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Conjuntura agrária
mato-grossense
Por Inácio Werner e Roberto Rossi
Introdução
Este texto sintetiza uma parte da análise da realidade agrária
mato-grossense apresentada durante a assembleia da Comissão Pastoral da
Terra de Mato Grosso (CPT-MT), em fevereiro de 2011. A leitura dessa
realidade agrária é feita na perspectiva dos movimentos sociais,
focalizando o contexto no qual a CPT-MT atua diretamente. Nesse contexto
é possível verificar a preocupante associação entre a concentração da
terra no Estado e o agronegócio pautado na monocultura e no uso
indiscriminado de agrotóxicos, impactando negativamente sobre o meio
ambiente. Resulta disso a concentração da riqueza e, consequentemente, o
empobrecimento do pequeno camponês.
Concentração da terra
A estrutura fundiária brasileira sempre foi dominada pelas grandes
propriedades rurais. Em Mato Grosso, a situação não é diferente. Sua
estrutura agrária é extremamente desigual. As terras agricultáveis do
Estado foram apropriadas pelos empresários rurais do agronegócio,
consolidando, assim, um perverso processo histórico de concentração da
terra.
Conforme o mapa da concentração da terra em Mato Grosso1, as
propriedades acima de 1.000 hectares ocupam 77,51% da área ocupada por
atividades agropecuárias ou não. A gravidade do problema se dá pelo fato
de que apenas 7,7% do total do número das propriedades registradas no
INCRA ocupam essa área. Todavia, mais alarmante ainda são as
propriedades acima de 2.500 hectares, que representam 3,35% dos
estabelecimentos registrados e ocupam 61,57% das terras que poderiam
produzir alimentos para a população. Por outro lado, a pequena
propriedade com menos de 10 hectares representa 13,38% dos
estabelecimentos registrados e ocupa apenas 0,13% das terras
cultiváveis. Além disso, há um agravante a mais: a terra nas mãos de
estrangeiros, pessoas físicas ou jurídicas (empresas). As informações
revelam que 20% da área explorada por estrangeiros no país estão no
Estado de Mato Grosso, totalizando cerca de
840 mil hectares.
A concentração e a desigualdade também podem ser comprovadas pela
aferição do Índice de Gini. Quanto mais perto esse índice está de 1,
maior a concentração. O Censo Agropecuário de 2006 mostra um Gini de
0,872 para a estrutura agrária brasileira.
Se, por um lado, as grandes propriedades concentram a terra, por outro,
os empresários do agronegócio são devidamente beneficiados pela política
agrícola com incentivos dos governos federal e estadual, que oferecem
renúncias fiscais, perdão de dívidas, além do investimento em
infraestrutura para o escoamento da produção: pavimentação de rodovias,
hidrovias, expansão da infraestrutura energética com a construção de
hidrelétricas etc.
Concentração da renda
A concentração da terra associa-se simetricamente à concentração da
renda no campo. Conforme estudos de Eliseu Alves2, no Brasil
a produção está concentrada em 8,2% dos estabelecimentos, que atingiram
um valor da produção equivalente a 85% da produção dos 5,2 milhões de
estabelecimentos. Nesse grupo, existem 22.188 estabelecimentos (0,4% do
total) que geraram 51% da produção total. Na outra ponta estão os 3,8
milhões de estabelecimentos (72,96% do total dos estabelecimentos) cuja
produção representa apenas 4,04% da produção total.
Em termos de rendimentos, cada estabelecimento do extrato do grupo mais
rico produziu por mês, em média, R$ 24.012,50, equivalentes a 80
salários mínimos. O extrato mais pobre, por sua vez, produziu por
estabelecimento, em média, R$ 128,13 por mês, equivalente a 0,43 salário
mínimo. Verifica-se, portanto, uma imensa concentração da produção e da
renda.
Todavia, conforme as informações do IBGE, a
agricultura familiar, mesmo cultivando uma área menor, é responsável por
garantir a segurança alimentar do país, gerando os produtos da cesta
básica consumidos internamente. A agricultura familiar responde por 87%
da produção de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% do milho, 38% do
café, 34% do arroz, 58% do leite, 59% do plantel de suínos, 50% das
aves, 30% dos bovinos e, ainda, 21% do trigo3.
Impactos ambientais
O desmatamento continua sendo maior no Norte e no Centro-Oeste,
exatamente onde se verifica a expansão da pecuária extensiva, da
plantação de soja e outras atividades agregadas ao agronegócio. As
exportações de commodities agrícolas transformaram a alimentação em
mercadoria, gerando lucros fabulosos sem qualquer preocupação com a
necessidade de alimentar as pessoas. Constata-se, portanto,
que os grandes projetos que vem sendo desenvolvidos no campo são
meramente econômicos e desfavoráveis aos pequenos agricultores e ao
processo de reforma agrária. A título de exemplo, mencionamos a
implantação do projeto “Polo MT
Verde” que prevê transformar Mato Grosso em um “deserto verde de
eucalipto”. A estimativa inicial é ocupar uma área com
700 mil hectares para o
plantio de eucalipto. A área abrange 11 municípios mato-grossenses: Nova
Lacerda, Campos de Júlio, Conquista D´Oeste, Vale de são Domingos,
Pontes e Lacerda, Jauru, Araputanga, Reserva do Cabaçal, Salto do Céu,
Barra do Bugres e Tangará da Serra4.
Conclusão
Para viabilizar a agricultura familiar na perspectiva da agroecologia é
preciso acelerar e qualificar a Reforma Agrária para além da obtenção da
terra, do mero assentamento e do acesso ao crédito. Enfim, urge integrar
a agricultura camponesa a um novo modelo de desenvolvimento, fazendo
desaparecer paulatinamente o modelo atual, hegemonizado pelo
agronegócio.
Notas:
1
Disponível em:
http://www.centroburnier.com.br.
Esses dados são baseados no Censo Agropecuário realizado pelo IBGE, em
2006.
2
Alves, Eliseu. Ganhar tempo é possível? Disponível em:
http://www.memorial.sp.gov.br/memorial/.
3
Disponível em:
http://www.centroburnier.com.br.
4
Disponível em:
http://www.mtregional.mt.gov.br/. |