Copa revolucionária

 

* Por Dafne Spolti

 

Agora, com a Copa, está tudo lindo, passando por transformação. Agora, todos e todas são do bem.

 

Cuiabá se vangloria porque oito detentos estão trabalhando nas obras. O Conselho Nacional de Justiça deve estar recebendo bênçãos pela criação do programa “Começar de Novo”, que abriu essas possibilidades. Demais grupos e instituições envolvidas sentem até que estão cumprindo sua função. A intenção do programa é que nos próximos três anos, mil detentos trabalhem nas cidades-sede da Copa.

 

Mas por que não fizeram isso antes? Cerca de 500 mil encarcerados podiam já estar trabalhando, reduzindo suas penas (talvez nem fossem mais 500 mil...), buscando contribuir consigo próprios e com a sociedade, entendendo seus processos, se ressocializando. Aliás, a gente nem devia ter esse sistema carcerário como é. Mas enfim...

 

O fato de 0,2% dos presos poderem trabalhar nesses três anos já é uma grande coisa (a vida de muita gente pode mudar). Mas é triste que depois de tanto tempo de sofrimento, nós, povos brasileiros esperançosos, tenhamos como única esperança um único evento esportivo. Sinto imensa angústia em ter que eleger e acreditar no novo messias: A Copa do Mundo de Futebol.

 

Agora, tudo gira em volta da Copa. Pensamos em nos especializar, nos organizar. Precisamos fazer cursos de idiomas, precisamos colocar o nome no mercado, precisamos fazer contatos. Uma boa boca dessa é pra aproveitar. Nesse momento (que só termina em 2014), “metade” das notícias de jornal fala da copa. Ficam esquecidos os outros acontecimentos ou não acontecimentos. E todos sorriem!

 

Além da fé nas transformações da cidade, tem também a empolgação de meninos pobres de bairros periféricos que sonham ser jogador de futebol e que estão felizes por demais em saber que a Copa vem pra cá. Querem ver o jogo. Quem vai assistir, porém, só vamos saber na hora, quando a coluna social anunciar os privilegiados.

 

Por enquanto, nós, povos brasileiros esperançosos, agüentamos pacientemente a água ruim e a falta dela, falta saneamento, o asfalto e ruas de terra esburacadas, o ônibus caríssimo, de matar! e de péssima qualidade, os acidentes-de-moto-de-todo-dia. A comida envenenada e escassa. Aguentamos os dentes apodrecerem, os órgãos adoecidos, as dores, as filas do Pronto Socorro.

Por enquanto, agüentamos até a nossa ignorância. Vamos comendo o pão que o diabo amassou, aguardando o Novo Messias chegar. Quando que ele vier, revolucionário, será muito bom. Depois que ele for embora, continuaremos a vida como é.

 

Mas que venha logo então! Para matar nossas agonias! A cidade provavelmente vai ficar bonita. As nossas caras... Não sei. Espero que nos vejam, que falem conosco, nos ouçam e que as transformações não mais dependam de um Messias.

 

*Dafne Spolti é estudante de jornalismo da UFMT.






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