Deputados querem devolução de R$ 7 bi a consumidor
Projeto apresentado esta semana obriga empresas de energia elétrica a
devolverem contribuição cobrada indevidamente durante sete anos
* Por
Fábio Góis/Congresso
em Foco
Segundo a proposição, as distribuidoras cobraram na conta de luz,
durante sete anos, uma contribuição com o pretexto de custear o
fornecimento de energia em localidades e sistemas isolados do país. A
cobrança foi considerada irregular pelo TCU. No último dia 25 de
janeiro, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) confirmou a
decisão tomada em dezembro de 2009 de desobrigar as concessionárias de
restituir os valores aplicados irregularmente.
A proposta apresentada na Câmara susta “os efeitos normativos” da
agência reguladora. Na justificativa do projeto de decreto legislativo,
os deputados que assinam a proposta acusam a Aneel de “negar o direito
dos consumidores brasileiros de serem ressarcidos do erro da metodologia
de cálculo que elevou ilegalmente as tarifas de energia elétrica” entre
2002 e 2009.
“Mas esse cálculo não levou em conta o crescimento do número de
consumidores e as distribuidoras arrecadaram mais do que foi
efetivamente gasto na manutenção desses sistemas. Essa arrecadação
excedente é proibida pelas regras da Agência Nacional de Energia
Elétrica”, aponta a assessoria do deputado Eduardo da Fonte (PP-PE), um
dos responsáveis pela apresentação do projeto. O parlamentar
pernambucano disse ao Congresso em Foco que a iniciativa já reúne
180 assinaturas de parlamentares na condição de “co-autores” da matéria.
“No plenário, não tenho a menor dúvida de que vamos conseguir a
aprovação, até porque é um direito dos consumidores brasileiros. Temos
um apoiamento quase unânime”, avalia Eduardo, para quem o valor cobrado
indevidamente dos consumidores pode dobrar, feitas as correções
inflacionárias. “Não menos que R$ 7 bilhões – o Tribunal de Contas da
União [TCU] disse que a dívida estava calculada em R$ 1 bilhão por ano
[entre 2002 e 2009]. Mas esse valor pode chegar a R$ 15 bilhões. Só
vamos ter essa certeza quando esse levantamento for finalizado pela
Aneel.”
Segundo a justificativa do projeto de decreto legislativo, o pagamento
indevido de tarifas fere dispositivos da Constituição, do Código de
Defesa do Consumidor e da própria Aneel, na definição de direitos e
deveres do consumidor, “em especial do direito ao ressarcimento pelos
valores cobrados indevidamente (artigos 76 a 78 da Resolução Aneel n.º
456, de 2000; e o artigo 113 da Resolução Aneel nº 414, de 2010)”.
Eduardo da Fonte diz que, em vez de funcionar como agência reguladora, a
Aneel demonstra estar a serviço das distribuidoras de energia elétrica.
Confira
aqui
a íntegra do Projeto de Decreto Legislativo 10/2011
“Não foi erro. Foi roubo”
O caso teve início em 2007, no âmbito da Comissão de Defesa do
Consumidor (CDC) da Câmara. Na ocasião, o deputado Elismar Prado (PT-MG)
e alguns membros do colegiado pediram uma auditoria nas contas
administradas pelas concessionárias de energia elétrica.
Os indícios de irregularidade resultaram na instalação da CPI das
Tarifas de Energia Elétrica, que, entre outras resoluções, levaram ao
indiciamento do diretor-geral da Aneel, Nelson Hubner, junto ao
Ministério Público Federal. Segundo Eduardo da Fonte, ele “obstruiu o
trabalho da CPI por não ter fornecido os dados referentes às cobranças
indevidas” do período 2002-2009. Também foi determinado que cerca de 20
agentes da agência fossem investigados, mas por outras questões.
No entanto, depois de reunião dos membros do colegiado, decidiu-se que
as investigações deveriam ser estendidas a todos os citados no relatório
final da CPI – inclusive Hubner, mas sem que o pedido de indiciamento
dele fosse levado adiante. Na ocasião, o diretor-geral disse que não
poderia ter apresentado os dados sem que a defesa das distribuidoras de
energia tivesse sido encaminhada à Aneel.
Em novembro de 2010, o relatório final da chamada CPI da Conta de Luz
determinou que a Aneel exigisse das empresas concessionárias a devolução
dos valores recebidos indevidamente dos consumidores. Em desobediência
ao colegiado, a agência se limitou a executar a revisão dos contratos
com 63 distribuidoras, e definiu um novo sistema de reajuste de tarifas
que impediria cobranças indevidas. A restituição dos valores não foi
determinada pela Aneel, sob o argumento de que, por falta de
fundamentação jurídica, as regras do novo contrato não poderiam
retroagir.
“Ao se negar a devolver esses valores, eles patrocinaram um calote ao
povo brasileiro”, fustigou Eduardo da Fonte, lembrando que, em audiência
pública na Câmara, os próprios representantes da Aneel reconheceram o
erro e se dispuseram a corrigi-lo, mas sem que os valores fossem
repostos. “Na minha avaliação, não foi um erro, foi um roubo. Eles
[responsáveis pelas distribuidoras] agiram de má fé”, completou Weliton
Prado (PT-MG), que também subscreve o projeto protocolado na Mesa
Diretora. Weliton é irmão de Elismar Prado, o ex-membro da CDC.
Weliton disse à reportagem que trabalha no projeto desde antes da posse
para a atual legislatura. E garantiu que, mesmo na semana
pré-carnavalesca, continuará a conscientizar “o máximo de deputados” em
relação à importância da matéria. Ele acredita que, longe de uma ação
isolada, o conjunto de deputados em defesa do tema “dará força ao
projeto”. “Costumo dizer que o Parlamento é igual a feijão: só funciona
na pressão”, diz o petista, ressalvando o papel da imprensa em manter o
assunto em evidência.
O Congresso em Foco quis saber a posição da Associação Brasileira
de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) sobre o assunto. A
assessoria informou que seguidas e longas reuniões, “a portas fechadas”,
impediriam que a direção da Abradee, sociedade civil de direito privado,
falasse com a reportagem nesta sexta-feira (25). Ainda segundo a
assessoria, a entidade está em fase de estruturação em Brasília, uma vez
que está em pleno processo de mudança da matriz do Rio de Janeiro para
Brasília.
“Tarifa amarela”
Agora, diz Eduardo da Fonte, o objetivo é conseguir a aprovação de
“urgência urgentíssima” para a votação do projeto. Para tanto, são
necessárias 171 assinaturas (um terço dos 513 deputados), o que levaria
a matéria à condição de item prioritário de votações no plenário da
Câmara. Mas, além de a pauta estar trancada por diversas medidas
provisórias, o provável baixo quorum na semana que antecede o Carnaval
deve atrasar as deliberações.
Para passar a valer, o projeto de decreto legislativo deve ser aprovado
tanto pela Câmara quanto pelo Senado. Alcançado esse objetivo, não há
necessidade de que a matéria seja submetida a sanção presidencial – o
texto entra em vigor tão logo as duas Casas legislativas o aprovem em
maioria simples (metade mais um dos parlamentares presentes em
plenário). No dia em que o documento foi formalizado, apenas
o deputado Guilherme Campos (DEM-SP) pediu a exclusão de sua assinatura
de adesão à matéria.
O projeto de decreto legislativo é a primeira cruzada dos deputados
contra o que consideram abuso das distribuidoras. Weliton Prado diz que
apresentará um projeto contestando as chamadas “tarifas amarelas” que, a
depender dessas empresas, seriam cobradas com valores diferenciados,
referentes ao consumo em horários de pico.
“Isso é uma forma disfarçada de aumentar a conta de luz”, diz o petista,
para quem o consumo em horários não concentrados deve ser estimulado por
meio de benefícios, e não de penalizações. Em março, adianta o deputado,
será realizada uma audiência pública para debater o assunto. Weliton
disse ainda que, desde 2007, parlamentares têm impedido que as
distribuidoras apliquem as tais tarifas “diferenciadas”.
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