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Movimentos sociais cobram plano estadual de Direitos Humanos
Movimentos sociais de Mato Grosso apresentaram uma pauta de
reivindicações com 10 itens e três prioridades na primeira reunião do
ano com secretário de Estado de Justiça, Paulo Lessa, e o Adjunto,
Genilto Nogueira. Entre as prioridades, a criação de um plano Estadual
de Direitos Humanos, aprovado em conferência em 1999 e jamais
implementado pelo Governo.
“Nos sabemos com clareza o que
reivindicamos, porque discutimos isso o ano todo, agora a gente tem que
ver qual é a vontade política”, disse Inácio Werner, do Centro Burnier
Fé e Justiça (CBFJ).
O secretário adjunto de Justiça disse estar disposto a dialogar, para
então informar o que poderá ser feito e o que não.
Na lista de 10 reivindicações, o ponto número 1 é que a Secretaria de
Estado de Justiça seja composta por servidores capazes de dialogar com a
sociedade civil.
As lideranças pediram também ao Governo urgência na criação do Programa
de Proteção à Testemunha, que inexiste em Mato Grosso, embora pelo menos
20 pessoas estejam ameaçadas de morte aqui. O promotor Alexandre Guedes
também já deu um prazo ao Governo para que crie o programa.
“Se a gente não tivesse avisado ao Estado e alguém morrer, poderiam
dizer que não sabiam. Mas foi avisado e, sendo assim, se alguém morrer
só nos restará dizer que, apesar de terem conhecimento da denúncia, nada
foi feito”, criticou Werner.
Nogueira disse que o Governo do Estado já está elaborando um projeto de
lei criando o programa para ser enviado à Assembleia Legislativa de Mato
Grosso.
A sociedade civil vai dialogar com os representantes do programa
nacional de Proteção à Testemunha e pede que o Governo Estadual também
faça isso.
O Movimento de Mulheres cobrou a expansão das delegacias especializadas
em regiões polos, para cobrir o Estado, e de casas de amparo às vítimas
de agressão, violência doméstica, estupro e outras violências.
“Onde já se viu...essas delegacias têm que funcionar por 24 horas e nos
finais de semana, que é justamente quando aumenta a ocorrência desses
casos”, disse Dalete Soares, do Movimento Nacional de Direitos Humanos.
Ana Emília, do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, afirmou que
viajou por Mato Grosso para conhecer a realidade de perto e verificou
que falta qualificação aos servidores para tratar a questão de gênero.
Segundo ela, sendo assim, a mulher agredida pelo marido, por exemplo,
pode passar de vítima a ré, em uma delegacia onde os funcionários
estejam mal preparados para tratar da questão, repetindo o machismo
histórico.
Cláudia Carvalho, do Centro de Referência em Combate à Homofobia,
destacou que precisa transversalizar a questão de identidade de gênero
nessa qualificação, porque gays, lésbicas, travestis e pessoas com
orientação sexual diferente da heterossexual também costumam ser
discriminadas em delegacias.
Pedro Reis, representando o Movimento Negro, disse que o afrodescendente
sofre muito com a abordagem racista policial. Mesmo que não esteja em
situação suspeita.
Para Heitor Geraldo, presidente da Associação das Famílias Vítimas de
Violência (AFVV), “o sistema deve estar preparado para atender a todos e
todas, porque a violência está geral”.
O blogueiro Saroba destacou que não podemos esquecer as pessoas com
deficiência. “Outro dia vi um cego, saindo de um prédio. Ele não tinha
nem bengala e veio batendo em todos os obstáculos, sem a devida ajuda”.
Na reunião, o Movimento de Direitos Humanos questionou a competência do
Comitê Estadual de Conflitos Agrários, que não tem, por exemplo, cadeira
para o movimento dos sem-terra. Genadir Vieira, do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem-terra em Mato Grosso (MST-MT), reclamou do
Comitê, que, ao invés de promover o diálogo entre as partes, costuma ir
a assentamentos, mas somente para averiguar e fornecer dados a
fazendeiros. Ele denunciou que ano passado em uma das desocupações terra
uma senhora de 70 anos do MST quebrou a perna. “Então como é que é isso?
Eles chegam e não tem papo e saem quebrando barraco e é gente correndo
para todo lado e ninguém se importa se ali há pessoas idosas, mulheres e
crianças”.
“Isso já havia sido negociado ano passado com a Secretaria de Estado de
Segurança Pública (Sejusp) e agora estamos cobrando essa cadeira que
represente os sem-terra no Comitê”, explicou Inácio Werner. Nogueira
disse que vai buscar informações sobre isso.
Sobre a saúde e educação indígena, Gilberto Vieira, do Conselho
Indigenista Missionário (CIMI), disse que o Governo deve cumprir seu
papel e que a maioria das escolas indígenas ou são estaduais ou estão se
estadualizando. “O que queremos é que o Governo chame uma reunião com as
organizações que atuam pelos direitos indígenas”, cobrou Vieira. O
secretário disse que vai agendar essa reunião.
Sobre a questão do trabalho escravo, Ademir Montovani, da Comissão
Pastoral da Terra em Mato Grosso (CPT-MT), destacou que chegam a
pastoral muitas denúncias que não apuradas. “As entidades competentes,
como a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE) e o
Ministério Público do Trabalho (Mtb), querem um mapa para saber onde ir
para fazer o flagrante, a gente não tem condições de fazer isso, são
localidades muito distantes. Se a gente não facilitar, daí não vão”.
Montovani disse também que latifundiários se articulam com a polícia nos
interiores do Estado e as vítimas de trabalho escravo, se denunciam
abusos, acabam correndo risco de morte. “Já teve caso em que os
trabalhadores foram denunciar o fazendeiro e acabaram acusados de roubo.
O fazendeiro disse que tinham furtado coisas tão velhas, que se cada um
de nós aqui achasse na estrada eu duvido que levaria para casa”.
Cláudia lembrou que há também trabalho escravo urbano, ainda que de
forma mais discreta, atingindo inclusive travestis e prostitutas em Mato
Grosso.
Os movimentos cobraram ainda respeito às formas de saúde, educação,
cultura e informação popular e o fortalecimento da Defensoria Pública.
No último item, reivindicam políticas públicas contra a prática da
tortura, principalmente dentro do sistema prisional.
Nogueira disse que vai criar um disque-denúncia que atenda casos de
detentos agredidos em presídios, homofobia, violência contra mulheres,
crianças e militantes que incomodam o status quo, além de outras
vítimas.
Segundo Lessa, “existe um hiato muito grande de muitas décadas em que a
sociedade como um todo se omitiu com relação ao sistema prisional e não
vamos conseguir avanços em um estalar de dedos. O que estamos fazendo
hoje, para melhorar o sistema prisional, é somente para que ele não
entre em colapso. Mas não podemos esquecer que são serem humanos que
estão ali”.
O pastor Teobaldo Witter destacou que é cultural essa inversão de
valores. “A pessoa que reclama vira bandida e não a que tortura. Isso é
cultural, há 500 anos que alguns pensam que podem tudo. No presídio, por
exemplo, já chegam chutando os presos”.
Para dar mais visibilidade ao problema, será formada uma comissão da
sociedade civil para visitar os presídios, com o objetivo de elaborar um
diagnóstico sobre tortura nas unidades prisionais. O secretário Lessa
entende que essa comissão poderá apontar saídas.
Para tanto, vai ser formada uma comissão paritárias entre Governo e
Sociedade Civil Organizada, cada uma das partes indicando cinco nomes
para compor a comissão organizadora.
Para que seja reativado o Conselho Estadual dos Direitos Humanos, também
será composta uma outra comissão com três nomes indicados pelo Governo e
outros três pela Sociedade Civil Organizada.
Veja ponto a ponto as prioridades do Movimento de Direitos Humanos
aqui.
Keka Werneck, da Assessoria de Imprensa do Centro Burnier Fé e Justiça
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