A
mobilização social em torno da proposta do zoneamento mato-grossense(*)
Após 20 longos anos de fechada elaboração técnica e quase nenhuma
abertura com a sociedade mato-grossense, o governador Blairo Maggi
encaminhou uma proposta de Política de Planejamento e Ordenamento
Territorial de Mato Grosso, e seu principal instrumento, o Zoneamento
Socioeconômico Ecológico, conhecido por ZSEE, à Assembleia Legislativa
para aprovação em 2008.
O
início dos estudos que culminaram nesse projeto aconteceu em 1989, junto
com o Estado de Rondônia, em que se propunha um projeto de zoneamento
territorial, tendo como orientação o desenvolvimento da Amazônia.
Iniciativa nobre e necessária, dado o contexto histórico mundial. Em
2004 o estudo ficou pronto e foi encaminhado à Assembleia, entretanto,
logo retornou ao Executivo sob o argumento de readequação do projeto.
Assim, finalmente, em 2008, após ajustes feitos por recomendações de
consultores contratados e uma breve exposição do projeto a algumas
entidades sociais, o Executivo reenvia o ZSEE ao Legislativo.
Durante todos esses anos, Executivo realizou inúmeras discussões
técnicas sobre o projeto, mas nenhum debate ampliado com a sociedade,
portanto, o Governo optou por transferir aos deputados a tarefa de
mediar os pactos sociais em torno desta política pública.
Obrigatoriamente, por ser um instrumento da política nacional de
meio ambiente, o ZSEE deve passar por audiências públicas, sendo este um
dos requisitos para ser aprovado no Conselho Nacional de Meio Ambiente e
se torne uma política de Estado.
Dentre todos os estados brasileiros, Mato Grosso foi o único em
que as audiências públicas couberam ao poder Legislativo.
Então a nossa Assembleia Legislativa deu inicio ao processo de
audiências públicas, e vários grupos, entidades e movimentos
socioambientais começaram a participar dos debates, de início
desarticulados para logo depois, devido aos vários conflitos que
surgiram nesses espaços de discussão, formar um grupo de trabalho no
qual pudessem se preparar
tanto técnica como politicamente para a discussão. Dessa forma, em
agosto de 2008, uma semana após a acirrada audiência pública realizada
na cidade de Paranatinga foi criado o Grupo de Trabalho e Mobilização
Social, chamado de GTMS.
Os
integrantes do GTMS são participantes de redes, grupos, entidades e
movimentos socioambientais mato-grossenses, bem como militantes da
história de lutas que permeia e marca o solo de Mato Grosso. Portanto,
incomodados com o discurso dos defensores do agronegócio nas audiências,
que propunham alterações substanciais no texto do projeto do ZSEE,
principalmente temas referentes ao ambiente natural e aos povos e
comunidades tradicionais, os integrantes do GTMS resolveram não só a
apoiar o projeto enviado pelo Executivo como também a propor mais temas
específicos sobre a área social e ambiental. Para além da participação
nas audiências públicas, ao longo desses três anos, desenvolveram
práticas pedagógicas que resultaram no aprendizado coletivo sobre o ZSEE
e no enfrentamento de questões sobre a condução do processo de
audiências públicas.
Nesse sentido, o GTMS organizou seminários próprios sobre a questão do
ZSEE que propiciaram mais propostas socioambientais como também
promoveram a visibilidade e a proposição de um mapeamento dos grupos
sociais de Mato Grosso, favorecendo com isso a preparação de uma
comissão para a viabilização da primeira conferência dos povos e
comunidades tradicionais a ser realizado no estado; promoveu a
elaboração e publicação de um caderno pedagógico sobre o ZSEE; realizou
Fóruns sobre o ZSEE;
promoveu reuniões com promotores de justiça, procuradores do Estado e
juristas para debater os aspectos legais e político da participação
social em audiências públicas; promoveu a reunião para a discussão do
projeto de Lei do Macrozoneamento da Amazônia Legal; desenvolveu
palestras em eventos; articulou reuniões deliberativas sobre as
suas ações, tanto em Cuiabá, como no interior do Estado e até em
Brasília, com outros parceiros; realizou atos públicos em protestos
contra o processo de aprovação dos substitutivos do ZSEE; aperfeiçoou o
processo de comunicação com os grupos, entidades e movimentos sociais,
criando sua própria lista de discussão online. Tudo isso foi possível
devido ao compromisso, a gratuidade, a luta de mulheres e homens que
militam e que são apaixonados pela diversidade de povos e suas histórias
com o meio e pela beleza da
natureza de Mato Grosso.
Durante o processo de discussão do ZSEE e até hoje, foram feitas dezenas
de notas e manifesto de repúdio à condução da elaboração e da votação do
projeto, denominado substitutivo da Assembleia.
Tudo isso foi possível graças à força de uma militância que se
reencontrou no espaço público nesta luta comum a todos, propiciando a
muitas pessoas, principalmente do interior do Estado, sem apoio público
para participar das audiências, encontrar no GTMS um espaço para
manifestação, alianças e principalmente parcerias, fortalecendo também
para novas e velhas lutas socioambientais em Mato Grosso.
Assim, o GTMS vem se firmando como uma rede das redes socioambientais,
uma verdadeira comunidade de aprendizagem, desenvolvendo uma resistência
ao substitutivo do ZSEE votado pelos deputados, projeto este que
contraria os princípios da transparência democrática, de audiências de
grupos sociais, e que atropela o próprio processo legislativo, uma vez
que o projeto foi votado novamente após ter retornado do Executivo para
correção de “erros formais”- num ato inacreditável em votação de lei,
violando todo bom senso.
Sabendo que o ganho na democracia está nas conquistas do processo, o
GTMS vem se consolidando nas ruas e na luta, seus integrantes tem a
plena compreensão que participaram de todo processo de discussão do
ZSEE, mas não se sentem representados na proposta enviada, novamente, ao
governador para veto ou aprovação. Por isso o GTMS e suas integrantes
(redes, grupos, entidades e movimentos socioambientais) clamam em nota
pública, lançada em dezembro de 2010, pelo sensato veto do governador à
proposta de ZSEE da Assembleia, pois entre outras coisas contraria todo
o estudo técnico elaborado pelo próprio executivo durante 20 anos e não
constitui, conforme Boaventura de Souza Santos, um projeto que apresente
a característica de representar a “demo-diversidade”.
(*)Denize Aparecida Rodrigues de Amorim
Mestranda em Educação, do Instituto de Educação da UFMT e militante da
Rede Mato-Grossense de Educação Ambiental (REMTEA), uma das redes
socioambientais atuantes no
Grupo de Trabalho Mobilização Social (GTMS).
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