Jovens, Internet e política: pensando o uso das novas
tecnologias nas mobilizações sociais
* Por Patrícia Lânes/Adital
As manifestações em curso no Egito nas últimas semanas abrem a
possibilidade de uma série de reflexões sobre o uso da Internet e das
chamadas NTIC (Novas Tecnologias da Informação e Comunicação) nas
mobilizações sociais, sobretudo as de massa, nos nossos dias. Artigo de
Felipe Corazza, publicado em 03 de fevereiro de 2011 no site da Carta
Capital, engrossa o debate falando do papel desempenhado por esses
meios, problematizando o fato de terem sido eles os responsáveis pela
adesão massiva da população egípcia às manifestações contra o atual
presidente do país, o ditador Hosni Mubarak, há três décadas no poder.
Alguns jovens egípcios falam que, através das redes sociais da Internet,
a mobilização para a ação nas ruas já vinha acontecendo há mais de um
ano. Outros, no entanto, têm uma visão diferente e dizem que com ou sem
Internet a população estaria nas ruas. No entanto, aliada às novas
tecnologias, a Internet vem cumprindo o papel de mostrar as
manifestações para o mundo e conseguir novas adesões. Nas palavras do
jornalista e blogueiro egípcio Hossam el-Hamalawy, em entrevista ao
professor da Universidade da Califórnia Mark LeVine: "A internet
desempenha um papel na difusão da palavra e das imagens do que ocorre no
terreno. Não utilizamos a internet para nos organizar. A utilizamos para
divulgar o que estamos fazendo nas ruas com a esperança de que outros
participem da ação.”
A Internet ou os torpedos (mensagens) via celular, o Facebook ou o
Twitter jamais poderiam sozinhos ser responsáveis pelo engajamento de
milhares de pessoas a determinada causa. No entanto, eventos recentes,
dos quais talvez o Egito seja o caso mais evidente e paradigmático,
indicam que não é mais possível relegar o uso dessas tecnologias a uma
posição coadjuvante quando se trata de causas coletivas. A relação que
sempre aparece nesse debate é entre o uso dessas novas tecnologias e
suas ferramentas, espaços de articulação e os(as) jovens.
Aqueles e aquelas que foram socializados nesses novos meios ainda
crianças e adolescentes, uma geração que nasceu junto ou depois de
celulares, da Internet e de derivados, têm maior facilidade para
conhecer e criar novas possibilidades para seus usos. No entanto, é
também muito criticado o uso de tais tecnologias para a publicização da
vida privada, que estaria contribuindo para propagar um ethos
individualista e consumista. Os meios abrem possibilidades, mas seus
usos são orientados pelas ações e idéias disponíveis socialmente.
Estudo recente realizado por Ibase, Pólis e instituições de pesquisa em
seis países da América do Sul, com apoio do IDRC, evidenciou que muitas
das manifestações públicas lideradas por jovens na última década tiveram
forte vinculação com os meios de comunicação (comerciais e as ditas
mídias alternativas) e com as novas tecnologias da informação. Muitas
ações dos movimentos pressupõem uma face pública, se fazer ver e ouvir
pelo restante da sociedade para mobilizar população e pressionar
governos, empresas etc. E os meios de comunicação têm papel
importantíssimo.
No Chile em 2006, milhares de estudantes secundaristas protagonizaram o
que ficou conhecido dentro e fora do país como Revolução dos Pinguins
(referência ao uniforme dos estudantes). Eles ocuparam suas escolas por
discordar dos encaminhamentos dados pelo governo do país em relação à
educação, reivindicando educação pública, gratuita e de qualidade. Além
da ocupação física do espaço escolar, a criação de blogs e fotologs das
ocupações e do movimento ajudou a dar o caráter nacional e
descentralizado da manifestação (que se recusou a ter apenas um
porta-voz) e a mobilizar cerca de 800 mil estudantes em dois meses de
norte a sul do país. Entre as demais ações estudadas inicialmente pela
pesquisa em questão (Juventude e Integração Sul-americana, Ibase, Pólis,
2008), muitas se utilizam de blogs, fotologs e fóruns de debates
virtuais para mobilizar e organizar suas ações. Foi o caso do Fórum de
Juventudes do Rio de Janeiro, dos jovens sindicalizados do
telemarketing, dos grupos de hip hop aymara de El Alto (Bolívia), dos
coletivos juvenis ligados ao Departamento de Juventude de Concepción
(Chile), dos estudantes secundaristas organizados na Fenaes (Paraguai),
de grupos articulados na Coordinadora por la Legalización de la
Marihuana (Uruguai) ou dos Jóvenes de Pie (Argentina). Em todos esses
exemplos, o uso da Internet e das novas tecnologias de informação e
comunicação se combinam a formas "tradicionais” de militância e essas
combinações possíveis também trazem pistas de um jeito próprio dessa
geração fazer política.
Talvez um dos exemplos mais contundentes e reveladores seja o do
Acampamento Internacional da Juventude (AIJ), organizado durante as
edições brasileiras do Fórum Social Mundial (FSM), em especial naquelas
que ocorreram em Porto Alegre. Ali, as possibilidades de inventar e
praticar novas formas de comunicação e novas maneiras de produzir
informação rompiam fronteiras e abriam espaços para o diálogo, hoje cada
vez mais cotidiano, entre rádio, televisão, Internet, cinema e produções
artísticas das mais variadas. Nesse caso em especial, as experimentações
com os meios se aliavam a um debate mais denso sobre auto-gestão e a
produção, reprodução e disseminação do que é produzido dentro e fora da
rede, do qual o software livre é um ótimo exemplo. Ao analisar as formas
de participação social dos jovens, Vital e Novaes apontam que: "No
âmbito da participação social de jovens, as NTIC (novas tecnologias de
informação e comunicação) se tornam instrumentos úteis para a circulação
de informações sobre vários temas e causas e, ao mesmo tempo, alimentam
novas bandeiras de luta, como os movimentos que lutam pelo software
livre (Vital, Novaes, 2005, p. 125)
Recuperando as pistas deixadas pelos últimos acontecimentos do Egito, é
possível vislumbrar que as novas tecnologias da informação e da
comunicação fazem parte do cotidiano dos(as) jovens, em cada vez maior
escala, nos centros e periferias do Brasil e do planeta, sendo "natural”
que estejam em seu repertório de sociabilidades e também de lutas e
mobilizações. Os jovens não são reféns das tecnologias. Se as formas de
sociabilidade foram alternadas a partir da experiência das mudanças
tecnológicas, as culturas locais e as formas mais ou menos tradicionais
de se fazer política continuam aí. As mobilizações podem acontecer com a
ajuda de redes sociais como Orkut, Facebook ou Twitter. No entanto, a
ocupação das ruas e espaços públicos ou o fechamento de ruas e estradas
continuam gerando a repercussão social e política que tiveram os últimos
acontecimentos. E é ótimo que sejam filmados por celulares e difundidos
pelo youtube. As implicações políticas e sociais e as mudanças em curso
geradas por tais manifestações só estão acontecendo porque o uso das
novas tecnologias está sendo, uma vez mais, combinado com a ocupação
massiva e permanente de ruas, praças e avenidas!
De acordo com as conclusões da pesquisa Juventudes Sul-americanas,
publicadas no Livro das Juventudes Sul-americanas (Ibase, Pólis, 2010)
"(...) se é verdade que esta é a geração da "tecnossociabilidade”, é
preciso não minimizar a convivência das novas tecnologias com diferentes
agências de socialização, tais como a família, bairro, escola, igrejas.
A sociabilidade de determinado segmento juvenil é sempre fruto de
diferentes combinações de espaços de socialização. Isso porque o "atual”
é composto por uma variedade de arranjos entre tradição e inovação,
presentes na vida de diferentes segmentos juvenis. Sem levar em conta
esses aspectos, corre-se, mais uma vez, o risco de homogeneizar a
juventude. Compreender a existência de diferentes dinâmicas no uso das
tecnologias é também uma forma de transpor obstáculos para que as
chamadas "minorias ativas” (jovens que participam de grupos, redes e
movimentos) se aproximem mais da realidade da maioria da juventude de
cada país”. ( p.103) Os últimos acontecimentos protagonizados também por
amplos segmentos da juventude egípcia é um bom exemplo disso.
Documentos e páginas eletrônicas consultados:
6 demandas para a construção de uma agenda comum: relatório
sul-americano da pesquisa "Juventude e Integração Sul-americana –
caracterização de situações-tipo e organizações juvenis”, Ibase, Pólis,
2008.
BOL Notícias, "Último provedor de internet do Egito deixa de funcionar”.
31 de janeiro de 2011.
Corazza, Felipe. "A revolução é online e offline”. Site da Carta
Capital, 3 de fevereiro de 2011.
IG/ New York Times/ Luis Nassif Online.
"O grito de guerra online no Egito: Jovens impulsionam apelo para
expulsar líder do Egito”, 29 de janeiro de 2011.
La Demanda Secuestrada – Situacion tipo del Movimento Estudantil
Secundario, CIDPA, Chile, 2007.
Novaes, Regina; Ribeiro, Eliane. (orgs). Livro das Juventudes
Sul-americanas, Ibase, Pólis, 2010.
Novaes, Regina. Vital, Christina. A juventude de hoje: (re)invenções da
participação social. In: Thompson, Andrés A. (org.) Associando-se à
juventude para construir o futuro. São Paulo: Peirópolis, 2005.
O Recôncavo, "Al- Jazeera: Jornalista e blogueiro egípcio fala sobre
rebelião”, 1º de fevereiro de 2011.
* Patrícia Lânes é socióloga e pesquisadora do Ibase
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