|
SENEGAL
Goreé – a marca da luta contra 300 anos de
escravidão
São Leopoldo - Roberto Zwetsch é um teólogo
apaixonado pelo trabalho pastoral e pela teologia poimênica. Difícil
achar os limites entre os dois em seu trabalho, já que está sempre
aprofundando o tema. Seja nas celebrações em templos e diversos outros
espaços, na sala de aula, em conferências em eventos acadêmicos ou
quando escreve poemas, artigos e livros. Atua como docente de Teologia
Prática e Missiologia na Faculdades EST,
Por Antonio Carlos Ribeiro
ALC - Qual o significado do Fórum Mundial
Teologia e Libertação (FMTL) para as atividades teólogicas (ministerial,
assessoria, docência e publicações) nos ambientes eclesial, acadêmico e
popular?
Zwetsch - Entendo que o significado do FMTL é sempre limitado. Demora
até que as discussões feitas num âmbito internacional cheguem aos
ambientes em que seus participantes estão cotidianamente envolvidos. Mas
o que me parece importante é o fato de este fórum ser uma espécie de
caixa de ressonância dos
desafios que emergem da vida cotidiana, das lutas de mulheres e homens
por sua dignidade, por seus desejos mais caros, enfim, por sua
libertação de tudo o que oprime, desqualifica e destrói. Um dos
argumentos que mais apareceu nos debates durante o seminário dos dois
últimos dias do FMTL foi de que uma teologia verdadeira deve partir não
dos dogmas ou das Escrituras como texto sagrado, mas da vida
mesma, ali onde as pessoas
sofrem, lutam, crêem, clamam, sonham e forjam suas utopias de um mundo
novo possível, onde se possa experimentar o que os
aymara da Bolívia chamam de
bem viver. Chamou a nossa
atenção a dificuldade que sentimos para incluir no nosso debate a
teologia muçulmana, pois mesmo convidados, não tivemos a possibilidade
de ouvir representantes dessa religião tão importante no mundo atual,
sobretudo no norte da África e Oriente Médio.
Que regiões do mundo estiveram representadas
no FMTL?
A África evidentemente, mas com participação que poderia ter sido maior
e mais representativa. Depois, boa participação de representantes da
América Latina, Europa, América do Norte, Ásia e Austrália. Para
viabilizar tal participação foi muito importante o apoio das agências
ecumênicas de cooperação internacional, que enviaram alguns
representantes, mulheres e homens, além das organizações conhecidas como
ASETT, Ameríndia, CETELA, ASTE, CETEQ, Instituto de Teologia e Política
de Münster, Programa de Povos Indígenas do CMI, FLM, Rede de Cristãos na
Espanha e Itália, e outras.
Qual a representatividade ecumênica das
delegações enviadas por igrejas ou instâncias eclesiais?
O FMTL não é um fórum de igrejas e organizações ecumênicas, antes se
compõe de pessoas, associações e organizações acadêmicas e de pastoral
popular, contando com o decidido apoio de agências internacionais de
cooperação, sobretudo da Europa. Ele está organizado ecumenicamente com
um Conselho Permanente formado por representantes de oito instituições
que deram seu apoio desde o primeiro Fórum, e mais um Comitê
Internacional Consultivo integrado por representantes de instituições ou
organizações que dão sua adesão ao redor do mundo. O FMTL conta com uma
secretaria permanente que funciona na PUC-RS,
Como foi a participação de grupos nos debates
e que ênfases mais lhe despertaram a atenção?
Após a abertura oficial, no dia 5 de fevereiro, tivemos um painel sobre
a África e os desafios da teologia hoje. No domingo, fizemos uma visita
à bela ilha de Gorée, com uma população de 1500 pessoas que basicamente
vive do turismo e do artesanato. Na ilha conhecemos uma das tantas Casas
de Escravos, de onde partiram - para uma viagem sem volta - milhões de
seres humanos capturados em suas aldeias no interior da África e que
eram traficados como mercadoria para servirem de escravos nas fazendas
das Américas e do Caribe. Foi uma das experiências mais candentes ver
onde essas pessoas - homens, mulheres e crianças - ficavam à espera do
próximo navio negreiro que as conduziria ao inferno da escravidão. E
isto durou mais de trezentos anos com a complacência de todas as igrejas
cristãs! Naquela mesma casa estiveram o Papa João Paulo II, os
ex-presidentes Lula e Nelson Mandela, e outros importantes líderes
mundiais, assumindo compromissos na luta contra o racismo e todas as
formas de escravidão. Nos dois dias seguintes o FMTL se reuniu como
organismo para organizar onze oficinas sobre temas atuais que desafiam
as comunidades eclesiais e as academias teológicas: Sabedoria dos Povos
Indígenas; Religiões e Paz; Islamismo e Cristianismo; Feminismo, Gênero
e libertação; Religiões, migração e libertação; Cura e Saúde na África;
Crise do capitalismo e direitos sociais globais; Teologia e ecologia;
Teologia, negritude e libertação; Crise civilizatória e experiência
religiosa; CEBs e Teologia da Libertação. Nos dois últimos dias
realizamos um Seminário a partir de grupos de discussão formados em
torno das quatro línguas oficiais faladas no evento: espanhol,
português, inglês e francês. Os grupos foram instigados a debater como
os desafios das mudanças globais contemporâneas afetam as comunidades e
as religiões e que respostas a teologia pode proporcionar, desde o ponto
de vista das vítimas do sistema global, dos mais pobres e vulneráveis.
Houve um grande entrosamento e muita participação nos oito grupos
formados, por vezes um tenso debate com posições divergentes, o que se
confirmou no grande plenário do último dia, que propôs não apenas a
continuidade do processo do FMTL, como também o fortalecimento das redes
de comunicação e articulação que emergem em todos os continentes, e que
articulam ações de transformação de mentalidade e da própria realidade
local e nacional, a partir do nível comunitário eclesial e para além
dele.
Você identificou elementos novos no diálogo
teológico com setores discriminados: os pobres, as mulheres, as
populações negras e indígenas, e os grupos marginalizados dos centros
urbanos?
Sim, como o desafio africano de uma solidariedade que parte do
cotidiano, do encontro em torno de uma mesa comum, que serve não apenas
para as pessoas se alimentarem, mas também para compartilharem recursos,
desejos, sonhos e visões. O desafio inter-religioso, do encontro de
diferentes que conversam e celebram juntos a partir de distintas
experiências espirituais foi outro aspecto que chamou a atenção, tanto
por sua urgência - estamos apenas no começo de um longo processo - como
pelo despreparo que ainda manifestamos nesse campo. Por fim, a
necessária crítica ao capitalismo mundial dominado pelo setor financeiro
dos bancos e que, na hora da falência, apela aos estados e cobra a
dívida dos povos e, dentre eles, dos mais pobres, como a elevação
especulativa dos preços dos alimentos vem demonstrando, sobretudo na
África e no Oriente Médio, fato que tem sido apontado como um dos
motivos das recentes revoltas populares no mundo árabe.
Que papel os meios eletrônicos assumem hoje
para o mundo teológico da periferia (comunicação - rádio, jornal, sítio
web, revistas teológicas digitais, comunidades nas redes sociais), além
das já conhecidas pastorais, educação teológica e assessorias?
No campo da teologia ainda é tímida a utilização dos meios eletrônicos
de modo mais consistente. É um dos desafios urgentes para o futuro
imediato, tanto nos seminários e faculdades de teologia como nas
comunidades eclesiais. E nesse sentido, o campo da comunicação
continuará a ser uma necessidade prioritária, se pensamos no complexo
mundo da informação que está despontando neste novo século.
Em que regiões do mundo o FMTL conseguiu
fazer avanços efetivos nos últimos anos?
De certa forma, entre as articulações que se expressam no FMTL despontam
as da América Latina, Europa e América do Norte, especialmente Canadá.
Uma das expectativas para o futuro é integrar mais grupos da África e da
Ásia e Oceania.
Como tem se mostrado a teologia do diálogo
inter-religioso para as lideranças pastorais e leigas presentes ao
evento?
Urgente e difícil, ao mesmo tempo. Pois no FMTL se procura não trabalhar
em abstrato, mas a partir de situações concretas de vida. E aí a
complexidade das situações cobra seu preço, como ao deixar claro que não
há respostas prontas para as relações inter-religiosas e que cada
situação merece estudo, abertura de mentes e corações, e uma profunda
experiência de compaixão e cuidado para com o diferente.
O que mais te tocou na experiência deste FMTL
de 2011?
Foi o contato com as mulheres, crianças e homens do Senegal. Senti na
pele a dificuldade da comunicação por não falar francês nem uma das
línguas nativas como o wolouf.
Mesmo assim, foi possível certo entendimento a partir do inglês ou, em
certos casos, falando português e espanhol com pessoas que vivem na
África de colonização portuguesa. A visita à ilha de Gorée foi
impactante. É indescritível imaginar como era possível viver e
sobreviver nos porões das Casas de Escravos para depois enfrentar a
longa travessia sem volta e que levaria aquela pobre gente ao inferno da
escravidão, mantida por mais de 300 anos. Os africanos têm razão ao
reclamar que também se deve dar mais atenção ao
holocausto negro do tráfico
negreiro, pois segundo estimativas, 40% das pessoas morriam na travessia
e eram simplesmente descartadas, jogadas ao mar. Havia nesses lugares um
cubículo especial para homens com menos de
E como fica a teologia latino-americana
diante deste espectro mundial, em sua percepção?
A teologia latino-americana e, em particular, a teologia da libertação
vivem um momento crucial de reconstrução. Durante o FMTL discutiu-se a
necessidade de retomar o projeto
histórico da teologia da libertação, só que neste momento a partir
de novos desafios propostos pelos movimentos de mulheres, indígenas,
negros, jovens e camponeses em muitos lugares. Teologia feita desde o
chão da vida e auscultando as dores, os clamores e as esperanças que vem
dos lugares mais inauditos, lugares teológicos em que o Deus de Jesus se
manifesta e se oculta, ao mesmo tempo, e a partir dos quais é preciso
forjar um mundo novo possível na esperança da fé que luta, canta,
celebra, mas jamais se entrega aos poderosos, aos muitos impérios que
continuam a dominar os povos e impedem a construção de uma nova
história, democrática e em direção a um mundo mais fraterno e justo.
Talvez se devesse enfatizar, novamente, que a teologia da libertação não
morreu, pois enquanto houver pobres haverá a necessidade de sua
libertação e, portanto, de uma teologia que lhes diga respeito e ajude
em sua caminhada. O que não significa, contudo, simplesmente preservar
um legado, mas, pelo contrário e em boa tradição dialética, a retomada
crítica de sua permanente necessidade de superação diante da realidade
em constante transformação.
Teologia para outro mundo possível, como foi o título do livro do
primeiro Fórum, realizado
|