no mesmo patamar e sacralizou a
vida humana. Uma imagem que nos vem do hinduísmo, trazida a nós
pelo jesuíta indiano Antony de Mello, pode nos ajudar a compreender a
sacralidade da vida e de toda a criação. A terra é sagrada (Ex 3,5), a
água é a sagrada (Jo 4,14), o ar é sagrado (1 Rs 19,12), o fogo é
sagrado (At 2, 3). Diz a tradição hindu que “Deus dança a criação. Ele é
o bailarino e a criação a dança. A dança é diferente do bailarino, e, no
entanto, não pode viver sem ele. No momento que o dançarino para, a
dança deixa de existir...” Não é Deus que precisa de nós, somos nós que
precisamos dele, para seguir sendo a dança que cuida da vida, das
pessoas, de si mesmo, da mãe terra...
Bibliografia:
ABHP,
Documento Base. Homeopatia Popular e Solidariedade Planetária. Uma nova
Saúde é Possível. Cuiabá, 2007.
PASSOS, L.A.
(Org). O calor que nos une cura nossos corações. (Série Palavra na Vida
274). CEBI, 2010.
UETI, Paulo
(Org.). A vida é o que interessa. Bíblia, Saúde e outros ingredientes
(Saúde e Bíblia 1). CEBI, 2009.
UETI, Paulo
(Org.). A terapêutica de Jesus. Corpo, poder e fé. (Saúde e Bíblia 2).
CEBI, 2010. * Padre jesuíta, coordenador do Centro Burnier e
professor no SEDAC.
[1]
Sumak
Kawsay (quéchua equatoriano), Suma qamaña (aimará boliviano) ou
Teko Porã (guarani)
[2]
Sigo
aqui o instigante artigo de José Antônio Ferreira – A Bíblia e o
doente estão no mesmo nível: um diálogo com as ciências da saúde
– em CEBI: Saúde e Bíblia 1, 2009. |