Mulheres do campo fazem jornada contra uso de agrotóxicos em MT
Claudinéia da Silva, 26 anos, mora com os dois filhos, de 5 e 7 anos, no
Assentamento Antônio Conselheiro, no município de Tangará da Serra, a
240 quilômetros de Cuiabá.
“Nunca tinha ouvido falar com tanta clareza sobre os prejuízos que
venenos agrícolas causam ao Meio Ambiente e à nossa saúde, como na
palestra do professor
Vanderlei Pignati”, diz Claudinéia.
Pignati, que é professor da Faculdade de Medicina da Universidade
Federal da Mato Grosso (UFMT), falou sobre o assunto
no
Encontro Estadual das Mulheres da Via Campesina, dias 2,3 e 4 de março,
na Escola Che Guevara. O professor, que pesquisa o assunto, explicou que
Mato Grosso é o estado campeão em uso de agrotóxicos.
Em todo o Brasil, as mulheres da Via Campesina fizeram uma Jornada
Nacional de Luta das Mulheres em referência ao dia 8 de Março - Dia
Internacional da Luta das Mulheres - para denunciar a extrema gravidade
da situação do campo brasileiro.
O grito feminista das mulheres camponesas contra os agrotóxicos e a
violência contra a mulher ecoou pelo país. Mais de 15 mil mulheres já
deram o recado: contra os venenos na alimentação e contra a opressão na
vida cotidiana.
No encontro de Mato Grosso, elas discutiram sobre a conjuntura política,
o uso excessivo de agrotóxicos nas lavouras, conversaram sobre os
benefícios da saúde popular, com a Pascoalina, e as preocupações com
essa “chuva” de pequenas usinas hidrelétricas que estão sendo
construídas em Mato Grosso, com o professor doutor em Energia Elétrica
da UFMT, Dorival Jr. “Precisamos saber que a construção dessas usinas
tem um objetivo central, que é gerar lucro. É a primeira coisa que
devemos entender. E, para isso, se for preciso colocar em risco o meio
ambiente ou outros fatores serão colocados”.
O Antônio Conselheiro é
um dos maiores assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem-Terra de Mato Grosso. A família de Claudinéia é uma das mil que
moram ali.
Claudinéia e os filhos: estudo é muito importante!
____________________
O nome do assentamento é uma homenagem ao líder popular, Antônio
Conselheiro, que conduziu a revolução de Canudos, no sertão da Bahia, em
1897.
Embora esteja separada, Claudinéia afirma que não tem medo de viver
sozinha com os filhos pequenos, nem mesmo à noite. Para sobreviver, ela
é faxineira na Escola Che Guevara, uma das três que existem no
assentamento.
Perguntada sobre pelo que as mulheres camponesas lutam, Claudinéia pensa
e responde. “Primeiramente estudo. Eu tinha parado de estudar na quarta
série. Estudar para quem mora na roça é uma dificuldade. Mas eu voltei a
estudar e já cheguei ao segundo ano do Ensino Médio. Mas nós também
precisamos de creche. Na roça não tem creche, mas seria importante
também. Eu, por exemplo, não tenho parentes por perto. Outra coisa que
as mulheres não querem mais é preconceito. Aqui no próprio assentamento
eu sinto que algumas pessoas me olham diferente, porque eu sou separada.
Se converso com um homem, parece que já estou dando encima dele. Eu me
orgulho de mim, crio meus filhos, isso para mim é uma vitória, mesmo sem
receber pensão. O pai deles só ajuda de vez em quando”. Claudinéia
reclamou também da saúde pública rural. “Tem um posto de saúde lá na
curva. Mas nem tudo tem no campo. Para muita coisa, só indo na cidade”.
Nesse momento, o filho dela de 7 anos chegou tomando um picolé de
sacolinha. A mãe perguntou: “E o dente, filho?” O menino disse: “Do
outro lado é que está doendo”, com a bochecha direita inchada por conta
de inflamação dentária. Dentista, só em Tangará. Provavelmente, o menino
vai perder esse dente.
No corredor da Escola Che Guevara, Géssica, 20, e Weslayne, 15, estavam
conversando, quando foram perguntadas, sobre pelo que lutam. As duas são
amigas e vivem no Assentamento Antônio Conselheiro.
Géssica e Weslayne, amigas
____________________
Géssica é casada e tem um filho de 1 ano e 10 meses. Ela acredita que a
mulher camponesa quer, primeiramente, ter o direito de estudar. “Agora a
escola está meio parada, porque o ônibus da Prefeitura que leva a gente
para a escola só anda estragado, outro dia pegou fogo”, reclama. Isso dá
muita agonia nela, porque ela quer chegar à faculdade de Veterinária. “O
meu pai estudou até a primeira série e minha mãe até a quinta. Eu não
quero isso, quero ir além”. Ela diz que às vezes sente vontade de morar
na cidade, porque lá tem cinema e lojas. Mas ao mesmo tempo ela gosta
também da vida no campo. “Se aqui tivesse mais atividade cultural seria
melhor”.
Weslayne acorda 8 horas, arruma a casa, almoça e vai para a escola.
Chega em casa e vê televisão. Essa é a rotina dela. Perguntada sobre
pelo que luta, ela diz que sabe mais sobre o que não quer. “Não quero
namorar agora, quero estudar e fazer Direito, porque sem estudo fica
difícil, meu pai me fala muito isso, ele é pedreiro na cidade e aqui
planta abacaxi, só estudou até a quinta série”.
Tudo que a viúva Clemência de Jesus, 59 anos, faz, segundo ela, é pelos
filhos, oito. Ela mora no Assentamento Vicente Nobre, em Araputanga, a
350 quilômetros de Cuiabá. Vai falando os nomes dos filhos e dizendo o
que já conquistaram para sobreviver, mas tem uma das filhas que, segundo
ela, ainda não tem nada mesmo. “Estamos lutando para que ela consiga um
pedaço de terra, porque tem uma filha doente”. Na horta da dona
Clemência, tem as verduras do dia a dia mais hortelã e poejo, que,
segundo ela, juntos no xarope são bons para gripe, e alecrim, que usa
contra pressão baixa.
Dona Clemência se preocupa com os oito filhos
____________________
O marido de dona Joana Luzia, 48 anos, não queria ir nas reuniões do
MST, nem queria deixá-la ir. “Mas eu fui, se não fosse por mim, hoje não
teríamos nossa terrinha”. Hoje vivem os dois no Assentamento Paulo
Freire, em Barra do Bugres, e o marido planta de tudo: banana, mandioca,
abóbora, quiabo... “Vendemos na cidade, mas o preço é baixo”. Para ela,
uma ajuda na distribuição dos alimentos seria fundamental para as
famílias camponesas.
A pedagoga Maria Vanda, 54 anos, é professora aposentada e dá aula na
Escola Che Guevara. Segundo ela, lecionar na roça é encantador, porque
“os alunos são de uma simplicidade e de uma honestidade, aceitam o
trabalho diferenciado e levam muita bagagem para a sala de aula”. Ela
também mora no Assentamento e se considera uma mulher do campo, porque
sua família é toda camponesa. Para ela, o que a mulher do campo quer é
ser valorizada, e como? “Com mais apoio dos nossos governantes, com
trabalho mesmo, como cooperativas. Se fosse assim, poderiam fazer doce,
requeijão, peneira, de tudo que sabem”.
Joana, Mariquinha, Maria Vanda e Vilma: valorização já!
____________________
Numa conversa animada, Maria Vanda falou sobre o conhecimento da mulher
camponesa, lembrando de sua avó. “Ela não comprava nada na cidade.
Lavava roupa suja com sabugo de milho, que, bem lavado, vira uma
escovinha excelente. Quando a calcinha feita de pano manchava de sangue
ou outras manchas, ela usava folha de mamão e clareava tudo, sem
estragar a roupa. Ela fazia sabão e nem soda comprava. Fazia com cinza
de feijão. Esse sabão, que fica preto, faz um bem para o cabelo, que
fica limpo e macio! O lampião era acesso com azeite de mamona. E para
lavar a louça ela usava bucha de palha de milho, com folha da árvore
lixeira. De vez enquanto, passava mascate e o vô comprava peça de pano.
E ela costurava roupa para a família”. É um outro tempo...
“Mas a mulher mudou”, diz, ao lado, dona Mariquinha. Ela é Maria da
Guia, 53 anos, e mora no Assentamento Paulo Freire. Ela lembra que a
mulher, quando ela era jovem, não podia nada. Por isso, que agora, o que
ela sente mais falta é de conhecer seus direitos. “Sei pelo menos de um
direito que todo mundo tem, que é de ir e vir. Os outros eu queria
saber”. Dona Mariquinha gosta do mato, onde nasceu e cresceu. “Quando eu
vou à cidade para fazer compra, já fico naquela pressa para voltar para
a roça”.
Dorival Jr, professor da UFMT, fala sobre a tão lucrativa fábrica de
energia
____________________
No último dia do encontro, as mulheres campesinas encaminharam lutas,
para conquistar o que desejam.
Na faixa pendurada na barracão, onde aconteceram os debates, os dizeres.
“Sem feminismo, não há socialismo”.
Keka Werneck, da Assessoria de Imprensa do MST |