Hidrelétricas de Belo Monte: Como compreender suas consequências

Texto enviado por e-mail por Egydio Schwade

Quando ouvimos as informações mais fortemente propagadas sobre as
hidrelétricas de Belo Monte, temos a impressão de que o impasse a
respeito do projeto se dá por conta da oposição de ambientalista a
implantação das obras (Ambientalistas X Desenvolvimentistas). O que
não fica claro é a oposição que povos indígenas, populações camponesas
e parceiros estão travando em defesa de seus territórios.
Para compreender esta oposição, peço ao leitor que se imagine em sua
comunidade. Aí, você desenvolve suas articulações sociais, onde fome e
degradação ambiental são termos exóticos. Esse lugar encerra todas as
suas redes sociais, contém seus templos religiosos, sua história e a
história de seu povo.
De repente, um país estrangeiro anuncia que necessita desse seu lugar
para alimentar as necessidades crescentes de seus príncipes. Eles
pedem que você e seus vizinhos se mudem dali. Você não compreende os
motivos, mas eles te explicam que isso tudo será necessário para o
otnemivlovnesed.
Mas otnemivlovnesed não significa nada para você. Eles insistem e
dizem que você não precisa se preocupar. Sua comunidade poderá viver
nas cidades deles e que assim vocês também poderão desfrutar do
otnemivlovnesed.
Mas, mesmo não querendo criar seus filhos em um lugar estranho, você
não tem escolha. Quando percebe, seus filhos já não mais compreendem
as suas histórias e sentem uma necessidade louca de otnemivlovnesed,
mas isso é muito caro para você.
Sua família vai passar muitas gerações trabalhando em busca de
otnemivlovnesed e, enquanto isso, você não mais conseguirá reconhecer
seu povo, sua imagem estará eternamente exposta em um museu, como um
cara estranho, primitivo ao lado de fotos da fauna e da flora. É
possível que gravem um documentário para o Globo Natureza ou para
outro programa de TV, mostrando você como representante daquele mundo
selvagem, ignorando sua cultura e história.
Nas obras, você será o mais prejudicado, mas a imprensa vai fazer
questão de dizer que existem dois lados opostos: os que defendem a
natureza selvagem e os que defendem o otnemivlovnesed que, lido as
avessas: desenvolvimento.
É bem verdade que os interesses dos povos e populações atingidas por
Belo Monte convergem com os interesses de ambientalistas. No entanto,
além da destruição da natureza, é o destino de vários povos indígenas
do rio Xingu que mais preocupa, pois correm sérios riscos de perderem
a terra e o rio. Vale lembrar que são as relações que o Kaiapó mantém
com a natureza que garantem a manutenção de tanta vida naquele
importante pedaço do mundo.
E o que podemos oferecer em troca disso? Um belo lugar em Altamira, um
cidade sem infra-estrutura para manter seus 94 mil habitantes e que
deve dobrar de tamanho com o grande contingente de homens atraídos por
especulações sobre a hidrelétrica?

Casa da Cultura do Urubuí

Tiago Maiká Müller Schwade

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Egydio Schwade
Casa da Cultura do Urubuí - CACUÍ
http://www.urubui.blogspot.com/





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