Pelo olhar de outrem
* Por Gibran Lachowski
Ana, minha esposa, preferiu assistir a um filme espanhol, na Tv Brasil,
a acompanhar a badalada entrega do Oscar, na Tv Globo. Tudo ocorreu no
domingo à noite (27 de fevereiro). Muita gente pode nem ter tomado
conhecimento de que “Solas”, de Benito Zambrano, foi ao ar na telinha,
no Cine Ibermedia.
A película espanhola fala da vida de uma família marcada pela violência
do pai, um rude campesino, e dos caminhos provocados por este machismo.
A mãe, Rosa, apanha muito e se resigna. Quase todos os filhos vão embora
de casa logo que podem. Apenas Maria permanece mais tempo com a
genitora, porém, em seguida se vai para a cidade de Sevilha.
Privada pelo pai de estudar, pois isto era coisa de “mulher da vida” e,
decente moça deveria saber os afazeres da casa, Maria, 40 anos,
solteira, tem como única alternativa trabalhar de faxineira em
residência alheia.
Mora num apartamento escuro e pobre, avizinhada de humildes homens e
mulheres.
Reencontro entre mãe e filha. Rosa vem para a cidade a fim de acompanhar
o esposo, seriamente doente, e, por conta disto, fica por alguns dias na
casa de Maria.
Distância
O curto tempo de “recontato” é marcado pelo distanciamento familiar.
Maria não admite que sua mãe tenha se resignado. No entanto, Rosa
responde em outra freqüência, a paciência.
Esse seu jeito é estendido a Emilio, um senil vizinho, viúvo, que
perdera o único filho quando ainda pequeno e que tinha por maior
parceiro o cão Aquiles.
Há momentos inclusive em que um novo casal está para se formar, mas a
expectativa não se confirma. Tornam-se bons amigos. Rosa retorna para
sua casa, no campo, em companhia do marido, e o octogenário vizinho se
aproxima carinhosamente de Maria. Ouve-lhe as confissões e se dispõe a
ajudá-la no que for; uma forma de retribuir a solidariedade de Rosa.
É quando Maria desabafa tudo. Conta a Emilio – a quem mal conhece –, sua
gravidez, a insensibilidade tremenda do homem com quem esteve e a
intenção de abortar. Nem de longe se abrira assim com a mãe.
Emilio se diz contra o aborto, porém se prontifica a apoiar a mulher se
esta for sua decisão. Além disso, menciona estar pronto para a função de
avô adotivo, posto que o amor filial há muito estava contido em seu
peito e espírito.
Com pouco custo ela aceita a proposta e dá à luz à criança, a pequena
Rosa, nome dado em homenagem a avó. Já no fim do filme, consciente de
que a vida segue, Maria coloca rosas sobre o túmulo da mãe. Sofrida, mas
nem tanto a ponto de ignorar o pai, oferta-lhe uma única porção de
flores. O velho Emilio, presente, também segue em frente, lado a lado
com sua nova família.
Pelo olhar de outrem
Não assisti à película, contudo ouvi com emocionada atenção o que Ana me
contava em nosso café da manhã. O relato sobre “Solas” já faz parte de
minha vida, me foi exposto a partir de uma comunicação interpessoal,
próxima, afetiva. Entretanto, o que ocorreu na entrega do Oscar, quase
100% uma festa estadunidense, ainda não me interessou saber.
* Gibran Lachowski é jornalista, professor e coordenador do curso de
Comunicação da Faculdade Cenecista de Rondonópolis. E tem o
bloguedogibran.blogspot.com
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